segunda-feira, 30 de março de 2026

Eu sei

Poder-se-á, então, dizer que esta é uma lição que nunca realmente aprendi. E refiro-me, obviamente, a ir buscar pessoas ao meu passado e falar delas, ainda que o faça apenas como termo de comparação, eu sei que é algo que as outras pessoas não gostam que o faça. Da minha parte, nunca me incomodou terrivelmente quando me fizeram a mesma coisa - por muito inseguro que seja, não sou a esse ponto, e até fico dono de um pragmatismo que normalmente me escapa. Se é com outra pessoa que querem estar, de tanto falarem neles, por favor - não vamos desperdiçar mais o tempo um do outro. Este preâmbulo serve não mais para te dizer que para falar de ti, vou ao meu passado, mas e daí... também tu fazes parte do meu passado, e palavra alguma em toda a criação mudará esse facto.
Ando a fazer um exercício diário que consiste em ouvir um álbum que nunca tenha ouvido antes, todos os dias. Isto não é tão fácil quanto parece, porque por vezes não sei sequer o que é que vou ouvir. Passo longos momentos a pensar num tema, ou em bandas ou artistas que façam alguma espécie de sentido estarem juntos. Há uns tempos pensei que - eventualmente - um dos temas que farei serão álbuns que me façam lembrar de ti. E não me consigo lembrar de tantos quanto isso, a não ser a discografia completa de Placebo. E ao pensar nisso, lembrei-me que na última vez que estivemos juntos, me enviaste não só o link para o álbum ao vivo, como me mandaste também algumas músicas do último de Nick Cave. Como não cheguei a ouvir os álbuns, pelo menos dois já tenho. Mas o importante disto não é a música, foi o ter-me recordado daquela noite. Ter pensado nessa noite levou-me a um momento alguns anos antes de nos termos conhecido, quando a minha relação com a Sílvia caminhava a passos largos para o fim. Houve um momento em que me apercebi - em que finalmente me apercebi - que o amor por si só não era suficiente para suster uma relação, nem para a salvar, e que por fim todo esse amor, sem uma série de outras coisas que tínhamos jogado janela fora, não era nada senão um punhado de nada. Foi uma lição, sabes? Uma dolorosa lição. Foi por isso que em todas as relações que tive depois dela, eu entrei sempre com a noção de que também elas tinham um prazo, e que não durariam. E depois conheci-te, e julguei que ia ser para sempre.
Naquela noite em que estivemos juntos pela última vez, também me apercebi de uma coisa. Apercebi-me que nunca teríamos durado muito tempo juntos. Haveria sempre algo onde sentirias que eu estaria a ser deficitário, onde eu não iria estar tão presente, e quererias - até faria mais sentido teres - alguém que fosse o que precisas. Seria uma questão de tempo até chegares a essa conclusão, e quem sabe, até podia ter sido mais tempo do que aquele a que tivemos direito e se calhar a nossa vida juntos teria tido outros desenvolvimentos, e no fundo teria sido tudo mais um peso adicional para ti. Antes assim, foi apenas como foi e nada mais. Pensar nisto faz-me pensar numa pessoa, e numa conversa em específico que tive com ela: uma moça com quem trabalhei em tempos, a Carla. 
Eu achava-a estupidamente bonita e interessante e um dia convidei-a para irmos jantar. Apercebi-me logo que ela era uma miúda moderna, das causas e das manifestações, então pensei que o melhor não seria levá-la ao Mac... levei-a a um restaurante vegan, assim meio para o carote, e depois acabámos por ficar juntos até ás cinco da manhã. Era uma noite de verão, então a temperatura estava agradável, e a conversa também, e fomos ficando. Também fiquei com o feeling que ali não haveria nada, pelo discurso dela intuí que eu não seria particularmente do interesse dela. A dada altura, falávamos sobre o preço das rendas, e coisas desse género, quando ela entra numa diatribe plena de vitupérios, sobre não querer ter de depender de ninguém, e sobre como não queria ser salva por ninguém. Na realidade, era uma salada de palavras que não significava grande coisa, senão para me dizer que, hey, vamos ser apenas amigos, até porque não muito tempo depois encontrou a sua 'alma gémea' e tudo aquilo que me tinha dito que não queria foi algo que passou intensamente a querer, e mais poder para ela. 
Ainda estive para dizer qualquer coisa, mas calei-me e acenei com a cabeça. Fiquei triste, não por causa dela, ou por ela ter dito o que disse, mas porque dei por mim a pensar que definitivamente não tinha nascido na era correcta. Eu pensei - nesse momento pensei - que a coisa mais nobre que uma alma pode por fazer por outra é salvá-la. Mas eu apenas sei como salvar com o meu amor, e isso já se viu que é insuficiente. 
Custou-me como eu não imaginaria ser possível aperceber-me que, ainda que se apenas me tivesses dado mais uma chance - se nos tivesses dado mais uma chance - nem assim eu seria capaz de nos salvar com o amor que sentia. A minha fé nele era tão inabalável que sentia que tudo seria possível. E a essa ilusão me agarrei durante tantos anos. Tantas, mas tantas vezes, pensei que tudo teria sido possível de resolver. E aqui há também uma grande lição, sobretudo sobre mim. Não menos dolorosa do que a aprendi com a Sílvia, mas de certo que não haverá ocasião para a lição ser testada.
Há pouco tempo atrás perguntaram-me se eu ia ao concerto dos Placebo. Nem sequer sabia que eles vinham cá. Sorri, um sorriso leve e triste, antes de responder. Disse, muito diplomaticamente, que não seria muito provável que fosse. Estou absolutamente certo que naquele oceano de pessoas me haveria de cruzar contigo. Volto àquela última noite e penso que disseste uma coisa absolutamente certa : aqui não existe conversa alguma que o Gonçalo e a Sofia nunca tiveram. Não há propósito válido para isto, não o havia o ano passado e não o há agora. Por muito que diga que é uma vontade minha de alguma maneira comunicar contigo, e ainda que saiba que eventualmente, mais cedo ou mais tarde, lerás estas palavras... não têm efeito práctico algum. Nem sei se o faço por vaidade, por egoísmo, ou por pura estupidez. Se calhar é por falta de amor próprio, mesmo. Não, eu sei. Eu sei.

