quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Foi logro aceite quando nos fodemos

Tenho um ritual frequente - não diário, para desgosto dos meus gatos - que é levá-los a passear aqui nas traseiras da minha casa. E por 'traseiras' entendamos que é apenas o corredor que liga a porta das traseiras da minha casa até ás escadas das traseiras, e tenho de me colocar perto das escadas para que nenhum tenha a tentação de fugir escada acima ou escada abaixo, como de vez em quando acontece, e lá vai o Gonçalo a correr atrás de um ou mais gatos. Conto isto apenas porque por vezes quando vou num destes passeios, acabo por dar de caras com a roupa da minha vizinha do lado, que está pendurada a secar. E volta e meia reparo que lá está a roupa interior dela e fico a olhar para ela. Não de uma maneira creepy, claro, não mexo nela, nem sequer a vou cheirar, nada dessas merdas. Mas fico a pensar naquelas coisas que de tão corriqueiras e banais que são, não lhes damos o devido valor. E pensar em roupa interior é também pensar que uma das muitas coisas que já não me consigo lembrar sequer é precisamente a questão da roupa interior de outra pessoa. Sim, no contexto de foder, e no contexto do preâmbulo para o acto de foder em si, o despir, o sentir, a textura, a cor, como se sente de encontra o corpo. Mas mais que isso, faz-me pensar na intimidade entre duas pessoas. Faz-me pensar naqueles momentos calmos, e embora possam prenunciar uma tempestade de carne e de prazer, existe uma comunhão tão grande de energia e amor, sei lá, aprecia-se tão mais estas pequenas coisas que tomamos por garantidas. Talvez não esteja a fazer muito sentido, e faz sentido que não esteja. Por vezes - e cada vez mais frequentemente - sinto que não sou um tipo moderno, embora não seja de todo antiquado. Apenas sinto que deveria ter nascido noutra época, devia ter nascido no século XIX e ter ido para o Yukon, e ter construído uma cabine com a madeira das árvores que eu mesmo cortei, e ser auto-suficiente, tudo o que me sustentaria seria a terra a providenciar. Ah, mas aliás, nasci este trambolho do caralho, que não tem jeitinho para nada. Estas mãos, coitadas, nunca conseguiram fazer nada de jeito. Em puto era invariavelmente sempre o pior da turma em trabalhos manuais - puta que pariu, como eu detestava essa disciplina. Tudo me saía mal, sempre fui incapaz de terminar um único trabalho, e sentia-me sempre como o maior burro do mundo. Eh, e as coisas não ficaram muito melhores em adulto, não. Ah, no entanto, estas mãos tornavam-se as de um cirurgião de topo, ou de um conceituado pianista, quando tocavam no teu corpo. As sinfonias de prazer que compus em ti, dentro de ti, essas não têm igual. E porque teriam? Há mesmo coisas que são únicas. Há mesmo coisas que acontecem apenas uma vez na nossa vida. Há pessoas que nos tocam como mais ninguém. Há coisas que apenas fazem sentido com a pessoa certa.
Da última vez que estivemos juntos - essa vez que não ter o teu olhar em mim me cortou a alma em milhentos pedaços - enviaste-me depois o link para um albúm ao vivo de Placebo, 'Collapse Into Never', mas na altura não o consegui ouvir. E. confesso, nunca mais pensei nele, até ontem. Até ontem. Estava em casa a fazer umas arrumações, e decidi colocá-lo a tocar no iPad para me entreter. Quando acabou sentia-me completamente drenado. É claro que foi mexer comigo emocionalmente. É mais uma daquelas coisas que nunca faremos, vê-los juntos. Ou se calhar, um dia até estaremos no mesmo sítio a vê-los, mas estaremos tão longe como sempre, seremos sempre como dois navios na noite. 

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