quinta-feira, 20 de março de 2025

Se tu fosses o dia, eu choraria durante a noite

Se apenas fosse tão simples quanto pegar no telemóvel, e ligar-te, ou mandar-te uma mensagem, e perguntar-te se te queres encontrar comigo.
Se apenas fosse tão simples quanto te dizer que tenho saudades tuas, e que te quero abraçar, e beijar-te.
Se apenas fosse tão simples quanto encontrar-me contigo na rua, aleatoriamente, e nos sentássemos num banco a falar os dois.
Se apenas fosse tão simples quanto te dizer que te quero despir e sentir o teu corpo contra o meu de novo.
Se apenas fosse tão simples quanto irmos beber um copo e acabarmos a noite a foder como se não houvesse amanhã.
Se apenas fosse tão simples quanto acordar do teu lado e saber que daqui até ao fim da nossas vidas seria sempre assim.
Se apenas fosse tão simples quanto dizer-te que te amo, e isso ser suficiente para me amares de novo.
Se apenas fosse tão simples quanto colocar as minhas mãos no teu rosto, e com os meus olhos mergulhar nos teus, num momento que existe além das palavras.
Se apenas fosse tão simples quanto perguntar-te se te queres casar comigo, e tu dizeres que sim.
Se apenas fosse tão simples quanto perguntar-te se queres fugir comigo, só eu e tu.
Se apenas fosse tão simples quanto podermos voltar atrás no tempo.
Se apenas fosse tão simples quanto haver uma máquina que apaga as pessoas das memórias das outras, e nunca mais te lembrasses de mim, ainda que eu tivesse de viver sempre contigo no meu coração.
Se apenas fosse tão simples quanto as coisas serem simples o suficiente para não serem complicadas.
Se apenas fosse tão simples.
Se apenas fosse... simples.
Se.
Se.
Se.
Se.
Se.
Cada vez que o coração bate, um 'se' ecoa no éter. Consegues-me ouvir, Sofia? Consegues sentir o meu coração a bater?
Se.
Se.
Se.
Se.
Se apenas fosse tão simples estares aqui comigo.

quarta-feira, 19 de março de 2025

Se tu fosses a noite, eu dormiria durante o dia

Estou cansado de escrever. Apetece-me falar contigo, mas não apenas dizer 'Olá, bom dia, como estás?'. é aquele ficar a falar até ás 4 ou 5 da manhã mesmo sabendo que não iria dormir quase nada a seguir.
Estou cansado de pensar em foder-te. Apetece-me percorrer o teu corpo com os meus dedos, levar o sabor da tua cona na ponta da minha língua, e beijar-te, beijar-te com uma insaciável fome pelo infinito.
Estou cansado de te ver em todo o lado. O teu nome assombra-me, leio-o e ouço-o onde quer que vá, onde quer que esteja. Apetece-me ver-te num sítio apenas, ao meu lado, e o teu nome a luz que alumia a minha alma.
Estou cansado de silêncio. Apetece-me ouvir todos os sons que o universo produz, todas as palavras, todas as melodias, todas as tua vozes, todos os teus gemidos, todos os teus choros, todas as tuas alegrias.
Estou cansado, tão, tão cansado. Cansado de precisar de um abraço, de um beijo, de um toque de um gesto… que não virá mais. E eu não sei como resolver este cansaço. Oh, saber, sei, sei até de várias maneiras. Mas uma não tenho coragem de voltar a tentar, e a outra… a outra é desligar-me de tudo, desaparecer, passar os meus dias longe de tudo, longe de ti, noutro lugar. Para sempre, sempre.

terça-feira, 18 de março de 2025

Mente-me e diz-me que me amas

Sabes onde estive ontem? Á noite, depois de acabar o trabalho, sentia-me irrequieto. Não conseguia estar em casa, não me apetecia fazer fosse o que fosse aqui, estava impaciente, mas sem saber muito bem porquê. Então vesti-me e saí de casa, precisava de deambular por aí, meio sem direcção, de headphones nos ouvidos, perdido na música. Comecei por ir até ás Olaias - e não, não tem nada de relevante para quase ninguém, mas lá perto existe uma estradita que não passava por lá há muitos anos, e sim, esse sítio para mim é importante, mas é sempre doloroso voltar lá. Mas não permaneci durante muito tempo, e segui o meu caminho. É uma zona que conheço muito bem, desde míudo, porque estudei lá quatro anos, e a verdade é que na altura era uma zona altamente insegura, e fui assaltado uma data de vezes naquelas redondezas. Mas os tempos mudam, e as coisas nem de longe nem de perto são o que são, então dei por mim a ir até ao alto de São João de Deus, depois desci lentamente a Morais Soares, subi até ao Arco do Cego, fui andando, com intenções de parar pelo Parque Eduardo VII e lá ficar um pouco. Então, quando passo nas traseiras da Gulbenkian, depois dou por mim a parar perto da entrada do metro onde nos vimos pela última vez. Lembras-te de antes nos termos encontrado nesse dia, que uns tempos antes eu te tinha dito que da próxima vez que nos víssemos te iria beijar? Talvez tenha sido o último assomo de coragem que tive, ter-te dito isso. E sabes que mais? Eu tinha tanta vontade de te beijar, tanta. Mesmo com a distância que colocaste entre nós quando te sentaste ao meu lado - e ao mesmo tempo a anos-luz de mim. Mesmo contigo a não olhar para mim sequer - como te quis beijar. E no entanto, mesmo nesse último momento, mesmo quando estivemos tão próximos quanto voltaremos a estar, mesmo quando no mais profundo âmago do meu coração eu sabia que me estava a despedir de ti, e o disse a mim mesmo, á medida que olhava para ti, e sabia que não conseguias dar-me o teu olhar a não ser se eu o pedisse... como o quis fazer.
Ontem, parado á porta da entra do metro, ainda estávamos lá. Mas é esse o nosso fado, ainda existem impressões de nós presas no tempo, e eu vejo-as onde quer que vá. São memórias de outro tempo, de outra vida. E eu penso nas memórias que ainda tenho, e aquelas que por vezes sinto que estão a desaparecer. Nestes anos todos que precederam termo-nos visto de novo, quem eras tu para mim? O que me lembrava eu de ti, ainda? Tanta coisa, mas por vezes sentia que tinha já uma vaga impressão do teu rosto. É como se me conseguisse lembrar mas ao mesmo tempo não. As redes sociais sempre ajudavam um bocadinho, porque de vez em quando eras-me sugerida, ou procurava-te eu, e sempre ajudava a trazer alguns detalhes á tona. Mas confesso que tive um momento - talvez mais que um, até - em que receei que te tornasses a sombra de uma recordação, apenas. Eu volto ao dia em que nos reencontrámos. Aliás, volto á conversa que tivemos antes de nos encontrarmos. Quando, do nada, recebo uma mensagem tua, não a dizer-me, não a pedir-me, não a sugerir-me, mas a ordenar-me para nos encontrarmos. Local, dia, hora. Poderia eu alguma vez ter-te pedido semelhante coisa? Não. E ter ido foi uma prova de superação para mim. Certamente não queria que tu me visses no estado deplorável em que me coloquei. Mas depois... depois vi-te, ainda antes de me sentar ao teu lado, e eu sabia que não conseguiria... sei lá o que não conseguiria. Aqueles passos que me levaram até ti, eu senti que estava a ter uma daquelas experiências fora do corpo, em que sentia que estava a ver tudo á distância, sem ter controlo algum sobre o que estava a acontecer. E depois, depois sentado ao teu lado, não exactamente onde estivemos na tarde do primeiro beijo, mas suficiente perto, e uma parte de mim sentia que havia uma procissão interminável de Gonçalos e Sofias que viveram felizes para sempre, e que aquele beijo ecoa ainda através de toda a eternidade. Doeu como os raios ver-te de novo. Doeu olhar para ti. Porque saber que alguém que amo com todo o meu ser é amada por outra pessoa sempre me custou, e no momento em que me sentei ao teu lado, foi como não tivesse havido mais de uma década de distância entre nós, e que o tempo para nós não passou. Mas nesse dia se olhaste duas ou três vezes para mim já foi muito. Nesse dia, tal como no dia do cinema, eu pensei que me odiavas. Não, pior que isso, ser odiado não me incomoda. Senti que não gostavas de mim sequer, e isso sim, deixou-me um caco. Despedi-me de ti nesse dia, sem ter tido sequer a coragem de te dar um beijo no rosto, mas não o demos sequer quando nos cumprimentámos. Pensei eu que era aqui que a nossa história tinha finalmente acabado. 'Esta não pode ter sido a última vez', disseste-me pouco depois. Mais memórias que vão ficar. E por vezes questiono-me se acabarão por substituir a memória de outra coisa qualquer.
Há tanta, tanta coisa que já não me lembro - ainda que possa afirmar que me lembro de uma forma abstracta, certamente que não me recordo já de uma forma sensorial. Um beijo, um toque sequer - tu não imaginas, mas nesse dia do reencontro houve um momento em que me pegaste ao de leve na mão para me pedires desculpa, e foi esse o máximo de contacto que tive com uma pessoa em anos. Nem sequer deveria mencionar sexo ou, ainda mais gravoso, intimidade, coisas cuja ausência pesam. Mas eu não me lembro como é sentir qualquer uma destas coisas, e na realidade, não estou terrivelmente preocupado com isso. Não o procuro activamente, quando o fiz arrependi-me amargamente, então para quê sujeitar-me a isso? Mas eu não te quero esquecer. Não é conseguir esquecer, isso é diferente, o que não quero é que a memória de ti, da tua pessoa, do teu lado físico, do teu sorriso, da tua voz, de todas as tuas idiossincrasias - e aqui só posso falar pelas que conheci - escapem de mim. Não quero. E tenho esse receio. Tenho receio que daqui a uns anos, se ainda cá estiver, lembrar-me de ti seja como tentar apanhar um punhado de areia e vê-la a desesperadamente fugir por entre as minhas mãos, enquanto tento guardar para mim toda e qualquer parte que consiga. E eu sei que não te vou voltar a ver, eu sei. Não há nada que possa fazer quanto a isso. Não é uma escolha minha. O que eu precisava era ter tido dez mil noites mais contigo em que pudesse ter ficado a estudar cada detalhe de ti, e cada recanto do teu corpo. Precisava que tivéssemos tido uma ilíada de fodas, e um infinito volume de sonetos onde a tua voz tivesse ficado gravada para sempre, e eu não me esquecesse dela nunca. 
Precisava, precisava, precisava. Que egoísta eu sou. Gasto o que resta de mim a comportar-me como um adolescente que escreve no seu diário, que se consome em sofrimentos em ânsias por alguém que nem sequer pensa nele. Já viste, Sofia? (Não viste, porque não sabes, não imaginas, mas se soubessses achar-me-ias tão profundamente patético.) Não existe uma grande recompensa no fim do dia, eu sei. Apenas finjo que falo contigo e que de alguma maneira me ouves. 

