sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Contudo, mesmo sem nada

Sabes, Sofia? És o amor da minha vida. Sempre serás, e eu prefiro viver o que resta dos meus dias com este amor no meu coração do que andar de corpo em corpo á procura de algo que apenas tu me fizeste sentir. E se o meu destino é viver com memórias do que foi, e com sonhos do que poderia ter sido, então que seja. Ontem quando escrevia lembrei-me de algumas coisas que optei por deixar para outros posts. Algo que mencionei no último post foi que tu não sabias bem quem e o que eu era na altura que nos conhecemos. Em boa verdade, nem me recordo já o que motivou termos travado amizade no facebook, sei que tínhamos amigos em comum - o Pedro e o Jorge, não sei se a Maria também - mas algo levou a que nos tornássemos amigos, e sei que sempre tivemos uma relação cordial por lá. Não passava muito disso, até porque nessa altura eu tinha outra pessoa na cabeça. Não necessariamente na de cima, mais na de baixo. Eu conheci a Ana tipo em 2003, quando namorava com a Sara e de vez em quando cruzávamo-nos com ela na noite, e havia ali sempre uma cena de flirt meio tensa. Eu olhava para ela e pensava 'Oh jovem, se te meto as mão em cima ficas duas semanas sem andar', e ela retribuía esse olhar, parecendo dizer-me que se me aproximasse que me devorava. Mas nunca houve nada além disso, e não muito tempo depois deixei de a ver, e confesso - até me tinha esquecido dela. Até o dia em que nos cruzámos de novo no facebook, e aí o flirt começou de novo. Só que desta vez as coisas foram elevadas a enésima potência, porque mesmo á distância ela era uma tentação descomunal. E na era da internet de alta velocidade e alta definição, eis que muito cedo ela começou a fazer chamadas de vídeo no skype comigo toda nua, e raios, não bastava ser uma beldade de olhos verdes, era também um tesão de mulher, e não era nada fácil resistir aos encantos daquela sereia. Especialmente quando falava comigo e se ia masturbando, enfiava os dedos na cona e depois lambia-os, e eu ficava prestes a explodir. E ela queria que eu fizesse o mesmo, mas eu nunca quis... nunca me senti confortável a fazer esse tipo de cenas. Ela pediu-me para me despir, para me masturbar para ela, para lhe mandar fotos da pila, e eu sempre disse que não. Não só porque, na realidade, não haveria muito para mostrar, e prefiro guardar a desilusão para depois, mas porque acima de tudo é algo que vai contra a minha natureza. Eu sei que isto faz de mim um tipo estranho, mas ainda dou valor ao conceito de intimidade. 
Mas a Ana, caramba, como a queria foder. E ela dizia-me que fazia tudo e mais alguma coisa, e ela contou-me das cenas que já tinha feito, cenas muito mais além do que eu, e não vou negar que me senti intimidado, mas claro - não são cenas para mim, por isso não me preocupo com quem as faz. A Ana fazia-me andar num constante estado de tesão, e eu contava os dias até ir ter com ela e passar dias a descobrir aquele corpo. E o que aconteceu? Aconteceu o que normalmente acontece, as pessoas apercebem-se da ilusão, do equívoco, e seguem em frente. Como te disse, não foste a primeira pessoa, nem foste a última, mas foste a que custou. A única que custou. 
Entretanto, tu. Sabes, nestes anos todos pensei muito em ti, mas não em nós. Não porque fosse doloroso ou porque estivesse em negação. Não, fi-lo como forma de me proteger. Não significa que não tenha pensado em nós, claro, apenas nem de longe nem de perto tanto quanto pensei em ti. Mas estes exercícios que tenho feito neste último ano, em que tenho revisitado o passado levam-me naturalmente a pensar mais na altura em que nos conhecemos. E há dias e momentos que ficam sempre gravados na memória de uma pessoa; um desses momentos foi quando nos conhecemos em pessoa pela primeira vez, naquele bar onde o Pedro estava a passar música. Eu nem sei de onde vinha, mas creio que já teria feito algumas paragens antes. Quando lá cheguei, e me dirigi até onde vocês estavam - ouve, eu gosto de pensar que foste a primeira pessoa que vi, mas não sei se foste. Mas sei que te vi, e estavas sentada numa cadeira, de perna cruzada, e caramba, fiquei seriamente impressionado. Sabes que eu achava que havia ali qualquer coisa entre tu e o Pedro, e até pensei cá com os meus botões 'epá, que pena, esta miúda é gira como os raios', mas cedo intuí que eu não seria pessoa que te atraísse. E não sei exactamente porque o intuí. Mas tu mal me viste levantaste-te, e vieste até mim e cumprimentaste-me, dois beijinhos na cara, e cheiravas tão, tão bem. Parecias genuínamente interessada em conhecer-me, e isso levou a que depois nos fôssemos dando melhor online. A dada altura já falávamos todos os dias, e eu fui-me abrindo contigo. Creio que chegámos a falar sobre a minha situação com a Ana, e não imaginas quanto do meu imaginário naquela altura rodava á volta daquela cona. Era difícil não rodar, olhava para ela quase todos os dias. Aquilo tinha direito a close-ups e tudo, e eu ouvia nitidamente os dedos dela a penetrarem aquela cona sumarenta, e eu ficava possuído. E depois tudo muda.
O que terá levado a que nos encontrássemos? Eu sei que queria estar contigo antes de ir, e na realidade já nem queria ir, queria ficar contigo, mas não sabia sequer se pensavas o mesmo. Não podia presumir isso. Mas eu já pensava em ti, já ansiava por ti. Cada mensagem tua que recebia no facebook ou no BBM era um raio de luz para mim. E mesmo antes de ir para a Suiça - já sem ter qualquer fantasia relativamente á Ana, nisto sou muito práctico... quando desaparece, desaparece de vez - eis que nos encontramos. E talvez não tenha falado ainda desse primeiro momento em que estamos juntos com a devida justiça.
Eu fui ter contigo em frente da biblioteca onde costumavas ir estudar, e ainda estava eu a uns metros de ti e já sentia borboletas no estômago, já sentia um suor frio a escorrer pelas minhas costas abaixo. Eu pensei, quando te vi, ainda antes de tu teres olhado para mim, 'estou lixado.', porque eu já sabia que eras tu que eu queria. Mas nesse dia, caramba, senti-te sempre tão distante, tão pouco... sei lá., tão pouco interessada em mim. Mais, senti que não tinhas mesmo gostado nem de mim nem da minha companhia, e quando eu fiz o tal teste - quando olhei para ti e disse para mim mesmo 'amo-te' e soube que sim, que te amava perdidamente - eu depois fiquei tão triste quando me tive de despedir de ti. Naquela plataforma do comboio, enquanto esperávamos que o teu comboio chegasse, eu pensava que estávamos a falar as nossas últimas palavras um para o outro, que não mais nos iríamos ver. E eu não me queria despedir de ti. Nunca. Eu quis tanto sentir o teu abraço. Eu quis tanto que nos beijássemos. E beijámo-nos sim, dois beijinhos no rosto de despedida. Tu entraste no comboio, eu vi-te a ires para longe de mim, e o meu coração foi contigo. O meu coração já era teu. 
Fui para casa na maior das fossas, com saudades tuas, com o coração a bater, e com cada batimento o teu nome. 'Sofia', 'Sofia', 'Sofia', e eu dei por mim a enviar-te uma mensagem a pedir-te desculpa por deus sabe o quê e que tinha gostado de estar contigo, devo ter dito que achava que tu tinhas ficado a pensar que eu era um idiota de primeira, e para minha grande surpresa, respondeste de imediato, e acho que aí começámos logo a falar sobre estarmos juntos de novo quando voltasse da Suiça. Não me lembro se fui de viagem nesse mesmo dia - acho que sim, mas poderá ter sido no dia seguinte. Não há muito tempo estava a falar com o Hugo sobre essa visita, e ele disse-me que eu tinha passado basicamente o tempo que lá passei agarrado ao telemóvel. Porque será? Com quem estaria a falar? É curioso que demorei tantos anos a aperceber-me que a nossa relação tinha esta qualidade viciante, eu nunca tinha experienciado tal coisa. Desde o dia da Gulbenkian que me comecei a viciar em ti, e digo isto da melhor maneira. Mas talvez possa ser visto como a pior maneira, não sei. Só sei que queria estar sempre contigo. Queria sempre beijar-te. Queria sempre o teu toque. Queria sempre foder contigo. Esses dias passados na Suiça, esses longos dias até voltar para Lisboa para estar contigo de novo, esses dias foram marcados por uma coisa que me disseste, que eu não sabia o que significava, e que foi ver á internet :'ily', e eu - pensando que significava 'I love you' - respondi 'I love you too'. E amava, caramba, como amava. Como amo, ainda e sempre. Só queria voltar para casa - e tu eras a minha casa já. Quando aterrei em Lisboa, só pensava em estar contigo. Momento a momento, metro a metro, fui-me aproximando, até que finalmente... finalmente te vi. E nesse momento sabia que seríamos um do outro. Eu seria teu, e tu serias minha. Mas ainda demorou até esse mítico primeiro beijo. Lembras-te como foi? Algures na eternidade esse beijo perdura ainda.
Eu não me esqueço desse momento. Desse beijo. Desse amor. Mas sabes de outra coisa que não me esqueço? O momento exacto que o precede : tu disseste 'eu não estou preparada para isto.', e sabes, tantas vezes no passado - e no presente - eu me questionei o que teria acontecido se tivéssemos parado por aí. Se tivéssemos ficado apenas amigos. Ter-me-ia partido o coração, claro, e talvez isso signifique que a nossa história acabaria assim de qualquer maneira. Eu sei que tive alturas na minha vida em que fui completamente egoísta. Talvez amar-te tenha sido o expoente máximo do meu egoísmo, e terias tido meio ano da tua vida para viveres de outra maneira, não fosse esse meu egoísmo. Mas tu beijaste-me de volta, Sofia. E no teu beijo havia tanto amor. Havia tanta paixão. Havia tanta... possibilidade. Eu estava adormecido sob camadas e camadas de gelo, mas nesse momento despertei. Com o teu beijo a minha vida começou.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Uma ferida que dói, não por fora, por dentro

