O Gonçalo que pensa em ti sóbrio é tão diferente do Gonçalo que pensa em ti alterado. Oh, não penses que de modo algum sinto menos desejo por ti - sinto, sempre sentirei. Não é a minha sobriedade que me tornará mais eloquente, certamente não nesse campo. A minha vontade de foder contigo nunca desaparecerá. Mas nestes momentos eu penso mais em coisas diferentes. Relacionadas, sim, mas diferentes. É claro que penso nas fodas pornográficas que dávamos, é claro que penso em estar dentro da tua cona e do teu cú e de me vir em cima de ti, é claro que penso em todas as vezes que te vieste comigo. Mas penso também no antes e no depois. Penso em como beijava todo o teu corpo, como o conheci intimamente, como o teu cheiro e o teu sabor existem ainda em mim. Penso em como adorava despir-te, e de ter ver em roupa interior, e como ficava repleto de desejo por ti só por sentir a electricidade da tua pele nua. E como era bom, meu deus, como era bom depois ficarmos os dois nos braços um do outro no escuro do meu quarto, ou então na cama daquela pensão.
E eis aqui uma verdade : há coisas que acontecem uma vez apenas nas nossas vidas. Eu estive com algumas pessoas bem mais tempo que estive contigo, e todavia não me recordo de quase nada de relevante desses tempos. Certamente não perco o meu tempo a pensar no sexo que tive com outras pessoas, tenha sido ele bom ou mau. Porque o faço contigo? Não apenas o sexo, mas os sentimentos, porque é que eles existem, porque permanecem? Porque não o senti com outras pessoas? Eu nunca beijei o corpo de outra pessoa como beijei o teu. Na realidade, a dada altura já nem gostava de beijar. Não me fazia sentido, creio. Não me sabia bem. Sabia-me a... a desperdício de tempo. E eu sei, sim eu sei, que não é algo bom de se sentir, nem sequer de fazer sentir a outra pessoa. Talvez por isso também me tenha decidido a não voltar a estar com alguém.
Quando penso que te amo, ás vezes pergunto-me quem é que amo. Amo-te a ti, uma pessoa que não conheço há anos e anos? Amo a pessoa com quem estive? Amo esse fantasma? Amo uma versão idealizada de ti? Quando estou com os copos não penso nisto, não nestes moldes. Penso que te amo, sim, e não questiono o porquê. Todavia se questionar esse amor - mesmo sóbrio - há algo que bate no meu coração e me faz lembrar e saber que aquilo que nasceu há tantos anos atrás está destinado á permanência.
Não te cheguei a contar isto, mas não muito antes de termos deixado de falar de vez, antes de me ter despedido de ti pela última vez, estava a fazer arrumações aqui no meu quarto - caramba, parece que tenho sempre tralha para mandar fora - e encontrei uma carteira que já não via há anos. Nessa carteira, estava algo que julgava já não ter. Julgava que tinha perdido essa carteira há anos atrás, mas ei-la aqui no meu quarto. Peguei nela, sentei-me no rebordo da cama, e procurei o que lá estava. Uma data de cartões de cliente de quando morava em Londres, passes antigos e caducados, um cartão do minipreço daqueles pequeninos que as pessoas normais usam no chaveiro, e num daqueles recantos internos da carteira, o que encontro eu? Uma fotografia tua, e outra do menino. Eu estava tão certo que as tinha perdido. E sabes, chorei tanto nesse dia, e nos dias seguintes, e para parar o choro tive de silenciar a minha mente, de a afogar em veneno. E depois foste, foste mais uma vez, foste de vez, e não há veneno no mundo que conseguisse apaziguar a dor que ficou. Passei os dias seguintes a alhear-me da realidade, á deriva num oceano de álcool, o teu silêncio sepulcral, eu a querer mais do que tudo falar contigo, estar contigo, ter-te de novo... mas sabendo que nunca mais aconteceria. Numa dessas noites embriagadas dei por mim a vestir-me, pegar na carteira, e joguei-a no lixo. No dia seguinte, á medida que ficava sóbrio e me ia lembrando da noite anterior, dei por mim a entrar num desespero imenso. Ainda fui a correr ao caixote do lixo, mas estava vazio. Tinha havido recolha nessa madrugada, e foi-se a última coisa que ainda tinha tua. A última coisa tangível.
Só restam as memórias. Só resta o desejo, e as palavras, e a vontade de ti. Só resta uma silhueta, que, por mais tempo que passe, irá permanecer comigo sempre.
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