quinta-feira, 19 de junho de 2025

Amar e querer ficar

Há uma vida atrás... uma vida inteira antes de te conhecer, antes do Gonçalo sequer sonhar que existia a Sofia, eu criei o meu primeiro blog. Fechei-o por uma pirraça infantilóide, e de seguida criei outro. Nesse outro blog, seguia uma data de outros blogs - vários deles por razões que hoje nem consigo imaginar. Um deles, que eu até acho que era de alguém que eu conhecia pessoalmente, tinha o simpático nome 'Da janela do meu quarto vejo passar os eléctricos'. Da janela do meu quarto não vejo passar os eléctricos, até porque há décadas que os eléctricos não passam pelo Areeiro, e mesmo quando passavam, era mais acima da minha rua, na praça do Areeiro. Não, da janela do meu quarto eu vejo a minha rua. E, sem dúvida, é a mesma rua para o qual olhei incontáveis vezes, é a mesmíssima janela onde estive deus sabe quantas vezes em toda a minha vida. Mas pela primeira vez na minha vida... é a janela do meu quarto.

Mas o meu quarto actual, era parte da nossa sala de estar. No entanto, ela já tinha tido um configuração semelhante, há mais de trinta anos atrás. Quando viemos de Alenquer para cá, primeiramente ficámos onde era o meu quarto, eu, a minha mãe e a minha irmã. O meu irmão ficava no quarto pequeno que foi durante tantos anos a sala de costura da minha avó. Eventualmente, eu e o meu irmão ficámos os dois no meu antigo quarto, e a minha mãe e a minha irmã vieram para aqui onde estou, onde dormiam as duas num sofá cama. Agora é o meu quarto, e desta janela onde em míudo ficava a ver os relâmpagos com a minha avó, vejo as pessoas a passar, vejo o mundo a seguir em frente, indiferente á enorme ausência que a minha vida tem. 'Eppur si muove', dizia o Galileu. Mas eu nunca fui bom a seguir em frente. 

Era aqui a sala onde a minha avó via televisão, a mesma sala onde eu um dia, algures antes do verão de 2003, lhe disse que eu e a Dora nos tínhamos separado, e lhe perguntei se me podia mudar para cá. Ela disse que sim, claro, mas ficou tão triste - ela não compreendia, dizia que no tempo dela as pessoas ficavam juntas a vida toda. Eu não discuti, não disputei essa ideia que ela tinha. Nessa mesma sala, e na minha imaginação, num cenário muito semelhante ao outro, eu contei-lhe que me ia casar contigo, e pedi-lhe se podias vir para cá. Mas já não é essa sala, ela já não existe, e provavelmente não mais existirá. Tal como o meu antigo quarto, também ele já não existe. Aquele sítio onde fodemos tantas vezes, e passamos horas que me pareceram infinitas abraçados um ao outro, e onde nos beijámos com uma fome maior que o universo... já não existe. O sítio onde durante mais de um ano verti todas as minhas lágrimas, e caí num abismo do qual nunca voltei, ele já não existe. É tudo efémero, nada dura para sempre, as pessoas não ficam juntas uma vida toda, nada dura. Dura apenas um amor que não morre.

Foi uma coisa estranha, esta mudança. Se já voltei para cá não sei quantas vezes, nunca me tinha mudado dentro de casa. Teve de ser. O meu quarto era do outro lado do da minha avó. Sentado á secretária, dava por mim a desviar o olhar constantemente para o corredor, para ver se a via a passar. Eu vou vê-la sempre, aqui, lá fora, na minha cabeça. A minha esperança, ínfima embora seja, é que aqui me sinta um pouco menos sozinho. Num quarto bem mais compacto, sem memórias, sem bagagem. Isto é, fora todas as memórias e bagagem que ele já traz consigo. Mas eu não consigo deixar de ser incrivelmente estúpido. Hoje ao princípio da noite estava á janela, e estava a olhar para as pessoas, e de repente vejo uma moça que me pareceu seres tu. O meu coração palpitou, dei por mim a imaginar que me vinhas tocar á porta (sei lá eu se ainda sabes onde moro) e vinhas-me dar um abraço e ias-me dizer que não ia doer mais. Mas depois caio na realidade, e apercebo-me que eu sou eu, e claro que estas coisas não acontecem na minha vida. 