Há coisas que nem eu entendo, nesta nossa história. Porque é que certas coisas apenas foram despoletadas contigo? Eu estive em mais relações do que poderia desejar  - e como desejo que maior parte delas não tivessem acontecido sequer. Algumas pessoas eu estive com elas mais tempo do que estive contigo, outras tanto tempo ou perto disso. Com nenhuma dessas pessoas eu quis o que quis contigo. Mas vamos resumir a minha experiência ao que importa : tive três relações relevantes na minha vida. A primeira, que durou quase oito anos, foi importante para mim na medida em que a minha vida mudou para sempre por causa de termos tido um filho juntos. Mas foi uma relação onde fomos largamente indiferentes um ao outro durante muito tempo, aí com dois anos juntos já quase nem fodíamos, era uma ou duas vezes por ano se tivesse sorte. E, admito, não era bom, o sexo entre nós. Eu ainda era profundamente horrível a foder, e tive de aprender muita coisa sobre como tocar e onde tocar e quando tocar, e a moça em si não era muito melhor que eu. Certamente que depois dela dei fodas muito melhores, onde senti que já estava a fazer as coisas como deve ser; espero que ela também as tenha dado. Mas com a Dora, após aquele fogacho inicial da nossa relação que deve ter durado os primeiros 8-9 meses, uma grande parte de mim sabia que não iríamos ter grande futuro. Mas dávamo-nos bem em quase tudo o resto, e isso levou a que nos acomodássemos. Só que eu queria mais, e se em puto me queria casar, acho que nunca me imaginei a ser pai - talvez pelo péssimo exemplo de pai que tinha. E só com os meus 21-22 é que eu comecei a sentir essa vontade. Enfâse no 'eu', ela não queria. Oh, mas como queria eu... estava desesperado por isso. Mas tinha um problema gigantesco : tinha a vida sexual de um cadáver, quase. Pela altura em que ele foi concebido, já estávamos juntos há quase 4 anos, e com sorte dávamos uma foda por ano. Então eu tive de começar a... er... a calcular qual a melhor altura para tentar a minha sorte. E isso levou-me a ter de pesquisar sobre cenas que nunca me tinham passado pela cabeça sequer - tipo períodos férteis - o que me levou a umas leituras interessantes numa biblioteca. Ah, e o 'Diário de Maria' ajudou bastante também. Depois de tudo isto, tive N relações que oscilavam entre uma semana a um mês, ás vezes um pouco mais, e quando já me sentia incapaz de suscitar interesse a alguém de novo, eis que conheço a Sílvia. Já disse o quão difícil a nossa relação foi e a única coisa de que me arrependo foi de não a ter deixado ir mais cedo. Uma parte de mim sente que lhe roubei demasiado tempo da vida dela, em que ela poderia perfeitamente ter sido imensuravelmente mais feliz do que foi comigo. E houve oportunidades para isso, de ambos os lados. Olha, imaginas que uma das fases em que mais ouvi Placebo foi exactamente antes de a conhecer? Eu disse-lhe que para mim a lealdade era mais importante do que a fidelidade, e quando lhe disse isso cantava na minha cabeça 'I was never faithful, and I was never one to trust', e porque raios ela não acabou comigo nesse momento? Eu fiz de propósito e tudo, para lhe dar a desculpa necessária. Mas também eu podia, lembro-me que não muito depois de termos começado a namorar, ela teve um atraso um mês, e durante uns dias pairou no ar a possibilidade de ela estar grávida - naturalmente, não estava. Mas ela disse-me nessa altura que não queria ter filhos. 'Certamente não contigo', disse ela, e porra, doeu como o caralho. Eu podia ter aproveitado essa dica para nos ter poupado a anos de profunda miséria. Ela teria sido tão mais feliz, caramba. Que merda de covarde que sempre fui. 
A verdade é que nós fomos incapazes de construir a mais pequena coisa juntos. Não conseguíamos estar juntos mais do que umas semanas - com sorte - antes das coisas começarem a ficar más. Eu sabia que não podia querer nada com ela, não realmente, não nada de futuro, porque sabia que o nosso tempo estava contado. Se não tivesse acabado quando acabou, teria acabado pouco tempo depois. Nenhum de nós tinha força já para manter vivo algo que estava mais do que morto. Eu sempre soube que a nossa relação não seria para sempre, não seria para a vida toda. E tentei-lhe dizer isso, quando disse que a nossa história iria acabar em lágrimas. Como lamento ter-lhe roubado tanto tempo... que se foda a minha felicidade, teria trocado tudo o que tivemos para que ela tivesse a felicidade que eu nunca lhe consegui dar.
Tu não entendeste bem quem e o que eu era quando nos conhecemos, acho. Eu não queria, de todo, estar numa relação nessa altura. A minha vida estava ok nessa altura, ia sempre conhecendo uma jovem aqui e ali, e havia sempre sexo e ás vezes algo mais do que isso, os beijinhos, e as festinhas, e irmos jantar juntos, e parecia-me um bom plano para o futuro próximo. E modéstia á parte, as miúdas com quem estava eram todas bem jeitosas e bem giras, e isso talvez explique porque nunca nada resultou com alguma delas. Ah, que coisa - vê lá tu que eu nunca me senti particularmente atraído por aquelas mulheres de radiante beleza e que fazem o trânsito parar, embora várias me tenham agraciado com a sua presença. Não, as pessoas que realmente me tocaram o coração não seriam necessariamente assim, pelo menos para outras pessoas, e todavia quando olhava para elas - quando olhava para ti - via não a mulher mais bonita do mundo, mas sim a única mulher. 'Ah e tal, Gonçalo, dizes isso mas na realidade foste-me infiel logo no início, e eu só descobri porque li no teu outro blog'. Pois, eu sei. Como te digo, não chegaste a saber bem quem eu era naquela altura. E quando me envolvi com a Sara - bom sexo, diga-se de passagem, podia ter sido mau, não me teria surpreendido, mas não foi - houve um momento de dúvida em mim. E por muito que me tente lembrar do que teria sido... não consigo. Teria sido algo que disseste e que não me fez sentir seguro nos teus sentimentos? Terei sido eu que questionei tudo? Não sei. O que sei é que naqueles dias em que estive na Suiça antes de estarmos juntos, não pensava noutra coisa senão estar contigo. Precisava de estar contigo. Mais do que tudo. Não pensava sequer em sexo, nem nada disso. Apenas em ti. No teu beijo. Nos teus braços. Pensava numa coisa que já não pensava há algum tempo, e que quando o dizia para mim mesmo me fazia todo o sentido do mundo. Pensava em 'nós'. E eu queria nós. Eu queria... eu queria tudo. Pela primeira vez na minha vida, eu quis tudo com alguém. Já te amava tanto, tanto, e ainda não te tinha beijado sequer. Então porque fui foder com outra? Devia ter-te contado, já viste? Tinhas acabado comigo, há muitos anos que te tinhas esquecido de mim, serias feliz há muito mais tempo, se calhar até tinhas tido mais filhos. No fim acabei por também te roubar tempo da tua vida, no fim não fui mais do que um... equívoco. Imagina o quão melhor a tua vida teria sido se eu tivesse admitido logo o que fiz. Eu não era muito mais que um estranho para ti, tinhas seguido a tua vidinha em paz. Terias o que tens ainda mais cedo, e eu privei-te disso, tudo por um amor egoísta. Apenas consigo imaginar o alívio que foi para ti. Devia ter-te dado isso mais cedo. 
Mas não te contei. Não tive coragem. Tinha medo de te perder. Não te queria perder. Queria amar-te, queria ser amado por ti, e queria ter uma vida contigo. Sabes? Tu e eu e os meninos e nós e os bébés que íamos ter, a Violet que nunca foi. Eu queria tanto isso. Só contigo senti isso. Só contigo quis isso. Foste a única coisa que fez sentido na minha vida. Será que alguma vez nos vamos encontrar de novo? Será que iremos falar sobre a nossa vida desde a última vez que nos vimos, será que iremos falar porque a nossa história acabou? Não, devo-te poupar ao peso da minha presença. Mereces - sempre mereceste - tão mais que eu. Ainda bem que o encontraste. O meu coração alegra-se por ti.  Sabes que das grandes lições que aprendi na minha vida, uma adveio do tempo que passei com a Dora, que foi não querer desperdiçar nem o meu tempo nem o de outra pessoa, e não ficar com alguém por comodismo. Por isso mesmo sempre que senti que não estava minimamente investido ou confortável com a pessoa com que estava eu decidi seguir em frente. Se eu não sentia nada, para quê perder o meu tempo? Para quê desperdiçar o precioso tempo de outra pessoa? Nem a perspectiva de sexo semi-regular era aliciante, rapidamente deixava de sentir qualquer atracção. Mas a ti... a ti abri-me como nunca antes, a ti dei-me como nunca o fiz a ninguém. Que alquimia foi essa que não mais foi, nem será, replicada? Eu quis-te sempre, eu desejei-te sempre. Não houve um único dia em que não tivesse querido tudo contigo. E eu entendo - porque consigo ver isto a uma certa distância de mim mesmo - quem relativiza o facto de apenas termos estado juntos meia dúzia de meses. Entendo, porque é o que qualquer pessoa sã faria. Mas eu estava louco de amor por ti. Ainda estou, passados todos estes anos. Eu não vivi apenas seis meses na tua presença. Não pode ter sido apenas isso, não pode ter sido tão pouco. Não é justo que não tenhamos tido direito a mais. Não é. Eu queria mais. Eu queria muito mais. Queria o que tens - e que não invejo, porque queria o meu sonho para nós, o nosso sonho, queria que tivesse sido comigo. E eu acreditei, sabes? Por um breve instante que foi toda uma vida que já passou, eu acreditei. Tu não imaginas isto, mas a melhor parte de mim foi-se contigo.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Foi logro aceite quando nos fodemos

Tenho um ritual frequente - não diário, para desgosto dos meus gatos - que é levá-los a passear aqui nas traseiras da minha casa. E por 'traseiras' entendamos que é apenas o corredor que liga a porta das traseiras da minha casa até ás escadas das traseiras, e tenho de me colocar perto das escadas para que nenhum tenha a tentação de fugir escada acima ou escada abaixo, como de vez em quando acontece, e lá vai o Gonçalo a correr atrás de um ou mais gatos. Conto isto apenas porque por vezes quando vou num destes passeios, acabo por dar de caras com a roupa da minha vizinha do lado, que está pendurada a secar. E volta e meia reparo que lá está a roupa interior dela e fico a olhar para ela. Não de uma maneira creepy, claro, não mexo nela, nem sequer a vou cheirar, nada dessas merdas. Mas fico a pensar naquelas coisas que de tão corriqueiras e banais que são, não lhes damos o devido valor. E pensar em roupa interior é também pensar que uma das muitas coisas que já não me consigo lembrar sequer é precisamente a questão da roupa interior de outra pessoa. Sim, no contexto de foder, e no contexto do preâmbulo para o acto de foder em si, o despir, o sentir, a textura, a cor, como se sente de encontra o corpo. Mas mais que isso, faz-me pensar na intimidade entre duas pessoas. Faz-me pensar naqueles momentos calmos, e embora possam prenunciar uma tempestade de carne e de prazer, existe uma comunhão tão grande de energia e amor, sei lá, aprecia-se tão mais estas pequenas coisas que tomamos por garantidas. Talvez não esteja a fazer muito sentido, e faz sentido que não esteja. Por vezes - e cada vez mais frequentemente - sinto que não sou um tipo moderno, embora não seja de todo antiquado. Apenas sinto que deveria ter nascido noutra época, devia ter nascido no século XIX e ter ido para o Yukon, e ter construído uma cabine com a madeira das árvores que eu mesmo cortei, e ser auto-suficiente, tudo o que me sustentaria seria a terra a providenciar. Ah, mas aliás, nasci este trambolho do caralho, que não tem jeitinho para nada. Estas mãos, coitadas, nunca conseguiram fazer nada de jeito. Em puto era invariavelmente sempre o pior da turma em trabalhos manuais - puta que pariu, como eu detestava essa disciplina. Tudo me saía mal, sempre fui incapaz de terminar um único trabalho, e sentia-me sempre como o maior burro do mundo. Eh, e as coisas não ficaram muito melhores em adulto, não. Ah, no entanto, estas mãos tornavam-se as de um cirurgião de topo, ou de um conceituado pianista, quando tocavam no teu corpo. As sinfonias de prazer que compus em ti, dentro de ti, essas não têm igual. E porque teriam? Há mesmo coisas que são únicas. Há mesmo coisas que acontecem apenas uma vez na nossa vida. Há pessoas que nos tocam como mais ninguém. Há coisas que apenas fazem sentido com a pessoa certa.
Da última vez que estivemos juntos - essa vez que não ter o teu olhar em mim me cortou a alma em milhentos pedaços - enviaste-me depois o link para um albúm ao vivo de Placebo, 'Collapse Into Never', mas na altura não o consegui ouvir. E. confesso, nunca mais pensei nele, até ontem. Até ontem. Estava em casa a fazer umas arrumações, e decidi colocá-lo a tocar no iPad para me entreter. Quando acabou sentia-me completamente drenado. É claro que foi mexer comigo emocionalmente. É mais uma daquelas coisas que nunca faremos, vê-los juntos. Ou se calhar, um dia até estaremos no mesmo sítio a vê-los, mas estaremos tão longe como sempre, seremos sempre como dois navios na noite. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Uma prece silenciosa, tal qual fazem os sonhadores

