Depois de a escrever, dei por mim a olhar para o ecrã, e algo - não sei bem o quê - estava-me a impedir de carregar de imediato no botão 'publicar' e terminar aqui as minhas escritas. Levantei-me da cadeira, fui tratar das milhentas coisas pendentes que tinha para fazer. Depois de estar despachado, decidi sair de casa, depois de almoço, e fui dar uma volta para desanuviar um pouco, uma vez que hoje me deram o dia no trabalho. Eu acho que já sabia para onde estava a ir mesmo antes de lá chegar, e eventualmente dei por mim a entrar na Igreja de São João de Deus. Igrejas... são sítios onde nunca me senti confortável. Não gosto, nunca gostei, do cheiro de incenso, e sempre senti qualquer coisa lá que não me era inteiramente positiva. Mas aqui e ali na minha vida, houve alturas em que vagueei para dentro de igrejas e encontrei lá uma paz inesperada. Entro pela igreja adentro, e fico sentado durante uns minutos perto da entrada. Foi aqui que fui baptizado e fiz a primeira comunhão. Foi aqui que estive nos velórios dos meus avós. Era aqui que um dia sonhei casar-me contigo. Tento imaginar esse momento, na minha cabeça : tu e eu, casados ali. É neste momento que tenho um pensamento, que me leva a uma memória.
Há uma data de anos atrás, quando comecei a trabalhar onde estou ainda, tive uma colega com quem me dava muito bem. Chamemos-lhe 'Marta', embora não fosse esse o nome dela. E a Marta é uma rapariga incrivelmente bela, que cheira sempre super bem, e que se veste com muita classe; na realidade, ela já trabalhava lá há alguns anos, e dava-se bem com toda a gente, mas ela tinha um ar meio misterioso. Digo isto na medida em que parecia ser daquelas pessoas que quando falava, não dizia muito senão o essencial para a interacção em si. A dada altura, a Marta começou a fazer-me companhia durante a minha hora de almoço. Ora, eu raramente comia na cafetaria, normalmente comprava qualquer coisa antes de entrar, e depois quando ia almoçar sentava-me num dos sofás no hall de entrada do edifício onde trabalhávamos, e ficava a ler. Inicialmente, a Marta sentava-se ou ao meu lado, ou á minha frente, e perguntava-me o que é que eu estava a ler, e eu dava uma breve sinopse do livro. Com o tempo, começámos a falar, e a ter conversas mais profundas. Ela foi-se abrindo, e contou-me histórias que eu intuía que não eram necessariamente histórias que ela contasse muitas vezes. É difícil classificar-nos como amigos, embora houvesse uma relação mais que profissional. Talvez fôssemos apenas pessoas que conseguiam confiar uma na outra, não sei. Para aí até 2019, quando fui para outra equipa, noutro edifício, eu e a Marta demo-nos muito bem, e - caramba - tantas vezes eu dei por mim a olhar para ela, tal era a sua beleza, e também devido ao facto de ela trabalhar imediatamente á minha frente. Numa dessas vezes em que estava a olhar para ela - sabendo perfeitamente que nunca teria uma chance com ela - ela apanhou-me a olhar e fitou-me nos olhos, com um sorriso maroto. Disse-me que queria ter uma conversa séria comigo á hora de almoço. Fiquei super nervoso, não fazia ideia o que poderia ser. Quando chegou a hora de almoço, ela foi ter comigo e perguntou-me se eu podia ir falar com ela para um sítio mais privado. Bem, se já me sentia nervoso antes, mais fiquei. Fomos até ás escadas de emergência do edifício, e ficámos lá sentados a falar. Depois de uns instantes, ela lá me perguntou : 'Quando é que descobriste?', e eu - completamente perdido - perguntei-lhe 'Descobri o quê?', e ela ri-se e diz-me que sabe perfeitamente como olho para ela. Eu encolho os ombros, e admito que a acho lindíssima, mas não teria coragem para sequer entreter o pensamento em ter algo com ela. E ela ri-se, e diz-me, 'Não é nada disso que estou a falar. Diz-me lá como é que descobriste?', e eu fiquei a olhar para ela, e disse-lhe que não fazia ideia do que ela estava a falar. Ela olha para mim com os olhos semi-cerrados, como se não acreditasse completamente no que eu estava a dizer, mas depois diz-me que me ia mostrar uma coisa, mas que tinha de ficar só entre nós. Eu disse ok, claro, não contaria a ninguém. Ela vai ao telemóvel dela, procura qualquer coisa lá, e passados uns momentos pede para me aproximar. Ela tira o som, e mete um vídeo a tocar. Não é algo demorado, são apenas uns dois minutos, mas é o suficiente para me deixar completamente silencioso. 'Era isto a que me referia', disse ela. 'Julgava que tinhas descoberto.', e eu não me passava pela cabeça, nem nos meus mais mirabolantes pensamentos, que ela se pudesse estar a referir ao facto de ela nos tempos livres dela fazer videos em que deus sabe quantos gajos se estão a vir para cima da cara dela. Eu não quero saber do que as pessoas fazem ou deixam de fazer na sua vida privada, se os faz feliz, que o façam á vontade, quem sou eu para julgar? Mas foi estranho, eu julgava que já a conhecia bem e no fim apercebi-me que na realidade nunca conhecemos uma pessoa completamente.
