quinta-feira, 31 de julho de 2025

Um beijo subtil que ninguém vê

Hoje estou no ginásio a treinar, e depois de ver um vídeo no youtube, ia meter uma playlist qualquer a tocar para ouvir durante o resto do treino, mas nos breves momentos em que não tinha nada a sair dos airpods, ouvi um tipo a assobiar uma música que me parecia tremendamente familiar. Era algo alegre, com ritmo, algo que se calhar se teria ouvido numa série qualquer de televisão nos anos 80. Fiquei imediatamente com a música na cabeça, mas não estava a ver o que era. Ao sair do treino, e já a caminho de casa, eis o momento 'eureka'. Lembrei-me perfeitamente de onde conhecia a música -  e embora conhecesse a música de vários sítios - a memória mais forte é a de ser... raios, agora estou na dúvida, mas ou seria o teu toque do telemóvel, ou era o teu despertador, uma música dos Marretas. Tantas vezes ouvi aqueles breves segundos instrumentais da música, seguidos de um 'Mahna Mahna', que saíam do teu Blackberry 9300. Estás em todo o lado, e estarás sempre, porque o meu coração procura-te em todo o lado. Mesmo quando eu não estiver cá já, mesmo quando estiver noutro lugar, o sussurrar das árvores cantar-me-á o teu nome, todos os cabelos que vir serão os teus, e estarás sempre em qualquer reflexo que veja.

Fui ainda ás compras, depois, sempre a cantarolar a música. Estava... sei lá. Estava a sentir uma espécie de felicidade. Fui o caminho todo com um sorriso parvo nos lábios. Sentia-me leve. Quase como se quando chegasse a casa, por milagre, tu aqui estivesses e te fosse contar esta história. Quase como se tu depois te risses, e achasses engraçado eu ainda me lembrar, e depois me beijasses. Quase. Tenho fome, sabes? De ti. Do teu toque. Do teu beijo. Do teu corpo. Da tua voz. Da tua presença. Sinto essa fome desde o primeiro dia, e apenas me sentia saciado quando estava do teu lado. Vim a pensar nisso enquanto descia a rua em direcção a minha casa. Lembrei-me de um poema, que terei lido algures em tempos. Cheguei a casa e fiquei aqui até acabar o trabalho. Quando saí, fui até á varanda, e vi a noite cair. A mesma noite cai ao mesmo tempo sobre nós, mas vivemos em mundos diferentes. Num mundo, és tudo no que eu penso. Noutro, não sou sequer um pensamento para ti. Aceito a fome. Aceito não a saciar. Dói, eu sei, eu conheço bem essa dor, mas vivo com ela, e terei de viver sempre. Um dia em breve haverá milhares de quilómetros entre nós, e nunca mais nos veremos, mas irei ter sempre fome de ti. Sempre.


Tenho Fome da Tua Boca

Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,

e ando pelas ruas sem comer, calado,

não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta,

busco no dia o som líquido dos teus pés.


Estou faminto do teu riso saltitante,

das tuas mãos cor de furioso celeiro,

tenho fome da pálida pedra das tuas unhas,

quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.


Quero comer o raio queimado na tua formosura,

o nariz soberano do rosto altivo,

quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas

e faminto venho e vou farejando o crepúsculo à tua procura,
procurando o teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratue.

--Pablo Neruda

terça-feira, 29 de julho de 2025

Se sou uma coroa sem rei, se sou uma quebrada e aberta semente; Se regresso sem coisa alguma, então regresso com tudo o que preciso.