Parte um : o pesadelo

Ontem sonhei contigo, mas não contigo directamente, apenas entraste no sonho através da voz de outra pessoa. Eu explico : no meu sonho, estava na minha rua, e de repente ouço alguém a chamar por mim. 'Gonçalo! GONÇALO!', mas eu olho em volta e não vejo ninguém a chamar por mim. Mas continuo a ouvir o meu nome, e de repente tenho alguém - não sei se seria alguém real, mas parecia conhecer-me pessoalmente - a cumprimentar-me, e a dizer-me que tu estavas fodida comigo. Essas palavras exactamente. E eu estava a sentir-me meio desorientado, meio perdido. 'A Sofia?', perguntei eu, 'fodida comigo? Mas porquê?', e o tipo responde-me, 'Ela descobriu o que andas a escrever sobre ela e agora quer-te fazer a folha.', e eu entrei num pânico imenso, porque não imaginava como terias descoberto. Bom, não muito tempo depois acordo, e fico a matutar nisto. Sinto um abismo no fundo do estômago, e pergunto-me se na vida real saberias que aqui escrevo sobre ti, e sobre nós, e o que acharias do vernáculo que uso. Será possível que...? Não, digo a mim mesmo, claro que não. Não faz sentido, certo? Porque ambos - não, não ambos - mas todos sabemos que quando se escolhe sair da vida de uma pessoa, repetidas vezes, não se volta atrás, certo? Sabemos que não existe nenhuma razão válida para teres curiosidade sobre mim e sobre o que faço ou deixo de fazer, e para me procurares, porque um equívoco não é merecedor de tamanho esforço. Todos sabemos disso. 
É claro que não sabes que escrevo aqui. Afinal de contas, não tenho redes sociais, nem sequer senti a tentação de publicitar que tenho este blog. Ninguém que conheça sabe da sua existência, e se - admitidamente - descobri-lo não é de todo impossível, ainda requer algum esforço. Requer aceder ao meu perfil do google, e ver que serviços tenho associados publicamente á minha conta, e quem, no seu perfeito juízo, o faria por mim? Ninguém.
E ainda bem que assim é. Permaneço no anonimato, tu permaneces na bênção da ignorância sobre o que aqui escrevo. És feliz, e não perdes um único pedaço do teu tempo a divagar sobre equívocos, porque estás absolutamente certa que fizeste a escolha certa.

Parte dois : o sonho

Antes de te falar do sonho, deixa-me dizer-te algo que talvez saibas já : eu nunca quis muito da vida. Não vou dizer nunca quis nada, mas nunca quis muito. Aliás, creio até que continuo a querer hoje exactamente a mesma coisa que queria em puto : estar em paz no meu canto, sem que me incomodem. No entanto, não querer não é sinónimo de não pensar. Não é sinónimo de não sonhar, mesmo sabendo no meu íntimo que não seria uma realidade para mim. E se calhar até já escrevi sobre isto, mas em pequeno o meu sonho era casar-me. Eu pensei tanto nesse momento, fantasiei tanto, mas tanto. Ao ponto de saber em que igreja me queria casar - na de São João de Deus, na Praça de Londres - e ao ponto de conseguir imaginar toda a cerimónia na minha cabeça. Não imaginei nunca com quem era que me estava a casar, se bem que depois já perto da adolescência imaginava que era com a Steffi Graf com quem me casava. Na minha vida pedi em casamento três pessoas : a Dora, quando soubemos que ela estava grávida, e porque me pareceu ser a coisa correcta a fazer. A Sílvia, que me respondeu milhentas vezes que não, quando finalmente me disse que sim, disse que nos casaríamos após um ano de estarmos a viver juntos. Foi uma boa armadilha essa, não foram muitos os meses completos que passámos juntos, e todos testaram a nossa paciência e os nossos limites até á exaustão. Um ano, dizia ela, e ambos sabíamos que nunca iria acontecer, por isso fingíamos que sim, e sorríamos e acenávamos. E, claro, pedi-te a ti, e como o quis. Sabes, ao passo que nas outras situações foi tudo largamente abstracto - na minha cabeça não conseguia sequer visualizar o evento a acontecer, não conseguia imaginar que circunstâncias cósmicas teriam de ocorrer para que uma daquelas alminhas o fizesse comigo - contigo pareceu-me não só ser absolutamente a coisa certa, mas como também um passo que parecia ao virar da esquina. Eu via-me a fazer tudo com o que sonhava ao teu lado. Mas sabia que ia ter de mudar, que ia ter de crescer, e se antes isso me assustava, nesse momento - nesse momento único - eu quis mais do que a vida que tinha, e quis ser mais do que eu, para finalmente ser o suficiente para ti. Quando não estava contigo, eu pensava nesse momento. Eu sonhava com esse momento. Quantas vezes não te vi a fazer o percurso até ao altar onde eu te esperava, o meu coração a abarrotar de amor por ti. Sorria sempre que pensava nesse momento, sabes? Sabia que era onde finalmente queria estar, contigo. Onde finalmente queria habitar, no teu coração. E sabia que não ia ser no imediato, mas conseguia ver esse radiante dia num horizonte próximo. E tudo aquilo que eu tinha deixado de querer, tudo aquilo que tinha desistido, tudo aquilo que tinha colocado de parte, tudo isso eu alcançaria de novo, porque finalmente encontrava a razão para eu por fim querer mais. Nunca falámos muito sobre isto, eu sei. Tivemos umas conversitas aqui e ali, nada de mais. Havia coisas que guardei só para mim, pensava na surpresa que te ia fazer, e mantive tudo sempre em segredo. Nunca ninguém o soube, nunca o confessei a nenhuma alma neste mundo. Sabes onde te queria levar na lua de mel que nunca teremos? Á Islândia. Sabes quantas vezes nos imaginei sentados sob um céu nocturno, pintado por uma aurora boreal? Caramba, para mim pareceu-me tão... tão possível. Pareceu-me que seria contigo, e comigo, e connosco, que esse passo se iria realizar. Que esse sonho se iria tornar verdadeiro. E depois, claro, depois do sonho, uma pessoa acorda. Depois do sonho... depois do sonho vem a realidade.

Parte três : a realidade

A realidade é que ainda estou longe. Mais longe do que pensava, mais longe do que desejava. Ainda me falta tanto, ainda me falta juntar tanto, e ainda cedo demasiado facilmente a impulsos idiotas. Talvez tenha ainda um ano pela frente, dois na pior das hipóteses. Mas onde eu antes queria ter vivido um sonho, agora eu quero viver a minha finalidade. Tundra adentro, passo após lento passo, irei-me desnudar uma última vez, e deixar que o frio me congele o que me resta do coração, até que a luz me leve. O meu último pensamento será sempre em ti, Sofia, o meu último fôlego será sempre um 'amo-te'. E deixarei tudo sabendo que declarar um simples 'amo-te' é pouco. Sempre foi. Sempre foi insuficiente. 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Nessa mão onde cabia perfeito o meu coração

Hoje... hoje nada. Nada senão uma enorme vontade de colocar as minhas mãos no teu rosto, e beijar-te profundamente, sentir a minha língua a entrelaçar-se na tua. Quantas vezes te beijei? Centenas? Milhares? Não foram as suficientes.
Amanhã volto. Estou cansado hoje, e angustiado. Tive um sonho hoje á tarde - não me sentia bem e passei a minha hora de almoço a dormir. Mas o sonho perturbou-me, e preciso de o digerir. Sabes aquelas cenas que não damos o valor devido quando as temos? Beijar-te de boa noite é uma delas.

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Majestosa, imperial : uma ponte de suspiros

Ontem á noite tomei três comprimidos para dormir. Olhei para a caixa de plástico que tenho cheia de comprimidos e medicamentos e químicos e a tentação de os tomar todos novamente cresce em mim. Mas não tenho já em mim a coragem para o fazer, não novamente. Os comprimidos fazem-me dormir, mas não é um sono que me descanse, ou um sono que tenha sentido ser profundo. Não, este é um sono sintético, em que uma parte de mim parece estar desperta e ciente que está a dormir, e embora sonhe, é como se essa parte de mim visse o que decorria no sonho á distância. Sonhei, foram vários e absurdos os sonhos que tive. Lembro-me apenas de um agora, eu faria parte de uma espécie de colégio ou academia, e porque nestes últimos tempos tenho passado algum tempo a jogar de novo alguns dos meus jogos favoritos, e num desses jogos o personagem principal - chamado Sora - a dada altura adquire a capacidade de deslizar pelo ar, algo que faz com que a navegação pelos níveis do jogo se torne mais rápida e mais fácil, neste sonho também eu tinha adquirido essa capacidade. Mas ao passo que no jogo me basta ir a um menu e ver quais habilidades o meu personagem tem equipadas, na 'vida real' do meu sonho eu apenas teria a certeza se a adquiri ou não experimentando - e para isso teria de me jogar no ar de barriga para baixo, e se ficasse a flutuar no ar tudo bem, se não iria bater com a cara - e com o resto de mim, claro - com imensa força no chão, e não estava com vontade nenhuma de o fazer. Mas estava a contar este meu problema a um grupo de pessoas com quem andava na tal instituição, e todos se riam como se estivesse a contar a coisa mais hilariante de sempre, e mesmo eu me ria como se amanhã não houvesse.
Não eram ainda seis da manhã e já despertava. Deixei-me ficar na cama ainda um par de horas, até á fria luz da manhã começar a entrar pelo quarto adentro. Fitei o teto, revirei e rebolei na cama, pensei em ti, vim-me, limpei a peganhenta nheca que me tinha ido parar á barriga. Queria voltar a dormir, precisava de mais algumas horas de sono, mas nada a fazer. Nada a fazer. Levantei-me da cama, sentei-me no rebordo da cama, e um dos meus gatos olhava para mim com curiosidade. Acordei com uma ligeira dor de cabeça, e com fome. Tinha o sabor dos químicos na garganta, uma ressaca artificial que me estava a deixar mal disposto. Espreguiço-me, e sinto um cheiro desagradável no meu corpo. Não dei por ter suado durante a noite, nem me sinto suado sequer, mas se calhar os químicos afectaram-me a nível hormonal. Sinto o estômago a rugir por comida, mas o desconforto que sinto leva-me primeiro a tomar um duche. Coloco a água a correr, e imediatamente me lembro das vezes que tomámos banho juntos, deus meu, não imaginas o quanto adorei fazê-lo. Não tenho memória de alguma vez termos fodido no banho, e este pensamento traz-me uma inesperada tesão. Ainda lanço a mão ao caralho, mas rapidamente me sinto longe, fico mole num piscar de olhos. Por muito que pense em foder-te e em estar dentro da tua cona, não consigo continuar. Lavo-me num instante, e rapidamente estou de saída de casa para ir tomar o pequeno almoço.
Saio do prédio, e subo a rua em direcção á Cinderela, onde tu eu tomámos o pequeno almoço várias vezes. Lá dentro, sento-me, e pouco tempo depois estou a pedir o que vou querer. Incaracteristicamente para mim, dou por mim a pedir um café - mas não uma bica, um americano - e um copo de sumo de laranja. Preciso de algo que tire este sabor a químico que tenho na garganta, nem lavar os dentes o removeu por completo. Peço uma torrada, e infelizmente não têm a delícia de ananás que normalmente peço quando lá vou. Estou cansado, os músculos pesam-me, e bebo e como vagarosamente. O café ajuda a dissipar o mau sabor que tinha em mim, e a torrada sabe-me pela vida. Estás sentada á minha frente, um espectro com mais de uma década, e olho para ti enquanto tu comes também. Afogo-me nos teus olhos, e a tua mão aperta gentilmente a minha. Nesses momentos acreditei que iríamos estar juntos para sempre. E porque duvidaria eu? Eu sentia o teu amor, eu senti a tua vontade de mim e por mim. Para mim foi real. Para mim não foi um equívoco, nem uma ilusão. Nunca será.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

