A verdade é que nós fomos incapazes de construir a mais pequena coisa juntos. Não conseguíamos estar juntos mais do que umas semanas - com sorte - antes das coisas começarem a ficar más. Eu sabia que não podia querer nada com ela, não realmente, não nada de futuro, porque sabia que o nosso tempo estava contado. Se não tivesse acabado quando acabou, teria acabado pouco tempo depois. Nenhum de nós tinha força já para manter vivo algo que estava mais do que morto. Eu sempre soube que a nossa relação não seria para sempre, não seria para a vida toda. E tentei-lhe dizer isso, quando disse que a nossa história iria acabar em lágrimas. Como lamento ter-lhe roubado tanto tempo... que se foda a minha felicidade, teria trocado tudo o que tivemos para que ela tivesse a felicidade que eu nunca lhe consegui dar.
Tu não entendeste bem quem e o que eu era quando nos conhecemos, acho. Eu não queria, de todo, estar numa relação nessa altura. A minha vida estava ok nessa altura, ia sempre conhecendo uma jovem aqui e ali, e havia sempre sexo e ás vezes algo mais do que isso, os beijinhos, e as festinhas, e irmos jantar juntos, e parecia-me um bom plano para o futuro próximo. E modéstia á parte, as miúdas com quem estava eram todas bem jeitosas e bem giras, e isso talvez explique porque nunca nada resultou com alguma delas. Ah, que coisa - vê lá tu que eu nunca me senti particularmente atraído por aquelas mulheres de radiante beleza e que fazem o trânsito parar, embora várias me tenham agraciado com a sua presença. Não, as pessoas que realmente me tocaram o coração não seriam necessariamente assim, pelo menos para outras pessoas, e todavia quando olhava para elas - quando olhava para ti - via não a mulher mais bonita do mundo, mas sim a única mulher. 'Ah e tal, Gonçalo, dizes isso mas na realidade foste-me infiel logo no início, e eu só descobri porque li no teu outro blog'. Pois, eu sei. Como te digo, não chegaste a saber bem quem eu era naquela altura. E quando me envolvi com a Sara - bom sexo, diga-se de passagem, podia ter sido mau, não me teria surpreendido, mas não foi - houve um momento de dúvida em mim. E por muito que me tente lembrar do que teria sido... não consigo. Teria sido algo que disseste e que não me fez sentir seguro nos teus sentimentos? Terei sido eu que questionei tudo? Não sei. O que sei é que naqueles dias em que estive na Suiça antes de estarmos juntos, não pensava noutra coisa senão estar contigo. Precisava de estar contigo. Mais do que tudo. Não pensava sequer em sexo, nem nada disso. Apenas em ti. No teu beijo. Nos teus braços. Pensava numa coisa que já não pensava há algum tempo, e que quando o dizia para mim mesmo me fazia todo o sentido do mundo. Pensava em 'nós'. E eu queria nós. Eu queria... eu queria tudo. Pela primeira vez na minha vida, eu quis tudo com alguém. Já te amava tanto, tanto, e ainda não te tinha beijado sequer. Então porque fui foder com outra? Devia ter-te contado, já viste? Tinhas acabado comigo, há muitos anos que te tinhas esquecido de mim, serias feliz há muito mais tempo, se calhar até tinhas tido mais filhos. No fim acabei por também te roubar tempo da tua vida, no fim não fui mais do que um... equívoco. Imagina o quão melhor a tua vida teria sido se eu tivesse admitido logo o que fiz. Eu não era muito mais que um estranho para ti, tinhas seguido a tua vidinha em paz. Terias o que tens ainda mais cedo, e eu privei-te disso, tudo por um amor egoísta. Apenas consigo imaginar o alívio que foi para ti. Devia ter-te dado isso mais cedo.
Mas não te contei. Não tive coragem. Tinha medo de te perder. Não te queria perder. Queria amar-te, queria ser amado por ti, e queria ter uma vida contigo. Sabes? Tu e eu e os meninos e nós e os bébés que íamos ter, a Violet que nunca foi. Eu queria tanto isso. Só contigo senti isso. Só contigo quis isso. Foste a única coisa que fez sentido na minha vida. Será que alguma vez nos vamos encontrar de novo? Será que iremos falar sobre a nossa vida desde a última vez que nos vimos, será que iremos falar porque a nossa história acabou? Não, devo-te poupar ao peso da minha presença. Mereces - sempre mereceste - tão mais que eu. Ainda bem que o encontraste. O meu coração alegra-se por ti. Sabes que das grandes lições que aprendi na minha vida, uma adveio do tempo que passei com a Dora, que foi não querer desperdiçar nem o meu tempo nem o de outra pessoa, e não ficar com alguém por comodismo. Por isso mesmo sempre que senti que não estava minimamente investido ou confortável com a pessoa com que estava eu decidi seguir em frente. Se eu não sentia nada, para quê perder o meu tempo? Para quê desperdiçar o precioso tempo de outra pessoa? Nem a perspectiva de sexo semi-regular era aliciante, rapidamente deixava de sentir qualquer atracção. Mas a ti... a ti abri-me como nunca antes, a ti dei-me como nunca o fiz a ninguém. Que alquimia foi essa que não mais foi, nem será, replicada? Eu quis-te sempre, eu desejei-te sempre. Não houve um único dia em que não tivesse querido tudo contigo. E eu entendo - porque consigo ver isto a uma certa distância de mim mesmo - quem relativiza o facto de apenas termos estado juntos meia dúzia de meses. Entendo, porque é o que qualquer pessoa sã faria. Mas eu estava louco de amor por ti. Ainda estou, passados todos estes anos. Eu não vivi apenas seis meses na tua presença. Não pode ter sido apenas isso, não pode ter sido tão pouco. Não é justo que não tenhamos tido direito a mais. Não é. Eu queria mais. Eu queria muito mais. Queria o que tens - e que não invejo, porque queria o meu sonho para nós, o nosso sonho, queria que tivesse sido comigo. E eu acreditei, sabes? Por um breve instante que foi toda uma vida que já passou, eu acreditei. Tu não imaginas isto, mas a melhor parte de mim foi-se contigo.
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