Há uma vida atrás... uma vida inteira antes de te conhecer, antes do Gonçalo sequer sonhar que existia a Sofia, eu criei o meu primeiro blog. Fechei-o por uma pirraça infantilóide, e de seguida criei outro. Nesse outro blog, seguia uma data de outros blogs - vários deles por razões que hoje nem consigo imaginar. Um deles, que eu até acho que era de alguém que eu conhecia pessoalmente, tinha o simpático nome 'Da janela do meu quarto vejo passar os eléctricos'. Da janela do meu quarto não vejo passar os eléctricos, até porque há décadas que os eléctricos não passam pelo Areeiro, e mesmo quando passavam, era mais acima da minha rua, na praça do Areeiro. Não, da janela do meu quarto eu vejo a minha rua. E, sem dúvida, é a mesma rua para o qual olhei incontáveis vezes, é a mesmíssima janela onde estive deus sabe quantas vezes em toda a minha vida. Mas pela primeira vez na minha vida... é a janela do meu quarto.
Mas o meu quarto actual, era parte da nossa sala de estar. No entanto, ela já tinha tido um configuração semelhante, há mais de trinta anos atrás. Quando viemos de Alenquer para cá, primeiramente ficámos onde era o meu quarto, eu, a minha mãe e a minha irmã. O meu irmão ficava no quarto pequeno que foi durante tantos anos a sala de costura da minha avó. Eventualmente, eu e o meu irmão ficámos os dois no meu antigo quarto, e a minha mãe e a minha irmã vieram para aqui onde estou, onde dormiam as duas num sofá cama. Agora é o meu quarto, e desta janela onde em míudo ficava a ver os relâmpagos com a minha avó, vejo as pessoas a passar, vejo o mundo a seguir em frente, indiferente á enorme ausência que a minha vida tem. 'Eppur si muove', dizia o Galileu. Mas eu nunca fui bom a seguir em frente.
Era aqui a sala onde a minha avó via televisão, a mesma sala onde eu um dia, algures antes do verão de 2003, lhe disse que eu e a Dora nos tínhamos separado, e lhe perguntei se me podia mudar para cá. Ela disse que sim, claro, mas ficou tão triste - ela não compreendia, dizia que no tempo dela as pessoas ficavam juntas a vida toda. Eu não discuti, não disputei essa ideia que ela tinha. Nessa mesma sala, e na minha imaginação, num cenário muito semelhante ao outro, eu contei-lhe que me ia casar contigo, e pedi-lhe se podias vir para cá. Mas já não é essa sala, ela já não existe, e provavelmente não mais existirá. Tal como o meu antigo quarto, também ele já não existe. Aquele sítio onde fodemos tantas vezes, e passamos horas que me pareceram infinitas abraçados um ao outro, e onde nos beijámos com uma fome maior que o universo... já não existe. O sítio onde durante mais de um ano verti todas as minhas lágrimas, e caí num abismo do qual nunca voltei, ele já não existe. É tudo efémero, nada dura para sempre, as pessoas não ficam juntas uma vida toda, nada dura. Dura apenas um amor que não morre.
Foi uma coisa estranha, esta mudança. Se já voltei para cá não sei quantas vezes, nunca me tinha mudado dentro de casa. Teve de ser. O meu quarto era do outro lado do da minha avó. Sentado á secretária, dava por mim a desviar o olhar constantemente para o corredor, para ver se a via a passar. Eu vou vê-la sempre, aqui, lá fora, na minha cabeça. A minha esperança, ínfima embora seja, é que aqui me sinta um pouco menos sozinho. Num quarto bem mais compacto, sem memórias, sem bagagem. Isto é, fora todas as memórias e bagagem que ele já traz consigo. Mas eu não consigo deixar de ser incrivelmente estúpido. Hoje ao princípio da noite estava á janela, e estava a olhar para as pessoas, e de repente vejo uma moça que me pareceu seres tu. O meu coração palpitou, dei por mim a imaginar que me vinhas tocar á porta (sei lá eu se ainda sabes onde moro) e vinhas-me dar um abraço e ias-me dizer que não ia doer mais. Mas depois caio na realidade, e apercebo-me que eu sou eu, e claro que estas coisas não acontecem na minha vida.
Estranhei a minha cama durante os primeiros três ou quatro dias que cá dormi. É a mesma cama onde fodemos, onde dormimos, onde nos amámos, onde nos pedimos em casamento, mas para mim foi como se estivesse a voltar aos meus tempos de morar em Londres, em que me mudei de casa uma série de vezes, e nunca conseguia dormir bem nas primeiras noites. Era tudo demasiado estranho, os ruídos dentro e fora da casa incomodavam-me, as camas pareciam feitas de cimento, embora eu soubesse que era apenas psicológico. Dava por mim a virar-me e a revirar-me na cama durante horas a fio sem conseguir adormecer, até que finalmente caia no sono umas duas horas antes de ter de acordar. Agora foi assim, de certo modo. Foi uma habituação diferente, e as mudanças adicionais que fui fazendo nestes dias acabaram por amenizar essa sensação de desconforto. Mas falta algo. Há muito que me falta algo. Falta-me a melhor parte de mim. Falta-me algo que nunca mais terei. E quem me dera ter tido a tua presença nesta escuridão toda. Precisei tanto de... de tudo. E não o queria de mais ninguém. Não o quero de mais ninguém. Mas tanta gente sente isto, não é? Querer sem ser querido de volta, amar sem ser amado. Na cidade, no campo, em todo o lado, todos sentem isto. Não sou especial, neste sentido. Sou apenas mais um, tal como, no fim, também o fui para ti.