Ontem acho que já estava a dormir ainda antes do meu corpo cair na cama. Estava exausto. Não, mais que isso, estava... esvaziado. Como se quaisquer réstias de energia tivessem sido sugadas de mim. A minha cabeça desligou e caí num profundo sono. Não sei do que sonhei nessa noite, até certo ponto. Sonhei - e sem saber dizer que acontecimentos precederam isto -  que estávamos os dois deitados, aqui na minha cama. Tínhamos acabado de foder, e estávamos os dois naquela paz pós-coital, virados um para o outro. Ficámos ali durante largos minutos, sem nada dizer. Apenas a olhar um para o outro, como se já não nos víssemos há uma vida inteira. Eu tinha uma perna entre as tuas, uma mão passava pelo teu cabelo, e a outra ia percorrendo o teu corpo. Perguntas-me no que é que eu estava a pensar, e eu respondo com um pequeno sorriso. E perguntas de novo, e após alguns momentos de silêncio, eu respondi-te. 
'Estava a pensar quando é que me vais deixar de novo.', disse-te, suavemente, e tu parecias meio perdida com esta minha afirmação. 'Como assim?', perguntaste. E eu disse, 'Mais cedo ou mais tarde vais achar que cometeste um erro, e que não é aqui que tens de estar. Vais sentir que não é comigo com quem queres estar. E depois vou ter de te dizer adeus mais uma vez.' Chegaste-te mais perto de mim e disseste-me que desta vez seria para sempre. Que não me ias deixar mais. Colocas os teus braços á volta do meu pescoço, e dizes que estás a falar a sério. Sinto os teus seios de encontra o meu peito, as tuas mãos nas minhas costas. O meu coração e o teu batem como um. 'Desta vez é para sempre.', dizes, e beijas-me, e quando me beijas, eu fecho os olhos, e sonho.
Abro os olhos, acordo, e olho para a escuridão que permeia o meu quarto. Nem a um metro de mim, e provavelmente a meia altura do quarto, tive uma visita. Creio que em tempos escrevi sobre uma presença que se manifestava no meu quarto, no formato de uma esfera luminosa, meio translúcida, que por vezes emitia um som numa frequência tão baixa que apenas se conseguia ouvir no limiar da audição. Há muitos anos que não tinha esta visita, e durante uns momentos desejei que fosse a minha avó. Fiquei no escuro durante uns bons minutos, a olhar para a esfera. Levanto-me, e fico sentado na cama. Coloco os cotovelos nas pernas, afundo o rosto nas minhas mãos, ainda com o sabor do teu beijo nos lábios. Tento chorar, e o meu corpo faz uma espécie de choro seco, o corpo soluçava e entrava em espasmos como se estivesse a chorar, mas não sai lágrima alguma. As minhas lágrimas tornaram-se um mar, mas já não tenho mais lágrimas em mim. Estou nu, levanto-me e visto uns calções. Pego no telemóvel e vejo as horas : não estava a dormir há muito mais que duas horas. Vou até á varanda, e o frio da noite provoca em mim um choque térmico. Fico por ali uns minutos, olho para o céu, e penso que vivemos sob o mesmo o céu. Alguém desce a rua e faz demasiado barulho. Vejo-o a descer a rua, provavelmente com os copos, e quando o perco de vista volto a fixar os olhos no céu.
Vêm-se poucas estrelas, ao longe ouvem-se carros a passar, ouve-se o ruído da electricidade a passar pelos carris da estação de comboio. O frio fere-me a pele, sinto os mamilos rijos e doridos, e venho para dentro. Sento-me no sofá, e embora ainda sinta o frio, sinto que é um castigo que por alguma razão mereço. Sinto vontade de me destruir. De pegar numa lâmina e fazer incisões profundas na minha carne, de modo a sentir algo que doa mais que isto. Ou então de beber até apagar, mas prometi á minha avó quando me despedi dela que não o voltaria a fazer em casa dela.
Olho para o telemóvel, e leio as últimas mensagens que te enviei no início do ano. Escrevo uma mensagem. Uma simples mensagem. Nem que fosse para saberes que estou vivo. Um simples 'amo-te'. Escrevo-a e fico a olhar para o ecrã. Quase cedo. Apago as palavras. Digo a mim mesmo que não mereces que te incomode. Volto para a varanda, olho para o céu. É o mesmo céu sob o qual vivemos, mas para o qual nunca mais iremos olhar ao mesmo tempo. Algures lá em cima estão as Pleiades. Algures num infinito oceano de possibilidades tu escolheste ficar, algures fomos felizes. Quase imperceptível, sopro ao éter um 'amo-te' que nunca irás ouvir. Eu não quero mais sonhar contigo, Sofia. Mas só te posso ver nos meus sonhos.