domingo, 16 de março de 2025

Perdoa-me, eu peço desculpa

E se, num universo paralelo, a primeira coisa que fazes todos os dias quando acordas, é vires aqui para veres se escrevi alguma coisa, e quando me lês, te sentes próxima de mim, mesmo sabendo que será toda a proximidade que alguma vez viremos a ter? E se quando me lês, cada palavra que escrevi tu sentes como um beijo, e te lembras das ternas noites que tivemos e juras que consegues ouvir a minha voz, e o meu toque te vem á memória, e o teu coração sente o amor que emana do meu? E se, nesse universo paralelo, não neste, nunca neste, também tu me desejas, também tu me amas? E se quando dormes, as minhas palavras ecoam na tua cabeça, e em sonhos nos encontramos, e em sonhos olhas para mim de novo, e gostas de mim de novo?
What if, my love? What if?

sexta-feira, 14 de março de 2025

A maior parte de ti estava nua, ah, mas uma parte de ti era luz

Houve um post que escrevi no meu outro blog, sobre o que eu queria ser quando era miúdo, e quando o escrevi fiquei com a sensação que me estava a faltar dizer qualquer coisa mais. Meses mais tarde, creio que em Dezembro, já estava eu a entrar em stress com a ideia auto-imposta de escrever todos os dias, quando me lembrei do que tinha ficado por dizer nesse tal post. Comecei a escrevê-lo, mas confesso que estava ligeiramente com os copos na altura, e acabei por escrever um post quase igual ao outro, sem sequer mencionar aquilo que tinha ficado em falta. No dia seguinte, já mais sóbrio, reli o post que tinha começado a escrever, apercebi-me que me estava a repetir, esqueci-me por completo daquilo que queria escrever, e acabei por fazer um post da treta.
Bem, correndo o risco de me repetir, vou resumir esse tal post : em puto queria ou ser astronauta, por causa da música do Jean Michel Jarre, e do seu respectivo vídeo, ou em alternativa queria ser advogado por causa da série de TV 'As teias da lei', mas na realidade cedo me apercebi que não era inteligente o suficiente para ser qualquer uma dessas coisas. Aquilo que ficou em falta dizer é que na realidade em puto eu tinha dois empregos de sonho, e olha que eu não sei não se não o são ainda. Isto vai soar tão absolutamente estúpido, mas... sempre quis ser carteiro. E não sei explicar muito bem porquê, não me recordo de alguma vez ter tido uma interacção que fosse relevante e/ou marcante para mim com um carteiro; inclusivamente, nunca gostei de ir aos correios sequer. Talvez possa admitir que o que me atraía nesse tipo de profissão era o poder-se fazê-la sozinho, sem ter pessoas á nossa volta, e andar a passear por aí a entregar cartas. Sempre me pareceu algo que eu conseguiria fazer perfeitamente, e que nunca me fartaria de o fazer. Não sei mesmo porquê. Ainda hoje quando vejo o meu carteiro habitual, o Sr. Fernando, fico com uma certa inveja dele, e certo, talvez a minha imagem criada em puto sobre ser carteiro não possa corresponder á realidade, porque certamente teria de lidar com muitas pessoas estúpidas e chatas, mas ainda assim... eh, a verdade é que nunca na minha vida pesquisei sequer como concorrer a isso. Algures no final dos anos 90, houve uma altura em que eu e um amigo meu andámos a enviar CVs á maluca, a fazer candidaturas espontâneas para tudo e mais alguma coisas, mas não creio que tenha enviado para os correios. E, pelo menos para mim, todas essas candidaturas não resultaram em nada, nem sequer numa entrevista. Paralelamente a isto, a outra coisa que sempre quis ser - em duas variantes até, se bem que uma seria preferencial - era ser o tipo que andava por aí a mudar as publicidades dos cartazes exteriores ou os do metro. Na minha cabeça, andava por aí a guiar uma carrinha Bedford com montes de cartazes nas traseiras, e ia de lado para lado mudar os cartazes. Mas preferia não fazer daqueles que requerem trepar escadotes, e andar a colar os cartazes... se já não tinha grande jeitinho para colar os cromos nas cadernetas de modo a que ficassem sempre certinhos no seu respectivo rectângulo, fazê-lo num desses outdoors seria um pesadelo. Mas no metro, caramba, isso sim, que categoria de emprego. De vez em quando via um ou dois tipos á noite no metro, que levavam um rolo enorme de cartazes, e andavam de estação em estação a mudá-los, e sempre fiquei altamente impressionado com a rapidez com que conseguiam mudar os cartazes. E andavam com chavinhas que abriam as portinholas onde os cartazes estavam por detrás de um vidro, e tantas vezes em puto eu via cartazes dos filmes em exibição e os queria ter, e pensava para mim que quando fosse grande ia trabalhar numa coisa destas e ficava com todos os cartazes só para mim. Nessa altura eu imaginava que quando fosse grande não iria viver numa casa normal, mas sim numa espécie de estúdio amplo, certamente influenciado pelo estúdio onde o personagem Seth Brundle morava no filme 'A Mosca', um dos filmes que mais marcou o Gonçalo ainda muito novinho. 
A única coisa que sinto que liga estas profissões é uma espécie de solidão natural que elas trazem consigo, e digo isto num sentido libertador, na medida em poderia passar uma boa parte do meu dia de trabalho sozinho, algo que sempre ambicionei e raramente consegui. Quando fazia serviço na Força Aérea passava muitas horas sozinho, especialmente durante a madrugada, mas não era exactamente a mesma coisa. Talvez só nestes últimos anos que tenho estado em teletrabalho eu sinta essa liberdade que ambicionava ter, e até é, mais ou menos, mas não tenho a mobilidade das outras. É claro que em puto nem sequer me passava pela cabeça as dificuldades que estas profissões têm, e especialmente nos carteiros, que a têm de fazer quer faça chuva, quer faça sol. Mas acaba por ser emblemático de algo que sempre senti desde pequeno, que estou bem sozinho - e estive durante bastante tempo. 
Quando era puto - e não só, mas especialmente nessa altura - julgava que nunca iria ter uma namorada. Julgava que era algo que acontecia ás outras pessoas, e mesmo quando dei as minhas primeiras beijocas não fiquei com a ideia - ou mesmo grande vontade - de ter um namoro. Quando andava no 5º ano tive um colega chamado Pedro, e dava-me mais ou menos com ele, talvez ele fosse o bonitão da turma. A dada altura ele não apareceu uns dias, e eu perguntei por ele a outro puto da turma que era amigo dele desde a primária, e ele disse-me que a namorada dele tinha morrido de pneumonia, e isto fez a minha cabeça entrar em parafuso. Primeiro, quem é que tem uma namorada no quinto ano? Depois, acho que não fazia ideia que se podia morrer de pneumonia, que para mim era uma espécie de gripe ou constipação, mas mais severa. Tantas vezes ouvi para não andar desagasalhado nas correntes de ar porque podia apanhar uma pneumonia, mas safei-me sempre. Não consigo precisar exactamente se foi nessa altura, ou talvez um ou dois anos mais tarde, mas também a minha irmã mais nova teve uma amiga na primária que morreu num acidente de viação, e ainda hoje quando passo por onde ela morava - embora hoje em dia raramente passe por lá - fico sempre com um peso no coração, e nem sequer a conhecia assim tão bem. Talvez porque se calhar não concebia realmente a possibilidade de crianças morrerem, embora certamente já teria sido exposto a uma qualquer situação em que fui confrontado com a mortalidade infantil, mas sempre foi tudo tão á distância que quando ocorreu numa proximidade relativa eu tivesse (naturalmente) ficado afectado. Se calhar isso explica também, em parte, aquele receio que tive sempre quando o Ian era pequenino, que me levava a procurar pela respiração dele, e sentir o coracãozinho dele a bater, e o seu peitinho a subir e a descer. 
