Estupidamente, sempre fui daquelas pessoas que dava valor ás datas, que no meu âmago julgava ser importante que fossem celebradas. Dava valor a isso, sim, e não estou certo se estive com alguém que desse o mesmo valor. Na realidade, creio que as pessoas com quem estive eram demasiado prácticas para se preocuparem com este tipo de merdas. Mas o Gonçalo na sua ingenuidade secretamente desejava que estes dias pudessem ser celebrados. Recordo-me de uma única vez o ter tentado celebrar com a Sílvia, deve ter sido em 2009 quando estávamos em Londres, e muito relutantemente ela aceitou que eu a deixasse levar a jantar fora. Tinha em mente levá-la a jantar no Tiger Tiger, mas - e porque isto foi mesmo em cima do joelho - quando lá chegámos barraram-nos á porta porque não tínhamos feito uma reserva, e naturalmente, tudo quanto era casalinho feliz já tinha feito atempadamente as suas reservas. Andámos de restaurante em restaurante a ver se encontrávamos algum que estivesse livre, mas só em Chinatown encontrámos um chinês meio manhoso. Não me recordo já o que terá despoletado, mas essa noite depois originou a mais um protelado período de silêncio entre nós - era assim que 'discutíamos'. Talvez tenha sido aí que começou a morrer em mim essa parte que dava valor a essas coisas, de tal modo que apenas por uma vez mais na minha vida - garantidamente a última - eu quis que esse dia tivesse algum valor.
E é aqui que a minha memória me atraiçoa. Há muitas coisas que me lembro muito bem, como se tivessem acontecido recentemente. Outras... não sei, parece que aconteceram há vidas atrás, ou então que aconteceram a outra pessoa, e eu vi o filme da vida dessa pessoa, e de certo modo identifiquei-me com o que via nesse 'filme'. Mas quero dizer - embora possa estar errado - que nesse dia te ofereci um anel da Pandora, que escolheste no Vasco da Gama. Terá sido? Eu acho que sim, todavia fica em mim a ideia que terá havido mais do que uma compra na Pandora. Já não sei, lembro-me certamente dessa ocasião no Vasco da Gama.
Esta coisa de haver momentos do que tivemos em que parece que aconteceram a outra pessoa é estranha. Há uns anos atrás passei por um café, algures na baixa, onde uma vez tomámos pequeno almoço os três, e se é verdade que na minha cabeça ainda te via ali, com o menino, eu a mim não me via ali convosco. Senti que poderia ter sido um outro tipo qualquer que não eu. Mas paralelamente a isso, há outras circunstâncias em que não te consigo imaginar com outra pessoa que não comigo. Aí há uns 10 anos atrás, um dos desastres com quem me envolvi para tentar acalmar a dor de não te ter era uma moça chamada Lia. Esta jovem tinha umas pancas do caralho, por mais que uma vez pediu-me para lhe bater, e para ser bruto com ela, 'finge que me estás a violar', dizia ela. E eu disse-lhe que não gosto dessas coisas. Sim, sou mais do sexo hardcore do que do fofinho, mas cenas kinky sado-maso... epá, não, lamento, não é para mim. Façam o que quiserem se gostarem dessas merdas, mas não comigo. Seja como for, uma vez fomos foder naquela pensão onde tu e eu fomos montes de vezes - que, se calhar, até nem foram tantas vezes assim - e fomos para um quarto onde tu e eu tínhamos estado, numa daquelas sessões de foda que nós tínhamos, e de algum modo senti que não o terias feito com outra pessoa que não eu. E não sei o que me levou a pensar nisso, foi apenas uma sensação. Caramba, o que fodemos ali, tu e eu. Trocaria de bom grado tudo o que veio depois por mais um momento contigo. Será que alguma vez imaginámos que a última vez que fodemos... seria mesmo a última vez?
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