domingo, 27 de julho de 2025

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja, olha-se para dentro e já pouco sobeja

Não é que seja um ritual que desenvolvi, mas especialmente nestas últimas duas semanas, tenho dado por mim a ir para a varanda de minha casa ao cair da noite. Por vezes puxo uma cadeira de baloiço para lá e fico lá sentado a apanhar a brisa fresca que começa a correr a essa hora, ás vezes fico apenas em pé, e fico a ver a noite cair. Vejo o céu mudar de cor lá em cima, á medida que o sol se põe, vejo o laranja do céu tornar-se num leve rosa, e depois num roxo que se aprofunda, até que por fim o negro da noite nos cobre. É a minha altura favorita do dia, mas é também o momento em que dou por mim no meu estado mais frágil. Estar na varanda não significa ver apenas a noite cair, significa ver as pessoas que vão passando, e - triste como os raios embora seja - eu dou por mim a observá-las. É claro que nestes momentos dou por mim a sentir os piores sentimentos que posso sentir, os de inveja. Vejo tantas pessoas, algumas lado a lado, outras de mãos dadas, algumas vão a sorrir á medida que vão lendo uma qualquer mensagem cheia de tontices, mas na verdade todas elas escolheram viver, em vez de ter uma mera existência. 
Farto-me, eventualmente, de ali estar e de ter este pensamentos. Outros vêm a tona. Penso que não gosto de viver aqui já. Talvez fruto da idade, talvez fruto do infindável cansaço que sinto na alma, mas cada vez tenho menos paciência para a cidade. Estes últimos anos tornaram-me quezilento com os meus vizinhos; em boa verdade, o novo-riquismo que assola esta vizinhança tem trazido para cá muitas pessoas que não têm maneiras algumas, que não têm noção na cara, e fiquei intolerante a todo o tipo de ruído que fazem. Queria tanto, tanto não morar aqui, mas morar algures onde á noite pudesse ficar sentado á porta de casa e á minha volta não haver nada senão o som da natureza, e a paz do silêncio da noite. Queria tanto poder deitar-me e olhar para um céu cheio de estrelas, e queria tanto que estivesses ao meu lado. Algures, não sei onde, mas não aqui, noutro lado, noutro lugar.
Também, com o tempo, acabo por afastar esses pensamentos. A dada altura tenho de começar a apagar o que tenho na cabeça, a preparar o reset mental, para o dia seguinte. Chego á cama exausto, todas as noites. É... e será sempre difícil não me lembrar do que era dormir agarrado a ti. Há noites em que estes pensamentos me deixam irrequieto, e nessas noites o sono nunca me deixa descansado. São as noites em que os fantasmas, e as dúvidas me consomem novamente. Penso se alguma vez realmente gostaste de mim, ou se alguma coisa que tenhamos feito te tenha sido relevante, e eu não consigo ficar certo de nada. Nunca se fica, quando se procura algo que não temos, nem mais teremos. Tanta incerteza, isto dilacera-me o coração, não conseguir saber nada. Estamos tão distantes um do outro, tão longe de tudo, e nada mudará isso. Fica a dúvida, a perda de confiança. O que terá sido um toque meu, ou o meu beijo para ti? Provavelmente nada, tudo foi melhor e te soube melhor. Dúvidas, questões, sono perdido, exaustão. Digo mais uma vez ao fantasma com quem durmo que te amo, e disso estou certo, sempre estarei.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Tanto foi perdido