O engraçado é que além dessas coisas que eu queria ser, tinha também duas alternativas, talvez ainda mais inverosímeis. Por um lado, e devido a um fascínio que eu tinha com o Rocky nessa altura - sem ter visto um único filme da série, todavia tivesse uma vasta coleccção de calendários, e cuja presença era ubíqua no meu videoclube - eu queria ser pugilista. Na altura, o meu pai tinha uma empresa da construção civil, e um dos funcionários era pugilista amador. Um dia, o meu pai contou-lhe que eu queria ser pugilista, e ele disse-me que quando quisesse, ele levava-me a fazer um treino para principiantes, mas a primeira coisa que tinham de fazer era partirem-me a cana do nariz, e como é possível imaginar, o meu sonho de boxeur morreu muito cedo. A outra coisa que queria ser é relativamente semelhante, mas tem uma história engraçada á sua volta. Eu queria ser lutador de Wrestling, e essa paixão surgiu quando em 1986 fui ver o filme 'Highlander' com a minha mãe ao cinema Condes. Para mim foi uma noite mágica : um filme que amei de paixão, com banda sonora da minha banda favorita de puto - Queen, foi também a primeira vez que comi Maltesers na minha vida, e a minha mãe comprou-me o nº 1 da série 'Guerras Secretas'. Que mais poderia ter acontecido que me teria deixado deliciado? Que tal uma data de marmanjos musculados á batatada uns aos outros num ringue? Fiquei apaixonado por Wrestling nessa altura, mas durante mais uns anos foi tudo o que conheci sobre a coisa. Nessa altura, eu julgava que a maior demonstração de status que um puto podia ter era se tivesse uma casa com piscina, ou - e quase, se não mesmo, melhor - uma antena parabólica. Havia sempre um puto aqui e ali que tinha uma antena parabólica e se fartava de falar dos programas estrangeiros que via, e uma pessoa julgava que era tudo treta, mas volta e meia um desses putos partilhava uma cassete de video com gravações desses programas, e ficávamos maravilhados. Eu nunca tive uma dessas antenas, e em puto julgava-me um injustiçado por causa disso. Mas o que eu tinha aqui ao lado de casa era a antena da RARET,  e circulava um rumor na redondeza que haviam certas televisões que conseguiam sintonizar canais estrangeiros se apanhassem a frequência certa, devido á proximidade da antena. Nós na altura tínhamos uma televisão da Philips que era um mamarracho que pesava toneladas, e para sintonizar aquilo tinha-se de abrir uma portinhola com um palito, e depois estar a rodar os botões a ver se se apanhava alguma coisa. Passei incontáveis horas a ver se apanhava alguma coisa - alguma coisa que fosse - mas nunca consegui apanhar nada. Certa vez acabei por dessintonizar os dois canais que tínhamos, e primeiro que os conseguisse sintonizar de novo foi o cabo dos trabalhos.
É curioso, eu voltei a ver wrestling uns anos depois, tinha eu 11 ou 12, e foi através de um puto que tinha antena parabólica e gravava cassetes. Certa vez, fui a casa dele para ver videos, e fiquei abesbílico com o tamanho da televisão dele. A que tinha - e tanto a dos meus avós como a dos meus pais era o mesmo modelo - parecia-me ser grande o suficiente, mas na minha cabeça este puto tinha um cinema em casa, e é apenas um exagero que nasce do facto de não conseguirmos processar muito bem as dimensões quando somos mais novos. Quando há uns anos atrás comprei a televisão que uso como monitor do PC de trabalho, pensei que era a maior televisão que tinha visto, na glória das suas 32 polegadas. Hoje essa parece minúscula comparado com a de 65 que tenho. Mas voltando a esse momento na casa do puto - tenho uma história tão estúpida com esse puto, que se chamava Manuel, mas a família chamava-o de 'Nelo', e eu achava isso tão cool, que tipo uns dois anos mais tarde quando estava noutra escola, tentei que toda a gente me chamasse de 'Nelo' em vez de Gonçalo, meu deus, que idiota era - mas quando voltei a ver Wrestling fiquei boquiaberto com aquilo, com o atleticismo, com a rapidez dos movimentos, com o quão teatral aquilo tudo era, e quando me disseram que era tudo combinado e ninguém andava realmente ao estalo e ao pontapé a ninguém, fiquei incrédulo. Como não era real? Eu via com os meus olhos, claro como o dia, as trepas que aquelas bestas davam um no outro! Combinado? Como assim combinado?
Mas o que eu me lembro mesmo bem desse momento foi a inveja que eu tive desse puto. Fiquei a remoer por dentro durante meses porque o puto tinha o raio da antena parabólica, e eu não, e não importava o quanto implorasse - mesmo com a ajuda dos meus irmãos - os meus pais nunca deram esse passo. E eu sempre detestei sentir inveja. É uma coisa que me diminui, e foi apenas depois de ti, uns anos depois, que consegui livrar o meu coração desse sentimento. Em 2015 recebi um email da Sílvia a desejar-me um feliz aniversário, e ela anexou uma fotografia da filha bébé dela, e eu senti o meu coração a encher-se de uma sensação tão.... sei lá, tão abissalmente escura. É claro que me senti feliz por ela, naturalmente que sim, mas por mim não senti nada senão asco e bílis. Senti que o padrão que define a minha existência era o de apenas servir como um trampolim para as pessoas que passam pela minha vida alcançarem uma felicidade que eu não poderia nunca oferecer. Eu detestei sentir o que senti, e embora possa dizer que ainda estava em sofrimento com a tua ausência, e a ter de lidar com as merdas que a Tracy andava a fazer, não justifica o que senti. Nessa altura, tudo o que eu tocava parecia definhar, e como não poderia? Quando se carrega essa escuridão na alma, não se traz luz a ninguém. Olhava para as pessoas e sentia genuína inveja do que tinham, ou aparentavam ter. Sentia de tal modo, que fechei os meus olhos e o meu coração a possibilidades de ter essas mesmas coisas. Tu eras alguém em que eu não podia pensar, embora o fizesse constantemente, algures entre o concreto e o abstracto. Talvez tenha sido a Isabel que me disse uma vez que existia um fantasma entre nós, e eu sempre soube o seu nome, o teu nome, mas não o podia admitir. Admiti-lo seria finalmente desprender-me de qualquer ilusão de normalidade que julgava ainda ter. 
Custou como o caraças, doeu como os raios, mas consegui ultrapassar esse sentimento. A inveja não existe já em mim; não invejo o que tens, nem o que qualquer outra pessoa tem. Acaba por ser um sentimento parecido ao absurdo Camusiano, aquele que tenho, na medida em que sinto uma grande indiferença relativamente ao que acontece ou deixa de acontecer na minha vida. Aceitei, resignei-me. Não era suposto ser, não era suposto acontecer, pelo menos não nesta vida. Tive a minha oportunidade, e fodi-a. Vou viver com isso. Tenho de viver com isso. Sem ti. Com este amor por ti. Imenso, maior que a vida. Eu vou encontrar-te na próxima vida, Sofia. Prometo.

