terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Tu não acreditas em mim, mas fazes sempre a mesma coisa

Sinto-me tão sozinho, sabes? E eu lido bem com a minha solidão, é algo que sempre me acompanhou, afinal tenho passado grande parte da minha vida sozinho. Há alturas em que a minha solidão me é largamente indiferente, ao ponto de não a sentir ou então ser capaz de a ignorar. Há outras em que sinto esta solidão a engolir-me. Nos piores momentos dessa solidão, é quando bebo até apagar - mas já não bebo desde sexta passada, menos mal - ou quando cedo por completo á procrastinação. Fico imóvel, desmotivado, incapaz. São nestes momentos em que vêm á tona as memórias. As memórias, e as dúvidas. Sabes, antes de nos termos reencontrado o ano passado não tive opção alguma senão acreditar no que me disseste quando foste, que tinha sido tudo um equívoco. Sempre me fez sentido, por muito que me doesse. Não teria sido a primeira vez, e não foi a última, mas esta foi a que deixou uma marca em mim. Remeti-te a uma parte da minha memória que mais se assemelhava a um sonho : imaginei por vezes que tinha sonhado com uma versão de nós que existia numa realidade paralela, e tudo me pareceu tão real, que eu caí na rede dessa ilusão. De vez em quando vinhas-me á cabeça, e sim, de vez em quando procurava por ti. Eu contei-te aquele sonho que costumava ter há uns anos atrás, que te tinhas mudado para o meu prédio. Acho que o deixei de ter quando descobri que ias ter um bébé. Foi nesse momento em que finalmente me apercebi que a história tinha terminado, embora já tivesse terminado anos antes. Mas as dúvidas, sabes? Eu ainda as tenho. Eu não duvido do meu amor por ti. Se o fizesse, porque estaria a escrever sobre ti passados todos estes anos? É falha da minha natureza, não consigo esquecer. Quem me dera poder esquecer facilmente. Em tempos questionei-me se me submeteria a uma limpeza da memória tipo no 'Eternal Sunshine of the Spotless Mind', mas não. Eu não quereria nunca esquecer-te. Eu nunca o conseguiria fazer. Seria quase como me esquecer como respirar. Ter-mo-nos encontrado... não sei, não me amenizou as dúvidas. De certo modo, fico com a sensação que não passo de um padrão, não chego a ser sequer uma pessoa real. Há uma parte de mim que pensa na maneira como fodíamos, e tudo aquilo que me disseste que não voltaste a fazer, e pensa que o fizeste comigo porque me amavas. Se calhar apenas te soube bem comigo, se calhar apenas te fez sentido comigo. Da mesma maneira, beijar um corpo, sentir um corpo, devorar um corpo, como eu fiz com o teu, também apenas fez sentido contigo. Se calhar era também uma forma de eu manifestar o meu amor por ti. Ouve, eu - e depois de ti - raramente andei de mão dada com alguém. Quando o fazia era estranho, por vezes dava por mim a olhar para a mão que estava na minha e parecia-me algo alienígeno. Eu não gostava dessas coisas por aí além antes de ti, e continuei a não ser apreciador depois, mas contigo era tudo o que eu queria, a proximidade de ti. 

Quando estive numa relação que era maioritariamente sexual com a Isabel, e embora eu soubesse que da parte dela existiam sentimentos, eu fugi sempre aos momentos de 'namoro'. Ela gostava de ficar sentada no sofá comigo aos beijos, eu não. Eu gostava de te estar a beijar a ti, e não a ela. Eu nunca adormeci sóbrio com ela - as nossas noites eram sempre bem regadas, antes da carne vir ao de cima. Mas não era com quem eu queria estar deitado. É estúpido, e estranho, mas não passei uma única noite com outra pessoa em que tivesse sentido á vontade. Tantas vezes me vinha um pedaço da primeira manhã em que acordámos juntos, em que me disseste que tinhas tido dificuldades em dormir por causa das vibrações que o metro que passa aqui por baixo faz. Eu, naturalmente, há muito que não as sinto, e teres-me dito que elas existiam e as sentiste, foi para mim uma novidade. Ah, e como quis que todas as nossas noites de aí em diante fossem boas noites para ti! Mas não tivemos muitas, pois não? Acabaram por não ser assim tantas quanto isso. Mas tivemos algumas manhãs, sim. Aquelas em que te ia esperar á estação do comboio, aquelas de onde no meio daquele oceano de pessoas que ali desovava, eu te via a vir na minha direcção, e o meu coração se enchia de felicidade e os meus olhos de luz. Essas manhãs, essas lendárias manhãs. Muito fodemos aqui no meu quarto, tentando não fazer muito barulho. E depois, quando tínhamos sorte, tínhamos talvez um par de horas onde podíamos estar juntos no escuro, os nossos corpos tão próximos um do outro que nos tornávamos um só. E isso não aconteceu com mais ninguém... não quis, não me sentia confortável. Uma moça com quem fui para a cama há já uns anos convenceu-me a passar um fim de semana com ela. Eu quis ir-me embora minutos depois de ter ido ter com ela, mas acabei por ficar. Não surpreendentemente, mais sexo mau, e isso nem foi o pior de tudo. Ela insistiu que dormisse com ela, mas havia tal distância entre nós na cama dela, que a dada altura da noite ela acordou-me e pediu-me para a abraçar. Como lhe podia dizer que não o queria fazer? Fui um cobarde, e fi-lo por uma questão de cortesia. Eu queria abraçar-te. A ti. Para sempre, mundo sem fim.

E as dúvidas trazem mais questões. Eu pergunto-me se te quero ainda. Eu sei que te amo, eu sei que te desejo, mas será que ainda te quero? A verdade é que nos tornámos pessoas que não se conhecem. Não sabemos muito um sobre o outro, se calhar mudámos demasiado, ou então não o suficiente. Não sei. Eu sei que não quero estar com mais ninguém. Estou farto, estou cansado, nunca é satisfatório. Nada trouxe o que em tempos tivemos. O que eu sei é que o que eu gostaria era que tivéssemos tido estes 12 anos que passaram juntos. Quem me dera, sabes? Teria sido um prazer e um privilégio passar o resto dos meus dias contigo. Por vezes... por vezes dou por mim a sentir que o meu coração irá ceder uma destas noites, e deixarei de estar aqui. Espero que não me procures nunca, Sofia. Mereces estar onde estás, com quem estás, e ter o que tens. Não te devo ter contado isto, mas quando deixámos de falar em Janeiro, e após ter mudado de número, apaguei o teu número, o teu email, tudo. Não posso ter a tentação de te incomodar. E sabes, ainda que da última vez que estivemos juntos eu tivesse ido para casa com o coração dilacerado, porque não conseguiste olhar para mim sequer, e porque senti profundamente que não gostavas mesmo de mim, morrerei com a mágoa de não te ter olhado nos olhos, e de ter beijado como só a ti beijei, uma vez mais, uma última vez, e dizer-te que te amo com tudo o que sou.


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