Hoje de manhã, quando acordei, levantei o estore do quarto para deixar entrar a luz do dia, e reparei que lá fora, o dia estava cinzento. Peguei em mim e fui até á varanda para ir recolher alguma roupa que lá tinha deixado pendurada, e á medida que olho para o céu e vejo o dia grisalho, tristonho, lembrei-me de como em miúdo estes dias me deixavam a sentir-me profundamente traído. Nessa altura, em que o verão ainda era importante para mim, quando tinha destes dias de verão em que o céu ficava encoberto, e o dia ficava ventoso e mesmo com chuva, eu sentia-me como se me tivessem apunhalado nas costas. Lembrei-me então de um momento específico da minha pré-adolescência, quando de vez em quando íamos fazer uma quinzena de férias a Santa Cruz. Era demasiado puto para entender o conceito de micro-climas e coisas desse género, mas quando lá íamos não era de todo incomum apanharmos sempre uns dias assim, uma semana até, na pior das hipóteses. Talvez tenha sido na última vez que lá fomos, provavelmente no final dos anos 80, e nessa vez lembro-me que eu e o meu irmão costumávamos ir muitas vezes a um parque junto á casa onde ficávamos, e lá havia também um daqueles recintos desportivos onde se podia jogar á bola ou basket. Nisto travámos 'amizade' com um grupo de putos que moravam na zona, e havia nesse grupo uma miudinha que me irritava solenemente. Creio que talvez fosse irmã de um dos outros putos, creio que talvez fosse um ano ou dois mais velha que eu, mas deus sabe porquê - eu achava-a tão, mas tão chatinha.

Então uns dias antes da quinzena acabar, precisamente num desses períodos cinzentões, estava eu a deambular pelo centro de Santa Cruz, sem ter onde ir, ás voltas entre o café central, a praia da física, e ruelas pelas quais andava sem rumo, e encontrei-me com a tal miúda. E eis que vamos até ao parque os dois, e sentamo-nos a falar, e desta vez não a achei nada irritante. Não sei sobre o que teremos falado já, claro, mas lembro-me perfeitamente de algo que ela me disse então. Eu ter-lhe-ia dito que daqui a uns dias me ia embora, e ela perguntou-me se antes de eu ir, se queria curtir com ela. Ora, o pré-pubescente Gonçalo não conseguiria imaginar sequer que um dia ia estar com uma mulher, quanto mais que alguém quisesse curtir com ele. Mas eu disse que sim. E ela diz-me que não podia ser naquele momento, mas que nos encontraríamos naquele parque no fim da semana, antes de eu ir. E eu esperei pacientemente, e os dias continuaram frios e encobertos, e fui ao parque não sei quantas vezes, mas nunca a vi. Nunca mais a vi.

Era cedo ainda, não eram nove da manhã ainda, o que para mim é cedo. Considerando os meus horários, é raro levantar-me mais cedo que isso. Fiquei sentado no sofá da sala, a pensar nestes dias cinzentos que hoje em dia tanto aprecio. Por uns momentos, a minha cabeça viajou no tempo e no espaço - na realidade para um momento que não seria muito distante no tempo do de Santa Cruz, terá sido no início dos anos 90 - e eu estava sentado na mesma sala onde me sentei hoje de manhã, e estava a ler um jornal. Eu queria dizer que era um semanário que antes existia que era o 'Sete', que era talvez o único jornal que de vez em quando tinha rubricas sobre banda desenhada, além de cinema, televisão, música, e tanto mais. Mas se calhar não era, talvez tenha sido no 'Público', que a minha mãe comprava na altura, mas seja onde for, li um poema - traduzido para Português - que já conhecia sobejamente o seu original. Algures por casa havia uma cópia de um livro chamado 'The Golden Treasury', uma antologia compilada pelo crítico, poeta e antologista Francis Palgrave, e eu devorei esse livro vezes sem conta. E o meu poema favorito de sempre é nem mais que um dos que aparece nessa antologia : 'When you are old', the W.B. Yeats, mas algo nessa tradução moveu-me tremendamente. E não me consigo lembrar de quem é o raio da tradução. A minha cabeça diz-me Jorge de Sena, mas depois questiono-me se não terá sido o Miguel Esteves Cardoso, mas a verdade é que não encontro evidência alguma de que algum deles tenha traduzido o poema, nem eu me consigo lembrar de algo específico da tradução que me facilitasse a vida ao pesquisá-lo. Hoje, sentado ao computador, li deus sabe quantas traduções. Umas boas, outras meramente capazes. De todas as que li, talvez esta, talvez esta seja a melhor :

Quando Fores Velha

'Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.'

