Em 1989 quando entrei para o sétimo ano tive o meu primeiro ‘desgosto’ amoroso, que não foi desgosto algum, na realidade. Como em tantas outras coisas que futuramente aconteceriam, eu pura e simplesmente não poderia competir com outra pessoa pelo afecto de outrem. Mas a moça em questão - cujo nome ou era Ana ou Maria, eu sinceramente já não me lembro, porque ambas andavam na mesma turma que eu, e ambas tinham o mesmo incomum apelido - Luís - esta moça foi a primeira pessoa por quem senti desejo de partilhar algo. O quê, exactamente, não sabia ainda, e ainda não pensava sequer me coisas sexuais, ainda não tinha chegado a esse ponto. Mas dei por mim pela primeira vez a fazer uma correlação entre essa dor que sentia e uma solidão que sempre conheci, e nunca me importunou. Nessa altura, a minha mãe trabalhava na RTP e ela dava-me os tickets refeição que ela recebia como subsídio de refeição, e eu costumava ir almoçar ao saudoso Cinebolso - havia lá um restaurante de fast-food italiano, onde volta e meia os meus pais nos levavam a jantar, mas não me consigo lembrar já do nome, embora tenha ido lá N mil vezes, e também um cinema pornográfico, algo que deixava o jovem Gonçalo profundamente envergonhado sempre que por lá passávamos - e ás tantas o pessoal que trabalhava nesse restaurante já me conhecia, e sabia perfeitamente o que eu encomendava - era sempre o mesmo, pizza de atum, e um copo de coca-cola. Na altura eu não prestava grande atenção ao que se passava á minha volta, não reparava da maneira como as pessoas olhavam para mim, nem queria realmente saber do que as pessoas pensavam de mim. Mas esta história com a Ana / Maria muda algo em mim. Um dos dias em que vou almoçar á pizzaria, dou por mim a acabar o meu copo de coca-cola ainda antes de ter chegado a metade da pizza, e não tinha dinheiro para comprar outro copo. A dada altura, uma das moças que lá trabalhava trouxe-me outro copo, e eu disse que não tinha pedido, mas ela disse que era por conta da casa. Senti tanta pena da parte dela, e depois quando estava para pedir a conta vi-a mais uma colega a falar e a olharem na minha direcção, como se eu fosse uma coisa estranha, por estar sempre sozinho. Era puto e estes pensamentos eram novos para mim; até então nunca me tinha passado pela cabeça que não fosse uma coisa normal, uma pessoa fazer coisas sozinha. Mas e daí também eu nunca tinha querido fazer as coisas acompanhado, afinal quantas vezes não fui ao cinema sozinho, quantas vezes não fui passear sozinho? Ah, mas a noção de querer partilhar… meu deus, como ela iria crescer dentro de mim com o tempo.
Ultimamente tem-me doído bastante o coração. Não me refiro á dor de não te ter, de ter-te perdido, de viver sem ti, não. Embora ela esteja cá, e eu a sinta, esta é uma dor diferente, e sinto-a especialmente quando estou deitado. Sinto o coração a bater a mil á hora, e sinto um aperto forte no coração. Deito-me a desejar não acordar. Custa-me andar por cá, estou farto de estar aqui. Estou farto de estar vivo, estou farto de mim. Se pudesses colocar a tua mão sobre o meu coração, sempre que o sentisses a bater ouvirias um ‘amo-te’ a ecoar nos teus ouvidos. Eu estou cansado, meu amor. Estou mesmo muito cansado. Nunca mais fui o mesmo. Não sou nada sem ti.
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