De tanto bater o meu coração parou

Desde que me lembro… desde que me lembro que me dói o coração. É uma dor que não é intensa, nem impeditiva de viver a minha vida normalmente, e nem em miúdo foi algo que alguma vez tivesse sido detectado por médico algum. A Dra. Leonor, que era a minha médica de família em puto e que me traumatizou para a vida toda, quando eu lhe dizia que me doía o coração, colocava o estetoscópio no meu peito, auscultava durante uns momentos, e depois dizia que estava tudo bem. Apenas alguns anos mais tarde consegui entender o que originava essa dor. 
Em 1989 quando entrei para o sétimo ano tive o meu primeiro ‘desgosto’ amoroso, que não foi desgosto algum, na realidade. Como em tantas outras coisas que futuramente aconteceriam, eu pura e simplesmente não poderia competir com outra pessoa pelo afecto de outrem. Mas a moça em questão - cujo nome ou era Ana ou Maria, eu sinceramente já não me lembro, porque ambas andavam na mesma turma que eu, e ambas tinham o mesmo incomum apelido - Luís - esta moça foi a primeira pessoa por quem senti desejo de partilhar algo. O quê, exactamente, não sabia ainda, e ainda não pensava sequer me coisas sexuais, ainda não tinha chegado a esse ponto. Mas dei por mim pela primeira vez a fazer uma correlação entre essa dor que sentia e uma solidão que sempre conheci, e nunca me importunou. Nessa altura, a minha mãe trabalhava na RTP e ela dava-me os tickets refeição que ela recebia como subsídio de refeição, e eu costumava ir almoçar ao saudoso Cinebolso - havia lá um restaurante de fast-food italiano, onde volta e meia os meus pais nos levavam a jantar, mas não me consigo lembrar já do nome, embora tenha ido lá N mil vezes, e também um cinema pornográfico, algo que deixava o jovem Gonçalo profundamente envergonhado sempre que por lá passávamos - e ás tantas o pessoal que trabalhava nesse restaurante já me conhecia, e sabia perfeitamente o que eu encomendava - era sempre o mesmo, pizza de atum, e um copo de coca-cola. Na altura eu não prestava grande atenção ao que se passava á minha volta, não reparava da maneira como as pessoas olhavam para mim, nem queria realmente saber do que as pessoas pensavam de mim. Mas esta história com a Ana / Maria muda algo em mim. Um dos dias em que vou almoçar á pizzaria, dou por mim a acabar o meu copo de coca-cola ainda antes de ter chegado a metade da pizza, e não tinha dinheiro para comprar outro copo. A dada altura, uma das moças que lá trabalhava trouxe-me outro copo, e eu disse que não tinha pedido, mas ela disse que era por conta da casa. Senti tanta pena da parte dela, e depois quando estava para pedir a conta vi-a mais uma colega a falar e a olharem na minha direcção, como se eu fosse uma coisa estranha, por estar sempre sozinho. Era puto e estes pensamentos eram novos para mim; até então nunca me tinha passado pela cabeça que não fosse uma coisa normal, uma pessoa fazer coisas sozinha. Mas e daí também eu nunca tinha querido fazer as coisas acompanhado, afinal quantas vezes não fui ao cinema sozinho, quantas vezes não fui passear sozinho? Ah, mas a noção de querer partilhar… meu deus, como ela iria crescer dentro de mim com o tempo.
Ultimamente tem-me doído bastante o coração. Não me refiro á dor de não te ter, de ter-te perdido, de viver sem ti, não. Embora ela esteja cá, e eu a sinta, esta é uma dor diferente, e sinto-a especialmente quando estou deitado. Sinto o coração a bater a mil á hora, e sinto um aperto forte no coração. Deito-me a desejar não acordar. Custa-me andar por cá, estou farto de estar aqui. Estou farto de estar vivo, estou farto de mim. Se pudesses colocar a tua mão sobre o meu coração, sempre que o sentisses a bater ouvirias um ‘amo-te’ a ecoar nos teus ouvidos. Eu estou cansado, meu amor. Estou mesmo muito cansado. Nunca mais fui o mesmo. Não sou nada sem ti.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Quando me embebedo, tu levas-me para casa, e manténs-me a salvo do perigo

Eu não contei a nossa história a muitas pessoas, sabes? A história do Gonçalo e da Sofia, e da Sofia e do Gonçalo, antes de a ter lançado ao éter o ano passado e ter aberto as portas para entrares - e saíres - da minha vida de novo, essa história raramente foi contada. Oh, algumas das pessoas mais próximas de mim souberam de algumas coisas, mas não tudo. O meu filho, certamente, ele soube - e viu como ninguém - tudo o que se seguiu depois de teres ido, mas nem o Sérgio nem o Hugo souberam de tudo. Talvez tenha contado a história a um par de pessoas que me passaram pela vida, creio que á Isabel, ela tinha uma certa curiosidade relativamente a mim. Pobre rapariga, quando me conheceu julgava que eu estava agarrado ás drogas, isto tudo porque lhe disse uma vez que estava a passar por uma certa dependência de químicos, e quando lhe disse que eram apenas anti-depressivos e ansiolíticos se calhar desiludi-a um pouco. Mas a quem de facto contei a história - e com algum detalhe - foi á Sónia. E, para não variar, foi algo que me arrependi amargamente.
Uma lição que deveria ter aprendido muito cedo nessa relação foi que deveria ter mantido muita coisa para mim mesmo, desde músicas que gosto e quis partilhar, a alguns dos livros da minha vida, porque houve tanta, mas tanta coisa que redundou apenas em escárnio e desprezo e acabava comigo a sentir-me profundamente inadequado. Mas quando lhe contei a nossa história, e isto porque estávamos a ter uma conversa sobre saúde mental, e eu lhe contei que sempre tinha tido as minhas dificuldades com certas situações na minha vida, contei-lhe como nos tínhamos conhecido, como a nossa relação tinha sido, e como o fim dela me tinha devastado. Disse-lhe que durante o ano que se seguiu estive tão mal que quase não conseguia sair de casa. E então ela perguntou-me quanto tempo tínhamos estado juntos, e eu disse-lhe uns seis meses ou coisa assim. 'Oh amor', disse ela - e ela tratava-me por 'amor' - 'ficaste assim por seis meses? POR SEIS MESES? pOr sEiS mEsEs??', e ria-se á bandeira despregada. Eu cá para mim não achava piada nenhuma, apenas me fiquei a sentir incrivelmente triste. 'Não me digas que vais chorar', disse ela, e eu engoli as lágrimas e sorri, mas por dentro o que restava do meu coração despedaçava-se mais um pouco. 
E confesso que havia uma parte de mim que invejava essa capacidade de relativizar as coisas. 'Pois é, seis meses, já viste que coisa estúpida? Ahahahaha!', ou uma coisa assim. Mas não consigo. Não consegui então, não consigo agora. E porque conseguiria? A metáfora que vou usar é uma que detesto, porque adoro chuva, e por mim podia estar a chover o tempo todo, mas de modo a que qualquer pessoa consiga entender, tu foste seis meses de sol num vida de chuva incessante. Como é que eu relativizo isso? Como é que eu esqueço? Fácil, não o faço. Sorrio apenas. O que foram apenas seis meses, certo? Para mim foram apenas tudo, mas é suposto eu seguir em frente e esquecer como uma pessoa normal. 
Eu procurei-te em todo o lado, nestes últimos 12 anos, menos, claro está - onde tu estavas. Eu sabia que nunca poderia ir ter contigo, que nunca poderia cruzar-me contigo sequer. Não imaginas o quão triste fiquei quando me enviaste o pedido de amizade no facebook em 2016, apenas para me eliminares de seguida. É tão fácil descartar-me. Eu estava com o Ian numa loja de jogos de tabuleiro onde ele ia a um torneio aos fins de semana, e a notificação trouxe-me um sorriso ao rosto. Quando te respondi estava... nem era zangado, sequer. Estava desiludido. Mas ainda assim... ainda assim via-te nos olhos de cada rosto que me era estranho, via o teu fantasma em qualquer sítio em que tenhamos estado. Escrevo isto, e hoje vi-te na minha rua. Não, claro que não eras tu, era apenas uma moça que assim de repente se parecia ligeiramente contigo, mas o meu coração ficou a bater a mil a hora, as minhas pernas pareciam gelatina, as palavras ficavam presas na garganta. Será possível, perguntei eu, seria mesmo verdade, meu deus que pensamentos tão estúpidos, é claro que não é possível. Nunca será.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

E estas são apenas algumas das muitas coisas que eu não consigo sequer dizer em voz alta

Sabes que ás vezes dou por mim a pensar se tu e a Sílvia se dariam bem? Olha que não sei. Ela é uma miúda estranha, ou pelo menos era, e regra geral deixava as pessoas a sentirem-se desconfortáveis com a presença dela. Ela tinha uma aura de silêncio á volta dela que era muito difícil de penetrar, e quase ninguém conseguia mandar aquelas defesas abaixo o suficiente para se aproximar dela. Mas e daí talvez se dessem bem, certamente teriam coisas em comum. Eu menciono a Sílvia aqui com um propósito específico. Há uma lição que aprendi demasiado tarde na minha vida, e quando digo isto, acredita quando te digo que foi bem depois de ti, anos depois de ti. Eu bem sei que quando estivemos juntos eu falei nela várias vezes. Nunca o fiz com o intuito de te deixar desconfortável, nem sequer me passava pela cabeça que o estivesse a fazer. Sabes porquê? Porque toda a minha experiência anterior com outras pessoas teve sempre este elemento de me falarem de com quem estiveram, o que fizeram, essas cenas todas, e a mim nunca me incomodou o que as pessoas fizeram ou deixaram de fazer antes de estarem comigo. Por isso, pareceu-me normal que as pessoas o fizessem, e olha - foi o que eu fiz. Mas deveria ter entendido que hey, eu sou eu, e não sou os outros. Por não me incomodar a mim não significa que não possa incomodar outra pessoa. Mas eu genuinamente não sabia isso, e demorei anos até aprender a ficar com a boca calada. Uma coisa que tu e a Sílvia têm, inadvertidamente em comum, é algo que aconteceu da mesma maneira - de largo modo, vá - e isso foi a maneira como nos reencontrámos pela primeira vez. Tu e eu encontrámo-nos no sítio onde nos beijámos pela primeira vez, eu e ela no sítio onde nos conhecemos em pessoa pela primeira vez, e curiosamente, também por escolha dela.  
Eu cheguei a julgar - no meu pranto pós-Sílvia - que nunca mais iria amar alguém. O que aqueles cinco anos me drenaram... muito por culpa minha, admito. Eu nunca acreditei na nossa relação, não realmente, e uma das primeiras coisas que lhe disse foi que a nossa história iria acabar em lágrimas. Naturalmente, isto não inspirou muita confiança nela, e a que sobrou nós tratámos de a devastar. Sou culpado de muita coisa, sim, mas a culpa não foi só minha : também eu fui muito magoado ali. Repara : se pudesses ver lado a lado ambos estes reencontros, verias que no primeiro existe um alívio enorme quando me apercebi que o fantasma dela tinha ido, e que o amor que senti por ela tinha desaparecido de vez. E no nosso, no nosso... quando me sentei ao teu lado naquele banco... não foi o regresso de coisas que eu julgava ter enterrado profundamente dentro de mim; não, elas sempre estiveram lá. Foi olhar para ti e saber finalmente que em mim nada mudou em relação a ti, que o amor não só permaneceu, como cresceu ainda mais. E não é que estivesse em negação, longe disso. Apenas era algo que não me podia dar ao luxo de pensar. Sentia, claro que sentia, mas passei todos estes anos a pensar que nunca mais nos veríamos. Dentro do meu coração, sentia que nem sequer te lembravas de mim já.
É verdade quando digo que não sou mais que um padrão. Um padrão que de vez em quando até tem resultados positivos para quem passou pela minha vida. Repara que todas as pessoas que me foram realmente relevantes na minha vida - e por ordem cronológica a Dora, a Sílvia e tu - imediatamente a seguir a mim encontraram a pessoa que mudou as suas vidas, encontraram o amor da vida delas. E se apenas acabo por ser um trampolim para as pessoas encontrarem mais e melhor - o que, francamente, não é muito difícil - então não me queixo. Há destinos bem piores que este.