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Este é o último reduto de tudo o que eu sou

Hoje quando acordei decidi que este seria o meu último post aqui. Não tinha nada mais a dizer, e iria acabar a minha presença aqui com uma lacónica e simples frase. Simples, mas profundamente impossível : 'Quem me dera que tivesses ficado.'
Depois de a escrever, dei por mim a olhar para o ecrã, e algo - não sei bem o quê - estava-me a impedir de carregar de imediato no botão 'publicar' e terminar aqui as minhas escritas. Levantei-me da cadeira, fui tratar das milhentas coisas pendentes que tinha para fazer. Depois de estar despachado, decidi sair de casa, depois de almoço, e fui dar uma volta para desanuviar um pouco, uma vez que hoje me deram o dia no trabalho. Eu acho que já sabia para onde estava a ir mesmo antes de lá chegar, e eventualmente dei por mim a entrar na Igreja de São João de Deus. Igrejas... são sítios onde nunca me senti confortável. Não gosto, nunca gostei, do cheiro de incenso, e sempre senti qualquer coisa lá que não me era inteiramente positiva. Mas aqui e ali na minha vida, houve alturas em que vagueei para dentro de igrejas e encontrei lá uma paz inesperada. Entro pela igreja adentro, e fico sentado durante uns minutos perto da entrada. Foi aqui que fui baptizado e fiz a primeira comunhão. Foi aqui que estive nos velórios dos meus avós. Era aqui que um dia sonhei casar-me contigo. Tento imaginar esse momento, na minha cabeça : tu e eu, casados ali. É neste momento que tenho um pensamento, que me leva a uma memória. 
Há uma data de anos atrás, quando comecei a trabalhar onde estou ainda, tive uma colega com quem me dava muito bem. Chamemos-lhe 'Marta', embora não fosse esse o nome dela. E a Marta é uma rapariga incrivelmente bela, que cheira sempre super bem, e que se veste com muita classe; na realidade, ela já trabalhava lá há alguns anos, e dava-se bem com toda a gente, mas ela tinha um ar meio misterioso. Digo isto na medida em que parecia ser daquelas pessoas que quando falava, não dizia muito senão o essencial para a interacção em si. A dada altura, a Marta começou a fazer-me companhia durante a minha hora de almoço. Ora, eu raramente comia na cafetaria, normalmente comprava qualquer coisa antes de entrar, e depois quando ia almoçar sentava-me num dos sofás no hall de entrada do edifício onde trabalhávamos, e ficava a ler. Inicialmente, a Marta sentava-se ou ao meu lado, ou á minha frente, e perguntava-me o que é que eu estava a ler, e eu dava uma breve sinopse do livro. Com o tempo, começámos a falar, e a ter conversas mais profundas. Ela foi-se abrindo, e contou-me histórias que eu intuía que não eram necessariamente histórias que ela contasse muitas vezes. É difícil classificar-nos como amigos, embora houvesse uma relação mais que profissional. Talvez fôssemos apenas pessoas que conseguiam confiar uma na outra, não sei. Para aí até 2019, quando fui para outra equipa, noutro edifício, eu e a Marta demo-nos muito bem, e - caramba - tantas vezes eu dei por mim a olhar para ela, tal era a sua beleza, e também devido ao facto de ela trabalhar imediatamente á minha frente. Numa dessas vezes em que estava a olhar para ela - sabendo perfeitamente que nunca teria uma chance com ela - ela apanhou-me a olhar e fitou-me nos olhos, com um sorriso maroto. Disse-me que queria ter uma conversa séria comigo á hora de almoço. Fiquei super nervoso, não fazia ideia o que poderia ser. Quando chegou a hora de almoço, ela foi ter comigo e perguntou-me se eu podia ir falar com ela para um sítio mais privado. Bem, se já me sentia nervoso antes, mais fiquei. Fomos até ás escadas de emergência do edifício, e ficámos lá sentados a falar. Depois de uns instantes, ela lá me perguntou : 'Quando é que descobriste?', e eu - completamente perdido - perguntei-lhe 'Descobri o quê?', e ela ri-se e diz-me que sabe perfeitamente como olho para ela. Eu encolho os ombros, e admito que a acho lindíssima, mas não teria coragem para sequer entreter o pensamento em ter algo com ela. E ela ri-se, e diz-me, 'Não é nada disso que estou a falar. Diz-me lá como é que descobriste?', e eu fiquei a olhar para ela, e disse-lhe que não fazia ideia do que ela estava a falar. Ela olha para mim com os olhos semi-cerrados, como se não acreditasse completamente no que eu estava a dizer, mas depois diz-me que me ia mostrar uma coisa, mas que tinha de ficar só entre nós. Eu disse ok, claro, não contaria a ninguém. Ela vai ao telemóvel dela, procura qualquer coisa lá, e passados uns momentos pede para me aproximar. Ela tira o som, e mete um vídeo a tocar. Não é algo demorado, são apenas uns dois minutos, mas é o suficiente para me deixar completamente silencioso. 'Era isto a que me referia', disse ela. 'Julgava que tinhas descoberto.', e eu não me passava pela cabeça, nem nos meus mais mirabolantes pensamentos, que ela se pudesse estar a referir ao facto de ela nos tempos livres dela fazer videos em que deus sabe quantos gajos se estão a vir para cima da cara dela. Eu não quero saber do que as pessoas fazem ou deixam de fazer na sua vida privada, se os faz feliz, que o façam á vontade, quem sou eu para julgar? Mas foi estranho, eu julgava que já a conhecia bem e no fim apercebi-me que na realidade nunca conhecemos uma pessoa completamente.
