terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

As florestas choram, pois as suas árvores estão a arder

Esta noite quando fui para a cama tinha uma vontade imensa de sonhar contigo. Apetecia-me ouvir a tua voz uma vez mais. Mais do que tudo, apenas ouvir a tua voz, eu e tu, na penumbra, abraçados. Mas, e para variar, tive sonhos esquisitos. Um deles, um sonho semi recorrente, dá por mim a caminho de um hipermercado gigantesco, mas mesmo gigante - pensa numa cena tipo Continente mas do tamanho do Colombo. E eu ou estou a caminho de lá para ir comprar algo ou ás vezes para ir trabalhar, e o sonho é a angústia de ter de fazer uma viagem enorme e sentir que vou chegar atrasado - algo que inevitavelmente acontece. Ou não chego a tempo de apanhar aquilo aberto, ou chego atrasado para o trabalho, e curiosamente - é sempre de noite. E mesmo lá dentro da estrutura é mal iluminado, e tudo parece meio inacabado. Na realidade, tudo parece passar-se numa espécie de Lisboa pós-apocalíptica, mas é claro que não é Lisboa alguma que exista, é uma manta de retalhos feita de cidades várias, algumas que existem e outras que nem por isso são reais. Não sei que sequência teve o sonho, nem sequer me recordo se o sonho seguinte é continuação da narrativa do outro, mas sei que no sonho que tive a seguir estou a receber uma mensagem da minha irmã a dizer que o nosso pai tinha tido um ataque de coração que o tinha deixado altamente debilitado, sem conseguir usar o braço esquerdo. Na vida real não o vejo há já muitos anos, nem estou interessado em vê-lo, mas no sonho algo me levou a querer ir visitá-lo. Curiosamente, estaria internado não muito longe aqui de minha casa, numa clínica / casa de repouso que talvez exista ou não algures na Gago Coutinho. Na companhia da minha irmã, fomos até lá para o ver, mas fiquei surpreso quando o vi - ele estava em pé, com a vitalidade que lhe conhecia de quando era miúdo, lá estava ele, o tipo que nunca gostei, e que de vez em quando vejo no meu espelho, algo que me dá nós no estômago. Mas á medida que me aproximo, essa vitalidade parece desvanecer. A idade toma conta dele, o braço esquerdo mirra, ele próprio tomba com o peso de tudo. Fico a olhar para uma carcaça que rapidamente apodrece. Acordo não muito depois.

Acordo na minha cama, faltam ainda umas horas para ter de me preocupar com o trabalho. Deixo-me ficar na cama, com a cabeça perdida em pensamentos, a luz do dia a entrar pelo quarto adentro, filtrada pelas frestas da janela. Tento não pensar em ti. Tento. Sabes que não consigo. Ainda aqui estás, de certo modo ainda aqui estás. Recosto-me na cama, e pego no tablet para ver o que havia de novo. Notificações várias, leio algumas notícias, vejo os emails que recebi - só lixo. Ainda agora acordei e já estou farto. Decido vir aqui para reler o que escrevi. Não gosto de o fazer, sinto sempre a tentação de mudar o que escrevi, ou de editar algo, por vezes adiciono coisas, muito raramente removo. Mas já o fiz, admito. Não me chateia o que escrevi, e dou por mim a sentir uma erecção formar-se. Vou-me masturbar (ceús, como detesto escrever esta palavra, mas detesto ainda mais 'bater uma', go figure), e sei que vou pensar em ti, sei que vou pensar nas fodas que demos, mas acontece o que ultimamente tem acontecido mais frequentemente que não : perco a tesão. Nada de mais, não me incomoda, e mesmo das vezes em que consigo terminar raramente me sabe bem. Tantas vezes acabo apenas com os rins a doer. Deito-me de novo, desconfortável, e lembro-me de te ter pedido em casamento aqui, em tempos, e de tu teres dito que sim. Lembro-me, de mais tarde, teres sido tu a pedir-me em casamento, já depois de teres ido e brevemente teres voltado. Acreditas que me dei ao luxo que tinhas mesmo voltado? Eu sou tão, mas tão estúpido. Ainda deitado, penso em primeiras vezes. Lembro-me tão bem da nossa primeira vez, e de algo que disse depois e que não escreverei aqui. Há limites que não ultrapassarei. E a nossa última vez? Apenas deus sabe. Mas lembro-me também e tão bem do nosso primeiro beijo, assim como me lembro do nosso último. Como posso voltar a esses sítios e não ver ecos de nós, a multiplicarem-se por uma eternidade de eternidades, menos na nossa vida? Ao pensar nisto tudo, lembro-me da primeira vez que te fodi o cú. Acho que nos apanhou todos de surpresa, estava convicto que não seria algo que faríamos - e eu estava ok com isso - mas sabes, estes dedos, estes dedos que percorreram todos os teus orifícios, todo o teu corpo, caramba, estes dedos deram por eles dentro de ti e quando te perguntei se o podia enfiar e disseste que sim, jesus, o que nasceu nesse momento. É claro que depois divaguei um bocado no pensamento. Lembrei-me da primeira vez que fiz sexo anal com uma mulher - foi com a Sara, em 2003. Não foi a primeira com quem o pude fazer, uns meses antes quando estava com a Cláudia ela disse que podíamos fazer, que gostava, mas caralhos me fodam, a minha mente romântica levou-me a dizer que ficava para a próxima vez, algo que nunca aconteceu. Mas quando eu e a Sara o fizemos, eh... não achei nada de brilhante, ela gostava, dava-lhe prazer, mas para mim não estava a ser nada por aí além. Só passei a apreciar passado uns anos, e mesmo assim era uma coisa relativamente pontual. E depois nós, olha, que hei-de dizer? Tudo foi tão bom contigo, caramba. Tudo. Não só foi bom, foi o melhor da minha vida. Deus sabe com quantas mulheres estive depois de ti; dessas todas apenas numa instância o sexo quase chegou ao nosso nível, mas faltava tudo o resto que tínhamos e que tornava tudo tão melhor. E há aqui uma tragédia, uma puta de uma tragédia, que é a pessoa que se seguiu a ti - a psicopata da Tracy - foi em tudo o pior da minha vida. Em tudo. Que pontaria de merda tive eu. É que nem o sexo era bom, não era minimamente agradável sequer. Sempre me senti meio sujo por foder com ela - e felizmente foram pouquíssimas as vezes. Era 'engraçada', a minha vida nessa altura. Era raro o dia em que não recebia uma mensagem anónima no facebook a perguntar-me como eu me sentia por saber que ela e o 'Paulinho tinham fodido forte e feio', e raios me partam, porque é que eu sou tão avassaladoramente estúpido? Não só deixei-me ficar nesta história demasiado tempo, como anos mais tarde ainda dava por mim a ir cumprimentar esse tal Paulo, como se ele fosse meu querido amigo, e nunca entendi porque o fazia - antipatizei com ele desde o primeiro momento que o conheci, e o meu instinto provou que estava certo. Será apenas falta de amor próprio? Ou pura estupidez? Já não sei. E felizmente já não tenho desses trastes na minha vida.

Sem comentários:

Enviar um comentário