Os nossos passos rimarão sempre

A parte da minha vida mais complicada de contar a alguém sempre foi a minha infância,  e as coisas decididamente bizarras que aconteceram nessa altura. Em boa verdade, creio que apenas a contei em detalhe a duas pessoas em toda a minha vida : contei-a a Dora, estávamos nós já a caminho de terminarmos a nossa relação, e contei-a apenas para ver se me safava de uma merda que tinha feito, não por real vontade ou necessidade de o fazer. Depois, se não me falha a memória, contei-a em 2008 ao Hugo, antes de ter ido para Londres com a Sílvia. A ela não creio que alguma vez tenha contado, e a ti, sinceramente não sei se contei, mas acho que não. Quando escrevi sobre essa fase da minha vida nessa altura, sabia que contá-la implicaria uma certa suspensão da descrença, e sempre foi eu estar ciente desse facto que gerou relutância em mim em contá-la. Mas tanto eu quanto a minha família tivemos uma série de experiências paranormais, que começaram era eu criança, e que se estenderam até termos saído de Alenquer, no principio dos anos 90. Depois disso, houveram alguns incidentes aqui e ali, algumas coisas estranhas, mas nada de particularmente alarmante. Regra geral, tenho mais manifestações na forma de sonhos do que na vida real, mas elas ainda acontecem aqui e ali. Em Março de 2010, precisamente há 15 anos atrás, havia uma presença no meu quarto que se manifestava na forma de uma esfera de luz azul, um azul claro e meio translúcido. Não era muito grande, talvez pouco maior que uma bola de ténis, e ficava no meio do meu quarto a pairar no ar. Por vezes parecia falar comigo, embora não entendesse o que era dito. Ficava sempre com a impressão que esta esfera estava a olhar para mim, por alguma razão. Durante alguns meses essa presença perdurou, mas com o tempo fui vendo - e sentindo - essa presença cada vez menos. 
Depois, em 2013, na noite escura da minha alma, nas noites longas que eu passei enfiado na cama a chorar, a caminhar a passos largos para eu planear a minha própria morte, voltei a sentir presenças de novo. Múltiplas, desta vez. Uma dessas presenças era uma criança, e também o meu sobrinho a tinha visto. Mas não só. Num dos cantos do meu quarto havia uma sombra, contornado por alguma ténue luz, e por vezes conseguia vê-la mais nitidamente. Era uma senhora, que escondia o seu rosto por detrás de um véu. Das primeiras vezes que a vi, senti um medo imenso, e enfiava a cabeça debaixo do edredon, para me sentir mais seguro. Não me atrevia a abrir os olhos, tal era o pavor que sentia. Não sei quanto tempo depois, mas não muito tempo, houve uma noite em que tinha adormecido em lágrimas, e a dor imensa que sentia no coração levou-me a ter uma noite sobressaltada. Nessa noite, acordei a sentir uma paz estranha, e ainda antes de começar a abrir os olhos, senti que alguém me estava a passar suavemente a mão pela minha cabeça. Eu sorri, e pensei que tinha sido tudo um sonho mau apenas, que nunca tinhas ido, e estavas comigo deitada, e estavas-me a fazer festinhas na cabeça. Quando abri os olhos, vi uma figura luminosa dobrada sobre mim, a sua mão na minha cabeça. Nenhum véu cobria o seu rosto, e um leve sorriso formava-se nos seus lábios. Desta vez não senti medo, nem em nenhuma vez subsequente que a vi. 
É claro que sei que eu narrar estas histórias a alguém é expôr-me ao ridículo, porque quem no seu correcto juízo vai acreditar nelas? Quem não irá dizer que se trata de uma espécie de alucinação, ou não irá conotar mesmo a um distúrbio mental? Por isso sempre preferi largamente manter estas coisas para mim. Naturalmente, toda esta minha vivência com estas coisas influenciou a minha relação com o divino. Já disse no passado que não sou nem religioso nem espiritual, e se tiver de acreditar num poder maior, num 'deus', certamente que não é num livro ou códice sagrado; não será sequer num edifício ou templo. Quando sinto 'deus', quando preciso falar com 'deus', é na natureza, a sua voz é o ciciar das arvores, o seu corpo as montanhas e a terra e o mar. Isto não faz de mim nem ateu nem agnóstico; na realidade há uma parte de mim que mais do que acreditar, eu sei que estas coisas têm um fundamento na realidade. Se são energias opostas, que se encontram em conflito, ou se são dimensões paralelas, isso eu não sei, nem consigo explicar. Mas para mim - para e a mim mesmo - não o tenho de fazer. Talvez por isso eu tenha optado por ter sido baptizado, tinha eu uns 12 anos. Admitindo que todas estas coisas tinham a possibilidade de serem reais, porque não proteger-me de alguma maneira? Em míudo, quando as piores coisas deste género estavam a acontecer, eu tinha um medo imenso de quando morresse ir parar ao inferno. Á medida que fui crescendo, esse medo foi-se dissipando, mas de certa forma ele ainda está lá. 
No entanto, admito que ainda penso na cena do inferno. Da primeira vez que fui morar para Londres, trabalhei com um puto americano chamado Stephen, que era altamente religioso. Ele acreditava - piamente - no conceito de 'inferno na terra', ou seja, para ele, ele estava já a experienciar a pós-vida dele, e como isto estava longe de ser o paraíso em que ele acreditava - o bíblico - então apenas podia ser o oposto, e a missão dele seria ter de aguentar as tormentas e tribulações e tentações que lhe fossem apresentadas, de modo a poder ganhar a sua salvação. É uma maneira de se ver as coisas, e quem sou eu para julgar? Cada um acredita no que quiser, cada um tem a sua própria exegese daquilo que experiencia. Não estou aqui para convencer alguém do que foi ou deixou de ser, felizmente com isso já fiz a minha paz há muito. 
Ás vezes penso nessa definição que Stephen me contou do 'inferno na terra'. Ás vezes penso que em Dezembro de 2013 não houve milagre algum, e que tal como eu tinha planeado, entrei mar adentro e as ondas me levaram. Talvez seja este o meu inferno. Saber que não te voltarei a ver, que não mais voltarei a ouvir a tua voz. Talvez o meu inferno seja lembrar-me perfeitamente do que era o teu beijo, do que era o teu toque. Fechar os olhos e imaginar-te deitada ao meu lado, nua, as tuas pernas nas minhas, a tua pele com a minha, tão próximos que eu consigo ainda sentir o cheiro do teu corpo, o calor da tua respiração quando te abraço. Deitar-me, e ver-te em cima de mim, as minhas mãos nas tuas nádegas, os teus olhos nos meus, como tantas vezes o fizemos. Que inferno teria uma tortura pior que esta? Em que possível mundo existe mais cruel tormento do que saber que existimos no mesmo mundo, ao mesmo tempo, e que te perdi para sempre?