Saio da igreja a pensar nesta história, e sento-me num quiosque na Praça de Londres para beber algo fresco. Penso se conheci bem a Dora, com quem vivi quase 8 anos. E a verdade é que não sei se conheci, se me perguntassem hoje se sei dizer alguma coisa sobre a infância dela, ou sobre a adolescência dela, não saberia dizer muito. Nem da Sílvia sei muita coisa. Não sei se alguma vez soube porque é que ela quis ser arquitecta, não sei quase nada sobre a vida dela antes de mim. E estive com ela cinco anos. Que sei eu sobre ti, com quem passei apenas seis meses? Se calhar menos ainda. Se calhar não me dei ao trabalho de querer saber, e talvez isso explique algumas coisas. Se calhar tive esperança que ia ter tempo para conseguir saber, e talvez isso explique outras tantas coisas. E nisto dou por mim a aperceber-me de um paralelismo entre todas estas relações que foram as mais relevantes da minha vida. Com uma brevíssima excepção, nunca conheci a família das pessoas com quem mais tempo passei. A Dora nunca me apresentou á sua mãe; na realidade a única vez que quase nos cruzámos com ela, a Dora viu a mãe a tempo, e pegou-me pela mão e escondeu-me atrás de um pilar. O pai dela, apenas o conheci porque a mãe dela tinha morrido, e apenas o vi umas duas vezes antes dele morrer também. Com a Sílvia, apenas por uma vez houve a eventualidade de eu conhecer a mãe dela, e isto já foi mesmo no fim da nossa relação. Estávamos em Setúbal uma vez, e ela tinha de ir ter com a mãe dela ao trabalho, para lhe dar uma coisa ou alguma cena assim, mas antes de lá chegarmos, ela pediu-me para eu ficar á espera dela tipo uma rua atrás. Dei por mim a pensar se ela teria vergonha do que a mãe dela fazia, a senhora trabalhava numa peixaria, ou se teria vergonha de mim. Fez-me mais sentido que tivesse vergonha de mim, tal como tinha sentido que a Dora tinha tido 15 anos antes. Pareceu-me normal que as pessoas com quem eu partilho a vida sintam vergonha de mim. Imaginas a esperança que eu tive que contigo tivesse sido diferente? Mas quando não foi, eu aceitei no meu âmago, resignei-me a esse facto. É normal, e não havia razão alguma para ter sido diferente contigo.
Dou por mim a pensar se alguma vez realmente sabemos que estamos a fazer algo pela última vez.
Será que eu soube que estava a ver a minha avó pela última vez quando, bem, quando a vi pela última vez? Se calhar tinha a esperança de a poder ver ainda em vida. Será que no dia em que acordaste, e decidiste que não ias ficar, sabias que não íamos voltar a estar juntos? Sabes, especialmente neste último ano e qualquer coisa, eu tenho pensado tanto no que foi a nossa história, e a avaliar se ela realmente merece o peso que tem na minha vida. Eu lembro-me tão bem da primeira vez que estivemos juntos, naquele dia da Gulbenkian. E lembro-te tão bem da primeira vez que nos beijámos, no Torel. E lembro-me tão bem da primeira vez que fodemos. Eu lembro-me de tanta, tanta coisa. Mas também me lembro da primeira vez que estivemos juntos depois da nossa história ter terminado, quando fui ter contigo ao Cacém. Doeu cumprimentar-te como se fosse apenas um estranho, e por dentro estava todo desfeito, a tentar não chorar, porque olhava para ti e tu parecias tão leve, tão livre, como se a minha ausência da tua vida te tivesse levantado um peso descomunal de cima dos teus ombros. Lembro-me da última vez que nos beijámos, na Gulbenkian, e tu disseste-me que quando eu te beijava assim, tu eras minha, e eu pensava se isso seria assim uma coisa tão má, e só podia ser. Vou-me lembrar sempre da última vez que alguma vez nos veremos, aquela noite no cinema. Doeu tanto. Ainda dói. Senti que me odiavas com todo o teu ser.
Volto para casa, e troco de roupa para ir treinar. Não deixo de pensar em tudo isto durante o treino, custa-me estar a fazer exercício porque não me consigo concentrar. Com algum custo, acabo o meu treino, e vou de volta para casa, preciso de tomar banho, e finalmente descansar um pouco. Deixo o tempo passar até ir jantar com amigos, mas nada me remove a melancolia que sinto hoje. Não pela primeira vez, apercebo-me que sou uma pessoa que não consegue aprender com as lições. Deveria, há anos e anos atrás, mesmo antes de ti, ter aprendido a não esperar, nem sequer a desejar coisas impossíveis. Destruo-me desnecessariamente porque, embora a distância não me leve a saudade, também ela não me leva a esperança, por muito ténue que seja. Mas isto é a vida real, não é uma série de televisão, nem é um filme de Hollywood. Na vida real, ninguém desiste de tudo o que tem apenas porque sim. Em breve, quando me for embora para não mais voltar, ainda vou dar por mim a olhar para trás uma última vez, ainda vou sentir a esperança de... de qualquer coisa. Mas sei que depois vai acontecer o que sempre acontece na vida real. Quando... quando ainda falávamos, e já muito perto de o termos feito pela última vez, tu disseste-me que eu iria encontrar o amor da minha vida. Quando li essa mensagem, fui ás lágrimas, e dei-te uma resposta diplomática, ainda que tenha sido uma mentira. Disse-te que não seria nesta vida. Não te disse que já tinha encontrado o amor da minha vida, não te disse que eras tu, não te quis estar a chatear-te mais com essas coisas. Preferi ficar com isso para mim e dizer-te outra coisa. Sorri, com o coração quebrado, sabendo que de nada me valeria dizer-to novamente. Dizer ao vento que te amo não me trará o teu amor. Contar ás estrelas que tenho saudades tuas e que me fazes falta, não te trará de volta. Ouvir o teu nome nas ondas manter-te-á exactamente onde me disseste que ias ficar. 
Todo este exercício foi tão... tão profundamente patético. Por vezes penso que se lesses estas coisas, depois ias partilhar com as tuas amigas, e se iam rir todas deste falhado. E quem as poderia censurar? Que espécie de falhado ama com tudo o que é um fantasma que passou pela sua vida em tempos? Um falhado como eu, é o que é. Quando te foste, em 2013, eu estava perto de fazer 36 anos. Hoje faço 48, e há um quarto da minha vida que estou num luto por alguém para quem não sou sequer uma memória. Estou preso, preso a um amor do qual não consigo deixar de sentir. Eu sei que quando decidiste não ficar foi apenas mais um dia para ti, mas eu fiquei preso nesse dia, que se decorre em câmara lenta, e estou há anos á espera que esse dia termine. Um quarto da minha vida... isso é tanto tempo. E eu sei que é tudo o que me resta, até ao fim dos meus dias, ainda que cada vez mais exista uma inultrapassável distância entre mim e ti. Não entre 'nós', isso  não existe há muito tempo. 
Eu sei que fui eu que te pedi para me esqueceres. Eu sei que fui eu que te pedi para seguires em frente, e para me deixares de amar, para dares esse teu enorme amor a quem te ama e a quem o merece. Eu sei. Eu sei. E sabendo tudo isso, como posso ter a sombra da esperança que de algum modo te lembrasses de mim ainda? Como posso eu sonhar que fosse mais que uma memória ainda? Não posso. 