Tanto foi perdido. Podia ter havido um ou mais poemas, mas não houve. Poderia ter havido tanta coisa, mas nem a um verão tivemos direito. Ás vezes dói-me saber isto. Apetece-me falar contigo, queria poder ligar-te e  perguntar-te se estás bem, se és feliz. Mas nem amigos podemos ser. O que é um mero verão comparado com isso?

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Sonho de uma noite de verão

Apenas estive dentro de outros dois prédios na rua em que vivo : um, o prédio imediatamente ao lado do meu, entrei lá não mais do que um par de vezes há décadas atrás, porque tive um colega que lá morava. O outro, mais acima na rua, entre duas pastelarias conhecidas na zona, era onde na fase inicial da minha adolescência a minha avó me levava á manicure. Porque eu sempre roí as unhas, e ela sempre tentou fazer com que eu parasse. Tantas vezes ela me disse que se eu parasse de roer as unhas ela me dava cinco mil escudos para eu comprar revistas de banda desenhada… mas a dada altura ela decidiu que eu precisava era de um incentivo, e começaram as minhas idas á manicure, logo de manhã cedo. Nunca foi algo que tivesse apreciado de grande maneira, todo aquele ritual deixava-me impaciente, e eu sabia que ia acabar por roer as unhas de seguida. Mas nessa casa moravam, além da senhora da manicure, também as filhas dela, que já eram jovens mulheres, e amiúde as vi em roupa interior. Bem sei que para elas eu pareceria não mais que um puto parvo, mas sempre ajudava a ganhar algum ânimo para as minhas sessões de manicure, a ideia de ver um rabiosque ou umas mamocas  - que nunca vi, na realidade.

Neste momento não sei ainda se poderemos ficar nesta casa, o senhorio exigiu a entrega da casa, mas já temos apoio legal nesse sentido. Lá para setembro, talvez, teremos uma ideia mais concreta do que vai acontecer. Talvez por isso tenha sonhado, nesta noite que passou, que já não morava aqui. O sonho passava-se algures num futuro próximo. Teriam passado alguns anos, talvez três ou quatro, não mais que isso. Eu estava a regressar de um sítio qualquer, talvez de fora do pais, onde tinha estado a viver. Quando regresso, descubro que já não moramos nesta casa. Talvez por um encontro fortuito na rua com alguém que me conhecia, descubro que a minha mãe está a morar precisamente na tal casa onde eu ia fazer a manicure. Dirijo-me para lá, toco á porta, e passados uns momentos a minha mãe abre-me a porta. Falamos um pouco, e eu pergunto-lhe se ela tem um sítio onde eu possa dormir umas horas; tinha vindo de viagem, e estava cansado. Ela diz-me que tem um quarto para mim, se eu quiser ficar lá em casa. Eu digo que não sei, que não conseguia pensar nisso. Não conseguia pensar em nada. Ela pede-me para entrar, e a casa é surpreendentemente grande por dentro, muito maior do que aparentaria ser. Ela leva-me para um quarto e diz-me que posso dormir lá. É o mesmo quarto onde a minha avó dormia aqui em casa, se bem que com uma disposição diferente. Há uma cama enorme encostada á parede que tem a porta do quarto, e eu caio na cama e adormeço de imediato.

Acordo a dada altura, sentia-me preso, apertado, como se não tivesse espaço para me mexer. Levanto a cabeça, e na penumbra vejo que o meu pai está sentado na cama, de costas de contra a parede, e com as pernas dobradas sobre o meu corpo. Mas ele parece diferente, certamente maior do que me lembro dele ser. Seja como for, a minha exaustão é mais forte que eu e adormeço de novo, mas não sem antes me aperceber que está mais alguém deitado comigo na cama : é uma rapariga, ainda nova, talvez com os seus vinte e poucos anos, muito, muito bonita. O sono leva-me, até que finalmente desperto, e não está ninguém na cama comigo. Nem o meu pai, nem a rapariga. Á medida que os sentidos começam a apurar, sinto um cheiro agradável no ar, e á distância, ouço uma melodia bonita. Levanto-me, nem sequer sei que horas são, e reparo que me tinha deitado com a roupa com que tinha chegado. Começo a andar pela casa, á procura da voz que preenchia o ar com canções, e aqui e ali vejo a minha mãe, mas ela não me diz nada,  e tem um ar um pouco estranho. Como se tivesse algo para me contar e não soubesse como. Chego á cozinha, e a moça está a preparar o seu pequeno almoço. O cheiro de café acabado de fazer, e de pão fresco, fazem o meu estômago fazer barulhos esquisitos, e aí ela repara que eu estou na cozinha com ela.