quarta-feira, 12 de março de 2025

O caminho que não tomei

Já alguma vez traíste alguém? Céus, espero que não. É uma coisa horrível, e fi-lo demasiadas vezes, e arrependo-me de todas elas, mesmo quando o fiz a alguém que não tinha grande (se é que algum) significado para mim. Ninguém o mereceu, nenhuma vez foi boa sequer, e qualquer justificação que ofereça para ter feito o que fiz não é aceitável, pelo menos não para mim. Creio que escrevi algures que quando comecei a minha relação com a Sílvia, lhe disse uma platitude qualquer do género da lealdade ser para mim mais importante que a fidelidade, mas não lhe disse isto para parecer cool e misterioso, um verdadeiro bad boy, ou para sequer fazer transparecer que tinha algum problema em ser fiel. Tive, é verdade, depois desse momento, mas até então tinha sido infiel exactamente uma vez, não muito longe da relação que tive com a Dora, e fui infiel porque a minha inexistente vida sexual me estava a deixar atrofiado, e em vez de fazer a coisa sã e adulta que era ter tido uma conversa com ela sobre o estado da nossa relação, e ter-nos poupado a um ou dois anos de tempo desperdiçado, não.. 
Quando comecei a escrever sobre nós o ano passado, soube de imediato que a história da Sara seria complicada de... contar? Não. De racionalizar, talvez. Só muito á última da hora optei por contá-la, e desde então que eu próprio ando a tentar entender o que me levou a trair-te. Não consigo, ainda agora, estar 100% certo do porquê. Especulo, questiono, mas fico na mesma. Eu sei que ainda não tínhamos começado a nossa vida sexual, estaria eu tão desesperado por cona que me tive de enfiar numa mal surgiu a oportunidade? Mas também acho que não foi por isso. Não sei. Não sei. Eu sei que me sentia atraído por ela, e já a conhecia desde 2010 ou 2011, algo assim. Já éramos 'amigos' online há algum tempo, e falávamos bastante, mas nunca houve grande chance de nos cruzarmos. Foi antes do verão em que nos conhecemos que estive com ela pela primeira vez, não me recordo se fodemos logo nessa primeira noite, talvez tenha sido na segunda vez apenas. Mas sei que eu e ela já tínhamos fodido uma vez antes de tu e eu nos conhecermos, e tínhamos os dois chegado a acordo que seria apenas por sexo que estaríamos juntos. Eu não queria estar numa relação nessa altura, ela tinha as suas razões para não poder estar, e pareceu ser uma boa opção para nós. Só que aconteceu uma coisa estranha : na primeira vez que fomos para a cama, eu depois fiquei a dormir com ela, e foi aquela coisa fofinha de dormirmos agarrados um ao outro, e depois acordarmos a olhar um para o outro, e estarmos aos beijinhos e ás festinhas, e depois a Sara diz algo absolutamente verdadeiro : 'Isto não era suposto estar a acontecer.', e eu concordei com o que ela disse. Devíamos ter dado a nossa foda, de manhã cada um ia para seu lado, e se quiséssemos foder de novo, logo se combinaria. Não era suposto estarmos juntinhos, abraçados, como se fôssemos namorados. Eu creio que depois disso houve alguma distância entre nós, eu estava a planear a minha ida a Zurique para - pensava eu - dar as fodas da minha vida. E depois... depois tu. Estamos juntos, eu vou á Suiça, mas em vez de ir foder com a Ana acabo por passar uma semana ou perto disso em casa do Hugo, a comer bombocas e a beber minis, tu e eu falamos o dia todo, todos os dias, eu estou perdido por ti, ansioso por ti, ansioso por perder-me em ti, ansioso por finalmente, finalmente, estar contigo de novo, e então beijar-te e abraçar-te e dar-me a ti, e não muito tempo depois disso lá estou eu a foder a Sara de novo. E não sei o que me levou a fazê-lo. Serei eu apenas um filho da puta de um cliché que pensa com a pila? Talvez seja isso. Talvez seja tão simples quanto isso. O que eu sei é que depois dessa vez com a Sara apenas uma vez voltei a falar com ela; na realidade eu desapareci por completo, e eu sei que não muito tempo depois de termos colocado no facebook que estávamos numa relação, ela eliminou-me dos 'amigos'. Talvez um ou dois anos depois disso enviei-lhe uma mensagem no Google chat, a pedir-lhe desculpa, mas apenas me deu uma resposta seca, eu não podia esperar muito mais que isso. Lembro-me que mais tarde encontrei-a na minha rua, ela olhou para mim como se eu fosse um verme - não estava longe da verdade. Intuo que ela me odeie, e justamente. Assim como tu provavelmente me odeias. É isso que se sente por quem nos magoa, não é? É isso que se sente por quem nos trai. 
Quando revisitei esta histórias o ano passado, e cheguei á parte em que contei a nossa história, houve uma parte de mim que sentiu uma trepidação, e quase me senti tentado a parar. Era como se uma parte de mim soubesse que ao escrever sobre nós, ao lançar estas histórias ao éter, estaria a convidar que uma certa dor invadisse a minha alma. E invadiu, sabes? Doeu-me como não imaginas revisitar tudo aquilo, escrever o que escrevi, abrir  o meu coração, escancará-lo, e apenas eu sou culpado pela dor que trouxe de volta. E olha que nesta altura nem imaginava que tu e eu voltaríamos a falar, muito menos a estar juntos de novo. Eu estava tão magoado quando escrevi a nossa história, que depois quando escrevi a adenda da Sara, terminei com esta frase : 'How I wish I had chosen Sara. Not Sofia, Sara.' Isto foi a dor a escrever, a forma como falei de ti e te descrevi foi a dor a falar. Já aqui escrevi que te escolheria sempre, Sofia, independentemente de saber que nunca nada teria sido diferente, e que aquele momento que tivemos se cingiria apenas a esse singular momento do tempo e do espaço. Até ter escrito o post da história da Sara nunca tinha considerado realmente se ela teria sido uma alternativa viável. Eu acho que não, ela tinha razões pessoais para não se querer meter numa relação, coisas a ver com a saúde dela, e ela achava não ter espaço para alguém na vida dela, e eu respeitei isso. Só depois de revisitar essa história é que fiquei com essa ideia. Como teriam sido as coisas se eu tivesse ficado com ela? Supondo que de alguma maneira conseguiríamos conciliar as nossas razões para não querermos ter uma relação, como teria sido a minha vida? Será que teria tudo aquilo com que sonhava? Ou será que em vez de alienar uma pessoa apenas, tinha alienado duas? Não sei. Não obstante o óbvio facto de ter ido foder com ela, sempre soube desde aquele primeiro dia na Gulbenkian que eras a única pessoa para mim. Eu compreendo - e bem - o quão antagónico é dizer que se quer uma pessoa acima de tudo, e á primeira oportunidade fazer merda suficiente para garantir que acabaria com nada. É o meu pecado maior; não há penitência ou expiação suficiente para remover esta nódoa da minha alma. 
Se calhar por isso, durante todos este anos, não me senti realmente injustiçado por não teres ficado. Ainda que na altura não soubesses desta história, pesou sempre sobre mim. Por muito que me tenha custado a tua ida e a tua ausência, no meu coração sabia que não era mais que a minha justa recompensa. Eu tive oportunidades - amplas, até - de aprender, e de não fazer merda, mas optei por não fazê-lo. Infelizmente, não quando teria feito realmente uma diferença. Sabes, há muito que me sinto preso num dia escuro que se desenrola em câmara lenta, e parece que estou há anos á espera que esse dia acabe. Não se magoa quem se ama, eu sabia disso, e fi-lo conscientemente. Não se trai quem se ama, e eu fi-lo. 
Estamos tão longe um do outro, meu amor, estamos cada vez mais distantes, e em breve haverá uma distância que a vida não unirá mais. O meu coração dói com cada batimento, cada batimento bate com a cadência do teu nome nos meus lábios. Qual Sísifo, eu suportaria toda a dor de novo, toda, para que aquele momento acontecesse. Serias, serás, és sempre a escolha que eu faria. 


Daqui a mil anos, o que aconteceu,
Suspirando, estarei contando a ti:
Dois caminhos bifurcavam, e eu-
O menos pisado tomei como meu,
E a diferença está toda aí.

