Uma lição que deveria ter aprendido muito cedo nessa relação foi que deveria ter mantido muita coisa para mim mesmo, desde músicas que gosto e quis partilhar, a alguns dos livros da minha vida, porque houve tanta, mas tanta coisa que redundou apenas em escárnio e desprezo e acabava comigo a sentir-me profundamente inadequado. Mas quando lhe contei a nossa história, e isto porque estávamos a ter uma conversa sobre saúde mental, e eu lhe contei que sempre tinha tido as minhas dificuldades com certas situações na minha vida, contei-lhe como nos tínhamos conhecido, como a nossa relação tinha sido, e como o fim dela me tinha devastado. Disse-lhe que durante o ano que se seguiu estive tão mal que quase não conseguia sair de casa. E então ela perguntou-me quanto tempo tínhamos estado juntos, e eu disse-lhe uns seis meses ou coisa assim. 'Oh amor', disse ela - e ela tratava-me por 'amor' - 'ficaste assim por seis meses? POR SEIS MESES? pOr sEiS mEsEs??', e ria-se á bandeira despregada. Eu cá para mim não achava piada nenhuma, apenas me fiquei a sentir incrivelmente triste. 'Não me digas que vais chorar', disse ela, e eu engoli as lágrimas e sorri, mas por dentro o que restava do meu coração despedaçava-se mais um pouco.
E confesso que havia uma parte de mim que invejava essa capacidade de relativizar as coisas. 'Pois é, seis meses, já viste que coisa estúpida? Ahahahaha!', ou uma coisa assim. Mas não consigo. Não consegui então, não consigo agora. E porque conseguiria? A metáfora que vou usar é uma que detesto, porque adoro chuva, e por mim podia estar a chover o tempo todo, mas de modo a que qualquer pessoa consiga entender, tu foste seis meses de sol num vida de chuva incessante. Como é que eu relativizo isso? Como é que eu esqueço? Fácil, não o faço. Sorrio apenas. O que foram apenas seis meses, certo? Para mim foram apenas tudo, mas é suposto eu seguir em frente e esquecer como uma pessoa normal.
Eu procurei-te em todo o lado, nestes últimos 12 anos, menos, claro está - onde tu estavas. Eu sabia que nunca poderia ir ter contigo, que nunca poderia cruzar-me contigo sequer. Não imaginas o quão triste fiquei quando me enviaste o pedido de amizade no facebook em 2016, apenas para me eliminares de seguida. É tão fácil descartar-me. Eu estava com o Ian numa loja de jogos de tabuleiro onde ele ia a um torneio aos fins de semana, e a notificação trouxe-me um sorriso ao rosto. Quando te respondi estava... nem era zangado, sequer. Estava desiludido. Mas ainda assim... ainda assim via-te nos olhos de cada rosto que me era estranho, via o teu fantasma em qualquer sítio em que tenhamos estado. Escrevo isto, e hoje vi-te na minha rua. Não, claro que não eras tu, era apenas uma moça que assim de repente se parecia ligeiramente contigo, mas o meu coração ficou a bater a mil a hora, as minhas pernas pareciam gelatina, as palavras ficavam presas na garganta. Será possível, perguntei eu, seria mesmo verdade, meu deus que pensamentos tão estúpidos, é claro que não é possível. Nunca será.
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