domingo, 16 de fevereiro de 2025

Uma silhueta ausente

Não bebo desde sexta á noite. Já não me sabia bem, mas e daí também não me estava saber mal - já só me estava a deixar cansado, lento, e pesado. Os meus dias estavam a ficar cada vez mais difíceis de suportar, e cansava-me andar á procura de uma justificação para me enfrascar no fim do dia. Justificação essa que não era necessária, nestes dias sabia perfeitamente que ia acabar por beber. Mas tinha de inventar uma desculpa qualquer para me parecer 'aceitável' acabar por beber. E os meus dias - quando bebo - são uma merda no dia seguinte, sinto-me completamente de rastos, e se já recuperar de uma destas não é fácil, fazê-lo recorrentemente é quase impossível. Tenho dias que são um suplício autêntico de suportar, e em vez de quebrar o ciclo, dou por mim a perpétua-lo. Mas não agora. Não agora. Acho que estou demasiado cansado para beber. Demasiado sem vontade. E a verdade é que sem o fazer, fico com uma claridade na cabeça que muitas vezes não me atrevo a ter, e em boa verdade, nem quero ter. Estar sozinho com a minha cabeça é uma coisa horrível.
O Gonçalo que pensa em ti sóbrio é tão diferente do Gonçalo que pensa em ti alterado. Oh, não penses que de modo algum sinto menos desejo por ti - sinto, sempre sentirei. Não é a minha sobriedade que me tornará mais eloquente, certamente não nesse campo. A minha vontade de foder contigo nunca desaparecerá. Mas nestes momentos eu penso mais em coisas diferentes. Relacionadas, sim, mas diferentes. É claro que penso nas fodas pornográficas que dávamos, é claro que penso em estar dentro da tua cona e do teu cú e de me vir em cima de ti, é claro que penso em todas as vezes que te vieste comigo. Mas penso também no antes e no depois. Penso em como beijava todo o teu corpo, como o conheci intimamente, como o teu cheiro e o teu sabor existem ainda em mim. Penso em como adorava despir-te, e de ter ver em roupa interior, e como ficava repleto de desejo por ti só por sentir a electricidade da tua pele nua. E como era bom, meu deus, como era bom depois ficarmos os dois nos braços um do outro no escuro do meu quarto, ou então na cama daquela pensão. 
E eis aqui uma verdade : há coisas que acontecem uma vez apenas nas nossas vidas. Eu estive com algumas pessoas bem mais tempo que estive contigo, e todavia não me recordo de quase nada de relevante desses tempos. Certamente não perco o meu tempo a pensar no sexo que tive com outras pessoas, tenha sido ele bom ou mau. Porque o faço contigo? Não apenas o sexo, mas os sentimentos, porque é que eles existem, porque permanecem? Porque não o senti com outras pessoas? Eu nunca beijei o corpo de outra pessoa como beijei o teu. Na realidade, a dada altura já nem gostava de beijar. Não me fazia sentido, creio. Não me sabia bem. Sabia-me a... a desperdício de tempo. E eu sei, sim eu sei, que não é algo bom de se sentir, nem sequer de fazer sentir a outra pessoa. Talvez por isso também me tenha decidido a não voltar a estar com alguém. 
Quando penso que te amo, ás vezes pergunto-me quem é que amo. Amo-te a ti, uma pessoa que não conheço há anos e anos? Amo a pessoa com quem estive? Amo esse fantasma? Amo uma versão idealizada de ti? Quando estou com os copos não penso nisto, não nestes moldes. Penso que te amo, sim, e não questiono o porquê. Todavia se questionar esse amor - mesmo sóbrio - há algo que bate no meu coração e me faz lembrar e saber que aquilo que nasceu há tantos anos atrás está destinado á permanência. 
Não te cheguei a contar isto, mas não muito antes de termos deixado de falar de vez, antes de me ter despedido de ti pela última vez, estava a fazer arrumações aqui no meu quarto - caramba, parece que tenho sempre tralha para mandar fora - e encontrei uma carteira que já não via há anos. Nessa carteira, estava algo que julgava já não ter. Julgava que tinha perdido essa carteira há anos atrás, mas ei-la aqui no meu quarto. Peguei nela, sentei-me no rebordo da cama, e procurei o que lá estava. Uma data de cartões de cliente de quando morava em Londres, passes antigos e caducados, um cartão do minipreço daqueles pequeninos que as pessoas normais usam no chaveiro, e num daqueles recantos internos da carteira, o que encontro eu? Uma fotografia tua, e outra do menino. Eu estava tão certo que as tinha perdido. E sabes, chorei tanto nesse dia, e nos dias seguintes, e para parar o choro tive de silenciar a minha mente, de a afogar em veneno. E depois foste, foste mais uma vez, foste de vez, e não há veneno no mundo que conseguisse apaziguar a dor que ficou. Passei os dias seguintes a alhear-me da realidade, á deriva num oceano de álcool, o teu silêncio sepulcral, eu a querer mais do que tudo falar contigo, estar contigo, ter-te de novo... mas sabendo que nunca mais aconteceria. Numa dessas noites embriagadas dei por mim a vestir-me, pegar na carteira, e joguei-a no lixo. No dia seguinte, á medida que ficava sóbrio e me ia lembrando da noite anterior, dei por mim a entrar num desespero imenso. Ainda fui a correr ao caixote do lixo, mas estava vazio. Tinha havido recolha nessa madrugada, e foi-se a última coisa que ainda tinha tua. A última coisa tangível. 
Só restam as memórias. Só resta o desejo, e as palavras, e a vontade de ti. Só resta uma silhueta, que, por mais tempo que passe, irá permanecer comigo sempre.

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