segunda-feira, 10 de março de 2025

Era eu naquela estrada, mas tu não me viste

Há uma ciência por detrás disto, mas eu não a sei explicar - não sou inteligente o suficiente para isso. Mas todos sonhamos, sim? Mesmo quando julgamos que não sonhamos, mesmo quando pensamos que estamos demasiado cansados para sonhar. Quando dormimos... todos sonhamos. E certamente que todos nós já tivemos incontáveis milhares de sonhos. Eu tenho alguns sonhos recorrentes que se manifestam em determinadas fases da minha vida : quando me sinto inseguro, ou tenho o sonho em que me estou a olhar ao espelho na casa de banho e estou a cutucar um dente com um dedo e ele depois cai, e de seguida começam a cair todos os outros, ou então sonho que estou num transporte público, e a dada altura reparo que estou completamente nu, mas sou a única pessoa que reparou nisso. O resto do sonho é uma tentativa desesperada de chegar a casa antes que toda a gente repare que estou em pelota, e á medida que o sonho se prolonga mais cresce a desconfiança nas pessoas que se cruzam comigo. Quando estou quase a entrar na minha rua, já algumas pessoas passam por mim, olham para mim com um olhar daqueles tipo 'olha-me este maluco', mas na realidade apenas me vêm nu durante meio segundo, porque depois quando voltam a olhar para mim, já lhes pareço normal, ainda que esteja sem qualquer roupa. Quando não tenho a minha vida profissional tranquila, sonho muito com a minha vida militar; normalmente são sonhos em que estou a voltar ao activo, e tenho dificuldades imensas em integrar-me de novo nesse meio.
Bem antes de te conhecer, e durante uma série de anos, tive um sonho recorrente. Há uma parte de mim que quer dizer que tinha o mesmo sonho - ou uma variação dele - todas as noites, mas poderá não ter sido esse o caso necessariamente. Era um sonho simples, a única coisa que fazia era voar. Mas voava, curiosamente também nu, de olhos fechados, quase como se estivesse a dormir enquanto voava. Não voava rapidamente, era mais um lento deslizar acima das nuvens, bem lá no alto, acima de tudo, onde se se olhasse para baixo não se reconheceria nada de humano. O que me lembro da minha vida nessa altura era que me sentia profundamente cansado a todos os níveis, e talvez isto fosse uma manifestação do meu subconsciente a dizer-me para viver com mais leveza, algo que não consegui fazer. Mas quando era puto - mesmo, mesmo puto - quando morava no Forte da Casa, eu tive alguns sonhos que ainda hoje me consigo lembrar, alguns estranhamente proféticos. Talvez o pesadelo mais antigo que me consigo lembrar de ter tido foi nessa altura, sonhei que estava numa floresta, escura e densa, e estava a fugir de lobisomens. A dada altura eles apanham-me, e lembro-me que a última coisa que vi nesse sonho, foi os rostos deles a atacarem-me, olhos vermelhos de raiva, o pêlo dos focinhos encharcados com saliva e sangue das mordidas que me davam e arrancavam pedaços grandes de carne com cada uma delas. Noutro sonho que tive nessa altura, sonhei com o meu filho, era ele criança ainda. Na realidade, sonhei com alguém que me parecia estranhamente familiar com uma criança ao colo, e anos mais tarde, o momento exacto desse sonho ocorre na minha vida real, e lembrei-me de imediato dele. Já um bocadito mais crescido, aí com os meus seis-sete anos, lembro-me de um sonho que de vez em quando tinha : eu estava a brincar na rua onde morava, mas a rua estava vazia, algo relativamente incomum. Não é que fosse uma rua terrivelmente movimentada, mas era uma rua que fazia um 'L' e se juntava a outra que era traseira de montes de prédios, e onde havia sempre putos a brincar, ou pessoas a trabalhar nas garagens. Mas eu estava lá sozinho, e não sei se me tinha fartado de brincar entretanto, mas estava sentado no chão, com as costas encostadas a uma parede. Por vezes estou a catar pedrinhas da calçada e mandá-las para a estrada alcatroada onde jogávamos uma espécie de baseball sem regras algumas, outras vezes tenho um galho ao qual removi as folhas e com ele estava entretido a desenhar padrões no chão. A certa altura do sonho, vejo um tipo a aproximar-se de mim, e fica á minha frente a olhar para mim. Era um tipo alto, moreno, e vestia-se de uma maneira que era um pouco incomum, embora não conseguisse precisar porquê. Há algo de estranho nisto : ele sabe o meu nome. Nisto, ele senta-se ao meu lado, e encosta as costas de contra a mesma parede. Ele suspira audivelmente, quando exala, e há ali uma sensação de tristeza, de nostalgia, que eu não conseguia entender. Passados uns momentos, ele começa-me a fazer algumas perguntas, nada de esquisito, mas coisas tipo que desenhos animados eu estava a ver, qual era o meu jogo favorito no Spectrum, quais eram as minhas bandas desenhadas preferidas. Eu respondo, e ele sorri, mas é um sorriso também triste. Ele depois diz-me para eu lavar os dentes todos os dias, para prestar mais atenção aos estudos, para fazer os trabalhos de casa, todas as coisas que já ouvia dos meus pais. Ele diz-me depois que, embora eu não conseguisse ainda imaginar, num futuro não tão distante quanto isso e que iria chegar mais rápido do que eu poderia desejar, o dia iria chegar em que - e nisto ele vai ao bolso do casaco e tira uma coisa rectangular escura - eu poderia ter todos os jogos que gostava de jogar na palma da mão, toda a TV, toda a música, toda a BD, mas eu não acredito. Parece-me algo que nem na ficção científica seria possível. Algum tempo depois, aparece a minha mãe, naturalmente preocupada, e começa a gritar comigo, a perguntar-me o que é que ela já me tinha dito sobre falar com estranhos. O tipo levanta-se, e olha para minha mãe - ele é bem mais alto que ela - e depois olha para mim e diz 'A tua mãe tem razão, Gonçalo. Não deves falar com estranhos.', mas ele depois vira-se para minha mãe e diz que não é exactamente um estranho. Ele aproxima-se dela, e diz-lhe qualquer coisa que eu não consigo ouvir, e a minha mãe reconhece-o de imediato. Passados uns momentos, ele desaparece, e segundos depois também a memória dele desaparece de nós.
O conceito de viajar no tempo sempre me fascinou. Não a ciência teórica á sua volta, isso é demasiado para a minha cabeça, mas apenas como aquela fantasia de podermos voltar atrás e corrigir as merdas que fizemos. Durante tantos, tantos anos pensei o que eu faria de diferente ou alteraria se pudesse voltar atrás. Muitas das vezes que tive esses pensamentos, a minha vontade era voltar no tempo e dar um par de estalos a mim mesmo e dizer 'abre os olhos, pá!', mas acho que nem assim. Eu passei uma boa parte do ano passado a pensar no quanto queria poder viajar no tempo, para... sei lá... para poder mudar as coisas de modo a que tivesses ficado. Não surpreendentemente, muito daquilo que depois escrevi acabava por estar relacionado com isso. Hoje ainda penso nisso, mas agora de uma forma diferente.
Eu sei que isto não passa de (mais) um exercício em futilidade, porque não é algo que alguma vez possa acontecer. Mas em vez de pensar no que poderia mudar para que tivesses ficado, penso em qual o momento da minha vida que eu sei - que eu absolutamente sei - que se tivesse tomado outra decisão, então tudo teria sido diferente. E esse momento foi quando decidi escolher ficar colocado no Montijo, e não nos Açores, como tinha planeado. E se tivesse ido para os Açores, então não teria havido a minha relação com a Dora, o que significava que eu provavelmente teria seguido o meu plano de ficar nos Acores até conseguir maneira de ir para os states. Não teria feito vida por cá, não tinha conhecido ninguém, não teria trazido a dor e a miséria que trouxe á Sílvia, não teria sido sequer nem a esperança de um murmúrio para ti. Ter-vos-ia dado anos e anos de felicidade que não tiveram comigo, o Ian teria tido um pai bem melhor que eu, todos vocês teriam saído a ganhar. O que mais me atormenta nesse momento é que eu pude escolher onde queria ser colocado, e mesmo após ter feito a escolha, podia perfeitamente ter-me oferecido para trocar com alguém que quisesse ficar no continente. Imagina o que teria sido a tua vida sem me teres conhecido. O quão melhor teria sido. Bastava ter feito uma escolha ligeiramente diferente, e causalidade alguma nos teria cruzado. 
Mas eu sou tão, tão egoísta, meu amor. Eu nunca conseguiria não te escolher, ainda que eu sempre soubesse que só teríamos aquele momento no tempo. Ainda que eu soubesse que teria de magoar e ser magoado, apenas para chegar ao momento em que nós fomos... nós. Ainda que eu soubesse isso tudo. Ainda que eu soubesse que o meu castigo por tudo o que fiz seria viver sem ti, sem te ter, e com a presença eterna de um amor que vem apenas uma vez na vida. Ainda assim. Ainda assim.
Eu escolher-te-ia, sempre. Sempre.