Hoje não está a ser um bom dia, meu amor. É daqueles dias em que sinto a tentação de adormecer o cérebro com álcool, mas não o vou fazer. Tenho saudades tuas. Tenho saudades de nós. Precisava de um abraço teu - um daqueles abraços fortes que dura uma vida. Precisava que me beijasses, e que o tempo parasse, e ficássemos os dois num momento perfeito, e que me dissesses que tudo ia ficar bem. Precisava de me deitar ao teu lado, e adormecer abraçado a ti, sabendo que de manhã ias estar ainda ali. Precisava de coisas que eu sei que nunca terei. Eu sei disso. Apenas me torturo revisitando dias que passaram há muito, mas que eu não esqueci. Que eu não consigo esquecer. Sabes, eu pensei mesmo que nunca me irias deixar. Isto de revisitar memórias é uma coisa fodida. Não me lembro só das coisas boas, ou do que tivemos, ou do que fodemos. Também acabo por me lembrar daquilo que me doeu, mas essa dor apenas apareceu quando foste. Houve uma vez naquele período imediatamente seguir á nossa separação em que ainda falávamos de vez em quando em que parecias tão zangada comigo, como se tudo o que eu te dissesse que incomodava. Foi aí que me comecei a aperceber que tinhas razão no que me tinhas dito, que tinha sido tudo uma ilusão. Não imaginas isto, mas o teu aniversário em 2013 foi um dos piores dias da minha vida. Saber-te com outra pessoa fez-me perceber o quão facilmente seguiste em frente, apercebi-me o quão facilmente substituível e esquecível eu era. A minha esperança morreu nesse dia.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Tu não acreditas em mim, mas fazes sempre a mesma coisa

Sinto-me tão sozinho, sabes? E eu lido bem com a minha solidão, é algo que sempre me acompanhou, afinal tenho passado grande parte da minha vida sozinho. Há alturas em que a minha solidão me é largamente indiferente, ao ponto de não a sentir ou então ser capaz de a ignorar. Há outras em que sinto esta solidão a engolir-me. Nos piores momentos dessa solidão, é quando bebo até apagar - mas já não bebo desde sexta passada, menos mal - ou quando cedo por completo á procrastinação. Fico imóvel, desmotivado, incapaz. São nestes momentos em que vêm á tona as memórias. As memórias, e as dúvidas. Sabes, antes de nos termos reencontrado o ano passado não tive opção alguma senão acreditar no que me disseste quando foste, que tinha sido tudo um equívoco. Sempre me fez sentido, por muito que me doesse. Não teria sido a primeira vez, e não foi a última, mas esta foi a que deixou uma marca em mim. Remeti-te a uma parte da minha memória que mais se assemelhava a um sonho : imaginei por vezes que tinha sonhado com uma versão de nós que existia numa realidade paralela, e tudo me pareceu tão real, que eu caí na rede dessa ilusão. De vez em quando vinhas-me á cabeça, e sim, de vez em quando procurava por ti. Eu contei-te aquele sonho que costumava ter há uns anos atrás, que te tinhas mudado para o meu prédio. Acho que o deixei de ter quando descobri que ias ter um bébé. Foi nesse momento em que finalmente me apercebi que a história tinha terminado, embora já tivesse terminado anos antes. Mas as dúvidas, sabes? Eu ainda as tenho. Eu não duvido do meu amor por ti. Se o fizesse, porque estaria a escrever sobre ti passados todos estes anos? É falha da minha natureza, não consigo esquecer. Quem me dera poder esquecer facilmente. Em tempos questionei-me se me submeteria a uma limpeza da memória tipo no 'Eternal Sunshine of the Spotless Mind', mas não. Eu não quereria nunca esquecer-te. Eu nunca o conseguiria fazer. Seria quase como me esquecer como respirar. Ter-mo-nos encontrado... não sei, não me amenizou as dúvidas. De certo modo, fico com a sensação que não passo de um padrão, não chego a ser sequer uma pessoa real. Há uma parte de mim que pensa na maneira como fodíamos, e tudo aquilo que me disseste que não voltaste a fazer, e pensa que o fizeste comigo porque me amavas. Se calhar apenas te soube bem comigo, se calhar apenas te fez sentido comigo. Da mesma maneira, beijar um corpo, sentir um corpo, devorar um corpo, como eu fiz com o teu, também apenas fez sentido contigo. Se calhar era também uma forma de eu manifestar o meu amor por ti. Ouve, eu - e depois de ti - raramente andei de mão dada com alguém. Quando o fazia era estranho, por vezes dava por mim a olhar para a mão que estava na minha e parecia-me algo alienígeno. Eu não gostava dessas coisas por aí além antes de ti, e continuei a não ser apreciador depois, mas contigo era tudo o que eu queria, a proximidade de ti. 

Quando estive numa relação que era maioritariamente sexual com a Isabel, e embora eu soubesse que da parte dela existiam sentimentos, eu fugi sempre aos momentos de 'namoro'. Ela gostava de ficar sentada no sofá comigo aos beijos, eu não. Eu gostava de te estar a beijar a ti, e não a ela. Eu nunca adormeci sóbrio com ela - as nossas noites eram sempre bem regadas, antes da carne vir ao de cima. Mas não era com quem eu queria estar deitado. É estúpido, e estranho, mas não passei uma única noite com outra pessoa em que tivesse sentido á vontade. Tantas vezes me vinha um pedaço da primeira manhã em que acordámos juntos, em que me disseste que tinhas tido dificuldades em dormir por causa das vibrações que o metro que passa aqui por baixo faz. Eu, naturalmente, há muito que não as sinto, e teres-me dito que elas existiam e as sentiste, foi para mim uma novidade. Ah, e como quis que todas as nossas noites de aí em diante fossem boas noites para ti! Mas não tivemos muitas, pois não? Acabaram por não ser assim tantas quanto isso. Mas tivemos algumas manhãs, sim. Aquelas em que te ia esperar á estação do comboio, aquelas de onde no meio daquele oceano de pessoas que ali desovava, eu te via a vir na minha direcção, e o meu coração se enchia de felicidade e os meus olhos de luz. Essas manhãs, essas lendárias manhãs. Muito fodemos aqui no meu quarto, tentando não fazer muito barulho. E depois, quando tínhamos sorte, tínhamos talvez um par de horas onde podíamos estar juntos no escuro, os nossos corpos tão próximos um do outro que nos tornávamos um só. E isso não aconteceu com mais ninguém... não quis, não me sentia confortável. Uma moça com quem fui para a cama há já uns anos convenceu-me a passar um fim de semana com ela. Eu quis ir-me embora minutos depois de ter ido ter com ela, mas acabei por ficar. Não surpreendentemente, mais sexo mau, e isso nem foi o pior de tudo. Ela insistiu que dormisse com ela, mas havia tal distância entre nós na cama dela, que a dada altura da noite ela acordou-me e pediu-me para a abraçar. Como lhe podia dizer que não o queria fazer? Fui um cobarde, e fi-lo por uma questão de cortesia. Eu queria abraçar-te. A ti. Para sempre, mundo sem fim.

E as dúvidas trazem mais questões. Eu pergunto-me se te quero ainda. Eu sei que te amo, eu sei que te desejo, mas será que ainda te quero? A verdade é que nos tornámos pessoas que não se conhecem. Não sabemos muito um sobre o outro, se calhar mudámos demasiado, ou então não o suficiente. Não sei. Eu sei que não quero estar com mais ninguém. Estou farto, estou cansado, nunca é satisfatório. Nada trouxe o que em tempos tivemos. O que eu sei é que o que eu gostaria era que tivéssemos tido estes 12 anos que passaram juntos. Quem me dera, sabes? Teria sido um prazer e um privilégio passar o resto dos meus dias contigo. Por vezes... por vezes dou por mim a sentir que o meu coração irá ceder uma destas noites, e deixarei de estar aqui. Espero que não me procures nunca, Sofia. Mereces estar onde estás, com quem estás, e ter o que tens. Não te devo ter contado isto, mas quando deixámos de falar em Janeiro, e após ter mudado de número, apaguei o teu número, o teu email, tudo. Não posso ter a tentação de te incomodar. E sabes, ainda que da última vez que estivemos juntos eu tivesse ido para casa com o coração dilacerado, porque não conseguiste olhar para mim sequer, e porque senti profundamente que não gostavas mesmo de mim, morrerei com a mágoa de não te ter olhado nos olhos, e de ter beijado como só a ti beijei, uma vez mais, uma última vez, e dizer-te que te amo com tudo o que sou.


As florestas choram, pois as suas árvores estão a arder

Esta noite quando fui para a cama tinha uma vontade imensa de sonhar contigo. Apetecia-me ouvir a tua voz uma vez mais. Mais do que tudo, apenas ouvir a tua voz, eu e tu, na penumbra, abraçados. Mas, e para variar, tive sonhos esquisitos. Um deles, um sonho semi recorrente, dá por mim a caminho de um hipermercado gigantesco, mas mesmo gigante - pensa numa cena tipo Continente mas do tamanho do Colombo. E eu ou estou a caminho de lá para ir comprar algo ou ás vezes para ir trabalhar, e o sonho é a angústia de ter de fazer uma viagem enorme e sentir que vou chegar atrasado - algo que inevitavelmente acontece. Ou não chego a tempo de apanhar aquilo aberto, ou chego atrasado para o trabalho, e curiosamente - é sempre de noite. E mesmo lá dentro da estrutura é mal iluminado, e tudo parece meio inacabado. Na realidade, tudo parece passar-se numa espécie de Lisboa pós-apocalíptica, mas é claro que não é Lisboa alguma que exista, é uma manta de retalhos feita de cidades várias, algumas que existem e outras que nem por isso são reais. Não sei que sequência teve o sonho, nem sequer me recordo se o sonho seguinte é continuação da narrativa do outro, mas sei que no sonho que tive a seguir estou a receber uma mensagem da minha irmã a dizer que o nosso pai tinha tido um ataque de coração que o tinha deixado altamente debilitado, sem conseguir usar o braço esquerdo. Na vida real não o vejo há já muitos anos, nem estou interessado em vê-lo, mas no sonho algo me levou a querer ir visitá-lo. Curiosamente, estaria internado não muito longe aqui de minha casa, numa clínica / casa de repouso que talvez exista ou não algures na Gago Coutinho. Na companhia da minha irmã, fomos até lá para o ver, mas fiquei surpreso quando o vi - ele estava em pé, com a vitalidade que lhe conhecia de quando era miúdo, lá estava ele, o tipo que nunca gostei, e que de vez em quando vejo no meu espelho, algo que me dá nós no estômago. Mas á medida que me aproximo, essa vitalidade parece desvanecer. A idade toma conta dele, o braço esquerdo mirra, ele próprio tomba com o peso de tudo. Fico a olhar para uma carcaça que rapidamente apodrece. Acordo não muito depois.

