sábado, 24 de maio de 2025

Da geada às pérolas, as fontes secaram

As memórias são uma coisa fodida. No início desta semana que passou, o meu amigo Sérgio enviou-me um email, e depois uma série de mensagens, e não tive nem forças nem coragem para lhe responder até ontem. Sentado no sofá da minha sala, enquanto olhava para pessoas perfeitas com vidas perfeitas a comer gelados á frente de minha casa, eu quase disse uma coisa ao Sérgio, e mentalmente censurei-me. Lembrei-me da última vez que a disse a alguém, e como todo esse cenário decorreu. Certo dia fui ao cinema com a Sónia, e a moça tinha-lhe vindo o período nesse dia. Durante a viagem para o Fórum Almada, foi um chorrilho interminável de ofensas dirigidas a mim, incluindo a nunca antes ouvida alusão ao tamanho da minha pila, o quão inadequado fisicamente eu era, isto quando não se virava para mim e me dava palmadas no braço. Durante toda a sessão de cinema não trocámos uma palavra, e a caminho de casa, dei por mim a chorar. Ela perguntou-me, completamente sem paciência para mim, e para as minhas merdas, o que é que se passava. Eu abanei a cabeça, disse que não se passava nada, limpei as lágrimas, e fomos em silêncio até casa dela. Quando lá chegámos, ela perguntou-me novamente o que se passava, e eis que o Gonçalo comete o grande erro de lhe dizer o que se passava : disse-lhe que nunca tinha gostado muito desta coisa de estar vivo. E a pobre Sónia, abesbílica com as minhas palavras, olha para mim com um ar tão franca e absurdamente desapontado, um olhar de nojo a cruzar o seu semblante brevemente, e depois responde-me, 'Oh amor, deixa-te lá dessas coisas.'
E eu deixei - nunca mais me voltei a abrir a alguém, aprendi aqui a minha lição. Esta memória é-me particularmente relevante neste momento, neste momento em que me sinto cansado de estar vivo. Mas eu agora sou irrelevante, face a tudo o resto. A minha avó está manifestamente a perder faculdades, quer físicas, quer mentais. Esta semana que passou acordei várias vezes durante a noite, com a impressão que me estavam a chamar, e quando me levanto dou com ela estatelada no chão da casa de banho. Quando a ajudo a voltar para a cama, cada vez mais vejo uma pessoa que não tem vontade alguma de cá continuar. E é doloroso ver uma pessoa que foi tão forte durante tantos, tantos anos, a não ter sequer forças para levantar uma perna. Antes desta semana, se me perguntassem qual a cor dos olhos da minha avó, eu teria respondido, com toda a certeza, que eram castanhos. Agora, quando olho nos olhos dela, vejo-os de um azul tão, tão claro, que mais parece branco. E questiono-me agora se é uma metamorfose recente ou se sempre foram claros e eu nunca reparei. Em milhentos livros que li, lembro-me sempre de ler que as pessoas quando estavam no seu leito da morte ficavam com os olhos assim, claros, com uma membrana transparente a cobri-los, tal como a minha avó tem. Esta casa cheira-me a morte. Há um odor inumano no ar, e mesmo os gatos o sentem. E pressentem-no, rondam o quarto da minha avó, ficam sentados á porta a olhar lá para dentro. Por vezes, não consigo ouvir a voz dela a chamar-me, e quando olho para fora da porta do meu quarto, reparo que está lá um dos gatos a olhar fixamente para mim, como que a dizer-me que ela está chamar por mim.
Conto os raios de luz que ainda me sobram, e são cada vez mais escassos. Sinto-me cada vez mais cansado. Tudo me pesa. O coração pesa-me. A alma pesa-me. Precisava... precisava de coisas impossíveis. Resta-me apenas o que é possível. Resta-me toda uma vida para chorar. 

