terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

O oceano numa concha

Obviamente que não é apenas o sexo contigo que sinto falta, Sofia. É tudo o resto, é tudo o que tivemos e aquilo que não tivemos - e nunca teremos. Claro que não é apenas o sexo. 
E a coisa boa de aqui estar a escrever, sabendo que nunca lerás o que aqui escrevo é o facto de poder ser tão directo quanto eu quiser. Que mal há em ter saudades tuas? De ter saudades de foder contigo? Não tem mal algum , e embora anseie por estar dentro de ti, e de te ter aos meus joelhos a engolir-me, os teus olhos fixados nos meus enquanto sorves todo o prazer que incessantemente me deste... até não são estas as coisas que sinto mais falta. Não, isto é apenas uma faceta de um prisma multi-facetado que foi o nosso tempo juntos. E não há apenas saudades, não. Também há arrependimentos. Não pelo que foi, ou pelo que tivemos, mas sim por tudo o que ficou por fazer. Ficaram histórias por contar, ficaram sítios por conhecer. Também nós nos ficamos por conhecer, conhecermo-nos um ao outro de um maneira mais profunda, de termos aberto realmente as nossas almas um ao outro. Da minha parte, a minha ingenuidade levou-me a pensar que teríamos tempo para isso. Que teríamos todo o tempo do mundo. Não tivemos. Tivemos o que tivemos, e foi tão bom. Foram os melhores dias da minha vida.
As histórias que ficaram por contar... Sofia, foram tantas. Se calhar nunca te falei do Valter. Menciono-o agora porque sonhei com ele recentemente. Foi o meu primeiro grande amigo, tinha eu uns 13 anos. Ele é mais velho que eu 3 anos, por isso tinha a mesma idade que o meu irmão, e quando o conheci, conheci também o seu irmão, o Vilson. Eles estavam sempre, sempre á luta um com o outro, especialmente porque não só o Valter era feio como um raio - caramba, era mesmo, embora o adorasse e prezasse a nossa amizade, tenho que dizer que é dos tipos mais feios que conheci - o irmão dele era um puto todo giraço, tipo o Joseph Gordon-Levitt quando era puto e entrava naquela série de TV '3rd rock from the sun', e o Valter morria de cíumes dele. Ele era o mais novo de todos nós, por isso se nós, em boa verdade, ainda éramos putos, ele era mesmo muito puto ainda. 
Custou-me muito ter perdido a amizade do Valter, e embora ainda tivesse tentado ver se conseguíamos reatar essa amizade, ele nunca cedeu. E a verdade é que não se perde só uma amizade... a do Vilson também foi, e perdi a relação que tinha com a família dele. É um facto que amigos bons são coisas raras. Bem, pelo menos para mim são. Mas voltando ao sonho, não me recordo já o que terei sonhado com o Valter, mas sei que a dada altura eu estava tipo no Cais do Sodré a falar com o Vilson, e já meio com os copos. ele estava muito elogioso para comigo, dizendo-me o quão bonito ele achava que eu era, e eu dizia-lhe que não, que o tipo bonito era ele. Isto lá continuou durante algum tempo até nos termos despedido, e cada um foi para o seu canto.
É engraçado, mas de há muito para cá que penso muito mais no Vilson no que no Valter. O Vilson sempre me deu a impressão que se iria tornar num homem bom e íntegro, ao passo que o Valter sempre carregou uma certa bílis com ele, e nem a saída da adolescência o deixou menos feio. Olha, tinha no entanto atributos físicos que eu nunca tive, e volta e meio quando o via ia sempre acompanhado por uma gótica boazona. Ia dizer que não os vejo já muitos anos, mas a verdade é que não falo com eles há muitos anos. Vi-os aos dois em ocasiões separadas, mas optei por não falar com eles. O Valter vi-o num restaurante, ele estava com um grupo de pessoas, e eu estava acompanhado por uma moça chamada Raquel. Houve um breve olhar entre nós, um olhar de reconhecimento, mas não passou disso. Haverá sempre a mágoa dessa amizade perdida. 
Já o Vilson vi-o numa carruagem de comboio. Estava com um grupo de míudas que olhavam para ele com uma adoração tremenda, e estava lá também o avô dele. Se bem me recordo, ou vinham de ou iam para um jogo do Benfica na Luz. Ainda considerei ir lá cumprimentá-lo, mas sabes, já estava um caco na altura, e se calhar não me ia reconhecer - ou pior, iria olhar para mim com pena nos olhos - e olha, preferi não o incomodar. Mas sempre gostei deles, ter tido a amizade deles numa fase muito complicada para mim e para a minha família, foi algo que será sempre para mim muito importante.
É estranho, este exercício. Porque eu sei perfeitamente que nunca mais iremos falar, e sempre foi das coisas que mais senti falta nestes anos todos. Que ainda sinto falta. Quis tanto falar contigo, sabes? Ainda quero. Mas terá de ser assim, finalmente me resignei a uma finalidade que dura há mais de uma década. Caramba, que falta me fazes.

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