Acordo na minha cama, faltam ainda umas horas para ter de me preocupar com o trabalho. Deixo-me ficar na cama, com a cabeça perdida em pensamentos, a luz do dia a entrar pelo quarto adentro, filtrada pelas frestas da janela. Tento não pensar em ti. Tento. Sabes que não consigo. Ainda aqui estás, de certo modo ainda aqui estás. Recosto-me na cama, e pego no tablet para ver o que havia de novo. Notificações várias, leio algumas notícias, vejo os emails que recebi - só lixo. Ainda agora acordei e já estou farto. Decido vir aqui para reler o que escrevi. Não gosto de o fazer, sinto sempre a tentação de mudar o que escrevi, ou de editar algo, por vezes adiciono coisas, muito raramente removo. Mas já o fiz, admito. Não me chateia o que escrevi, e dou por mim a sentir uma erecção formar-se. Vou-me masturbar (ceús, como detesto escrever esta palavra, mas detesto ainda mais 'bater uma', go figure), e sei que vou pensar em ti, sei que vou pensar nas fodas que demos, mas acontece o que ultimamente tem acontecido mais frequentemente que não : perco a tesão. Nada de mais, não me incomoda, e mesmo das vezes em que consigo terminar raramente me sabe bem. Tantas vezes acabo apenas com os rins a doer. Deito-me de novo, desconfortável, e lembro-me de te ter pedido em casamento aqui, em tempos, e de tu teres dito que sim. Lembro-me, de mais tarde, teres sido tu a pedir-me em casamento, já depois de teres ido e brevemente teres voltado. Acreditas que me dei ao luxo que tinhas mesmo voltado? Eu sou tão, mas tão estúpido. Ainda deitado, penso em primeiras vezes. Lembro-me tão bem da nossa primeira vez, e de algo que disse depois e que não escreverei aqui. Há limites que não ultrapassarei. E a nossa última vez? Apenas deus sabe. Mas lembro-me também e tão bem do nosso primeiro beijo, assim como me lembro do nosso último. Como posso voltar a esses sítios e não ver ecos de nós, a multiplicarem-se por uma eternidade de eternidades, menos na nossa vida? Ao pensar nisto tudo, lembro-me da primeira vez que te fodi o cú. Acho que nos apanhou todos de surpresa, estava convicto que não seria algo que faríamos - e eu estava ok com isso - mas sabes, estes dedos, estes dedos que percorreram todos os teus orifícios, todo o teu corpo, caramba, estes dedos deram por eles dentro de ti e quando te perguntei se o podia enfiar e disseste que sim, jesus, o que nasceu nesse momento. É claro que depois divaguei um bocado no pensamento. Lembrei-me da primeira vez que fiz sexo anal com uma mulher - foi com a Sara, em 2003. Não foi a primeira com quem o pude fazer, uns meses antes quando estava com a Cláudia ela disse que podíamos fazer, que gostava, mas caralhos me fodam, a minha mente romântica levou-me a dizer que ficava para a próxima vez, algo que nunca aconteceu. Mas quando eu e a Sara o fizemos, eh... não achei nada de brilhante, ela gostava, dava-lhe prazer, mas para mim não estava a ser nada por aí além. Só passei a apreciar passado uns anos, e mesmo assim era uma coisa relativamente pontual. E depois nós, olha, que hei-de dizer? Tudo foi tão bom contigo, caramba. Tudo. Não só foi bom, foi o melhor da minha vida. Deus sabe com quantas mulheres estive depois de ti; dessas todas apenas numa instância o sexo quase chegou ao nosso nível, mas faltava tudo o resto que tínhamos e que tornava tudo tão melhor. E há aqui uma tragédia, uma puta de uma tragédia, que é a pessoa que se seguiu a ti - a psicopata da Tracy - foi em tudo o pior da minha vida. Em tudo. Que pontaria de merda tive eu. É que nem o sexo era bom, não era minimamente agradável sequer. Sempre me senti meio sujo por foder com ela - e felizmente foram pouquíssimas as vezes. Era 'engraçada', a minha vida nessa altura. Era raro o dia em que não recebia uma mensagem anónima no facebook a perguntar-me como eu me sentia por saber que ela e o 'Paulinho tinham fodido forte e feio', e raios me partam, porque é que eu sou tão avassaladoramente estúpido? Não só deixei-me ficar nesta história demasiado tempo, como anos mais tarde ainda dava por mim a ir cumprimentar esse tal Paulo, como se ele fosse meu querido amigo, e nunca entendi porque o fazia - antipatizei com ele desde o primeiro momento que o conheci, e o meu instinto provou que estava certo. Será apenas falta de amor próprio? Ou pura estupidez? Já não sei. E felizmente já não tenho desses trastes na minha vida.

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Uma silhueta ausente

Não bebo desde sexta á noite. Já não me sabia bem, mas e daí também não me estava saber mal - já só me estava a deixar cansado, lento, e pesado. Os meus dias estavam a ficar cada vez mais difíceis de suportar, e cansava-me andar á procura de uma justificação para me enfrascar no fim do dia. Justificação essa que não era necessária, nestes dias sabia perfeitamente que ia acabar por beber. Mas tinha de inventar uma desculpa qualquer para me parecer 'aceitável' acabar por beber. E os meus dias - quando bebo - são uma merda no dia seguinte, sinto-me completamente de rastos, e se já recuperar de uma destas não é fácil, fazê-lo recorrentemente é quase impossível. Tenho dias que são um suplício autêntico de suportar, e em vez de quebrar o ciclo, dou por mim a perpétua-lo. Mas não agora. Não agora. Acho que estou demasiado cansado para beber. Demasiado sem vontade. E a verdade é que sem o fazer, fico com uma claridade na cabeça que muitas vezes não me atrevo a ter, e em boa verdade, nem quero ter. Estar sozinho com a minha cabeça é uma coisa horrível.
O Gonçalo que pensa em ti sóbrio é tão diferente do Gonçalo que pensa em ti alterado. Oh, não penses que de modo algum sinto menos desejo por ti - sinto, sempre sentirei. Não é a minha sobriedade que me tornará mais eloquente, certamente não nesse campo. A minha vontade de foder contigo nunca desaparecerá. Mas nestes momentos eu penso mais em coisas diferentes. Relacionadas, sim, mas diferentes. É claro que penso nas fodas pornográficas que dávamos, é claro que penso em estar dentro da tua cona e do teu cú e de me vir em cima de ti, é claro que penso em todas as vezes que te vieste comigo. Mas penso também no antes e no depois. Penso em como beijava todo o teu corpo, como o conheci intimamente, como o teu cheiro e o teu sabor existem ainda em mim. Penso em como adorava despir-te, e de ter ver em roupa interior, e como ficava repleto de desejo por ti só por sentir a electricidade da tua pele nua. E como era bom, meu deus, como era bom depois ficarmos os dois nos braços um do outro no escuro do meu quarto, ou então na cama daquela pensão. 
E eis aqui uma verdade : há coisas que acontecem uma vez apenas nas nossas vidas. Eu estive com algumas pessoas bem mais tempo que estive contigo, e todavia não me recordo de quase nada de relevante desses tempos. Certamente não perco o meu tempo a pensar no sexo que tive com outras pessoas, tenha sido ele bom ou mau. Porque o faço contigo? Não apenas o sexo, mas os sentimentos, porque é que eles existem, porque permanecem? Porque não o senti com outras pessoas? Eu nunca beijei o corpo de outra pessoa como beijei o teu. Na realidade, a dada altura já nem gostava de beijar. Não me fazia sentido, creio. Não me sabia bem. Sabia-me a... a desperdício de tempo. E eu sei, sim eu sei, que não é algo bom de se sentir, nem sequer de fazer sentir a outra pessoa. Talvez por isso também me tenha decidido a não voltar a estar com alguém. 
Quando penso que te amo, ás vezes pergunto-me quem é que amo. Amo-te a ti, uma pessoa que não conheço há anos e anos? Amo a pessoa com quem estive? Amo esse fantasma? Amo uma versão idealizada de ti? Quando estou com os copos não penso nisto, não nestes moldes. Penso que te amo, sim, e não questiono o porquê. Todavia se questionar esse amor - mesmo sóbrio - há algo que bate no meu coração e me faz lembrar e saber que aquilo que nasceu há tantos anos atrás está destinado á permanência. 
Não te cheguei a contar isto, mas não muito antes de termos deixado de falar de vez, antes de me ter despedido de ti pela última vez, estava a fazer arrumações aqui no meu quarto - caramba, parece que tenho sempre tralha para mandar fora - e encontrei uma carteira que já não via há anos. Nessa carteira, estava algo que julgava já não ter. Julgava que tinha perdido essa carteira há anos atrás, mas ei-la aqui no meu quarto. Peguei nela, sentei-me no rebordo da cama, e procurei o que lá estava. Uma data de cartões de cliente de quando morava em Londres, passes antigos e caducados, um cartão do minipreço daqueles pequeninos que as pessoas normais usam no chaveiro, e num daqueles recantos internos da carteira, o que encontro eu? Uma fotografia tua, e outra do menino. Eu estava tão certo que as tinha perdido. E sabes, chorei tanto nesse dia, e nos dias seguintes, e para parar o choro tive de silenciar a minha mente, de a afogar em veneno. E depois foste, foste mais uma vez, foste de vez, e não há veneno no mundo que conseguisse apaziguar a dor que ficou. Passei os dias seguintes a alhear-me da realidade, á deriva num oceano de álcool, o teu silêncio sepulcral, eu a querer mais do que tudo falar contigo, estar contigo, ter-te de novo... mas sabendo que nunca mais aconteceria. Numa dessas noites embriagadas dei por mim a vestir-me, pegar na carteira, e joguei-a no lixo. No dia seguinte, á medida que ficava sóbrio e me ia lembrando da noite anterior, dei por mim a entrar num desespero imenso. Ainda fui a correr ao caixote do lixo, mas estava vazio. Tinha havido recolha nessa madrugada, e foi-se a última coisa que ainda tinha tua. A última coisa tangível. 
Só restam as memórias. Só resta o desejo, e as palavras, e a vontade de ti. Só resta uma silhueta, que, por mais tempo que passe, irá permanecer comigo sempre.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