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Dorme, que ainda a noite é uma menina

Em... quê, 2015 ou 2016?, conheci uma miúda tão gira, e sinto uma trepidação grande em escrever o nome dela sequer, porque sei como estas merdas têm uma maneira estranha de se manifestar. Ainda por cima a moça tem um nome tão sui generis que fico até na dúvida se se conhecem ou não, mas seja como for, eu e a Eliana saímos um par de vezes nessa altura. A primeira vez, e por alguma razão que não consigo imaginar, ou lembrar-me sequer, passámos uma boa parte da noite abraçados um ao outro - apenas isso - e no final da noite, oh oh oh, ela veio levar-me a casa na sua mota, a única vez que andei de mota com uma miúda, mas e daí a única outra pessoa (creio) com quem andei de mota foi o meu irmão. Já á frente de minha casa, há ali um momento em que julgo que nos vamos beijar, e ela diz-me que não me vai beijar. Eu entendi, é justo. Porque haveria ela de me querer beijar? Raios, porque é que alguma vez alguém me iria querer beijar? But more on that later. Ela disse-me algo nessa noite que entendi bem, embora numa perspectiva diferente da dela : ela disse que não se queria envolver com alguém, porque quando o faz sabe sempre que consegue arranjar melhor. Ok, eu entendo, na boa. Porque eu sempre soube que quando me envolvia com uma pessoa, que ela conseguia arranjar melhor que eu - não que fosse terrivelmente difícil, na realidade. Não sei se consigo garantir a 100% que tenha sido o que aconteceu entre todas as vezes, mas em grande parte das minhas relações anteriores - nas quais incluo apenas as que foram mais relevantes, não incluo aqui nada que não tenha sido superior a um mês, e mesmo assim, num caso ou outro chamar a coisa de 'relação' é ser generoso - houve sempre uma escolha que teve de ser feita entre mim e outra pessoa. Por vezes foi mesmo antes da relação começar, outras logo ao início, e algumas vezes durante a própria relação em si, mas o que eu sei foi que nunca compreendi exactamente porque é que a escolha recaiu sobre mim. Algumas vezes eu sabia quem a alternativa teria sido, noutras vim a descobrir mais tarde. Qualquer uma das opções que não fosse eu teria sempre sido a mais sensata. Eram pessoas com quem eu não podia competir sequer, não tinha os mesmos atributos físicos, não tinha empregos como eles, nem sequer tinha qualquer espécie de perspectiva de ficar melhor. Em alguns casos - especificamente nas pessoas que soube que não foram escolhidas, e que de algum modo conhecia, ou conseguia descobrir coisas sobre elas - esta minha incompreensão multiplicava N vezes mais. Havia tipos que escreviam mesmo bem, ou que eram artistas, ou que sabiam cantar ou tocar música. Certamente mais interessantes e inteligentes que eu, e céus - também não é preciso muito. Então porquê eu? Não sei, mas o padrão, eu depois comecei a detectar. Muita tesão, e muito fascínio, e muita paixão no início, que ia desaparecendo - umas vezes mais rapidamente que outras - e eventualmente as pessoas escolhiam estar com outra pessoa que não eu. E eu sempre entendi isso - não seria difícil arranjar melhor que eu. Entender tudo isto não significa que não custava, que não doía. E não doeu sempre - houve vezes que quando aconteceu foi um alívio finalmente a história acabar. Nunca ressenti alguém por não me querer ou não gostar de mim. Porque o faria? Há tanta escolha por aí, e sempre soube que tudo o resto seria melhor que eu.
