Ando a fazer um exercício diário que consiste em ouvir um álbum que nunca tenha ouvido antes, todos os dias. Isto não é tão fácil quanto parece, porque por vezes não sei sequer o que é que vou ouvir. Passo longos momentos a pensar num tema, ou em bandas ou artistas que façam alguma espécie de sentido estarem juntos. Há uns tempos pensei que - eventualmente - um dos temas que farei serão álbuns que me façam lembrar de ti. E não me consigo lembrar de tantos quanto isso, a não ser a discografia completa de Placebo. E ao pensar nisso, lembrei-me que na última vez que estivemos juntos, me enviaste não só o link para o álbum ao vivo, como me mandaste também algumas músicas do último de Nick Cave. Como não cheguei a ouvir os álbuns, pelo menos dois já tenho. Mas o importante disto não é a música, foi o ter-me recordado daquela noite. Ter pensado nessa noite levou-me a um momento alguns anos antes de nos termos conhecido, quando a minha relação com a Sílvia caminhava a passos largos para o fim. Houve um momento em que me apercebi - em que finalmente me apercebi - que o amor por si só não era suficiente para suster uma relação, nem para a salvar, e que por fim todo esse amor, sem uma série de outras coisas que tínhamos jogado janela fora, não era nada senão um punhado de nada. Foi uma lição, sabes? Uma dolorosa lição. Foi por isso que em todas as relações que tive depois dela, eu entrei sempre com a noção de que também elas tinham um prazo, e que não durariam. E depois conheci-te, e julguei que ia ser para sempre.
Naquela noite em que estivemos juntos pela última vez, também me apercebi de uma coisa. Apercebi-me que nunca teríamos durado muito tempo juntos. Haveria sempre algo onde sentirias que eu estaria a ser deficitário, onde eu não iria estar tão presente, e quererias - até faria mais sentido teres - alguém que fosse o que precisas. Seria uma questão de tempo até chegares a essa conclusão, e quem sabe, até podia ter sido mais tempo do que aquele a que tivemos direito e se calhar a nossa vida juntos teria tido outros desenvolvimentos, e no fundo teria sido tudo mais um peso adicional para ti. Antes assim, foi apenas como foi e nada mais. Pensar nisto faz-me pensar numa pessoa, e numa conversa em específico que tive com ela: uma moça com quem trabalhei em tempos, a Carla.
Eu achava-a estupidamente bonita e interessante e um dia convidei-a para irmos jantar. Apercebi-me logo que ela era uma miúda moderna, das causas e das manifestações, então pensei que o melhor não seria levá-la ao Mac... levei-a a um restaurante vegan, assim meio para o carote, e depois acabámos por ficar juntos até ás cinco da manhã. Era uma noite de verão, então a temperatura estava agradável, e a conversa também, e fomos ficando. Também fiquei com o feeling que ali não haveria nada, pelo discurso dela intuí que eu não seria particularmente do interesse dela. A dada altura, falávamos sobre o preço das rendas, e coisas desse género, quando ela entra numa diatribe plena de vitupérios, sobre não querer ter de depender de ninguém, e sobre como não queria ser salva por ninguém. Na realidade, era uma salada de palavras que não significava grande coisa, senão para me dizer que, hey, vamos ser apenas amigos, até porque não muito tempo depois encontrou a sua 'alma gémea' e tudo aquilo que me tinha dito que não queria foi algo que passou intensamente a querer, e mais poder para ela.
Ainda estive para dizer qualquer coisa, mas calei-me e acenei com a cabeça. Fiquei triste, não por causa dela, ou por ela ter dito o que disse, mas porque dei por mim a pensar que definitivamente não tinha nascido na era correcta. Eu pensei - nesse momento pensei - que a coisa mais nobre que uma alma pode por fazer por outra é salvá-la. Mas eu apenas sei como salvar com o meu amor, e isso já se viu que é insuficiente.
Custou-me como eu não imaginaria ser possível aperceber-me que, ainda que se apenas me tivesses dado mais uma chance - se nos tivesses dado mais uma chance - nem assim eu seria capaz de nos salvar com o amor que sentia. A minha fé nele era tão inabalável que sentia que tudo seria possível. E a essa ilusão me agarrei durante tantos anos. Tantas, mas tantas vezes, pensei que tudo teria sido possível de resolver. E aqui há também uma grande lição, sobretudo sobre mim. Não menos dolorosa do que a aprendi com a Sílvia, mas de certo que não haverá ocasião para a lição ser testada.
Há pouco tempo atrás perguntaram-me se eu ia ao concerto dos Placebo. Nem sequer sabia que eles vinham cá. Sorri, um sorriso leve e triste, antes de responder. Disse, muito diplomaticamente, que não seria muito provável que fosse. Estou absolutamente certo que naquele oceano de pessoas me haveria de cruzar contigo. Volto àquela última noite e penso que disseste uma coisa absolutamente certa : aqui não existe conversa alguma que o Gonçalo e a Sofia nunca tiveram. Não há propósito válido para isto, não o havia o ano passado e não o há agora. Por muito que diga que é uma vontade minha de alguma maneira comunicar contigo, e ainda que saiba que eventualmente, mais cedo ou mais tarde, lerás estas palavras... não têm efeito práctico algum. Nem sei se o faço por vaidade, por egoísmo, ou por pura estupidez. Se calhar é por falta de amor próprio, mesmo. Não, eu sei. Eu sei.