Saio da igreja a pensar nesta história, e sento-me num quiosque na Praça de Londres para beber algo fresco. Penso se conheci bem a Dora, com quem vivi quase 8 anos. E a verdade é que não sei se conheci, se me perguntassem hoje se sei dizer alguma coisa sobre a infância dela, ou sobre a adolescência dela, não saberia dizer muito. Nem da Sílvia sei muita coisa. Não sei se alguma vez soube porque é que ela quis ser arquitecta, não sei quase nada sobre a vida dela antes de mim. E estive com ela cinco anos. Que sei eu sobre ti, com quem passei apenas seis meses? Se calhar menos ainda. Se calhar não me dei ao trabalho de querer saber, e talvez isso explique algumas coisas. Se calhar tive esperança que ia ter tempo para conseguir saber, e talvez isso explique outras tantas coisas. E nisto dou por mim a aperceber-me de um paralelismo entre todas estas relações que foram as mais relevantes da minha vida. Com uma brevíssima excepção, nunca conheci a família das pessoas com quem mais tempo passei. A Dora nunca me apresentou á sua mãe; na realidade a única vez que quase nos cruzámos com ela, a Dora viu a mãe a tempo, e pegou-me pela mão e escondeu-me atrás de um pilar. O pai dela, apenas o conheci porque a mãe dela tinha morrido, e apenas o vi umas duas vezes antes dele morrer também. Com a Sílvia, apenas por uma vez houve a eventualidade de eu conhecer a mãe dela, e isto já foi mesmo no fim da nossa relação. Estávamos em Setúbal uma vez, e ela tinha de ir ter com a mãe dela ao trabalho, para lhe dar uma coisa ou alguma cena assim, mas antes de lá chegarmos, ela pediu-me para eu ficar á espera dela tipo uma rua atrás. Dei por mim a pensar se ela teria vergonha do que a mãe dela fazia, a senhora trabalhava numa peixaria, ou se teria vergonha de mim. Fez-me mais sentido que tivesse vergonha de mim, tal como tinha sentido que a Dora tinha tido 15 anos antes. Pareceu-me normal que as pessoas com quem eu partilho a vida sintam vergonha de mim. Imaginas a esperança que eu tive que contigo tivesse sido diferente? Mas quando não foi, eu aceitei no meu âmago, resignei-me a esse facto. É normal, e não havia razão alguma para ter sido diferente contigo.
Dou por mim a pensar se alguma vez realmente sabemos que estamos a fazer algo pela última vez.
Será que eu soube que estava a ver a minha avó pela última vez quando, bem, quando a vi pela última vez? Se calhar tinha a esperança de a poder ver ainda em vida. Será que no dia em que acordaste, e decidiste que não ias ficar, sabias que não íamos voltar a estar juntos? Sabes, especialmente neste último ano e qualquer coisa, eu tenho pensado tanto no que foi a nossa história, e a avaliar se ela realmente merece o peso que tem na minha vida. Eu lembro-me tão bem da primeira vez que estivemos juntos, naquele dia da Gulbenkian. E lembro-te tão bem da primeira vez que nos beijámos, no Torel. E lembro-me tão bem da primeira vez que fodemos. Eu lembro-me de tanta, tanta coisa. Mas também me lembro da primeira vez que estivemos juntos depois da nossa história ter terminado, quando fui ter contigo ao Cacém. Doeu cumprimentar-te como se fosse apenas um estranho, e por dentro estava todo desfeito, a tentar não chorar, porque olhava para ti e tu parecias tão leve, tão livre, como se a minha ausência da tua vida te tivesse levantado um peso descomunal de cima dos teus ombros. Lembro-me da última vez que nos beijámos, na Gulbenkian, e tu disseste-me que quando eu te beijava assim, tu eras minha, e eu pensava se isso seria assim uma coisa tão má, e só podia ser. Vou-me lembrar sempre da última vez que alguma vez nos veremos, aquela noite no cinema. Doeu tanto. Ainda dói. Senti que me odiavas com todo o teu ser.