Ouve - eu nunca tive amor próprio. Nunca. E sempre o soube desde pequeno. Há aquelas pessoas que se conseguiam olhar ao espelho e dizer para elas mesmas que se tornariam melhores, as melhores versões possíveis delas. Eu não nasci assim, eu nasci com a noção concreta do quão falho de certas coisas era. Mais do que saber aquilo que queria para mim, soube aquilo que não queria para mim, o que me levou a tomar decisões que iriam impactar o meu futuro. E se se pode debater se as tomei conscientemente ou não, a verdade é que quem as tomou fui eu e sempre me responsabilizei por elas. Decisões levam a acções, acções levam a rumos, e no fim, apenas uma pessoa é responsável por aquilo que quer ou deixa de querer para a sua vida. Eu sei o que quis, eu sei o que fiz, eu sei o que pensei, eu sei como pensei, e tudo o que fiz e decidi, fi-lo sabendo plenamente quais as suas consequências. E se há uma constante na minha vida, é o quanto eu (maioritariamente) nunca gostei de mim. Se calhar isto que estou a dizer não faz muito sentido, eu sei. Em puto eu tinha milhentos sonhos de me casar e ter família, e essas coisas todas, mas já nessa altura não me sentia merecedor de ser amado. Todas as outras pessoas sim, eu não. E isso estendeu-se durante toda a minha vida : eu não gostei de mim quando era puto, não gostei de mim quando era adolescente, não gostei de mim os anos todos em que estive com a Dora, não gostei de mim quando estive com a Sílvia, não gostei de mim quando andava por aí a foder sei lá quantas mulheres, e não gosto de mim agora. Mas quando estive contigo... tu não imaginas o quanto gostei de mim. Não era só o gostar de mim, nem o sentir-me feliz, pela primeira vez na minha vida eu senti-me feliz por estar vivo. Feliz por ter-te. Feliz por conseguir querer que o dia seguinte viesse o mais rápido possível para estar contigo de novo. Eu.. eu queria. Eu tinha esperança. E queria tornar-me alguém que realmente fosse merecedor de ser amado, não por qualquer outra pessoa, mas por ti. Como quis ser merecedor de ser amado por ti, sabes?
Não gosto de mim desde... desde há muito tempo. E não gostar de mim cansa. Cansa ao ponto de eu há muito não querer estar aqui. E eu... já não tenho a coragem necessária para fazer algo. Leste 'O Perfume', estou certo. Há uma parte, lá mais para o fim do livro, em que o personagem principal - Jean-Baptiste Grenouille - é finalmente apanhado e condenado pelos seus crimes hediondos, mas antes de ser executado, ele unta-se com o perfume que criou a partir das suas vítimas, e a sua fragrância é de tal modo potente que toda a gente que o via via-o como o seu supremo ideal : as freiras viam nele o Messias encarnado, os adoradores de satã viam nele o príncipe das trevas; as jovens mulheres viam nele um príncipe encantado, e os homens viam nele um reflexo ideal deles mesmos. Ainda antes da Carina - que foi algo completamente inesperado, e condenado ao insucesso desde muito cedo - já eu tinha um plano em marcha para ser o oposto polar do Jean-Baptiste Grenouille : quis que ninguém olhasse para mim e sentisse a mínima atracção possível. Pelo contrário, quis que olhassem para mim e sentissem até uma certa repulsa. Quis que pensassem que esta pobre criatura que lhes conspurcou a vista não seria merecedora do amor de ninguém. E, salvo essa breve excepção da Carina, tenho conseguido fazê-lo com sucesso. Se eu não quero que ninguém olhe para mim, porque quis eu que olhasses para mim? Porque me doeu tanto não conseguires sequer olhar para mim? Não imaginas o quanto eu não gostei de mim nesse momento. Senti mesmo que não merecia sequer o teu olhar, quanto mais o teu amor. Eu já não gostava de mim antes de ti, Sofia. Mas aqueles poucos meses que tivemos... ah, porque não duraram para sempre? Eu sei, eu sei. Escrevi um post, quando narrei a nossa história, que teve como título 'The Bitter End', e na realidade não foi um final amargo. Foi apenas um final fácil de entender.
[Hoje fazem anos duas pessoas que em tempos conheci : o meu pai faz 80 anos, e por esta altura são muitos mais os anos que não o conheço dos que tive quando o conheci. Também a Sónia faz anos, 51, mas continua a parecer décadas mais nova. Hoje pensei em ambos, por razões diferentes. Daqui por uns meses fará um ano desde que me deste os parabéns pela primeira vez. Houve tanta coisa que ficou por fazer. Por dizer. Tanta coisa que deveria ter acontecido. Tanta possibilidade, pontuada por um eterno 'se'. Se apenas fosse tão simples, não é? Mas não é.]