Ela é tão, tão bonita, mas ela parece-me familiar. Não faço ideia de onde, mas sei que já a vi antes. Alta, talvez até mais alta que eu, e esguia. Cabelo preto, muito, muito preto, e comprido. Veste-se toda de preto, e eu consigo ver que ela não usa soutien. O top dela é muito justo, e o seu pequeno peito pede-me o olhar. Escolho olhar para o dia de ontem, no entanto. Sento-me numa bancada central da cozinha, enquanto não penso em nada. Abstraio-me de tudo. Ela pergunta-me qualquer coisa, mas eu não percebo o quê. Ela volta a perguntar, ‘Queres café?’, e a proximidade dela destrói-me por completo. Eu não sei a que é o céu cheira, mas não devia cheirar tão bem quanto ela. Eu digo que sim, e ela traz-me uma caneca cheia de café, tipo aqueles que se bebem em diners americanos. Ela continua a falar comigo, mas fá-lo com um á vontade que me desconcerta. Parece que ela me conhece há anos e anos. Vou bebendo do café, e a cabeça começa a engrenar. Penso na noite anterior, no meu pai sentado em cima da cama, dela a dormir ao meu lado.

‘Olha’, digo eu, e por esta altura estava a mordiscar numa fatia de pão, ‘mas o que é que o meu pai estava a fazer a dormir na minha cama?’, e ela responde, ‘Não era o teu pai. Era o meu tio.’ ‘O teu tio?’, pergunto eu como se não tivesse ouvido á primeira. ‘Sim, o meu tio. O irmão do marido da tua mãe.’, diz ela. Eu tento não cuspir a boca cheia de café que tinha quando ela me diz isso, e digo-lhe, ‘Desculpa lá?’, e ela diz-me que sim, que a minha mãe se tinha casado com o pai dela. ‘E onde está o teu pai?, eu pergunto-lhe. Ela encolhe os ombros, diz ‘A trabalhar, mas volta mais tarde. Vais conhecê-lo mais tarde.’, mas eu nem sequer sei ainda se ia lá ficar mais tempo naquela casa. Talvez estivesse de partida para outro sítio, para outro lugar. Nisto reparo numa fotografia da moça, abraçada a um rapaz, e eu pergunto-lhe ‘És tu e o teu namorado?’, e ela diz que sim. Eles parecem felizes. Ela pergunta-me se já acabei de comer, e eu aceno que sim com a cabeça. ‘Então vá, anda comigo para me ajudares a fazer uma coisa.’ Sem ter grande escolha, ela pega na minha mão e leva-me para as traseiras da casa dela, e essas traseiras eram as traseiras do prédio onde estava o colégio onde eu estudei na terceira classe e no sexto ano. Deus sabe o que foi que lá fomos fazer, mas ela esteve sempre fisicamente muito perto de mim. A dada altura ela estava não próxima de mim que eu sentia os mamilos dela de contra mim. Parámos um a frente do outro, virados um para o outro, e ela tão próxima de mim que conseguia sentir a respiração dela na minha pele. Os nossos rostos aproximam-se, os nossos lábios também, mas nunca nos beijamos, afastamo-nos sempre. Eu pergunto-lhe o que é que ela está fazer. E ela pergunta-me o que é que eu acho que ela está a fazer. Eu peço-lhe para ela parar. Porquê, pergunta ela. Porque senão acabamos a foder a um canto. É mau, pergunta ela. Tens namorado, eu não me meto nessas cenas, digo eu. Vá lá, diz ela. E eu quero, meu deus como eu quero, eu quero… mas não posso.

