terça-feira, 29 de abril de 2025

(Amar-te-ei) até ao fim do mundo

É dia 31 de Dezembro de 2002, e eu estou na casa do Hugo na Avenida cinco de outubro, e estou a falar com ele sobre o fim da relação com a mãe do meu filho. Há muito que já não havia nada entre nós, e o nosso fim estava mais que escrito nas estrelas. Mas ainda assim... ainda assim custou. De certo modo, foi o fim do meu mundo tal como o conhecia. Estávamos os dois na varanda dele, de cerveja na mão, ainda antes do ano novo chegar, e eu recordo-me de um poema do T.S. Eliot chamado 'The Hollow Men', e digo-lhe a parte mais conhecida do mesmo : 

This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.

É dia 31 de Dezembro de 2012, e eu estou contigo numa casa que o Hugo e a namorada tinham alugado para virem passar a passagem de ano, e quando o ano acaba, e o novo entra, houve uma parte de mim que voltou a 2002, e se lembrou desse poema. Olhei para ti, o meu coração cheio de amor, e sorri. Para mim mesmo, pensei : 'This is not the way the world ends.'
Pelo contrário, cada vez mais estava certo que finalmente a minha vida tinha começado. O que iniciou com o teu beijo estender-se-ia para a vida toda.

Ontem, 28 de Abril de 2025, dei por mim a pensar se seria assim que o fim do mundo ia começar : um apagão gradual, seguido de um eventual clarão final que nos levaria a todos. E a única coisa que me passava pela cabeça era que nunca mais te iria ver. Que nunca mais iria ouvir a tua voz. Que nunca mais te iria dizer que te amo. O fim estava ao virar da esquina, pensei eu. 'This is the way the world ends', repeti vezes sem conta á medida que fui deixando sequer de comunicar com pessoas. Já me estava a flagelar por não te ter enviado uma última mensagem. 'Se é assim que o mundo acaba, quero dizer-te uma última vez que te amo mais que a minha própria vida', mas fui tarde demais. Não havia rede já. Estava sentado na sala á espera que a noite caísse, e com ela uma escuridão que seria desconhecida a grande parte de nós. Imaginava as ruas completamente vazias, escuras e silenciosas. O fim aproximava-se, e caí num sono febril. Foi desconfortável, o sono, quer fisicamente, quer psicologicamente. Dormi todo torto no sofá, os pés já bem para além do braço do sofá, o que me provocava alguma dor nos gémeos. Mas estava tão cansado, sabes? Quis mesmo deitar-me e acordar no além, completamente sem saber como o fim do mundo tinha acontecido. Sonhei que estava em Londres de novo - um sonho bizarro que teve como protagonistas pessoas que eu sei que nunca lá estiveram comigo, mas que neste sonho tínhamos toda uma história lá. Tipo o Paulo, que é o dono de um restaurante ao lado de minha casa, neste sonho ele morava lá, e eu estava-lhe a dizer que tinha de voltar para Portugal, mas seria durante uns meses apenas, e ele disse-me que quando eu voltasse ele conseguia-me arranjar onde ficar e talvez trabalho também. Mas estava de saída, e tinha de ir para o aeroporto, só que antes tive de me ir despedir de alguém - não me lembro quem - que tinha um monte de gatos, todos eles idênticos aos meus. Depois disso sei que me meti a caminho de um autocarro para o aeroporto, mas quando chego á estação onde deveria sair, não vejo aeroporto algum. Olho para o relógio e tenho pouco mais de uma hora para me meter no aeroporto e nem sequer sei onde fica. Nem sequer sei onde estou. Mas decido que tenho de me sentar um pouco, para entender melhor o que tenho de fazer a seguir. Vou em direcção á zona de restauração, e sento-me numa mesa. Estou perdido em pensamentos, nem sequer dou pelo facto de estares sentada ao meu lado. Eu digo 'ao meu lado' mas na realidade, embora estivéssemos quase lado a lado, foi como quando fomos ao cinema, lembras-te?, em que parecia que havia uma distância inultrapassável entre nós, um oceano de silêncio entre nós. Não sei quanto tempo demorei a perceber que eras tu, e nem sei bem se chegámos a falar. Estávamos sentado lado a lado, mas a olhar para a frente. Eu não consigo imaginar que espécie de pessoa eu teria de ser para ser merecedor do teu olhar, mesmo nos meus sonhos. Por alguma razão, pegaste no teu telemóvel, e começaste a ver vídeos pornográficos - clips curtos apenas - e tinhas o ecrã num ângulo em que eu conseguia ver o que se estava a passar, mais ao menos. Eram duas moças com um tipo, e não sei se eras tu ou não, embora no sonho pensasse que sim. Eu não conseguia - não queria - ver com mais detalhe porque sabia que me quebraria, e continuei a olhar em frente. Peguei num caderno que tinha e comecei a escrever-te uma carta, mas também o fiz num ângulo que sabia que ias ver o que estava a escrever, e deus sabe o que teria escrito. Os videos passam em loop, eu escrevo, tu olhas em frente, eu olho em frente. Acordo com um ruído ensurdecedor - não era a bomba atómica, mas sim o som que as colunas fazem sempre que a luz em casa vai abaixo, e depois volta. Levanto-me com o corpo dorido, torpe, luz por todo o lado, e vou até ao quarto desligar o amplificador para que as colunas deixem de fazer barulho. 

Não foi assim que o mundo começou a acabar, pensei eu. Nada mudou. Quer o mundo tivesse acabado quer não, nada mudou. Always stays the same. Nothing ever changes.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Como escavar um abismo

Tive um sonho contigo. Passava-se no futuro, num futuro não muito distante. Talvez uns 3 ou 4 anos no futuro. Já não falávamos... bem, já não falávamos desde a última vez que falámos. Enviei-te uma mensagem que dizia : 'Posso mostrar-te uma coisa?', não sabendo sequer se ias ler, quanto mais responder. Passados uns minutos respondes-me com um 'Sim', um curto e simples 'sim'. Logo de seguida envio-te uma imagem : sou eu, com uma criança ao colo, que teria uns dois anos ou perto disso. Eu estou diferente, mais velho, mais linhas nos rostos. Magro. Não, mais que isso... seco. Não sei onde foi tirada a fotografia, mas foi algures onde neva intensamente : tudo á nossa volta está coberto por um manto alvo. 
Escrevo na mensagem que tem a imagem, que a menina que está ao meu colo é a minha filha, e que ela me salvou a vida. Tu respondes com um smiley e perguntas como se chama ela. E eu disse-te que lhe dei o nome da pessoa que mais amei em toda a minha vida. Disse-te que se chamava Sophie. Respondeste-me novamente com um smiley, e não voltámos mais a falar.
Acordo de madrugada, ouço a chuva a cair lá fora. Está frio, e aconhego-me um pouco mais. Ouço ao longe o distante ruído de um trovão, mas não dei por nenhum relâmpago iluminar os céus. Não consigo voltar a dormir, e isso irrita-me. Sinto-me cansado, mas não consigo ficar na cama. Apetece-me falar contigo. Pego no telemóvel e quase cedo. Quase te mando uma mensagem. Quase te conto esta história. Dou por mim a abanar a cabeça, a negar esse gesto a mim mesmo. Não posso. És feliz sem mim, sem a minha presença na tua vida. Já me ensinei a não querer tanta coisa. Tanta mesmo. Mas não consigo ensinar-me a não pensar em ti. A não amar-te. E deveria ser fácil, não é? Se tu o conseguiste, porque não eu? É fácil, não é? Tão fácil quanto pedir ao sol para não queimar. É fácil.