quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

E estas são apenas algumas das muitas coisas que eu não consigo sequer dizer em voz alta

Sabes que ás vezes dou por mim a pensar se tu e a Sílvia se dariam bem? Olha que não sei. Ela é uma miúda estranha, ou pelo menos era, e regra geral deixava as pessoas a sentirem-se desconfortáveis com a presença dela. Ela tinha uma aura de silêncio á volta dela que era muito difícil de penetrar, e quase ninguém conseguia mandar aquelas defesas abaixo o suficiente para se aproximar dela. Mas e daí talvez se dessem bem, certamente teriam coisas em comum. Eu menciono a Sílvia aqui com um propósito específico. Há uma lição que aprendi demasiado tarde na minha vida, e quando digo isto, acredita quando te digo que foi bem depois de ti, anos depois de ti. Eu bem sei que quando estivemos juntos eu falei nela várias vezes. Nunca o fiz com o intuito de te deixar desconfortável, nem sequer me passava pela cabeça que o estivesse a fazer. Sabes porquê? Porque toda a minha experiência anterior com outras pessoas teve sempre este elemento de me falarem de com quem estiveram, o que fizeram, essas cenas todas, e a mim nunca me incomodou o que as pessoas fizeram ou deixaram de fazer antes de estarem comigo. Por isso, pareceu-me normal que as pessoas o fizessem, e olha - foi o que eu fiz. Mas deveria ter entendido que hey, eu sou eu, e não sou os outros. Por não me incomodar a mim não significa que não possa incomodar outra pessoa. Mas eu genuinamente não sabia isso, e demorei anos até aprender a ficar com a boca calada. Uma coisa que tu e a Sílvia têm, inadvertidamente em comum, é algo que aconteceu da mesma maneira - de largo modo, vá - e isso foi a maneira como nos reencontrámos pela primeira vez. Tu e eu encontrámo-nos no sítio onde nos beijámos pela primeira vez, eu e ela no sítio onde nos conhecemos em pessoa pela primeira vez, e curiosamente, também por escolha dela.  
Eu cheguei a julgar - no meu pranto pós-Sílvia - que nunca mais iria amar alguém. O que aqueles cinco anos me drenaram... muito por culpa minha, admito. Eu nunca acreditei na nossa relação, não realmente, e uma das primeiras coisas que lhe disse foi que a nossa história iria acabar em lágrimas. Naturalmente, isto não inspirou muita confiança nela, e a que sobrou nós tratámos de a devastar. Sou culpado de muita coisa, sim, mas a culpa não foi só minha : também eu fui muito magoado ali. Repara : se pudesses ver lado a lado ambos estes reencontros, verias que no primeiro existe um alívio enorme quando me apercebi que o fantasma dela tinha ido, e que o amor que senti por ela tinha desaparecido de vez. E no nosso, no nosso... quando me sentei ao teu lado naquele banco... não foi o regresso de coisas que eu julgava ter enterrado profundamente dentro de mim; não, elas sempre estiveram lá. Foi olhar para ti e saber finalmente que em mim nada mudou em relação a ti, que o amor não só permaneceu, como cresceu ainda mais. E não é que estivesse em negação, longe disso. Apenas era algo que não me podia dar ao luxo de pensar. Sentia, claro que sentia, mas passei todos estes anos a pensar que nunca mais nos veríamos. Dentro do meu coração, sentia que nem sequer te lembravas de mim já.
É verdade quando digo que não sou mais que um padrão. Um padrão que de vez em quando até tem resultados positivos para quem passou pela minha vida. Repara que todas as pessoas que me foram realmente relevantes na minha vida - e por ordem cronológica a Dora, a Sílvia e tu - imediatamente a seguir a mim encontraram a pessoa que mudou as suas vidas, encontraram o amor da vida delas. E se apenas acabo por ser um trampolim para as pessoas encontrarem mais e melhor - o que, francamente, não é muito difícil - então não me queixo. Há destinos bem piores que este.

Hoje não está a ser um bom dia, meu amor. É daqueles dias em que sinto a tentação de adormecer o cérebro com álcool, mas não o vou fazer. Tenho saudades tuas. Tenho saudades de nós. Precisava de um abraço teu - um daqueles abraços fortes que dura uma vida. Precisava que me beijasses, e que o tempo parasse, e ficássemos os dois num momento perfeito, e que me dissesses que tudo ia ficar bem. Precisava de me deitar ao teu lado, e adormecer abraçado a ti, sabendo que de manhã ias estar ainda ali. Precisava de coisas que eu sei que nunca terei. Eu sei disso. Apenas me torturo revisitando dias que passaram há muito, mas que eu não esqueci. Que eu não consigo esquecer. Sabes, eu pensei mesmo que nunca me irias deixar. Isto de revisitar memórias é uma coisa fodida. Não me lembro só das coisas boas, ou do que tivemos, ou do que fodemos. Também acabo por me lembrar daquilo que me doeu, mas essa dor apenas apareceu quando foste. Houve uma vez naquele período imediatamente seguir á nossa separação em que ainda falávamos de vez em quando em que parecias tão zangada comigo, como se tudo o que eu te dissesse que incomodava. Foi aí que me comecei a aperceber que tinhas razão no que me tinhas dito, que tinha sido tudo uma ilusão. Não imaginas isto, mas o teu aniversário em 2013 foi um dos piores dias da minha vida. Saber-te com outra pessoa fez-me perceber o quão facilmente seguiste em frente, apercebi-me o quão facilmente substituível e esquecível eu era. A minha esperança morreu nesse dia.

Sem comentários:

Enviar um comentário