Estranhei a minha cama durante os primeiros três ou quatro dias que cá dormi. É a mesma cama onde fodemos, onde dormimos, onde nos amámos, onde nos pedimos em casamento, mas para mim foi como se estivesse a voltar aos meus tempos de morar em Londres, em que me mudei de casa uma série de vezes, e nunca conseguia dormir bem nas primeiras noites. Era tudo demasiado estranho, os ruídos dentro e fora da casa incomodavam-me, as camas pareciam feitas de cimento, embora eu soubesse que era apenas psicológico. Dava por mim a virar-me e a revirar-me na cama durante horas a fio sem conseguir adormecer, até que finalmente caia no sono umas duas horas antes de ter de acordar. Agora foi assim, de certo modo. Foi uma habituação diferente, e as mudanças adicionais que fui fazendo nestes dias acabaram por amenizar essa sensação de desconforto. Mas falta algo. Há muito que me falta algo. Falta-me a melhor parte de mim. Falta-me algo que nunca mais terei. E quem me dera ter tido a tua presença nesta escuridão toda. Precisei tanto de... de tudo. E não o queria de mais ninguém. Não o quero de mais ninguém. Mas tanta gente sente isto, não é? Querer sem ser querido de volta, amar sem ser amado. Na cidade, no campo, em todo o lado, todos sentem isto. Não sou especial, neste sentido. Sou apenas mais um, tal como, no fim, também o fui para ti.

sexta-feira, 6 de junho de 2025

E se ao menos tudo fosse igual a ti

Sabes, a minha avó gostava de ti. Foi, talvez, a primeira pessoa a notar o efeito que tiveste em mim, como me mudaste para melhor. Eu já estava cansado da vida antes de ti, já estava destruído antes de ti, já não me restava na alma muita esperança que as coisas pudessem mudar. Mas tu vieste, e mudaste-me, e eu tornei-me uma pessoa melhor. Ela comentou isso com a minha irmã, que se via na paciência que tinha agora para os meus sobrinhos, especialmente para a Alice. Houve uma vez que fui ter com ela á sala, e me sentei ao lado dela, e lhe contei que nos íamos casar. Eu já não consigo precisar a razão, mas nessa altura a tua relação com a tua mãe não estava boa, e querias sair de tua casa, e eu disse-te que podias ficar aqui, mesmo sem ter pedido antes á minha avó. Nessa altura que estava a falar com ela, perguntei-lhe se se podiam mudar para aqui, e ela disse que sim. E a minha avó abrir a privacidade da sua casa a pessoas que mal conhecia, não era uma coisa fácil. 
Ontem foi o velório dela, e destapar-lhe o rosto foi a coisa mais difícil que alguma vez fiz. Quando a vi ali, inerte, foi tão difícil conciliar que ela, que sempre foi um dínamo de energia e força, tinha ficado reduzida a uma versão mirrada dela mesmo. Apenas lhe consegui dizer obrigado. Pelo meio das lágrimas, e a última vez que chorei assim tão profundamente desde o fundo da minha alma foi quando te foste, agradeci-lhe vezes e vezes sem conta. Por tudo. Por tudo. Ela deu-me tudo. Ela deu-me vida. Dei-lhe um último beijo, na sua testa gelada, e desejei-lhe um bom descanso.
Hoje partiu o corpo dela, ela doou-o á Faculdade de Medicina para estudos científicos. Fui para a Igreja de São João de Deus - a mesma onde sonhava que nos iríamos casar - e quando lá chego já lá está a minha irmã, com uma colega do trabalho. Não muito tempo depois, chega outra colega dela, e senta-se ao lado da minha irmã. Eu estava sentado do outro lado da capela mortuária, e de uma maneira um pouco distante, ia observando o que elas faziam. A dada altura, a colega da minha irmã faz-lhe festas no cabelo, e eu senti um aperto enorme no coração. Lembrei-me de uma vez que estávamos deitados na minha cama, e passaste a tua mão pelo meu cabelo. Uma meia hora depois, talvez um pouco mais, chega o meu irmão, e ele fica ao lado da minha irmã, passando a colega para outra cadeira. Quando começou a cerimónia religiosa que estava agendada, vi a minha irmã a apertar com força a mão do meu irmão. Nesse momento, nesse momento todo, senti-me realmente a mais inadequada pessoa á face da terra, repugnante, desprezível, indigna do mais pequeno afecto. Precisei de coisas que nunca terei de novo.
Sinto-me tão sozinho. Tão, tão sozinho. E só ficarei mais sozinho ainda.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Longa é a noite

