Ontem sonhei contigo, mas não contigo directamente, apenas entraste no sonho através da voz de outra pessoa. Eu explico : no meu sonho, estava na minha rua, e de repente ouço alguém a chamar por mim. 'Gonçalo! GONÇALO!', mas eu olho em volta e não vejo ninguém a chamar por mim. Mas continuo a ouvir o meu nome, e de repente tenho alguém - não sei se seria alguém real, mas parecia conhecer-me pessoalmente - a cumprimentar-me, e a dizer-me que tu estavas fodida comigo. Essas palavras exactamente. E eu estava a sentir-me meio desorientado, meio perdido. 'A Sofia?', perguntei eu, 'fodida comigo? Mas porquê?', e o tipo responde-me, 'Ela descobriu o que andas a escrever sobre ela e agora quer-te fazer a folha.', e eu entrei num pânico imenso, porque não imaginava como terias descoberto. Bom, não muito tempo depois acordo, e fico a matutar nisto. Sinto um abismo no fundo do estômago, e pergunto-me se na vida real saberias que aqui escrevo sobre ti, e sobre nós, e o que acharias do vernáculo que uso. Será possível que...? Não, digo a mim mesmo, claro que não. Não faz sentido, certo? Porque ambos - não, não ambos - mas todos sabemos que quando se escolhe sair da vida de uma pessoa, repetidas vezes, não se volta atrás, certo? Sabemos que não existe nenhuma razão válida para teres curiosidade sobre mim e sobre o que faço ou deixo de fazer, e para me procurares, porque um equívoco não é merecedor de tamanho esforço. Todos sabemos disso.
É claro que não sabes que escrevo aqui. Afinal de contas, não tenho redes sociais, nem sequer senti a tentação de publicitar que tenho este blog. Ninguém que conheça sabe da sua existência, e se - admitidamente - descobri-lo não é de todo impossível, ainda requer algum esforço. Requer aceder ao meu perfil do google, e ver que serviços tenho associados publicamente á minha conta, e quem, no seu perfeito juízo, o faria por mim? Ninguém.
E ainda bem que assim é. Permaneço no anonimato, tu permaneces na bênção da ignorância sobre o que aqui escrevo. És feliz, e não perdes um único pedaço do teu tempo a divagar sobre equívocos, porque estás absolutamente certa que fizeste a escolha certa.
Parte dois : o sonho
Antes de te falar do sonho, deixa-me dizer-te algo que talvez saibas já : eu nunca quis muito da vida. Não vou dizer nunca quis nada, mas nunca quis muito. Aliás, creio até que continuo a querer hoje exactamente a mesma coisa que queria em puto : estar em paz no meu canto, sem que me incomodem. No entanto, não querer não é sinónimo de não pensar. Não é sinónimo de não sonhar, mesmo sabendo no meu íntimo que não seria uma realidade para mim. E se calhar até já escrevi sobre isto, mas em pequeno o meu sonho era casar-me. Eu pensei tanto nesse momento, fantasiei tanto, mas tanto. Ao ponto de saber em que igreja me queria casar - na de São João de Deus, na Praça de Londres - e ao ponto de conseguir imaginar toda a cerimónia na minha cabeça. Não imaginei nunca com quem era que me estava a casar, se bem que depois já perto da adolescência imaginava que era com a Steffi Graf com quem me casava. Na minha vida pedi em casamento três pessoas : a Dora, quando soubemos que ela estava grávida, e porque me pareceu ser a coisa correcta a fazer. A Sílvia, que me respondeu milhentas vezes que não, quando finalmente me disse que sim, disse que nos casaríamos após um ano de estarmos a viver juntos. Foi uma boa armadilha essa, não foram muitos os meses completos que passámos juntos, e todos testaram a nossa paciência e os nossos limites até á exaustão. Um ano, dizia ela, e ambos sabíamos que nunca iria acontecer, por isso fingíamos que sim, e sorríamos e acenávamos. E, claro, pedi-te a ti, e como o quis. Sabes, ao passo que nas outras situações foi tudo largamente abstracto - na minha cabeça não conseguia sequer visualizar o evento a acontecer, não conseguia imaginar que circunstâncias cósmicas teriam de ocorrer para que uma daquelas alminhas o fizesse comigo - contigo pareceu-me não só ser absolutamente a coisa certa, mas como também um passo que parecia ao virar da esquina. Eu via-me a fazer tudo com o que sonhava ao teu lado. Mas sabia que ia ter de mudar, que ia ter de crescer, e se antes isso me assustava, nesse momento - nesse momento único - eu quis mais do que a vida que tinha, e quis ser mais do que eu, para finalmente ser o suficiente para ti. Quando não estava contigo, eu pensava nesse momento. Eu sonhava com esse momento. Quantas vezes não te vi a fazer o percurso até ao altar onde eu te esperava, o meu coração a abarrotar de amor por ti. Sorria sempre que pensava nesse momento, sabes? Sabia que era onde finalmente queria estar, contigo. Onde finalmente queria habitar, no teu coração. E sabia que não ia ser no imediato, mas conseguia ver esse radiante dia num horizonte próximo. E tudo aquilo que eu tinha deixado de querer, tudo aquilo que tinha desistido, tudo aquilo que tinha colocado de parte, tudo isso eu alcançaria de novo, porque finalmente encontrava a razão para eu por fim querer mais. Nunca falámos muito sobre isto, eu sei. Tivemos umas conversitas aqui e ali, nada de mais. Havia coisas que guardei só para mim, pensava na surpresa que te ia fazer, e mantive tudo sempre em segredo. Nunca ninguém o soube, nunca o confessei a nenhuma alma neste mundo. Sabes onde te queria levar na lua de mel que nunca teremos? Á Islândia. Sabes quantas vezes nos imaginei sentados sob um céu nocturno, pintado por uma aurora boreal? Caramba, para mim pareceu-me tão... tão possível. Pareceu-me que seria contigo, e comigo, e connosco, que esse passo se iria realizar. Que esse sonho se iria tornar verdadeiro. E depois, claro, depois do sonho, uma pessoa acorda. Depois do sonho... depois do sonho vem a realidade.
Parte três : a realidade
A realidade é que ainda estou longe. Mais longe do que pensava, mais longe do que desejava. Ainda me falta tanto, ainda me falta juntar tanto, e ainda cedo demasiado facilmente a impulsos idiotas. Talvez tenha ainda um ano pela frente, dois na pior das hipóteses. Mas onde eu antes queria ter vivido um sonho, agora eu quero viver a minha finalidade. Tundra adentro, passo após lento passo, irei-me desnudar uma última vez, e deixar que o frio me congele o que me resta do coração, até que a luz me leve. O meu último pensamento será sempre em ti, Sofia, o meu último fôlego será sempre um 'amo-te'. E deixarei tudo sabendo que declarar um simples 'amo-te' é pouco. Sempre foi. Sempre foi insuficiente.
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