domingo, 11 de maio de 2025

E este vento que te navega na pele pede-me a paz

Quando sonho contigo - quando sonho connosco - nem sempre és tu, nem sempre sou eu. Refiro-me a sermos fisicamente nós; não somos. Mas é a mesma energia, é o mesmo fio condutor. São outros corpos, são outras pessoas, são outras realidades, mas somos nós. Não me recordo já onde terei lido isto, ou se calhar foi algo que vi num filme ou na TV, mas recordo-me de em puto ter lido que os sonhos eram uma espécie de janela para realidades paralelas. Aquilo que víamos ou experienciávamos nos sonhos eram acontecimentos reais que ocorriam numa qualquer realidade que não esta. Não sei se será verdade ou não, mas quem sou eu para julgar? 
Há umas noites atrás estava a ter um sonho que envolvia duas pessoas que se tinham conhecido há relativamente pouco tempo, estavam na fase inicial da sua relação, naquela lua de mel em que tudo parece perfeito e ideal. Embora se tivessem conhecido recentemente, havia entre ambos a sensação que já se conheciam há muito tempo. Não saberiam dizer de onde, ou quando, mas certamente não nesta vida. 
É aquela fase da relação onde tudo é novo, tudo é um mistério, tudo fascina. Onde as pessoas se vão testando, para entenderem até podem ir uma com a outra. E estas duas pessoas estão as duas deitadas dentro de uma banheira cheia de água morna, embora o dia esteja quente. Ele, com as costas viradas para o rebordo da banheira, e ela, entre as pernas dele, e o silêncio que reina entre ambos apenas é pontuado pelo tímido cair das gotas que, lânguidas, caem da torneira. E no meio deste silêncio, ela diz-lhe 'A rapariga do supermercado, ela era bem gira, não achas?', e ele responde, 'Qual rapariga?'. 'Tu sabes', diz ela, 'aquela da franjinha, que tu engraçaste com ela.', e ele ri-se, e coloca os braços á volta dela, agarrando os seus seios. 'Ah engracei, é? Muito me contas.' 
Ela vira o seu rosto para o dele, e nos seus olhos vê-se alguma fragilidade, alguma dúvida. 'Podes dizer que é á vontade, não te preocupes.', ela diz. Mas ele abana a cabeça, e diz que não. 'A tua ex era bonita, não era?', continua ela. Ele sorri, e ela vê o sorriso dele. Mas não é um sorriso, necessariamente, de felicidade. Ele permanece em silêncio durante uns segundos, e depois responde 'Sim, era. Muito bonita mesmo. Mas não era belíssima. Apenas acho belíssimas as mulheres que amo.' Isto deixa-a, de certo modo, insegura, e ela pergunta, baixinho 'Tu achas que eu sou bonita?' e ele responde que não. 'Não?', pergunta ela, e ele responde de novo 'Não'. Paira no ar durante uns segundos um silêncio que a magoa. Sentindo isso, ele puxa-a para ainda mais perto, e diz-lhe, 'Não. Não acho que sejas bonita. És belíssima.', e ao ouvir isto, ela gira o corpo na banheira e fica como que deitada, meio de lado, em cima dele, com a sua cabeça no peito dele. 'Tu amas-me?', pergunta ela, mas a pergunta é feita como se por alguém que não acreditava ser merecedor de ser amado. E ele responde de uma maneira condizente com quem já tinha sido magoado pelo amor. 'Receio bem que sim', diz ele. 

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Sabes que sonhei contigo durante vinte e nove anos antes de te conhecer?