Finalmente em casa, vou até á varanda de novo. Lá fora as cigarras cantam, e a lua está quase cheia. Vai alta a lua, Sofia. Eu olho lá para cima e penso em ti. Pela última vez, digo em voz alta que te amo. Eu, que consegui dominar a arte de me tornar invisível, mesmo para mim, agora dou-me um valioso presente : o dom do silêncio. 'Quem me dera que tivesses ficado', digo eu ao céu e ás estrelas. Na minha cabeça, estou sentado ao teu lado na Gulbenkian, naquele dia em que me apercebi que te amava. Não posso tirar uma fotografia desse momento. Ele já passou.

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Um beijo subtil que ninguém vê

Hoje estou no ginásio a treinar, e depois de ver um vídeo no youtube, ia meter uma playlist qualquer a tocar para ouvir durante o resto do treino, mas nos breves momentos em que não tinha nada a sair dos airpods, ouvi um tipo a assobiar uma música que me parecia tremendamente familiar. Era algo alegre, com ritmo, algo que se calhar se teria ouvido numa série qualquer de televisão nos anos 80. Fiquei imediatamente com a música na cabeça, mas não estava a ver o que era. Ao sair do treino, e já a caminho de casa, eis o momento 'eureka'. Lembrei-me perfeitamente de onde conhecia a música -  e embora conhecesse a música de vários sítios - a memória mais forte é a de ser... raios, agora estou na dúvida, mas ou seria o teu toque do telemóvel, ou era o teu despertador, uma música dos Marretas. Tantas vezes ouvi aqueles breves segundos instrumentais da música, seguidos de um 'Mahna Mahna', que saíam do teu Blackberry 9300. Estás em todo o lado, e estarás sempre, porque o meu coração procura-te em todo o lado. Mesmo quando eu não estiver cá já, mesmo quando estiver noutro lugar, o sussurrar das árvores cantar-me-á o teu nome, todos os cabelos que vir serão os teus, e estarás sempre em qualquer reflexo que veja.

Fui ainda ás compras, depois, sempre a cantarolar a música. Estava... sei lá. Estava a sentir uma espécie de felicidade. Fui o caminho todo com um sorriso parvo nos lábios. Sentia-me leve. Quase como se quando chegasse a casa, por milagre, tu aqui estivesses e te fosse contar esta história. Quase como se tu depois te risses, e achasses engraçado eu ainda me lembrar, e depois me beijasses. Quase. Tenho fome, sabes? De ti. Do teu toque. Do teu beijo. Do teu corpo. Da tua voz. Da tua presença. Sinto essa fome desde o primeiro dia, e apenas me sentia saciado quando estava do teu lado. Vim a pensar nisso enquanto descia a rua em direcção a minha casa. Lembrei-me de um poema, que terei lido algures em tempos. Cheguei a casa e fiquei aqui até acabar o trabalho. Quando saí, fui até á varanda, e vi a noite cair. A mesma noite cai ao mesmo tempo sobre nós, mas vivemos em mundos diferentes. Num mundo, és tudo no que eu penso. Noutro, não sou sequer um pensamento para ti. Aceito a fome. Aceito não a saciar. Dói, eu sei, eu conheço bem essa dor, mas vivo com ela, e terei de viver sempre. Um dia em breve haverá milhares de quilómetros entre nós, e nunca mais nos veremos, mas irei ter sempre fome de ti. Sempre.