Volto para dentro da casa, talvez tivesse lá uma mochila, ou um saco de viagem. Pego nas minhas coisas, e digo que me vou embora. ‘Então, não ficas?’, pergunta a minha mãe. Eu olho para a bela moça, e penso que é melhor não. Respondo com um sorriso. Apenas precisava de dormir algumas horas, digo para a reconfortar. Estou já á porta do prédio, bem no início da minha rua, quando decido olhar em direcção ao prédio onde morei toda a minha vida, practicamente. Tanto as janelas do meu andar como o do andar ao lado estão escancaradas. Já ninguém mora lá que fosse do meu tempo. Vejo pessoas á janela, e ouço sons festivos. Um fino nevoeiro cobre o dia, mas naquele lugar tão específico onde passei tanto tempo da minha vida, parecia brilhar um sol.

Ajeito o casaco, e ponho a mochila ás costas. Despeço-me da minha mãe, e olho uma última vez para a moça, cujo nome nunca cheguei a saber. Começo a descer a rua, sinto-me como se fosse uma espécie de Orfeu. Não posso olhar para trás. Não posso olhar para trás. Porque se olhar para trás, então tudo está perdido.

terça-feira, 1 de julho de 2025

Quando a noite o envolveu, ele adormeceu, e sonhou com ela

O meu sono, que há muitos anos é errático e raramente algo que me proporciona real descanso, ficou ainda mais quebrado nestes últimos meses, e como consequência disso, os meus sonhos têm sido frequentemente bizarros, pós-apocalípticos por vezes, inquietos, vívidos. O apagão - bem como a morte da minha avó - têm tornado as minhas noite mais complicadas. Ainda - e talvez para sempre - me recordo vividamente do que foram as duas semanas antes da minha avó ter partido, essas noites em que quase não dormia, e um cansaço extremo se apoderava mim, noites em que tive de aprender a isolar qualquer outro som para ver se ouvia qualquer tentativa da minha avó chamar-me, e mesmo assim sinto que não o consegui demasiadas vezes. Não me consigo lembrar de sonho algum desses dias, nem sequer sinto que tenha dormido o suficiente para entrar em sono profundo. Mas essas noites assombram-me, e ainda dou por mim a acordar com um sentimento de sofreguidão, a perguntar-me se a minha avó me estava a chamar. O meu sono ficou decididamente mais quebrado desde então. Acordo N vezes durante a noite. Não é só o acordar para ir á casa de banho, é o acordar porque... sei lá porquê. Porque por vezes os sonhos inquietam-me, porque por vezes um ruído qualquer externo me desperta. Normalmente, viro-me para o lado e depois consigo adormecer logo de seguida. Mas nem sempre. Por vezes acordo, e não consigo pegar no sono nem por nada. Nessas alturas, levanto-me da cama, e sento-me na minha cadeira, por vezes durante uma hora ou duas, por vezes mais. Deixo-me ficar no escuro, no silêncio, na paz da madrugada. Há sonhos mais... mais viscerais, mas vívidos. E esses requerem que eu os consiga digerir.

Ainda antes da minha avó, já notava que desde o apagão que sonho contigo mais frequentemente. Muitas vezes és uma pessoa que eu vejo algures no sonho, ás vezes reconhecemo-nos, ás vezes não. Outras vezes os sonhos são continuações, por assim dizer, de coisas que aconteceram na realidade. Há uma semana ou duas atrás sonhei que por alguma razão tínhamos ido a uma praia, e nem creio que fosse durante o verão : o dia estava coberto, e cinzento, mas todavia a praia estava bem composta, via-se montes de pessoas em fato de banho, embora nós estivéssemos vestidos normalmente. Todo o sonho se passou em silêncio; andámos e andámos durante horas e não dissemos uma palavra. Embora estivéssemos lado a lado, era como se entre nós houvesse uma distância que era demasiado grande para ser para ser cruzada. Lembras-te da última vez que estivemos juntos? No cinema? Foi exactamente assim, no sonho. Bem, ao fim de muito andarmos, chegamos a uma parte da praia cheia de raparigas novinhas, e foi nesse momento que me apercebi que ias ter com alguém, porque continuaste a andar, e eu fiquei parado. Vi-te a avançar pela praia fora, até subires uma inclinação onde uma de série de moças estavam deitadas, e depois perdi-te de vista.

