quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Uma ferida que dói, não por fora, por dentro

Há coisas que nem eu entendo, nesta nossa história. Porque é que certas coisas apenas foram despoletadas contigo? Eu estive em mais relações do que poderia desejar  - e como desejo que maior parte delas não tivessem acontecido sequer. Algumas pessoas eu estive com elas mais tempo do que estive contigo, outras tanto tempo ou perto disso. Com nenhuma dessas pessoas eu quis o que quis contigo. Mas vamos resumir a minha experiência ao que importa : tive três relações relevantes na minha vida. A primeira, que durou quase oito anos, foi importante para mim na medida em que a minha vida mudou para sempre por causa de termos tido um filho juntos. Mas foi uma relação onde fomos largamente indiferentes um ao outro durante muito tempo, aí com dois anos juntos já quase nem fodíamos, era uma ou duas vezes por ano se tivesse sorte. E, admito, não era bom, o sexo entre nós. Eu ainda era profundamente horrível a foder, e tive de aprender muita coisa sobre como tocar e onde tocar e quando tocar, e a moça em si não era muito melhor que eu. Certamente que depois dela dei fodas muito melhores, onde senti que já estava a fazer as coisas como deve ser; espero que ela também as tenha dado. Mas com a Dora, após aquele fogacho inicial da nossa relação que deve ter durado os primeiros 8-9 meses, uma grande parte de mim sabia que não iríamos ter grande futuro. Mas dávamo-nos bem em quase tudo o resto, e isso levou a que nos acomodássemos. Só que eu queria mais, e se em puto me queria casar, acho que nunca me imaginei a ser pai - talvez pelo péssimo exemplo de pai que tinha. E só com os meus 21-22 é que eu comecei a sentir essa vontade. Enfâse no 'eu', ela não queria. Oh, mas como queria eu... estava desesperado por isso. Mas tinha um problema gigantesco : tinha a vida sexual de um cadáver, quase. Pela altura em que ele foi concebido, já estávamos juntos há quase 4 anos, e com sorte dávamos uma foda por ano. Então eu tive de começar a... er... a calcular qual a melhor altura para tentar a minha sorte. E isso levou-me a ter de pesquisar sobre cenas que nunca me tinham passado pela cabeça sequer - tipo períodos férteis - o que me levou a umas leituras interessantes numa biblioteca. Ah, e o 'Diário de Maria' ajudou bastante também. Depois de tudo isto, tive N relações que oscilavam entre uma semana a um mês, ás vezes um pouco mais, e quando já me sentia incapaz de suscitar interesse a alguém de novo, eis que conheço a Sílvia. Já disse o quão difícil a nossa relação foi e a única coisa de que me arrependo foi de não a ter deixado ir mais cedo. Uma parte de mim sente que lhe roubei demasiado tempo da vida dela, em que ela poderia perfeitamente ter sido imensuravelmente mais feliz do que foi comigo. E houve oportunidades para isso, de ambos os lados. Olha, imaginas que uma das fases em que mais ouvi Placebo foi exactamente antes de a conhecer? Eu disse-lhe que para mim a lealdade era mais importante do que a fidelidade, e quando lhe disse isso cantava na minha cabeça 'I was never faithful, and I was never one to trust', e porque raios ela não acabou comigo nesse momento? Eu fiz de propósito e tudo, para lhe dar a desculpa necessária. Mas também eu podia, lembro-me que não muito depois de termos começado a namorar, ela teve um atraso um mês, e durante uns dias pairou no ar a possibilidade de ela estar grávida - naturalmente, não estava. Mas ela disse-me nessa altura que não queria ter filhos. 'Certamente não contigo', disse ela, e porra, doeu como o caralho. Eu podia ter aproveitado essa dica para nos ter poupado a anos de profunda miséria. Ela teria sido tão mais feliz, caramba. Que merda de covarde que sempre fui. 
A verdade é que nós fomos incapazes de construir a mais pequena coisa juntos. Não conseguíamos estar juntos mais do que umas semanas - com sorte - antes das coisas começarem a ficar más. Eu sabia que não podia querer nada com ela, não realmente, não nada de futuro, porque sabia que o nosso tempo estava contado. Se não tivesse acabado quando acabou, teria acabado pouco tempo depois. Nenhum de nós tinha força já para manter vivo algo que estava mais do que morto. Eu sempre soube que a nossa relação não seria para sempre, não seria para a vida toda. E tentei-lhe dizer isso, quando disse que a nossa história iria acabar em lágrimas. Como lamento ter-lhe roubado tanto tempo... que se foda a minha felicidade, teria trocado tudo o que tivemos para que ela tivesse a felicidade que eu nunca lhe consegui dar.