Estás a ver aqueles dias em que acordas com uma melodia na cabeça , e nem por nada te consegues lembrar que musica é? Hoje acordei com um pedacito de uma música - uns acordes apenas - e fiquei logo a pensar que música seria. Dei por mim a trautear esse excerto que se tinha fixado na minha mente vezes sem conta, a tentar lembrar-me que música era. Fui ver as minhas playlists para ver se algo que lá estava me faria lembrar o que seria, mas nada. As horas passam e continuo com a música na cabeça, e começo a ficar irritado. É tudo tão familiar, tenho-a quase na ponta da língua. Dou por mim a perguntar-me se será de um genérico de uma série de TV qualquer, ou algo que tenha ouvido num filme. A música toca na minha cabeça, aqueles dois ou três segundos apenas, e não me vem nada a cabeça. 'Mas como raios se chama a porcaria desta música?', pergunto eu ao éter, já irado. Do nada, vem-me á cabeça mais uma parte da música, desta vez algo já com voz, mas as palavras não me surgem. 'Caramba, pá, tu sabes o que isto é. Como é que não te consegues lembrar do raio da música?', questiono-me a mim mesmo. Desisto de tentar descobrir o que é. Vou dormir um bocado, pode ser que me venha num sonho. A música, claro. Mas não veio, e continuo com aquela sensação incómoda tipo na parte de trás da cabeça. É como quando tens um dente partido e por muito que saibas que não o deves fazer, a tua língua está sempre a cutucá-lo. Depois de acordar, sento-me na cadeira, e vejo coisas no computador. Vou ao meu histórico do youtube, mas estão lá toneladas de vídeos e nada que lá esteja contribui para que a memória avive. É já no final da tarde, quase com a noite a cair, que finalmente me vem á cabeça as palavras da tal parte cantada - é a frase inicial. Diz o cantor 'Until Sophie I was never happy', mas há aqui algo que não me está a soar certo, por muito que cante a frase, e por muito que sinta que as palavras enquadrem umas com as outras. Vou ao google, e nada. Não há música alguma que contenha essas palavras nessa ordem. E eu canto, e canto, e canto, e c'um catano, a dada altura lembro-me exactamente do que a frase diz na realidade, e lembro-me logo qual a é música e quem a canta. Dou uma daquelas palmadas de frustração na testa, e canto 'Until Sally I was never happy', é assim que começa 'Sally Cinnamon', dos The Stone Roses.
Mas o que eu depois fiquei a pensar - e penso nisso, de uma forma ou de outra, há uma série de anos - é, precisamente, se a frase imaginada ''Until Sophie I was never happy' seria factual. Eu já escrevi - aqui ou noutro blog - que pensar em ti era um luxo a que não me podia dar. Mas pensava, claro. Era difícil não pensar, mesmo quando me perdi num abismo de corpos, mesmo quando fodia outra pessoa e dava por mim a desejar que fosses tu. Mas pensava de uma maneira mais superficial. Não regressava muitas vezes ao tempo que tivemos juntos, nem ao que veio a seguir. Aí, tive de aprender a proteger-me, a defender-me. É claro que não o consegui fazer sempre - por vezes tive alturas em que a mente vagueava para esses pensamentos. Houve uma fase, mais a partir de 2017 em diante, em que esses pensamentos se tornavam mais frequentes. Talvez isso explique, em parte, porque decidi começar a silenciar as vozes na minha cabeça mergulhando em oceanos de veneno. O ano passado - e deve estar a fazer um ano desde que decidi contar a nossa história - foi a primeira vez que mergulhei tão profundamente nela. E confesso que debati comigo mesmo se era uma história que eu iria contar ou não - não por achar que não merecesse e devesse ser contada - mas porque eu sabia que me iria doer. E quase, quase, não a contei. Pelo menos não como a escrevi.
É verdade que escrever sobre nós convidou dor de volta á minha alma. E essa dor estava presente nas palavras que escrevi. Hoje teria escrito de uma maneira diferente, se o tivesse de fazer de novo. Mas considerei uma alternativa : em vez de contar a nossa história tal como ela foi, pensei em ficcionalizá-la, contar uma versão alternativa da história. E cheguei a escrever uma parte dela, mas cada vez me sabia pior estar a distorcer a verdade. Não estava a prestar um bom serviço, nem a mim, nem a ti, nem a nós. Sei que esta versão alternativa iria acabar com o mesmo destino final, com a mesma escolha, mas de uma maneira diferente. Nasceu de um pesadelo que tinha tido anos antes em que a nossa história tinha continuado mais um pouco, até ao dia em que nos iríamos casar, mas nunca apareceste. Então pensei em aproveitar esse pedaço para terminar a história que tinha em mente. Ainda bem que não o fiz, não teria sido justo, tal como não foi justa a maneira como depois escrevi. Em boa verdade, não imaginava o quanto me iria doer pensar em ti, e nos tempos que tivemos juntos. Ter de revisitar esses dias custou-me imensamente, causou-me um profundo lamento na alma. Um lamento por não ter o teu amor. Por não te ter. Por te ter perdido. Por nos termos perdido. 
E pensei se realmente fui feliz contigo, ou se me teria enganado a mim mesmo, tal como me tinhas dito que tinhas feito. Considerei essa hipótese, naturalmente. Pensei se teria sido feliz contigo, nesses seis meses, e se sim se fui mais ao menos feliz do que noutras relações. E a verdade é que embora eu saiba que inevitavelmente houveram momentos de felicidade nas minhas outras relações, e aqui cinjo-me apenas àquelas que foram realmente relevantes, tenho de me perguntar se realmente fui feliz. Porque se pensar nelas... numa só me vem á cabeça resignação, e noutra só me vem á cabeça dor e sofrimento. E se pensar em nós, só me vem á cabeça felicidade. 
'Until Sophie I was never happy', cantei eu hoje incontáveis vezes. And after Sophie I was never happy either. 