Estes sonhos... que sendo meio abstractos, têm fundamento em coisas reais, nem me incomodam muito. Quando os tenho não me deixam a sentir qualquer coisa de negativo. Lembro-me deles, penso neles, mas não são os que me afectam. Não, esses são como os da noite passada. Então, esta noite que passou sonhei com o apagão, mas desta vez tinha sido algo exponencialmente mais catastrófico : por alguma razão, o evento fez com que, globalmente, tivéssemos perdido a capacidade de produzir electricidade, e não havia qualquer alternativa a isso. Mais do que isso, foi como se o mero conceito de electricidade alguma vez ter existido tivesse sido apagado das nossas cabeças. Nada funcionava que dependesse de electricidade, não havia televisão, não havia rádio, não haviam comunicações, nada. Havia apenas luz natural durante o dia, enquanto houvesse sol, mas depois á noite caía a escuridão absoluta, e as pessoas tinham de se governar pela luz de velas. E por alguma razão esquisita, as pessoas tinham-se perdido umas das outras. O que quero com isto dizer é que as ruas estavam cheias de pessoas á procura de outras pessoas, mas apenas se encontravam se ambas as pessoas estivessem á procura uma da outra no mesmo momento, e não significava sequer que as pessoas pudessem estar perto uma das outras. Nas ruas via-se magotes de pessoas a chamar exasperadamente por alguém que ninguém sabia quem era, e, perto da alameda, estava eu a descer a caminho de deus sabe onde, perdido no ruído dos nomes que eram gritados em desespero de causa, eu parei e olhei para o outro lado da rua, onde estava uma pessoa que não estava a chamar nome algum. Tal como eu, éramos as únicas duas almas vivas - pelo menos naquele momento do tempo e do espaço - que não clamavam por alguém. Quando me viste, fixaste os teus olhos nos meus, e eu nos teus, e fui até ti. Atravessei a rua, sem carros, sem transportes públicos, mas cheia, cheia de pessoas. Começaste a andar, paralela a mim, do outro lado, enquanto ia navegando a multidão. Ao fim de uns minutos lá cheguei a ti, onde me esperavas, já perto de um daqueles segmentos relvados. Não foi preciso dizer nada, porque mal me aproximei de ti, já a nossa roupa estava a sair, e deixaste-te cair para cima da relva. Eu caio em cima de ti, e sinto-me a entrar em ti, e os teus braços á minha volta, e o cheiro do teu corpo misturado com o da relva, e as minhas mãos a agarrarem-te firmemente as tuas nádegas, a apertá-las enquanto entro e saio de ti, e te beijo, e me beijas, e o meu corpo escorre suor para cima do teu, corre pelo teu peito abaixo, e no meio daquela turba de almas perdidas, éramos os únicos que nos tínhamos encontrado, ali, deitados na relva, numa sinfonia de fodas e gemidos.

Acordo... e lembro-me. Mas lembro-me do quê? De imagens, e do fantasma de sensações. De coisas que já me parecem ter acontecido a outra pessoa, noutra vida, noutro lugar. Mas permanecem, durante uns momentos apenas, quando desperto, e a cabeça ainda está meio torpe de sono. Sinto os teus dedos na minha pele ainda, sinto ainda os teus lábios, e a tua fragrância. Por uns momentos, sinto como se ainda aqui estivesses. E depois... depois é como se fosse um qualquer filme, em que a tua essência espectral se torna em filamentos que perdem a tua forma, e se tornam numa sombra que se alonga, e parte lentamente da minha direcção. O fantasma dos teus dedos percorrem suavemente os meus, e partes, mais uma vez partes.

Sento-me na cama, sinto-me pesado, e cansado. Ninguém neste mundo acreditará do quanto preciso de uma boa noite de sono, em paz. E não as tenho há tanto, tanto tempo. Também elas foram contigo.