Tu não entendeste bem quem e o que eu era quando nos conhecemos, acho. Eu não queria, de todo, estar numa relação nessa altura. A minha vida estava ok nessa altura, ia sempre conhecendo uma jovem aqui e ali, e havia sempre sexo e ás vezes algo mais do que isso, os beijinhos, e as festinhas, e irmos jantar juntos, e parecia-me um bom plano para o futuro próximo. E modéstia á parte, as miúdas com quem estava eram todas bem jeitosas e bem giras, e isso talvez explique porque nunca nada resultou com alguma delas. Ah, que coisa - vê lá tu que eu nunca me senti particularmente atraído por aquelas mulheres de radiante beleza e que fazem o trânsito parar, embora várias me tenham agraciado com a sua presença. Não, as pessoas que realmente me tocaram o coração não seriam necessariamente assim, pelo menos para outras pessoas, e todavia quando olhava para elas - quando olhava para ti - via não a mulher mais bonita do mundo, mas sim a única mulher. 'Ah e tal, Gonçalo, dizes isso mas na realidade foste-me infiel logo no início, e eu só descobri porque li no teu outro blog'. Pois, eu sei. Como te digo, não chegaste a saber bem quem eu era naquela altura. E quando me envolvi com a Sara - bom sexo, diga-se de passagem, podia ter sido mau, não me teria surpreendido, mas não foi - houve um momento de dúvida em mim. E por muito que me tente lembrar do que teria sido... não consigo. Teria sido algo que disseste e que não me fez sentir seguro nos teus sentimentos? Terei sido eu que questionei tudo? Não sei. O que sei é que naqueles dias em que estive na Suiça antes de estarmos juntos, não pensava noutra coisa senão estar contigo. Precisava de estar contigo. Mais do que tudo. Não pensava sequer em sexo, nem nada disso. Apenas em ti. No teu beijo. Nos teus braços. Pensava numa coisa que já não pensava há algum tempo, e que quando o dizia para mim mesmo me fazia todo o sentido do mundo. Pensava em 'nós'. E eu queria nós. Eu queria... eu queria tudo. Pela primeira vez na minha vida, eu quis tudo com alguém. Já te amava tanto, tanto, e ainda não te tinha beijado sequer. Então porque fui foder com outra? Devia ter-te contado, já viste? Tinhas acabado comigo, há muitos anos que te tinhas esquecido de mim, serias feliz há muito mais tempo, se calhar até tinhas tido mais filhos. No fim acabei por também te roubar tempo da tua vida, no fim não fui mais do que um... equívoco. Imagina o quão melhor a tua vida teria sido se eu tivesse admitido logo o que fiz. Eu não era muito mais que um estranho para ti, tinhas seguido a tua vidinha em paz. Terias o que tens ainda mais cedo, e eu privei-te disso, tudo por um amor egoísta. Apenas consigo imaginar o alívio que foi para ti. Devia ter-te dado isso mais cedo. 
Mas não te contei. Não tive coragem. Tinha medo de te perder. Não te queria perder. Queria amar-te, queria ser amado por ti, e queria ter uma vida contigo. Sabes? Tu e eu e os meninos e nós e os bébés que íamos ter, a Violet que nunca foi. Eu queria tanto isso. Só contigo senti isso. Só contigo quis isso. Foste a única coisa que fez sentido na minha vida. Será que alguma vez nos vamos encontrar de novo? Será que iremos falar sobre a nossa vida desde a última vez que nos vimos, será que iremos falar porque a nossa história acabou? Não, devo-te poupar ao peso da minha presença. Mereces - sempre mereceste - tão mais que eu. Ainda bem que o encontraste. O meu coração alegra-se por ti.  Sabes que das grandes lições que aprendi na minha vida, uma adveio do tempo que passei com a Dora, que foi não querer desperdiçar nem o meu tempo nem o de outra pessoa, e não ficar com alguém por comodismo. Por isso mesmo sempre que senti que não estava minimamente investido ou confortável com a pessoa com que estava eu decidi seguir em frente. Se eu não sentia nada, para quê perder o meu tempo? Para quê desperdiçar o precioso tempo de outra pessoa? Nem a perspectiva de sexo semi-regular era aliciante, rapidamente deixava de sentir qualquer atracção. Mas a ti... a ti abri-me como nunca antes, a ti dei-me como nunca o fiz a ninguém. Que alquimia foi essa que não mais foi, nem será, replicada? Eu quis-te sempre, eu desejei-te sempre. Não houve um único dia em que não tivesse querido tudo contigo. E eu entendo - porque consigo ver isto a uma certa distância de mim mesmo - quem relativiza o facto de apenas termos estado juntos meia dúzia de meses. Entendo, porque é o que qualquer pessoa sã faria. Mas eu estava louco de amor por ti. Ainda estou, passados todos estes anos. Eu não vivi apenas seis meses na tua presença. Não pode ter sido apenas isso, não pode ter sido tão pouco. Não é justo que não tenhamos tido direito a mais. Não é. Eu queria mais. Eu queria muito mais. Queria o que tens - e que não invejo, porque queria o meu sonho para nós, o nosso sonho, queria que tivesse sido comigo. E eu acreditei, sabes? Por um breve instante que foi toda uma vida que já passou, eu acreditei. Tu não imaginas isto, mas a melhor parte de mim foi-se contigo.

Sem comentários:

Enviar um comentário