Tenho Fome da Tua Boca

Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,

e ando pelas ruas sem comer, calado,

não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta,

busco no dia o som líquido dos teus pés.


Estou faminto do teu riso saltitante,

das tuas mãos cor de furioso celeiro,

tenho fome da pálida pedra das tuas unhas,

quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.


Quero comer o raio queimado na tua formosura,

o nariz soberano do rosto altivo,

quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas

e faminto venho e vou farejando o crepúsculo à tua procura,
procurando o teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratue.

--Pablo Neruda

terça-feira, 29 de julho de 2025

Se sou uma coroa sem rei, se sou uma quebrada e aberta semente; Se regresso sem coisa alguma, então regresso com tudo o que preciso.

Ontem acho que já estava a dormir ainda antes do meu corpo cair na cama. Estava exausto. Não, mais que isso, estava... esvaziado. Como se quaisquer réstias de energia tivessem sido sugadas de mim. A minha cabeça desligou e caí num profundo sono. Não sei do que sonhei nessa noite, até certo ponto. Sonhei - e sem saber dizer que acontecimentos precederam isto -  que estávamos os dois deitados, aqui na minha cama. Tínhamos acabado de foder, e estávamos os dois naquela paz pós-coital, virados um para o outro. Ficámos ali durante largos minutos, sem nada dizer. Apenas a olhar um para o outro, como se já não nos víssemos há uma vida inteira. Eu tinha uma perna entre as tuas, uma mão passava pelo teu cabelo, e a outra ia percorrendo o teu corpo. Perguntas-me no que é que eu estava a pensar, e eu respondo com um pequeno sorriso. E perguntas de novo, e após alguns momentos de silêncio, eu respondi-te. 
'Estava a pensar quando é que me vais deixar de novo.', disse-te, suavemente, e tu parecias meio perdida com esta minha afirmação. 'Como assim?', perguntaste. E eu disse, 'Mais cedo ou mais tarde vais achar que cometeste um erro, e que não é aqui que tens de estar. Vais sentir que não é comigo com quem queres estar. E depois vou ter de te dizer adeus mais uma vez.' Chegaste-te mais perto de mim e disseste-me que desta vez seria para sempre. Que não me ias deixar mais. Colocas os teus braços á volta do meu pescoço, e dizes que estás a falar a sério. Sinto os teus seios de encontra o meu peito, as tuas mãos nas minhas costas. O meu coração e o teu batem como um. 'Desta vez é para sempre.', dizes, e beijas-me, e quando me beijas, eu fecho os olhos, e sonho.
Abro os olhos, acordo, e olho para a escuridão que permeia o meu quarto. Nem a um metro de mim, e provavelmente a meia altura do quarto, tive uma visita. Creio que em tempos escrevi sobre uma presença que se manifestava no meu quarto, no formato de uma esfera luminosa, meio translúcida, que por vezes emitia um som numa frequência tão baixa que apenas se conseguia ouvir no limiar da audição. Há muitos anos que não tinha esta visita, e durante uns momentos desejei que fosse a minha avó. Fiquei no escuro durante uns bons minutos, a olhar para a esfera. Levanto-me, e fico sentado na cama. Coloco os cotovelos nas pernas, afundo o rosto nas minhas mãos, ainda com o sabor do teu beijo nos lábios. Tento chorar, e o meu corpo faz uma espécie de choro seco, o corpo soluçava e entrava em espasmos como se estivesse a chorar, mas não sai lágrima alguma. As minhas lágrimas tornaram-se um mar, mas já não tenho mais lágrimas em mim. Estou nu, levanto-me e visto uns calções. Pego no telemóvel e vejo as horas : não estava a dormir há muito mais que duas horas. Vou até á varanda, e o frio da noite provoca em mim um choque térmico. Fico por ali uns minutos, olho para o céu, e penso que vivemos sob o mesmo o céu. Alguém desce a rua e faz demasiado barulho. Vejo-o a descer a rua, provavelmente com os copos, e quando o perco de vista volto a fixar os olhos no céu.
Vêm-se poucas estrelas, ao longe ouvem-se carros a passar, ouve-se o ruído da electricidade a passar pelos carris da estação de comboio. O frio fere-me a pele, sinto os mamilos rijos e doridos, e venho para dentro. Sento-me no sofá, e embora ainda sinta o frio, sinto que é um castigo que por alguma razão mereço. Sinto vontade de me destruir. De pegar numa lâmina e fazer incisões profundas na minha carne, de modo a sentir algo que doa mais que isto. Ou então de beber até apagar, mas prometi á minha avó quando me despedi dela que não o voltaria a fazer em casa dela.
Olho para o telemóvel, e leio as últimas mensagens que te enviei no início do ano. Escrevo uma mensagem. Uma simples mensagem. Nem que fosse para saberes que estou vivo. Um simples 'amo-te'. Escrevo-a e fico a olhar para o ecrã. Quase cedo. Apago as palavras. Digo a mim mesmo que não mereces que te incomode. Volto para a varanda, olho para o céu. É o mesmo céu sob o qual vivemos, mas para o qual nunca mais iremos olhar ao mesmo tempo. Algures lá em cima estão as Pleiades. Algures num infinito oceano de possibilidades tu escolheste ficar, algures fomos felizes. Quase imperceptível, sopro ao éter um 'amo-te' que nunca irás ouvir. Eu não quero mais sonhar contigo, Sofia. Mas só te posso ver nos meus sonhos.

domingo, 27 de julho de 2025

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja, olha-se para dentro e já pouco sobeja

