quinta-feira, 31 de julho de 2025

Um beijo subtil que ninguém vê

Hoje estou no ginásio a treinar, e depois de ver um vídeo no youtube, ia meter uma playlist qualquer a tocar para ouvir durante o resto do treino, mas nos breves momentos em que não tinha nada a sair dos airpods, ouvi um tipo a assobiar uma música que me parecia tremendamente familiar. Era algo alegre, com ritmo, algo que se calhar se teria ouvido numa série qualquer de televisão nos anos 80. Fiquei imediatamente com a música na cabeça, mas não estava a ver o que era. Ao sair do treino, e já a caminho de casa, eis o momento 'eureka'. Lembrei-me perfeitamente de onde conhecia a música -  e embora conhecesse a música de vários sítios - a memória mais forte é a de ser... raios, agora estou na dúvida, mas ou seria o teu toque do telemóvel, ou era o teu despertador, uma música dos Marretas. Tantas vezes ouvi aqueles breves segundos instrumentais da música, seguidos de um 'Mahna Mahna', que saíam do teu Blackberry 9300. Estás em todo o lado, e estarás sempre, porque o meu coração procura-te em todo o lado. Mesmo quando eu não estiver cá já, mesmo quando estiver noutro lugar, o sussurrar das árvores cantar-me-á o teu nome, todos os cabelos que vir serão os teus, e estarás sempre em qualquer reflexo que veja.

Fui ainda ás compras, depois, sempre a cantarolar a música. Estava... sei lá. Estava a sentir uma espécie de felicidade. Fui o caminho todo com um sorriso parvo nos lábios. Sentia-me leve. Quase como se quando chegasse a casa, por milagre, tu aqui estivesses e te fosse contar esta história. Quase como se tu depois te risses, e achasses engraçado eu ainda me lembrar, e depois me beijasses. Quase. Tenho fome, sabes? De ti. Do teu toque. Do teu beijo. Do teu corpo. Da tua voz. Da tua presença. Sinto essa fome desde o primeiro dia, e apenas me sentia saciado quando estava do teu lado. Vim a pensar nisso enquanto descia a rua em direcção a minha casa. Lembrei-me de um poema, que terei lido algures em tempos. Cheguei a casa e fiquei aqui até acabar o trabalho. Quando saí, fui até á varanda, e vi a noite cair. A mesma noite cai ao mesmo tempo sobre nós, mas vivemos em mundos diferentes. Num mundo, és tudo no que eu penso. Noutro, não sou sequer um pensamento para ti. Aceito a fome. Aceito não a saciar. Dói, eu sei, eu conheço bem essa dor, mas vivo com ela, e terei de viver sempre. Um dia em breve haverá milhares de quilómetros entre nós, e nunca mais nos veremos, mas irei ter sempre fome de ti. Sempre.


Tenho Fome da Tua Boca

Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,

e ando pelas ruas sem comer, calado,

não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta,

busco no dia o som líquido dos teus pés.


Estou faminto do teu riso saltitante,

das tuas mãos cor de furioso celeiro,

tenho fome da pálida pedra das tuas unhas,

quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.


Quero comer o raio queimado na tua formosura,

o nariz soberano do rosto altivo,

quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas

e faminto venho e vou farejando o crepúsculo à tua procura,
procurando o teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratue.

--Pablo Neruda

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