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Mordo os dedos para me sentir vivo

Domingo acordo, e acordo com uma sensação esquisita. Sentia que tinha feito merda, mas não conseguia dizer o quê. Á medida que fui despertando, lento, pesado, continuava com essa sensação no fundo da cabeça. Peguei no telemóvel e fui ver se não tinha cedido á tentação de te enviar uma mensagem - não o tinha feito, felizmente. Já me odeias o suficiente assim, não valia a pena estar a contribuir mais para isso. Depois pensei, caramba, e se tentei ligar-te? Também não. Raios, não sei que terei feito de mal. Depois ligo o computador, e dou a minha vista rotineira sobre as (muito) poucas coisas que ainda vejo na internet. Não muito tempo depois vim parar aqui, e apercebi-me o que tinha feito. Em boa verdade, não tenho grandes recordações de ter escrito aquilo. Sabes quando estás num estado febril e apenas te consegues lembrar de passagens fugazes do que está acontecer? Sábado á noite foi assim para mim.
E sábado até nem começou mal de todo - acordei a sentir-me com uma energia agradável dentro de mim, e estranhamente, até senti um certo desejo a tomar conta de mim, algo que tem estado largamente adormecido há já algum tempo. E á medida que o dia se foi passando, mais esse desejo crescia. O que eu queria mesmo era foder - não com alguém especificamente, mas com alguém com quem eu sei que o sexo tinha sido excepcional. Precisava de dar aquela fodazorra que nos deixava aos dois completamente gastos. Poderia ter sido contigo, mas também poderia ter sido com a Susana, ou com a Eunice, ou com a Isabel, ou com a Carina. Estava num ponto em que o desejo era tal que não conseguia sequer concentrar-me numa pessoa. E foi aqui que as coisas começaram a descambar para o catastrófico.

Uma das coisas que felizmente fiz há uns meses atrás foi apagar 90 e muito % dos contactos que tinha no telemóvel, e nesses contactos estavam um punhado de pessoas que - pelo menos em tempos - tinha um entendimento tácito que para nós haveria sempre abertura para darmos uma foda. Mas esses tempos foram-se, e as pessoas seguiram em frente; algumas casaram-se, juntaram-se, tiveram filhos, essas coisas todas que as pessoas normais fazem. Ainda que eu soubesse que ao dia de hoje essa tal abertura existisse ainda, não a aceitaria, porque... porque não posso. A minha única alternativa é então a masturbação. Mas há momentos - embora não tenha sido este o caso - em que me sinto tão cheio de desejo que não há punheta que me salve. E como detestei escrever a palavra 'punheta'... É estranho, mas não gosto de escrever asneiras. Digo-as em abundância, sim, e no contexto certo escrevo-as sem pudor, mas neste... eh. Bem, seja como for, estou deitado no escuro, na minha cama, e estou a tentar pensar numa boa foda que tenha dado, preciso que seja algo que faça com que seja tudo rápido, mas este desejo que sinto traduz-se em absoluta flacidez. Nada acontece lá em baixo. Fico fodido comigo, e penso em como era foder-te, penso na Eunice, e na Isabel, e nas outras, e nada. Foda-se. Então dou por mim a pensar na última foda que dei com a Carina, que por seu turno, foi a última foda que dei, ponto final. Curioso : as duas últimas vezes que fodemos foi naquela pensão a que fomos uma data de vezes. Era a única alternativa, depois daquela excitação toda inicial em que ela me mandava uma mensagem á meia-noite para eu ir ter a casa dela na margem sul, e eu ia a correr ter com ela, e passadas umas semanas já não era conveniente eu ir ter com ela, ou então ia mas não podia lá ficar, enfim - eu sou mesmo muito ingénuo. Mas seja como for, já eu estando mais que certo e mais que convencido que desta história não sairia nada, ainda acabámos por dar estas duas últimas fodas. E do sexo em si não me lembro de grande coisa, embora tenha certeza que bom pelo menos foi. Mas lembro-me de uma conversa pós-sexo, em que estávamos os dois deitados naquela cama que é super desconfortável, parece a cama da minha avó paterna, só lhe faltava uma colcha bordada. Estivemos uns minutos em silêncio, a dar uns beijinhos, e eu - e porque realmente não sabia se já o tinha feito ou não, perguntei-lhe se já a tinha chamado de 'puta' enquanto fodíamos. E ela disse-me que não, pelo menos tanto quanto se conseguia lembrar. E a verdade é que eu já estive com mulheres que adoravam, que me pediam para as chamar de puta, que me pediam para fodê-las como uma puta - e eu ficava sempre a pensar comigo mesmo 'Sei lá eu como é que isso se faz. Nunca fui ás putas! Nem tenciono ir, por isso sei lá como se fode uma. Fodo como sei foder.' - mas de igual modo já estive com mulheres que não apreciavam, e por mim tudo bem, fazemos aquilo que gostamos e nos deixa confortáveis. Mas até fiz a pergunta de uma maneira... fofinha. Sem qualquer tipo de pretensão a cena dramática ou algo assim. Depois diz ela 'Mas se quiseres posso ser a tua puta', e eu na realidade até queria que ela fosse minha namorada. Abanei a cabeça, e ela disse 'Posso dizer-te que sou a tua puta, se é isso que queres ouvir.', e eu disse-lhe que não, que o que queria ouvir era que ela me amava. Porque se me amasse, então talvez, talvez, talvez, também eu, e finalmente, tinha conseguido aprender a jogar o jogo. Só nos vimos uma vez mais depois desse momento, em que lhe perguntei pela última vez o que éramos, e cada um seguiu o seu caminho.