Volto para casa, e troco de roupa para ir treinar. Não deixo de pensar em tudo isto durante o treino, custa-me estar a fazer exercício porque não me consigo concentrar. Com algum custo, acabo o meu treino, e vou de volta para casa, preciso de tomar banho, e finalmente descansar um pouco. Deixo o tempo passar até ir jantar com amigos, mas nada me remove a melancolia que sinto hoje. Não pela primeira vez, apercebo-me que sou uma pessoa que não consegue aprender com as lições. Deveria, há anos e anos atrás, mesmo antes de ti, ter aprendido a não esperar, nem sequer a desejar coisas impossíveis. Destruo-me desnecessariamente porque, embora a distância não me leve a saudade, também ela não me leva a esperança, por muito ténue que seja. Mas isto é a vida real, não é uma série de televisão, nem é um filme de Hollywood. Na vida real, ninguém desiste de tudo o que tem apenas porque sim. Em breve, quando me for embora para não mais voltar, ainda vou dar por mim a olhar para trás uma última vez, ainda vou sentir a esperança de... de qualquer coisa. Mas sei que depois vai acontecer o que sempre acontece na vida real. Quando... quando ainda falávamos, e já muito perto de o termos feito pela última vez, tu disseste-me que eu iria encontrar o amor da minha vida. Quando li essa mensagem, fui ás lágrimas, e dei-te uma resposta diplomática, ainda que tenha sido uma mentira. Disse-te que não seria nesta vida. Não te disse que já tinha encontrado o amor da minha vida, não te disse que eras tu, não te quis estar a chatear-te mais com essas coisas. Preferi ficar com isso para mim e dizer-te outra coisa. Sorri, com o coração quebrado, sabendo que de nada me valeria dizer-to novamente. Dizer ao vento que te amo não me trará o teu amor. Contar ás estrelas que tenho saudades tuas e que me fazes falta, não te trará de volta. Ouvir o teu nome nas ondas manter-te-á exactamente onde me disseste que ias ficar.
Todo este exercício foi tão... tão profundamente patético. Por vezes penso que se lesses estas coisas, depois ias partilhar com as tuas amigas, e se iam rir todas deste falhado. E quem as poderia censurar? Que espécie de falhado ama com tudo o que é um fantasma que passou pela sua vida em tempos? Um falhado como eu, é o que é. Quando te foste, em 2013, eu estava perto de fazer 36 anos. Hoje faço 48, e há um quarto da minha vida que estou num luto por alguém para quem não sou sequer uma memória. Estou preso, preso a um amor do qual não consigo deixar de sentir. Eu sei que quando decidiste não ficar foi apenas mais um dia para ti, mas eu fiquei preso nesse dia, que se decorre em câmara lenta, e estou há anos á espera que esse dia termine. Um quarto da minha vida... isso é tanto tempo. E eu sei que é tudo o que me resta, até ao fim dos meus dias, ainda que cada vez mais exista uma inultrapassável distância entre mim e ti. Não entre 'nós', isso não existe há muito tempo.
Eu sei que fui eu que te pedi para me esqueceres. Eu sei que fui eu que te pedi para seguires em frente, e para me deixares de amar, para dares esse teu enorme amor a quem te ama e a quem o merece. Eu sei. Eu sei. E sabendo tudo isso, como posso ter a sombra da esperança que de algum modo te lembrasses de mim ainda? Como posso eu sonhar que fosse mais que uma memória ainda? Não posso.
Finalmente em casa, vou até á varanda de novo. Lá fora as cigarras cantam, e a lua está quase cheia. Vai alta a lua, Sofia. Eu olho lá para cima e penso em ti. Pela última vez, digo em voz alta que te amo. Eu, que consegui dominar a arte de me tornar invisível, mesmo para mim, agora dou-me um valioso presente : o dom do silêncio. 'Quem me dera que tivesses ficado', digo eu ao céu e ás estrelas. Na minha cabeça, estou sentado ao teu lado na Gulbenkian, naquele dia em que me apercebi que te amava. Não posso tirar uma fotografia desse momento. Ele já passou.