Durante décadas julguei que o dia mais triste da minha vida tinha sido o dia em que fiz oito anos. Eu acho que já contei esta história antes, mas nesse oito de agosto de 1985, o pequeno Gonçalo viveu a sua primeira crise existencial. Foi nesse dia que me apercebi - seja porque razão for - que estava a ficar mais velho. E por isto quero dizer que talvez me tenha apercebido pela primeira vez que o tempo estava a passar, e que o nosso tempo aqui seria finito, e se o tempo passava para mim, então passava também para aqueles que eu mais amava. Morava ainda no Forte da Casa, e o meu pranto levou-me a deitar-me na minha cama, e a chorar inconsolavelmente. A única coisa que me passava pela cabeça - e que me triturava o coração - era que não queria que a minha avó morresse. Não queria. O mero pensamento deixava-me doente na alma. Não conseguia parar de chorar, até que a minha avó foi ter comigo, e tudo ficou melhor. Durante décadas julguei que o dia mais triste da minha vida tinha sido o dia em que fiz oito anos. Mas o dia em que te foste embora foi mais triste que esse. 
Testemunhar o ocaso da vida da minha avó tem sido devastador. Estas duas últimas semanas foram das mais difíceis da minha vida. Por muito que me estivesse a preparar mentalmente para isto há uma série de anos, não conseguia imaginar o que realmente iria ser. E agora... agora vou ter de viver o resto dos meus dias a tentar viver com o facto de nos primeiros dias me vir o vómito á garganta sempre que me aproximava dela para a levar para a casa de banho. Vou ter de viver para sempre com o peso de não ter tido paciência para lhe explicar pela milésima primeira vez algo que já lhe tinha explicado mil vezes antes, coisas que para mim eram básicas, mas que a minha impaciência não me deixou ver que ela achava que era algo complexo. Vou ter de viver sempre com o remorso de todas as vezes que lhe levantei a voz. Vou ter de viver sempre com o ter visto a minha avó a ter uma regressão repentina, rápida e brutal, e a torre de força que sempre foi e sempre conheci, eu vi ser substituída por algo que cada vez se parecia menos com ela. Por vezes olhava para ela, e ela já nem era uma pessoa - era um bébé gigante preso num esqueleto. E eu não quero que essa imagem substitua alguma vez a que tenho desde sempre - lembro-me dela me estar a ensinar a ler e a escrever ainda antes de entrar para a escola, lembro-me da primeira vez que comi frango no churrasco, morávamos no Forte da Casa e uma tarde passámos por uma churrasqueira e o cheiro do frango deixou-me louco, e ela comprou para o nosso jantar essa noite. Lembro-me de quando comprámos o meu primeiro livro de BD no Algarve. Lembro-me quando nos deu tudo, tudo e mais alguma coisa, mesmo que para ela sobrasse pouco, ou em alguns casos, nada. Quando a minha mãe terminou o curso de direito, com muito esforço comprou-lhe um carro em segunda mão. Numa altura em que não havia possibilidades de haver grandes luxos, consegui convencer a minha avó a comprar-nos uma consola da Nintendo, que custou um balúrdio. Lembro-me da dor e do sacrifício que era para ela ir todas as semanas visitar o meu irmão á prisão. Lembro-me de como ela sempre nos abriu a casa, por muito tensas que as nossas relações interpessoais pudessem ter sido no momento. Lembro-me da queda que dei na estufa fria, quando era pequeno, e caí dentro de água, ficando todo molhado, e como era verão, ela tirou-me a roupa toda, e que lá fiquei em pelota á espera que a roupa secasse. Lembro-me de todas as vezes que falámos sobre o Benfica. Lembro-me de quando a levei ao cinema - juntei dinheiro para ser eu a pagar os bilhetes - para vermos o filme 'Sempre', do Steven Spielberg. Eu tenho tantas, tantas memórias dela. Todas as sandes de paio que ela me fez. Todas as vezes que nos levou ás piscinas do Campo Grande. Todas as histórias que me contou N mil vezes, e que eu já não queria ouvir de novo, e agora irei viver sempre sem as ouvir mais uma vez. 
A minha avó deu-me tudo, e eu não consegui nunca dizer-lhe o que ela significava para mim. Nos últimos dias, estava no quarto dela a limpá-la, e disse-lhe que se não fosse por causa dela eu não estaria vivo. Se tive um teto nos piores momentos da minha vida, foi por causa dela. Se tive de comer nos meus piores dias, foi porque ela mo vinha trazer á cama, numa altura em que eu não conseguia sequer sair dela. A minha avó sempre me fez a cama - por muito que lhe dissesse que não queria e que não era preciso. E ela dizia que estava bem, que não fazia, mas quando saía de casa ela tratava de a ir logo fazer. Tantas vezes fiquei possesso e gritei com ela, apenas por ela me fazer uma gentileza. Agora olho para a minha cama e esta será sempre a última cama que ela me terá feito. Como posso eu desfazê-la?
A última vez que vi a minha avó estava ela deitada no sofá da sala, junto á varanda, provavelmente o sítio onde mais se sentiu confortável nestes últimos dias. Tive de ir á rua tratar de uma coisa, e quando cheguei a casa já estava uma ambulância á porta. Não muito tempo depois disso, estava a ser levada para o hospital, e eu não a voltei a ver. Ainda tivemos esperança que a conseguíssemos visitar, ainda nutrimos a esperança que ela pudesse estabilizar e passar o resto do seu tempo connosco. A minha avó não merecia ir assim, sozinha, e com uma doença que ninguém sabia que ela tinha a causar-lhe um sofrimento enorme. Não merecia, é demasiado cruel.
Tantas pessoas a conheceram como a Dona Celeste, ela foi tão boa para tanta gente. Para mim foi a minha Avó Celeste, e eu espero que a alma dela tenha encontrado a paz que merece.