São voltas, ai amor, são voltas

O dia dos namorados... caralho, quem me dera ter nascido uma pessoa normal, que toma as decisões normais, e vive uma vida normal, e tem as coisas normais. Como o quis - e em breve contar-te-ei aqui uma história sobre os sonhos que tive para nós - mas não... nasci assim, falho de qualquer coisa minimamente produtiva. Não fiz nada por mim, tomei todas as decisões erradas que fizeram com que (quase) nada na minha vida fosse normal. Seja como for, chega de autocomiseração. Já fiz demasiado disso, já fiz a minha expiação, e aprendi a viver em paz com o que foi e como foi. Mas aquela parte romântica de mim sempre deu valor a este dia, embora não me consiga lembrar de muitas ocasiões em que o tenha comemorado.
Estupidamente, sempre fui daquelas pessoas que dava valor ás datas, que no meu âmago julgava ser importante que fossem celebradas. Dava valor a isso, sim, e não estou certo se estive com alguém que desse o mesmo valor. Na realidade, creio que as pessoas com quem estive eram demasiado prácticas para se preocuparem com este tipo de merdas. Mas o Gonçalo na sua ingenuidade secretamente desejava que estes dias pudessem ser celebrados. Recordo-me de uma única vez o ter tentado celebrar com a Sílvia, deve ter sido em 2009 quando estávamos em Londres, e muito relutantemente ela aceitou que eu a deixasse levar a jantar fora. Tinha em mente levá-la a jantar no Tiger Tiger, mas - e porque isto foi mesmo em cima do joelho - quando lá chegámos barraram-nos á porta porque não tínhamos feito uma reserva, e naturalmente, tudo quanto era casalinho feliz já tinha feito atempadamente as suas reservas. Andámos de restaurante em restaurante a ver se encontrávamos algum que estivesse livre, mas só em Chinatown encontrámos um chinês meio manhoso. Não me recordo já o que terá despoletado, mas essa noite depois originou a mais um protelado período de silêncio entre nós - era assim que 'discutíamos'. Talvez tenha sido aí que começou a morrer em mim essa parte que dava valor a essas coisas, de tal modo que apenas por uma vez mais na minha vida - garantidamente a última - eu quis que esse dia tivesse algum valor. 
E é aqui que a minha memória me atraiçoa. Há muitas coisas que me lembro muito bem, como se tivessem acontecido recentemente. Outras... não sei, parece que aconteceram há vidas atrás, ou então que aconteceram a outra pessoa, e eu vi o filme da vida dessa pessoa, e de certo modo identifiquei-me com o que via nesse 'filme'. Mas quero dizer - embora possa estar errado - que nesse dia te ofereci um anel da Pandora, que escolheste no Vasco da Gama. Terá sido? Eu acho que sim, todavia fica em mim a ideia que terá havido mais do que uma compra na Pandora. Já não sei, lembro-me certamente dessa ocasião no Vasco da Gama. 
Esta coisa de haver momentos do que tivemos em que parece que aconteceram a outra pessoa é estranha. Há uns anos atrás passei por um café, algures na baixa, onde uma vez tomámos pequeno almoço os três, e se é verdade que na minha cabeça ainda te via ali, com o menino, eu a mim não me via ali convosco. Senti que poderia ter sido um outro tipo qualquer que não eu. Mas paralelamente a isso, há outras circunstâncias em que não te consigo imaginar com outra pessoa que não comigo. Aí há uns 10 anos atrás, um dos desastres com quem me envolvi para tentar acalmar a dor de não te ter era uma moça chamada Lia. Esta jovem tinha umas pancas do caralho, por mais que uma vez pediu-me para lhe bater, e para ser bruto com ela, 'finge que me estás a violar', dizia ela. E eu disse-lhe que não gosto dessas coisas. Sim, sou mais do sexo hardcore do que do fofinho, mas cenas kinky sado-maso... epá, não, lamento, não é para mim. Façam o que quiserem se gostarem dessas merdas, mas não comigo. Seja como for, uma vez fomos foder naquela pensão onde tu e eu fomos montes de vezes - que, se calhar, até nem foram tantas vezes assim - e fomos para um quarto onde tu e eu tínhamos estado, numa daquelas sessões de foda que nós tínhamos, e de algum modo senti que não o terias feito com outra pessoa que não eu. E não sei o que me levou a pensar nisso, foi apenas uma sensação. Caramba, o que fodemos ali, tu e eu. Trocaria de bom grado tudo o que veio depois por mais um momento contigo. Será que alguma vez imaginámos que a última vez que fodemos... seria mesmo a última vez?



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Um dedo ao olhar, ao olhar que te amo

O pior desta coisa toda é que quanto mais escrevo sobre ti, mais penso em ti, mais memórias me vêm á cabeça. Sabes, existe um Gonçalo antes de ti, um Gonçalo do qual não me orgulho, e que não voltei a ser. Era o Gonçalo que tinha uma dificuldade extrema em ser fiel fosse a quem fosse, e isso levou-me a provocar uma dor imensa a alguém que em tempos amei. E dei por mim a pensar em uma das muitas alminhas com quem me envolvi nessa altura, alguém em quem já não pensava há muito tempo. Quero dizer até que quase não me lembrava dela, e não estaria longe da verdade. Foi vasto o rasto de merda que andei a fazer, e nenhuma delas valeu a pena a miséria que causei. É uma mancha na minha alma que nunca me livrarei.
Mas a Ana Palma... que miúda estranha. No bom sentido, claro. Não me lembro já como a terei conhecido, mas imagino que foi numa nas minhas noites de som no bairro. Eu sei que ela era amiga de uma outra moça que conhecia através de um dos meus primeiros blogs, mas seja como for não estive com ela mais que um par de vezes. A primeira terá sido quando a conheci - lembro-me de depois estarmos aos beijos no Cais do Sodré. Depois fui uma vez ter com ela a Santarém, onde ela morava, e no fim acabámos em casa dela. Ou melhor, na casa dos pais dela, onde ela vivia com a família. E isto foi super bizarro para mim, deixou-me altamente desconfortável, e não sei se por isso, mas o sexo foi relativamente merdoso. Honestamente, dessa litania de corpos diria que não mais que umas duas pessoas fizeram o click comigo nesse campo. Mas com a Ana Palma não foi bom, e quando de manhã acordámos e ela me disse para descermos - era numa moradia em que viviam, e o quarto dela era no piso de cima - para tomarmos o pequeno almoço na cozinha, garanto que fiquei mortificado quando dei de caras com a família toda. Santo Cristo, não havia buraco algum onde me pudesse enfiar... fui cordial o suficiente para que tudo aquilo passasse o mais rápido possível, só queria meter-me a caminho de casa o quanto antes.
E que tem isto de relevante, perguntas tu? Porque esta moça era parecida contigo, e foi o pensar em ti que me levou a pensar nela. Eu estava a pensar o quanto gostava de foder contigo, e dei por mim a pensar que não houve assim tantas pessoas com quem tenha estado que a) o quisesse fazer mais que uma vez e que b) tenha sido bom sequer. A verdade é que muito do sexo que tive foi mau, e ao tentar-me lembrar de pessoas que me tenham dado uma boa experiência, apenas me vieram uma torrente de pessoas que preferia nunca ter conhecido, quanto mais ter fodido com elas. 
Não me recordo se foi na primeira vez que tivemos sexo que te disse que não sabia fazer amor, apenas sabia foder. A cena do 'fazer amor' sempre teve uma conotação aborrecida para mim, pensava que era uma cena com velinhas e olhos nos olhos, e um tipo em cima da mulher a penetrá-la lentamente, enquanto ela exclama 'oh!' com cada lenta estocada. Talvez por isso nunca tenha feito amor, excepto por uma única ocasião. Também essa nossa primeira vez não foi foder - não ainda. Se calhar foi nessa vez que te disse tudo aquilo que gostava de fazer, que era exactamente aquilo que não gostavas, mas que depois passámos a fazer todos os dias. Outra coisa que de vez em quando me lembro foi teres-me dito que durante o sexo não havia 'amo-te' para ninguém - e raios, tantas vezes o quis dizer. Enfim, tive de me contentar com dizer que te amo em todos os outros contextos. 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

O oceano numa concha

Obviamente que não é apenas o sexo contigo que sinto falta, Sofia. É tudo o resto, é tudo o que tivemos e aquilo que não tivemos - e nunca teremos. Claro que não é apenas o sexo. 
E a coisa boa de aqui estar a escrever, sabendo que nunca lerás o que aqui escrevo é o facto de poder ser tão directo quanto eu quiser. Que mal há em ter saudades tuas? De ter saudades de foder contigo? Não tem mal algum , e embora anseie por estar dentro de ti, e de te ter aos meus joelhos a engolir-me, os teus olhos fixados nos meus enquanto sorves todo o prazer que incessantemente me deste... até não são estas as coisas que sinto mais falta. Não, isto é apenas uma faceta de um prisma multi-facetado que foi o nosso tempo juntos. E não há apenas saudades, não. Também há arrependimentos. Não pelo que foi, ou pelo que tivemos, mas sim por tudo o que ficou por fazer. Ficaram histórias por contar, ficaram sítios por conhecer. Também nós nos ficamos por conhecer, conhecermo-nos um ao outro de um maneira mais profunda, de termos aberto realmente as nossas almas um ao outro. Da minha parte, a minha ingenuidade levou-me a pensar que teríamos tempo para isso. Que teríamos todo o tempo do mundo. Não tivemos. Tivemos o que tivemos, e foi tão bom. Foram os melhores dias da minha vida.
As histórias que ficaram por contar... Sofia, foram tantas. Se calhar nunca te falei do Valter. Menciono-o agora porque sonhei com ele recentemente. Foi o meu primeiro grande amigo, tinha eu uns 13 anos. Ele é mais velho que eu 3 anos, por isso tinha a mesma idade que o meu irmão, e quando o conheci, conheci também o seu irmão, o Vilson. Eles estavam sempre, sempre á luta um com o outro, especialmente porque não só o Valter era feio como um raio - caramba, era mesmo, embora o adorasse e prezasse a nossa amizade, tenho que dizer que é dos tipos mais feios que conheci - o irmão dele era um puto todo giraço, tipo o Joseph Gordon-Levitt quando era puto e entrava naquela série de TV '3rd rock from the sun', e o Valter morria de cíumes dele. Ele era o mais novo de todos nós, por isso se nós, em boa verdade, ainda éramos putos, ele era mesmo muito puto ainda. 
Custou-me muito ter perdido a amizade do Valter, e embora ainda tivesse tentado ver se conseguíamos reatar essa amizade, ele nunca cedeu. E a verdade é que não se perde só uma amizade... a do Vilson também foi, e perdi a relação que tinha com a família dele. É um facto que amigos bons são coisas raras. Bem, pelo menos para mim são. Mas voltando ao sonho, não me recordo já o que terei sonhado com o Valter, mas sei que a dada altura eu estava tipo no Cais do Sodré a falar com o Vilson, e já meio com os copos. ele estava muito elogioso para comigo, dizendo-me o quão bonito ele achava que eu era, e eu dizia-lhe que não, que o tipo bonito era ele. Isto lá continuou durante algum tempo até nos termos despedido, e cada um foi para o seu canto.
É engraçado, mas de há muito para cá que penso muito mais no Vilson no que no Valter. O Vilson sempre me deu a impressão que se iria tornar num homem bom e íntegro, ao passo que o Valter sempre carregou uma certa bílis com ele, e nem a saída da adolescência o deixou menos feio. Olha, tinha no entanto atributos físicos que eu nunca tive, e volta e meio quando o via ia sempre acompanhado por uma gótica boazona. Ia dizer que não os vejo já muitos anos, mas a verdade é que não falo com eles há muitos anos. Vi-os aos dois em ocasiões separadas, mas optei por não falar com eles. O Valter vi-o num restaurante, ele estava com um grupo de pessoas, e eu estava acompanhado por uma moça chamada Raquel. Houve um breve olhar entre nós, um olhar de reconhecimento, mas não passou disso. Haverá sempre a mágoa dessa amizade perdida. 
Já o Vilson vi-o numa carruagem de comboio. Estava com um grupo de míudas que olhavam para ele com uma adoração tremenda, e estava lá também o avô dele. Se bem me recordo, ou vinham de ou iam para um jogo do Benfica na Luz. Ainda considerei ir lá cumprimentá-lo, mas sabes, já estava um caco na altura, e se calhar não me ia reconhecer - ou pior, iria olhar para mim com pena nos olhos - e olha, preferi não o incomodar. Mas sempre gostei deles, ter tido a amizade deles numa fase muito complicada para mim e para a minha família, foi algo que será sempre para mim muito importante.
É estranho, este exercício. Porque eu sei perfeitamente que nunca mais iremos falar, e sempre foi das coisas que mais senti falta nestes anos todos. Que ainda sinto falta. Quis tanto falar contigo, sabes? Ainda quero. Mas terá de ser assim, finalmente me resignei a uma finalidade que dura há mais de uma década. Caramba, que falta me fazes.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Os dias vão sem te levar