sexta-feira, 7 de março de 2025

As músicas que salvaram a tua vida

Não estou absolutamente certo em que detalhe escrevi isto no outro blog, nem sequer me sinto tentado em reler o que por lá escrevi, pelo menos não de momento, mas durante uma parte desse ano perdido da minha vida, o que me ajudou a manter uma precária mão na minha sanidade foi a música. Nessa altura, ainda tinha o meu disco externo de 1TB cheio de música, maior parte da qual nunca tinha ouvido, tal era o vício de fazer downloads de discografias completas só porque sim, e além disso, estava num grupo de música no facebook onde descobri muita, muita música nova, e ainda que não apreciasse tudo o que ouvia, acabei por conhecer bandas que se tornaram muito importantes para mim. Curiosamente, nesse grupo também conheci uma série de pessoas que me ajudaram imensamente a lidar com tudo : a Carla e a Isabel, ambas do Porto, ambas amicíssimas até não serem mais amigas. O desastre escocês também veio daí. A Joana, a belíssima Joana, que um ano depois se encontrou numa situação semelhante á minha, e eu fui a única pessoa que lhe deu a mão, falava com ela todos os dias, consegui-lhe arranjar um emprego, e mantivemos uma relação de amizade durante muito tempo. É curioso que vocês sendo muito diferentes uma da outra, também eram incrivelmente parecidas. As vossas histórias de vida eram semelhantes em certas coisas, também ela viveu nos states. Olha, por falar nisso, lembras-te de andares louca por encontrares Swedish Fish? Uma data de anos depois de termos estado juntos, vi-os á venda algures, e finalmente descobri o que eram. E, é claro, a minha mente voltou a todas as vezes que fomos aquela lojita na João XXI á procura de gulodices. Também a Sílvia H. conheci nesse grupo. Acredita que começar o dia a conhecer algo novo deixava-me sempre um pouquinho mais animado, embora esse efeito depois não se prolongasse no tempo. Era um placebo, na realidade, que mais cedo ou mais tarde o corpo se acaba por habituar e deixa de ter efeito.
Na senda do que escrevi ontem sobre saúde mental e amor próprio, a Sílvia dizia que eu tinha um padrão : sempre que me sentia atacado, ou abandonado, a minha tendência era entrar em modo terra queimada e apagar os meus blogs e a minha pegada digital temporariamente até começar tudo de novo, tabula rasa. E ela tinha razão, nunca o neguei. Fi-lo repetidas vezes, antes e depois. Por isso só deus sabe como ainda tenho publicados os meus vários blogs que restam. Mas dito isto, há muita coisa que perdi - porque nunca, nunca fiz backups de nada do que publiquei - e que hoje em dia sinto algum arrependimento por ter apagado. Houve alguma tentativa interessante de poesia, houve alguns escritos engraçados, algumas estórias giras e outras histórias muito relevantes, algumas das quais não contarei de novo. Mas também houveram playlists perdidas - isto bem antes de as fazer no youtube, não, eram playlists que existiam apenas no Windows Media Player de PCs há muito defuntos. Uma dessas playlists foi construída para ilustrar aquele tempo desde que te foste, até ao momento em que me consegui voltar a sentir como uma pessoa minimamente válida e funcional, e se é verdade que não era terrivelmente extensa, era uma playlist boa o suficiente para a ter tido em telemóveis que não tenho já também há muito tempo, e era uma das minhas várias playlists de idas ao ginásio.
Naturalmente que já não me consigo lembrar de tudo, nem consigo confiar no histórico de visualizações do youtube : há coisas que sei que vi N mil vezes, mas aquilo diz não ter registo algum de eu alguma vez ter procurado por essas músicas. Bah.
Hoje não consigo escrever muito mais, embora me apetecesse. Foi, no entanto, uma semana longuíssima, e estou cansado. Mais uma semana sem beber, se bem que ontem ou anteontem quando fui ás compras dei por mim a pousar os olhos numa garrafa de vinho, e aquele diabinho no meu ombro dizia que era só uma vez sem exemplo, não ia fazer mal algum, mas eu resisti a essa tentação. Não fazê-lo teria significado o início de um loop ao qual eu não quero sucumbir. 
Entretanto, dei por mim a tentar ver o que me conseguia lembrar para construir uma playlist que fizesse justiça á que uma vez criei para ti. Talvez esta seja aproximada o suficiente, certamente que lhe faltam aqui músicas que não me conseguirei recordar já. De certo modo, conta uma história, conta a nossa história, embora talvez apenas eu consiga entendê-lo a 100%. Não poderia ter outro nome senão Us.

quinta-feira, 6 de março de 2025

Juntos viveremos para sempre

Eu nunca fui uma pessoa com uma grande auto-estima, ou amor próprio. É estranho escrever isto, e sempre que o tentei explicar a pessoas antes não correu bem, mas eu nunca gostei muito de mim. Nas raras vezes em que disse isto a alguém, vinha sempre aquele spiel do 'se não gostares de ti, quem gostará?', e caramba, essas conversetas superficiais e básicas deixavam-me logo sem vontade de me abrir minimamente, sem vontade de mostrar quem sou, o que sou. Bastava, em vez disso, perguntarem-me porque é que eu não gostava de mim, de onde é que isso originava, mas não - senti que era pedir demais, e eventualmente deixei sequer de dizer este tipo de coisas ás pessoas. Isto para te dizer, Sofia, que quando foste comigo ao hospital no princípio de 2013, eu estava mesmo prestes a ter um colapso. Estava preso por arames, andava há meses e meses - mesmo antes de nos termos conhecido - a ter ataques de pânico sempre que tinha de ir para o trabalho. Céus, como eu detestava aquilo. Quase me levou á loucura, ter pessoas a berrar comigo oito horas por dia, cinco dias por semana. Então, quando senti que não iria aguentar muito mais tudo aquilo sem conseguir alguma espécie de equilíbrio, equilíbrio esse que eu sentia que conseguiria obter se estivesse longe daquele ambiente durante algum tempo, e decidi ir ao hospital á procura de ajuda, ter-te ao meu lado nesse momento foi tudo para mim. Eu amava-te tanto, tanto já, mas naquele momento, a sentir o teu apoio, a dizeres-me que ias estar sempre do meu lado, raios, como o meu coração transbordava de amor por ti. Teres ido comigo, teres esperado por mim, teres ido comigo depois á farmácia, e teres passado a noite comigo... isso significou o universo para mim. No meu momento mais frágil, no meu estado mais vulnerável, quem senão o amor da minha vida estaria do meu lado?
Eu recordo-me de me teres contado que tinhas tido também momentos na tua vida onde a tua saúde mental sofreu, e eu prometi-te que estaria sempre do teu lado; neste meu momento tu também o prometeste. Eu só precisava de um bocadinho, sabes? E é claro que desde então que sinto que foi um erro da minha parte, deveria ter sido mais forte, e aguentado. Não sei. Poderia ter procurado outro tipo de ajuda, ou - melhor ainda - poderia ter procurado outro emprego, algo que estava nos meus planos, mas antes... olha, I had to fix myself first.
Sabes, eu quando era muito novo, fiz daqueles testes que determinam o Q.I. de uma pessoa, e na altura - tanto por parte da minha família quer por quem me acompanhava - fartava-me de me ouvir que era sobredotado. Era tudo balelas, claro, e nem nunca me senti tal coisa, apenas era um puto que tinha uma capacidade estúpida de me lembrar de coisas inúteis e se calhar por isso pensavam que eu era muito inteligente. Spoiler alert : não era. No entanto, uns anos mais tarde, quando estava eu a entrar na adolescência, e me tornei - como uma vez me descreveram - um 'senhor fazedor de merda', nasceu em mim uma arrogância que não era digna de mim. Nessa altura, tinha consultas de psicologia na Alameda, e numa dessas sessões, a minha então psicóloga disse-me que eu sofria de injustificados e infundados delírios de grandeza. Eu tinha-me convencido a mim mesmo que era tão mais que os putos com que tinha de partilhar a minha existência, e mesmo os adultos que com quem ia convivendo - meu deus, eu lembro-me de tanta aberração que saiu da minha boca nessa altura, em que as pessoas ficavam de boca aberta a olhar para mim a pensar se eu estava a falar a sério ou se era apenas parvo, mas eu julgava-me tão certo da minha sapiência. Foi nesta altura  a primeira vez que me disseram que tinha uma depressão, algo que vim a ouvir mais tarde quando estava na Força Aérea, em que uma ida ao dentista me levou a ser aconselhado a ter uma consulta de psicologia. Tornou-se num evento recorrente na minha vida, aí em 2001 tive uma fase muito má que durou uns meses, em que mal conseguia sair da cama. Sentia a vida a esvair-se de mim, não comia sequer. Manter os meus olhos abertos era um esforço hercúleo. Um dia, estava eu deitado, e ouvia uma voz distante a chamar por mim, a pedir-me para fechar os olhos, que tudo ficaria melhor quando fosse finalmente dormir. Não sei onde fui buscar as energias, mas levantei-me, e fui comer iogurtes e uma maçã. Nesse dia jurei a mim mesmo que não voltaria a passar por tal coisa de novo. Oh, my sweet summer child...
Eu não consigo descrever com justiça o que foi aquele ano inteiro depois de teres ido. Eu lembro-me que quando comecei a trabalhar no meu emprego em 2014, quando estava em formação, acabei por descobrir que era razão para gozo das outras pessoas porque ficava sentado agarrado á minha mochila, e eu sei que o fazia porque não me sentia seguro - ter N pessoas á minha volta deixava-me altamente desconfortável, e essas primeiras semanas eu dei por mim a ficar trancado na casa de banho á espera que a pausa acabasse, ás vezes a chorar, a tremer. Não estava bem, estava longe de estar bem, mas tinha de me agarrar a isto com unhas e dentes. De alguma maneira, tinha de seguir em frente. Sabes, sempre que escrevo esta frase - 'seguir em frente', ou uma variação dela - eu lembro-me de um momento no verão de 2013, em que coloquei uma música na minha página do facebook, ainda éramos nós amigos. Foi uma música chamada 'In this Shirt', dos The Irrepressibles, e juntamente com a música coloquei uma frase que dizia 'Moving on now, moving fast', e em nada tinha a ver com a nossa história, ou contigo, ou connosco, mas lembro-me de nessa altura ter falado com o Pedro, e ele disse-me que tinhas visto o post, e que tinhas partido do princípio que eu estava a seguir em frente, e vê-se, não é? Fi-lo com extraordinário sucesso. Se não me falha a memória, isto aconteceu mais ou menos na aquela altura meio bizarra onde ias á discoteca em frente á discoteca onde eu ia, mas não nos encontrámos nunca. E ainda bem que assim foi, naquela altura se te tivesse visto com outra pessoa, esse teria sido o meu último dia na terra.
Mas esse ano todo cavou um abismo em mim. Na minha alma. Na minha mente. No meu coração. Eu senti-me imergido numa escuridão interminável, e não sei como sobrevivi a esse ano. Escrevi o ano passado que na realidade não pensava, nem queria, sobreviver o suficiente para entrar no ano seguinte, e não tivesse sido o milagre de ter tido o meu filho comigo numa altura em que não era suposto, e tinha entrado mar adentro, e tinha deixado que as ondas me levassem. Qualquer profunda escuridão da alma que tivesse sentido até aí não se compara ao que foram os primeiros 3/4 meses de 2014. Entrei num desespero galopante, não tinha emprego, não tinha dinheiro, nem sequer tinha net em casa porque deixei de ter como a pagar, e vi-me a ter de pedir á Dora para pagar as viagens do Ian quando ele cá viesse passar os fins de semana, e para lhe comprar coisas para ele comer quando cá estivesse. Eu queria tanto morrer nessa altura. Tantas vezes nesses meses passei os meus dias inteiros a chorar, mesmo quando o Ian cá estava, e ele disse-me tantas vezes 'Pai, tens de esquecer essa mulher', e eu não consegui, não conseguia, não consigo. O Gonçalo que sai desse ano não é uma pessoa normal, é uma versão televisiva de uma pessoa de coração quebrado. O Gonçalo que sai desse ano abre a porta a desastres que nunca teria acolhido antes. O ror de pessoas que passaram pela minha vida, e não trouxeram nada, apenas tiraram, tiraram, tiraram, é demasiado grande. Eu tentei mascarar o abismo que era a tua ausência - um abismo com formato de Sofia - com demasiadas coisas que me vim a arrepender amargamente. Sabes, eu nessa altura em que andava de corpo em corpo á procura de algo 'normal', tinha uma fantasia que um dia fosses á minha página de facebook e visses lá que eu estava numa relação com alguém - e a Sónia foi a única pessoa com quem isso aconteceu - e quando visses, ficavas a pensar que tinhas cometido um erro enorme, e voltávamos a estar juntos, mas isso foi apenas uma estupidez. Meu bom deus, eu sou tão profundamente estúpido. 
Tu sabes, e porque raios escrevo eu isto pensando que alguma vez lerás isto, mas eu tenho tantas saudades tuas. Nunca deixei de ter. Mas também tenho saudades de nós. O que éramos foi tão forte para mim. Tudo pareceu artificial depois de ti. Não voltei a gostar de beijar, nem consegui beijar alguém com a fome com que te beijava. Nenhuma pele era a tua, nenhum corpo se aproximou do meu como o teu, nenhuma mão segurou a minha como a tua. E isso faz-me ter saudades de mim, também. Eu tenho, genuinamente tenho, saudades do Gonçalo que existiu quando estivemos juntos. Eu era tão, tão feliz. Feliz por estar vivo. Feliz por cada dia que estava contigo, e para mim cada novo dia era uma vitória. Fazias-me sentir invencível, capaz de tudo. E esse Gonçalo queria tudo, estava disposto a fazer tudo, por esse amanhã que nunca veio. E esse efémero eu... ele não existe mais. Foi como uma flor que desabrocha nas circunstâncias mais improváveis, e demasiado cedo o seu perfume foi extinguido. Eu era porque nós éramos. O que resta de mim é a resignação, é o desistir, o desistir finalmente de tudo, é o saber que apenas por ti conseguirei sentir. Mas eu sou uma pessoa melhor, Sofia, sou uma pessoa melhor por te ter conhecido, e por ter partilhado - ainda que brevemente - a tua luz. Sou uma pessoa melhor por viver com um amor que é maior que eu, que é mais do que a minha própria vida, desde o primeiro momento na Gulbenkian, até ao último bater do meu coração.