Não é que seja um ritual que desenvolvi, mas especialmente nestas últimas duas semanas, tenho dado por mim a ir para a varanda de minha casa ao cair da noite. Por vezes puxo uma cadeira de baloiço para lá e fico lá sentado a apanhar a brisa fresca que começa a correr a essa hora, ás vezes fico apenas em pé, e fico a ver a noite cair. Vejo o céu mudar de cor lá em cima, á medida que o sol se põe, vejo o laranja do céu tornar-se num leve rosa, e depois num roxo que se aprofunda, até que por fim o negro da noite nos cobre. É a minha altura favorita do dia, mas é também o momento em que dou por mim no meu estado mais frágil. Estar na varanda não significa ver apenas a noite cair, significa ver as pessoas que vão passando, e - triste como os raios embora seja - eu dou por mim a observá-las. É claro que nestes momentos dou por mim a sentir os piores sentimentos que posso sentir, os de inveja. Vejo tantas pessoas, algumas lado a lado, outras de mãos dadas, algumas vão a sorrir á medida que vão lendo uma qualquer mensagem cheia de tontices, mas na verdade todas elas escolheram viver, em vez de ter uma mera existência. 
Farto-me, eventualmente, de ali estar e de ter este pensamentos. Outros vêm a tona. Penso que não gosto de viver aqui já. Talvez fruto da idade, talvez fruto do infindável cansaço que sinto na alma, mas cada vez tenho menos paciência para a cidade. Estes últimos anos tornaram-me quezilento com os meus vizinhos; em boa verdade, o novo-riquismo que assola esta vizinhança tem trazido para cá muitas pessoas que não têm maneiras algumas, que não têm noção na cara, e fiquei intolerante a todo o tipo de ruído que fazem. Queria tanto, tanto não morar aqui, mas morar algures onde á noite pudesse ficar sentado á porta de casa e á minha volta não haver nada senão o som da natureza, e a paz do silêncio da noite. Queria tanto poder deitar-me e olhar para um céu cheio de estrelas, e queria tanto que estivesses ao meu lado. Algures, não sei onde, mas não aqui, noutro lado, noutro lugar.
Também, com o tempo, acabo por afastar esses pensamentos. A dada altura tenho de começar a apagar o que tenho na cabeça, a preparar o reset mental, para o dia seguinte. Chego á cama exausto, todas as noites. É... e será sempre difícil não me lembrar do que era dormir agarrado a ti. Há noites em que estes pensamentos me deixam irrequieto, e nessas noites o sono nunca me deixa descansado. São as noites em que os fantasmas, e as dúvidas me consomem novamente. Penso se alguma vez realmente gostaste de mim, ou se alguma coisa que tenhamos feito te tenha sido relevante, e eu não consigo ficar certo de nada. Nunca se fica, quando se procura algo que não temos, nem mais teremos. Tanta incerteza, isto dilacera-me o coração, não conseguir saber nada. Estamos tão distantes um do outro, tão longe de tudo, e nada mudará isso. Fica a dúvida, a perda de confiança. O que terá sido um toque meu, ou o meu beijo para ti? Provavelmente nada, tudo foi melhor e te soube melhor. Dúvidas, questões, sono perdido, exaustão. Digo mais uma vez ao fantasma com quem durmo que te amo, e disso estou certo, sempre estarei.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Tanto foi perdido

Hoje de manhã, quando acordei, levantei o estore do quarto para deixar entrar a luz do dia, e reparei que lá fora, o dia estava cinzento. Peguei em mim e fui até á varanda para ir recolher alguma roupa que lá tinha deixado pendurada, e á medida que olho para o céu e vejo o dia grisalho, tristonho, lembrei-me de como em miúdo estes dias me deixavam a sentir-me profundamente traído. Nessa altura, em que o verão ainda era importante para mim, quando tinha destes dias de verão em que o céu ficava encoberto, e o dia ficava ventoso e mesmo com chuva, eu sentia-me como se me tivessem apunhalado nas costas. Lembrei-me então de um momento específico da minha pré-adolescência, quando de vez em quando íamos fazer uma quinzena de férias a Santa Cruz. Era demasiado puto para entender o conceito de micro-climas e coisas desse género, mas quando lá íamos não era de todo incomum apanharmos sempre uns dias assim, uma semana até, na pior das hipóteses. Talvez tenha sido na última vez que lá fomos, provavelmente no final dos anos 80, e nessa vez lembro-me que eu e o meu irmão costumávamos ir muitas vezes a um parque junto á casa onde ficávamos, e lá havia também um daqueles recintos desportivos onde se podia jogar á bola ou basket. Nisto travámos 'amizade' com um grupo de putos que moravam na zona, e havia nesse grupo uma miudinha que me irritava solenemente. Creio que talvez fosse irmã de um dos outros putos, creio que talvez fosse um ano ou dois mais velha que eu, mas deus sabe porquê - eu achava-a tão, mas tão chatinha.

Então uns dias antes da quinzena acabar, precisamente num desses períodos cinzentões, estava eu a deambular pelo centro de Santa Cruz, sem ter onde ir, ás voltas entre o café central, a praia da física, e ruelas pelas quais andava sem rumo, e encontrei-me com a tal miúda. E eis que vamos até ao parque os dois, e sentamo-nos a falar, e desta vez não a achei nada irritante. Não sei sobre o que teremos falado já, claro, mas lembro-me perfeitamente de algo que ela me disse então. Eu ter-lhe-ia dito que daqui a uns dias me ia embora, e ela perguntou-me se antes de eu ir, se queria curtir com ela. Ora, o pré-pubescente Gonçalo não conseguiria imaginar sequer que um dia ia estar com uma mulher, quanto mais que alguém quisesse curtir com ele. Mas eu disse que sim. E ela diz-me que não podia ser naquele momento, mas que nos encontraríamos naquele parque no fim da semana, antes de eu ir. E eu esperei pacientemente, e os dias continuaram frios e encobertos, e fui ao parque não sei quantas vezes, mas nunca a vi. Nunca mais a vi.