Escusado será dizer que todo o desejo que sentia no sábado desapareceu. O que ficou foram... ecos. Ecos dessa conversa. Ecos de conversas nossas, reais e imaginadas. Eu faço disso, sabes? Dou por mim a ter conversas que nunca aconteceram. Por vezes até as escrevo. As vozes, amor, as vozes que na minha cabeça flutuavam diziam-me coisas terríveis. A pior delas todas era a minha, que ao mesmo tempo me dizia que merecia tudo o que tinha passado e que não merecia nada de bom. 'Quem és tu', dizia ela, 'para julgares que mereces ser amado?' Nada. Eu não sou nada. Sem ti, eu não sou nada. A dada altura cansei-me das vozes, e tive de as silenciar - e embora me tenha afogado em litros de veneno, e embora uma doce dormência se apoderasse de mim... aparentemente não consegui silenciar todas as vozes. Escrevi... algo. Não sei o quê ainda. Nem tenho em mim coragem para ler, mas não pode ter sido outra coisa senão uma litania de parvoíces. Talvez um dia mais tarde eu leia. Talvez até apague o post, não sei. Agora não. Não tenho coragem. Não tenho coragem para nada, senão existir. E o que define este momento particular da minha existência é uma profunda sensação de vergonha. Tenho vergonha de mim. Tenho vergonha de que olhem para mim. Não quero os olhos de ninguém sobre mim, por isso evito sair de casa. Lembro-me do filme 'The Hours', e há uma cena em que a Virginia Woolf diz 'You cannot find peace by avoiding life.' Eu tento, eu bem tento. Se calhar não vai ser é nesta vida.

sábado, 3 de maio de 2025

Quem és tu? Quem sou eu para ti? Eu sou o anticristo para ti.

Sabes o que me resta de ti? Uma fotografia do teu perfil porque me segues num outro blog meu, e eu olho para ela e penso 'esta é a mulher que amo', mas passados uns momentos, penso 'é esta a mulher que amo?', porque não fui eu quem te tirou essa fotografia, não fui quem cresceu ao teu lado durante todos estes anos, não fui eu que te dei um beijo de boa noite todas estas longas noites em que uma distância abissal cresceu entre nós.

'É esta a mulher que eu amo?', pergunto-me eu. E embora o mundo possa acabar… embora o universo ceda por fim á entropia e toda esta iteração cesse… a resposta será sempre 'sim'. Eu devia de estar a dormir. Devia de estar a descansar. Mas não consigo desligar a cabeça. Estou - continuo a estar - preso num dia que se passa em câmara lenta. Sabes que ouço vozes na minha cabeça? Não de uma maneira esquizofrénica, nem de uma maneira condutiva a causar-me dano a mim mesmo, passe o pleonasmo, mas vozes que contam histórias de tempos passados. De tempos em que fui feliz. De tempos em que gostei de mim. De tempos em que soube o que era a glória da tua presença. Essas vozes… dizem tantas coisas. Mas não são elas que me dizem que te amo. Não. Diz-me o meu coração. Quem me dera que o conseguisses ouvir bater, Sofia. Quem me dera que pudesses colocar a tua mão no meu coração. 

Tudo isto é um sonho, eu sei. E este sonho está quase a acabar.