Quando decidi começar a escrever aqui, fi-lo sabendo que não o iria fazer todos os dias. Fazer um post diário, como fiz no outro o ano passado, é algo que não queria - de todo - repetir. Mas queria - e quero - escrever com alguma regularidade. Não me vou impor nada, todavia. Sempre que sentir que tenho algo válido para dizer, virei aqui. 
Eu sei que nestes primeiros posts acabei por escrever de uma forma mais… vá… brejeira, sobre sexo, mas que se foda - sempre fui directo nestas coisas. Todos sabemos que palavras vamos acabar por usar, porquê preâmbulos e puritanismos da tanga? Não, lamento. Quando falar sobre sexo, serei sempre assim. Mas relativamente a este ponto, não deixa de haver uma correlação entre o que escrevo e o que bebo. Não necessito do álcool para me desinibir, de modo algum, mas sei que me leva a pensar em coisas que normalmente… nem por isso penso.
Sendo brutalmente honesto, não penso em sexo com tanta frequência e tanto afinco quanto isso. Desde que fodi com a Carina pela última vez que não sinto um desejo avassalador pelo corpo de alguém. Não significa isto que não o deseje, nem que não sinta falta, mas tenho vivido bem sem isso. E até me dei a um certo luxo de recusar a possibilidade de ter companhia - possivelmente até uma relação - há um par de anos atrás. As janelas de oportunidade abriram-se nesse sentido, e bastava ter dado um passo em frente. Não quis. Não achei que fosse a coisa certa a fazer, não achei que fosse ser bom. Na altura não estava certo se saberia exactamente o porquê, mas estes últimos meses fizeram-me perceber justamente o porquê.
Na altura em que ainda usava intensamente as redes sociais, de vez em quando falava com uma ex minha, a Eunice. Que paixão tive por ela, isto quando a conheci há uns 20 anos atrás, e pensei durante anos que ela era a minha mulher ideal. Andámos a flirtar durante anos, mas o timing nunca foi o certo. Até o dia em que aconteceu ser o timing certo, e quando nos conhecemos… foi uma desilusão. Ouve, ela é uma míuda belíssima, com um par de mamas descomunal, e é maravilhosa na cama. Foi com ela a única pessoa com quem, e do nada, de um momento para o outro, estávamos a foder a um canto qualquer numa rua, por vezes durante o dia, ás vezes até em espaços públicos. Mas não passava disso para mim, a paixão que julgava nutrir por ela não estava lá, embora eu soubesse que ela estava caída por mim. Não é para me vangloriar, é um facto apenas - ela disse-mo muitas vezes. Mas ao menos mantivemos uma relação de amizade depois disso, e quando falava com ela nestes últimos anos e lhe dizia que já não fodia há anos… ela não conseguia entender como é que eu era capaz. Dizia-me ela que seria incapaz de o fazer, e bem sei o quão saudável aquela libido é. E eu acho que nunca lhe consegui oferecer uma explicação que fosse plausível, pelo menos, sei lá… que fizesse sentido? Não sei. Como é que explica a alguém que não se pensa em sexo? E atenção, não sou assexual, longe disso… para mim, como me vim a aperceber nestes últimos meses, é algo inteiramente diferente. Não é que eu não queira foder, não é que eu não pense em foder… porque quero, e porque penso, mas fui sempre demasiado covarde para admitir a verdade. Eu quero foder contigo, Sofia, eu quero a tua cona, e a tua boca, e o teu cú, e sabes porquê? Porque tu - tu - TU! - foste e serás a única pessoa para mim. Estar dentro de ti fazia-me sentir em casa - tu eras a minha casa, o teu corpo e o meu eram uma alquimia de carne e prazer e amor. E a verdade é que estas coisas acontecem apenas uma vez - se tivermos muita sorte - na nossa vida.
Sabes, estou aqui deitado no meu quarto, na cama onde fodemos tantas vezes, e penso em ti. Lembras-te quando sentavas essa tua cona na minha boca, a minha língua a entrar dentro de ti, tu tão molhada que escorrias pelo meu queixo abaixo? Que bem sabias. Sabias ao paraíso, eras para mim o néctar dos deuses. Quis beber de ti para sempre. Nunca deixei de o querer. Nunca deixarei. É-me impossível, é uma anátema á minha alma. Fomos feitos um para o outro. Infelizmente não foi é nesta vida. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Pelo tamanho das ondas conto não voltar

Olho para mim ao espelho e vejo-me cinzento. A minha expressão é cinzenta, o meu corpo é cinzento, a minha pila - pequena e mirrada - é cinzenta. Não sei se é da bebida, não sei se é da vida, não sei se é das escolhas que fiz...sou um tipo cinzento. Este corpo, gordo, inchado, distorcido, tão longe do corpo que em tempos tive. Tu não gostarias deste corpo, Sofia. Ninguém gostaria. E não faz mal, faz parte do processo de me sentir em paz comigo mesmo. É isto que tenho, é isto que sou, e sempre soube que era manifestamente insuficiente. O homem cinzento - é quem eu sou. Disforme, inadequado, cansado. Pff, eu sinto-me exausto de mim mesmo. Estou tão farto de ser eu. Tão, tão farto. Queres ser eu quando cá não estiver?
Sabes, hoje continuei a beber. Não demasiado - acho que descobri aquilo que é demasiado para mim, e embora de vez em quando me saiba bem passar esses limites, não o consigo fazer consistentemente já. E ainda bem. As vezes em que abusei a semana passada ainda estão a ter sequelas no meu corpo.
Penso em ti, sabes? É de todo impossível para mim não o fazer. Daqui de onde escrevo é o mesmo sítio onde fodemos pela primeira vez, nessa noite em que vindos de uma discoteca eu te disse que não sabia se gostavas de mim dessa maneira, e onde, já neste quarto, eu enfiei os meus dedos pela tua cona acima pela primeira vez, te disse que precisava de estar dentro de ti, e a tua resposta foi um 'sim' que para mim foi tudo.
É o terceiro post que aqui escrevo, e dou por mim a falar em foder contigo de novo. Não consigo explicar. Havia uma alquimia entre os nossos corpos que não voltei a sentir. Que não voltarei a sentir. Foi tudo tão bom. Foi tudo tão curto. Merecias que eu tivesse sido um homem á tua altura. Merecias melhor, e encontraste melhor. E eu viverei sempre com o amor que sinto por ti, Sofia, esteja aqui quanto tempo estiver. Não te consigo escapar. Não te consigo fugir. Amo-te mais do que a minha própria vida.

domingo, 2 de fevereiro de 2025

De um adeus que não se encontra

Hoje bebi. Não muito, não demasiado, mas bebi. E não soube bem… aliás, raramente sabe. Mas e daí não soube mal, e essas são sempre as piores vezes. São sempre as vezes que sei que no dia seguinte irei acordar completamente destruído. Mas hoje bebi não porque pensei em ti, Sofia, porque na realidade não pensei em ti, nem sequer sonhei contigo. Mas na noite anterior tinha sonhado que tinha morrido - não é a primeira vez que tal me acontece, mas desta vez foi tudo tão demasiado real. 

Sabes, nesta última década, caramba, mais que isso, mas nestes anos todos eu fui tantas vezes para a cama a rezar para não voltar a acordar. Rezava para que algo me levasse durante o sono e no meu âmago imaginava como seria a reacção da minha família quando me encontrassem morto na cama, e quem iria ao meu funeral. Tantas vezes pensei que havia tantas pessoas boas a serem levadas cedo demais por cancros e outras doenças, e eu todavia ia passando pelos pingos da chuva, e porquê eu? Meu deus, eu, que não faço aqui nada e que nem sirvo propósito algum nesta vida, porque raios eu continuo a viver?

No meu sonho tinha-me sido diagnosticado um cancro, e era algo maligno, inoperável, e tinha muito pouco tempo de vida. Dias, talvez menos que isso, e o meu sonho foi sobre os meus últimos  instantes aqui. Não sofri, não foi uma coisa protelada, e recordo-me vivamente do momento no meu sonho em que respirei pela última vez. O meu último fôlego foi um inaudível ’amo-te’. Eu não sei se foi para ti, ou se foi para tudo o que deixava para trás, de uma forma generalizada, mas é claro que no fundo, no fundo, terá sido sempre para ti. Eu digo - a mim mesmo - que te amo N vezes por dia. Não que precise de me convencer disso, nem porque pense que de alguma maneira o irás perceber, mas porque foram sempre as palavras mais bonitas e sentidas que alguma vez te disse, e sim - quando mo dizias enchias o meu coração com vida e luz. Vou continuar a beber, não fui forte e há pouco fui á rua e comprei mais álcool. Hoje terei bebido o suficiente para não tarda apagar por completo. Eu não quero pensar em ti hoje, não quero sequer sonhar contigo. Mas cá no fundo eu sei que aquilo que mais desejo é que me visites nos meus sonhos. Eu sempre adorei a tua voz, e embora eu saiba que tu não gostas dela - tal como eu não gosto da minha - quem me dera ouvir-te de novo. Quem me dera estar deitado contigo de novo, os nossos corpos nús, as minhas mãos nas tuas mamas, e tu a puxar o meu caralho para dentro de ti. Raios, pá, ainda és tu a pessoa que mais puxa por mim nesse campo. Fala comigo. Pede-me. Vem-te. És tudo o que eu quero. Serás sempre tudo o que eu quero.

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Treze outonos e uma víuva

Eu sei que fui eu que te pedi para me esqueceres. Eu sei que fui eu que te pedi para seguires em frente, e para me deixares de amar, para dares esse teu enorme amor a quem te ama e a quem o merece. Eu sei. Eu sei. Mas se tu soubesses o que me custou escrever essas palavras. Se conseguisses ver o que chorei quando as escrevi, todas as vezes. Se imaginasses a dor que senti sempre que te disse que havia alguém que te amava mais do que eu, quando eu sabia que era mentira - ninguém nunca te amará como eu. Mas eu tive de o fazer, eu tive de escrevê-lo, eu tive de mutilar a minha alma de novo, tive de esquartejar o meu coração uma vez mais. Eu disse-te que ia parar de beber. Mas a dor, ah a dor que eu sinto… ela só desaparece quando eu não penso em ti, e eu só não penso em ti quando não consigo pensar de todo.
Mas é pior a emenda que o soneto, porque depois sonho contigo, e foda-se, sonhar contigo é tão pior que pensar em ti. Há dias em que acordo e tenho o sabor da tua cona na minha boca, há dias em que acordo e ouço-te a pedires-me para te foder, e acordo com uma tesão por ti, um desejo sem fim, que me leva a pensar em todas aquelas fodas que demos, em todas as vezes que te sentavas em cima de mim, e saltavas para cima e baixo, e no fim estavas tu de joelhos á espera que me viesse na tua cara.
E estas merdas todas destroem-me. Pensar em ti. Sonhar contigo. Porque... porque ainda te amo, e sempre te amarei. Porque ainda te desejo - caralho, se te desejo, e se pudesse passar o resto dos meus dias a foder contigo, eu seria a pessoa mais feliz do mundo. Mas apenas seria, se tu o fosses também. E hoje, hoje depois do dia em que te foste embora da minha vida eu não sei se realmente alguma vez foste feliz comigo. Eu não sei mesmo se alguma vez me amaste. Mas eu entendo, Sofia, eu entendo. 
Quem me dera ter podido passar todos estes anos do teu lado. Quem me dera ter podido crescer do teu lado. Que tipo de pessoa, que tipo de homem teria eu sido? Havia em mim a promessa de alguém, mas essa promessa foi contigo. Não a roubaste de mim, entende. Eu desisti dela. Eu desisti de tanto. Eu desisti de quase tudo. Apenas não consigo desistir do amor que sinto por ti.