Era cedo ainda, não eram nove da manhã ainda, o que para mim é cedo. Considerando os meus horários, é raro levantar-me mais cedo que isso. Fiquei sentado no sofá da sala, a pensar nestes dias cinzentos que hoje em dia tanto aprecio. Por uns momentos, a minha cabeça viajou no tempo e no espaço - na realidade para um momento que não seria muito distante no tempo do de Santa Cruz, terá sido no início dos anos 90 - e eu estava sentado na mesma sala onde me sentei hoje de manhã, e estava a ler um jornal. Eu queria dizer que era um semanário que antes existia que era o 'Sete', que era talvez o único jornal que de vez em quando tinha rubricas sobre banda desenhada, além de cinema, televisão, música, e tanto mais. Mas se calhar não era, talvez tenha sido no 'Público', que a minha mãe comprava na altura, mas seja onde for, li um poema - traduzido para Português - que já conhecia sobejamente o seu original. Algures por casa havia uma cópia de um livro chamado 'The Golden Treasury', uma antologia compilada pelo crítico, poeta e antologista Francis Palgrave, e eu devorei esse livro vezes sem conta. E o meu poema favorito de sempre é nem mais que um dos que aparece nessa antologia : 'When you are old', the W.B. Yeats, mas algo nessa tradução moveu-me tremendamente. E não me consigo lembrar de quem é o raio da tradução. A minha cabeça diz-me Jorge de Sena, mas depois questiono-me se não terá sido o Miguel Esteves Cardoso, mas a verdade é que não encontro evidência alguma de que algum deles tenha traduzido o poema, nem eu me consigo lembrar de algo específico da tradução que me facilitasse a vida ao pesquisá-lo. Hoje, sentado ao computador, li deus sabe quantas traduções. Umas boas, outras meramente capazes. De todas as que li, talvez esta, talvez esta seja a melhor :

Quando Fores Velha

'Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.'

Tanto foi perdido. Podia ter havido um ou mais poemas, mas não houve. Poderia ter havido tanta coisa, mas nem a um verão tivemos direito. Ás vezes dói-me saber isto. Apetece-me falar contigo, queria poder ligar-te e  perguntar-te se estás bem, se és feliz. Mas nem amigos podemos ser. O que é um mero verão comparado com isso?

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Sonho de uma noite de verão

Apenas estive dentro de outros dois prédios na rua em que vivo : um, o prédio imediatamente ao lado do meu, entrei lá não mais do que um par de vezes há décadas atrás, porque tive um colega que lá morava. O outro, mais acima na rua, entre duas pastelarias conhecidas na zona, era onde na fase inicial da minha adolescência a minha avó me levava á manicure. Porque eu sempre roí as unhas, e ela sempre tentou fazer com que eu parasse. Tantas vezes ela me disse que se eu parasse de roer as unhas ela me dava cinco mil escudos para eu comprar revistas de banda desenhada… mas a dada altura ela decidiu que eu precisava era de um incentivo, e começaram as minhas idas á manicure, logo de manhã cedo. Nunca foi algo que tivesse apreciado de grande maneira, todo aquele ritual deixava-me impaciente, e eu sabia que ia acabar por roer as unhas de seguida. Mas nessa casa moravam, além da senhora da manicure, também as filhas dela, que já eram jovens mulheres, e amiúde as vi em roupa interior. Bem sei que para elas eu pareceria não mais que um puto parvo, mas sempre ajudava a ganhar algum ânimo para as minhas sessões de manicure, a ideia de ver um rabiosque ou umas mamocas  - que nunca vi, na realidade.

Neste momento não sei ainda se poderemos ficar nesta casa, o senhorio exigiu a entrega da casa, mas já temos apoio legal nesse sentido. Lá para setembro, talvez, teremos uma ideia mais concreta do que vai acontecer. Talvez por isso tenha sonhado, nesta noite que passou, que já não morava aqui. O sonho passava-se algures num futuro próximo. Teriam passado alguns anos, talvez três ou quatro, não mais que isso. Eu estava a regressar de um sítio qualquer, talvez de fora do pais, onde tinha estado a viver. Quando regresso, descubro que já não moramos nesta casa. Talvez por um encontro fortuito na rua com alguém que me conhecia, descubro que a minha mãe está a morar precisamente na tal casa onde eu ia fazer a manicure. Dirijo-me para lá, toco á porta, e passados uns momentos a minha mãe abre-me a porta. Falamos um pouco, e eu pergunto-lhe se ela tem um sítio onde eu possa dormir umas horas; tinha vindo de viagem, e estava cansado. Ela diz-me que tem um quarto para mim, se eu quiser ficar lá em casa. Eu digo que não sei, que não conseguia pensar nisso. Não conseguia pensar em nada. Ela pede-me para entrar, e a casa é surpreendentemente grande por dentro, muito maior do que aparentaria ser. Ela leva-me para um quarto e diz-me que posso dormir lá. É o mesmo quarto onde a minha avó dormia aqui em casa, se bem que com uma disposição diferente. Há uma cama enorme encostada á parede que tem a porta do quarto, e eu caio na cama e adormeço de imediato.

