sábado, 24 de maio de 2025
Da geada às pérolas, as fontes secaram
quarta-feira, 14 de maio de 2025
Dorme, que ainda a noite é uma menina
Ouve - eu nunca tive amor próprio. Nunca. E sempre o soube desde pequeno. Há aquelas pessoas que se conseguiam olhar ao espelho e dizer para elas mesmas que se tornariam melhores, as melhores versões possíveis delas. Eu não nasci assim, eu nasci com a noção concreta do quão falho de certas coisas era. Mais do que saber aquilo que queria para mim, soube aquilo que não queria para mim, o que me levou a tomar decisões que iriam impactar o meu futuro. E se se pode debater se as tomei conscientemente ou não, a verdade é que quem as tomou fui eu e sempre me responsabilizei por elas. Decisões levam a acções, acções levam a rumos, e no fim, apenas uma pessoa é responsável por aquilo que quer ou deixa de querer para a sua vida. Eu sei o que quis, eu sei o que fiz, eu sei o que pensei, eu sei como pensei, e tudo o que fiz e decidi, fi-lo sabendo plenamente quais as suas consequências. E se há uma constante na minha vida, é o quanto eu (maioritariamente) nunca gostei de mim. Se calhar isto que estou a dizer não faz muito sentido, eu sei. Em puto eu tinha milhentos sonhos de me casar e ter família, e essas coisas todas, mas já nessa altura não me sentia merecedor de ser amado. Todas as outras pessoas sim, eu não. E isso estendeu-se durante toda a minha vida : eu não gostei de mim quando era puto, não gostei de mim quando era adolescente, não gostei de mim os anos todos em que estive com a Dora, não gostei de mim quando estive com a Sílvia, não gostei de mim quando andava por aí a foder sei lá quantas mulheres, e não gosto de mim agora. Mas quando estive contigo... tu não imaginas o quanto gostei de mim. Não era só o gostar de mim, nem o sentir-me feliz, pela primeira vez na minha vida eu senti-me feliz por estar vivo. Feliz por ter-te. Feliz por conseguir querer que o dia seguinte viesse o mais rápido possível para estar contigo de novo. Eu.. eu queria. Eu tinha esperança. E queria tornar-me alguém que realmente fosse merecedor de ser amado, não por qualquer outra pessoa, mas por ti. Como quis ser merecedor de ser amado por ti, sabes?
Não gosto de mim desde... desde há muito tempo. E não gostar de mim cansa. Cansa ao ponto de eu há muito não querer estar aqui. E eu... já não tenho a coragem necessária para fazer algo. Leste 'O Perfume', estou certo. Há uma parte, lá mais para o fim do livro, em que o personagem principal - Jean-Baptiste Grenouille - é finalmente apanhado e condenado pelos seus crimes hediondos, mas antes de ser executado, ele unta-se com o perfume que criou a partir das suas vítimas, e a sua fragrância é de tal modo potente que toda a gente que o via via-o como o seu supremo ideal : as freiras viam nele o Messias encarnado, os adoradores de satã viam nele o príncipe das trevas; as jovens mulheres viam nele um príncipe encantado, e os homens viam nele um reflexo ideal deles mesmos. Ainda antes da Carina - que foi algo completamente inesperado, e condenado ao insucesso desde muito cedo - já eu tinha um plano em marcha para ser o oposto polar do Jean-Baptiste Grenouille : quis que ninguém olhasse para mim e sentisse a mínima atracção possível. Pelo contrário, quis que olhassem para mim e sentissem até uma certa repulsa. Quis que pensassem que esta pobre criatura que lhes conspurcou a vista não seria merecedora do amor de ninguém. E, salvo essa breve excepção da Carina, tenho conseguido fazê-lo com sucesso. Se eu não quero que ninguém olhe para mim, porque quis eu que olhasses para mim? Porque me doeu tanto não conseguires sequer olhar para mim? Não imaginas o quanto eu não gostei de mim nesse momento. Senti mesmo que não merecia sequer o teu olhar, quanto mais o teu amor. Eu já não gostava de mim antes de ti, Sofia. Mas aqueles poucos meses que tivemos... ah, porque não duraram para sempre? Eu sei, eu sei. Escrevi um post, quando narrei a nossa história, que teve como título 'The Bitter End', e na realidade não foi um final amargo. Foi apenas um final fácil de entender.
[Hoje fazem anos duas pessoas que em tempos conheci : o meu pai faz 80 anos, e por esta altura são muitos mais os anos que não o conheço dos que tive quando o conheci. Também a Sónia faz anos, 51, mas continua a parecer décadas mais nova. Hoje pensei em ambos, por razões diferentes. Daqui por uns meses fará um ano desde que me deste os parabéns pela primeira vez. Houve tanta coisa que ficou por fazer. Por dizer. Tanta coisa que deveria ter acontecido. Tanta possibilidade, pontuada por um eterno 'se'. Se apenas fosse tão simples, não é? Mas não é.]
domingo, 11 de maio de 2025
E este vento que te navega na pele pede-me a paz
sexta-feira, 9 de maio de 2025
Sabes que sonhei contigo durante vinte e nove anos antes de te conhecer?
segunda-feira, 5 de maio de 2025
Mordo os dedos para me sentir vivo
sábado, 3 de maio de 2025
Quem és tu? Quem sou eu para ti? Eu sou o anticristo para ti.
Sabes o que me resta de ti? Uma fotografia do teu perfil porque me segues num outro blog meu, e eu olho para ela e penso 'esta é a mulher que amo', mas passados uns momentos, penso 'é esta a mulher que amo?', porque não fui eu quem te tirou essa fotografia, não fui quem cresceu ao teu lado durante todos estes anos, não fui eu que te dei um beijo de boa noite todas estas longas noites em que uma distância abissal cresceu entre nós.
'É esta a mulher que eu amo?', pergunto-me eu. E embora o mundo possa acabar… embora o universo ceda por fim á entropia e toda esta iteração cesse… a resposta será sempre 'sim'. Eu devia de estar a dormir. Devia de estar a descansar. Mas não consigo desligar a cabeça. Estou - continuo a estar - preso num dia que se passa em câmara lenta. Sabes que ouço vozes na minha cabeça? Não de uma maneira esquizofrénica, nem de uma maneira condutiva a causar-me dano a mim mesmo, passe o pleonasmo, mas vozes que contam histórias de tempos passados. De tempos em que fui feliz. De tempos em que gostei de mim. De tempos em que soube o que era a glória da tua presença. Essas vozes… dizem tantas coisas. Mas não são elas que me dizem que te amo. Não. Diz-me o meu coração. Quem me dera que o conseguisses ouvir bater, Sofia. Quem me dera que pudesses colocar a tua mão no meu coração.
Tudo isto é um sonho, eu sei. E este sonho está quase a acabar.