Acordo a dada altura, sentia-me preso, apertado, como se não tivesse espaço para me mexer. Levanto a cabeça, e na penumbra vejo que o meu pai está sentado na cama, de costas de contra a parede, e com as pernas dobradas sobre o meu corpo. Mas ele parece diferente, certamente maior do que me lembro dele ser. Seja como for, a minha exaustão é mais forte que eu e adormeço de novo, mas não sem antes me aperceber que está mais alguém deitado comigo na cama : é uma rapariga, ainda nova, talvez com os seus vinte e poucos anos, muito, muito bonita. O sono leva-me, até que finalmente desperto, e não está ninguém na cama comigo. Nem o meu pai, nem a rapariga. Á medida que os sentidos começam a apurar, sinto um cheiro agradável no ar, e á distância, ouço uma melodia bonita. Levanto-me, nem sequer sei que horas são, e reparo que me tinha deitado com a roupa com que tinha chegado. Começo a andar pela casa, á procura da voz que preenchia o ar com canções, e aqui e ali vejo a minha mãe, mas ela não me diz nada,  e tem um ar um pouco estranho. Como se tivesse algo para me contar e não soubesse como. Chego á cozinha, e a moça está a preparar o seu pequeno almoço. O cheiro de café acabado de fazer, e de pão fresco, fazem o meu estômago fazer barulhos esquisitos, e aí ela repara que eu estou na cozinha com ela.

Ela é tão, tão bonita, mas ela parece-me familiar. Não faço ideia de onde, mas sei que já a vi antes. Alta, talvez até mais alta que eu, e esguia. Cabelo preto, muito, muito preto, e comprido. Veste-se toda de preto, e eu consigo ver que ela não usa soutien. O top dela é muito justo, e o seu pequeno peito pede-me o olhar. Escolho olhar para o dia de ontem, no entanto. Sento-me numa bancada central da cozinha, enquanto não penso em nada. Abstraio-me de tudo. Ela pergunta-me qualquer coisa, mas eu não percebo o quê. Ela volta a perguntar, ‘Queres café?’, e a proximidade dela destrói-me por completo. Eu não sei a que é o céu cheira, mas não devia cheirar tão bem quanto ela. Eu digo que sim, e ela traz-me uma caneca cheia de café, tipo aqueles que se bebem em diners americanos. Ela continua a falar comigo, mas fá-lo com um á vontade que me desconcerta. Parece que ela me conhece há anos e anos. Vou bebendo do café, e a cabeça começa a engrenar. Penso na noite anterior, no meu pai sentado em cima da cama, dela a dormir ao meu lado.

‘Olha’, digo eu, e por esta altura estava a mordiscar numa fatia de pão, ‘mas o que é que o meu pai estava a fazer a dormir na minha cama?’, e ela responde, ‘Não era o teu pai. Era o meu tio.’ ‘O teu tio?’, pergunto eu como se não tivesse ouvido á primeira. ‘Sim, o meu tio. O irmão do marido da tua mãe.’, diz ela. Eu tento não cuspir a boca cheia de café que tinha quando ela me diz isso, e digo-lhe, ‘Desculpa lá?’, e ela diz-me que sim, que a minha mãe se tinha casado com o pai dela. ‘E onde está o teu pai?, eu pergunto-lhe. Ela encolhe os ombros, diz ‘A trabalhar, mas volta mais tarde. Vais conhecê-lo mais tarde.’, mas eu nem sequer sei ainda se ia lá ficar mais tempo naquela casa. Talvez estivesse de partida para outro sítio, para outro lugar. Nisto reparo numa fotografia da moça, abraçada a um rapaz, e eu pergunto-lhe ‘És tu e o teu namorado?’, e ela diz que sim. Eles parecem felizes. Ela pergunta-me se já acabei de comer, e eu aceno que sim com a cabeça. ‘Então vá, anda comigo para me ajudares a fazer uma coisa.’ Sem ter grande escolha, ela pega na minha mão e leva-me para as traseiras da casa dela, e essas traseiras eram as traseiras do prédio onde estava o colégio onde eu estudei na terceira classe e no sexto ano. Deus sabe o que foi que lá fomos fazer, mas ela esteve sempre fisicamente muito perto de mim. A dada altura ela estava não próxima de mim que eu sentia os mamilos dela de contra mim. Parámos um a frente do outro, virados um para o outro, e ela tão próxima de mim que conseguia sentir a respiração dela na minha pele. Os nossos rostos aproximam-se, os nossos lábios também, mas nunca nos beijamos, afastamo-nos sempre. Eu pergunto-lhe o que é que ela está fazer. E ela pergunta-me o que é que eu acho que ela está a fazer. Eu peço-lhe para ela parar. Porquê, pergunta ela. Porque senão acabamos a foder a um canto. É mau, pergunta ela. Tens namorado, eu não me meto nessas cenas, digo eu. Vá lá, diz ela. E eu quero, meu deus como eu quero, eu quero… mas não posso.

Volto para dentro da casa, talvez tivesse lá uma mochila, ou um saco de viagem. Pego nas minhas coisas, e digo que me vou embora. ‘Então, não ficas?’, pergunta a minha mãe. Eu olho para a bela moça, e penso que é melhor não. Respondo com um sorriso. Apenas precisava de dormir algumas horas, digo para a reconfortar. Estou já á porta do prédio, bem no início da minha rua, quando decido olhar em direcção ao prédio onde morei toda a minha vida, practicamente. Tanto as janelas do meu andar como o do andar ao lado estão escancaradas. Já ninguém mora lá que fosse do meu tempo. Vejo pessoas á janela, e ouço sons festivos. Um fino nevoeiro cobre o dia, mas naquele lugar tão específico onde passei tanto tempo da minha vida, parecia brilhar um sol.

Ajeito o casaco, e ponho a mochila ás costas. Despeço-me da minha mãe, e olho uma última vez para a moça, cujo nome nunca cheguei a saber. Começo a descer a rua, sinto-me como se fosse uma espécie de Orfeu. Não posso olhar para trás. Não posso olhar para trás. Porque se olhar para trás, então tudo está perdido.