terça-feira, 4 de março de 2025

Traz-me de volta á vida, nunca me deixes ir

Hoje de madrugada, estava eu na cama deitado, senti um arrepio na espinha. A noite estava fria, e aconcheguei-me ainda mais no édredon. Estava a ter um sonho esquisito, em que estava mascarado de Darth Vader, á espera de surpreender o Ian. Não me lembro já como, mas tinha adquirido um sabre de luz que funcionava, e aquilo tinha um botão que dava para mudar a luz da cor, e meti-a logo de vermelho. Tenho ideia que nessa altura no mundo real estaria a chover, porque no meu sonho também estava e parecia demasiado real para ser apenas um sonho. Seja como for, o Ian aparece em casa, estava chateado com qualquer coisa e nem sequer repara no meu disfarce. Passado algum tempo ele vai-se embora, e eu fico sozinho em casa (que não é a minha casa), e sabe-se lá porquê, dou comigo a falar contigo por mensagem no telemóvel. Tu dizes-me que não estás longe de mim, e ou vens ter comigo, ou eu vou ter contigo, já não sei bem, mas sei que nos encontramos algures que não é onde moro. É numa espécie de beco, onde estavas dentro de uma garagem, e estavas deitada numa espécie de futon. Por alguma razão, parecia pairar a ideia de alguma intimidade entre nós, e estavas a ver que filmes estavam no cinema, e eu perguntei se querias ir ver um filme. Após uns minutos em que estiveste a ver a lista de filmes, onde parecia que íamos mesmo combinar algo, o teu humor muda, e dizes-me que tens de te despachar. Começo a sentir, então, que onde tinhas de estar, para onde tinhas de ir, não era comigo. Estavas a vestir-te, e eu aproximei-me por trás, e coloquei as minhas mãos nos teu ombros, comecei a beijar-te as tuas costas, mas após um ou dois beijos, afastaste-me, como se o meu toque te provocasse revulsão. Depois de estares vestida saímos, mas não fomos juntos. Nem no meu sonho olhaste para mim. Nem no meu sonho gostas de mim.
Quando comecei a escrever no meu outro blog o ano passado, sabia que deixaria histórias por contar. Nem tudo é relevante, nem tudo merece o esforço de ser rebuscado e consagrado ao éter. E também é verdade que o Gonçalo que escreveu nesse blog - naquele formato - não é exactamente o mesmo que escreve aqui. Aqui sinto-me mais solto, o ano passado ainda estava agrilhoado a determinados formalismos. Mas já não estou, prefiro dizer o que tenho a dizer sem pudores, e se no outro sabia que havia quem me lia, neste, sabendo que cá ninguém vem parar, não tenho de me restringir. Houve um período entre o fim da minha relação com a Sónia - acho que em Março de 2016 ou algo assim - e o fim da minha 'relação' com a Carina em que não tive namorada, mas tinha companhia regular. Foi nessa altura que conheci a Isabel, mas a história que vou contar não tem nada a ver com ela. Não sei se terá sido no verão de 2016 ou no de 2017, mas houve um dia em que surgiu a oportunidade de fazer uma cena a três. Isto com duas moças com quem já tinha fodido antes, a Ana e a Lia, e algo levou a que um dia tivéssemos os três uma conversa sobre fazê-lo, todos concordámos, e depois foi só combinar o dia. Esta história, como tantas das minhas, vai ficar progressivamente mais escabrosa. Umas horas antes de nos encontrarmos, a Ana pergunta-me se a irmã dela pode ficar a ver. Eu pergunto-lhe se ela se vai juntar á festa, ela diz que acha que não mas nunca se sabe mas que gostava de ver. Eu pergunto á Lia se ela tem algum problema isso - e a Lia sendo a tal que gostava de cenas violentas não me choca quando diz que por ela tudo bem. Combino o resto com a Ana, vamos todos ter com a Lia a casa dela, bebemos um bocadito para ajudar a desinibir, a Lia tem mais algumas substâncias que ajudam, e passado um bocado estamos os três pelados, eu beijo-as, elas beijam-se, os meus dedos entram nas conas delas, elas comem-se, e eu... e eu não tenho tesão alguma. Olho para a cama onde elas estão divertidas, olho para baixo e não me mexo um centímetro que seja. Elas vêm ter comigo, ajoelham-se á minha frente, e vão ás vezes abocanhando a minha flácida pila. Nada. Nada. Não funciono. Não consigo. Apenas um pensamento na minha cabeça. Não quero nenhuma daquelas mulheres ajoelhada á minha frente. Quero-te a ti, só a ti, como tantas vezes estiveste. Tento pensar que és tu. Não dá. Não consigo. Nada, a minha pila não passa de um amendoim inchado sem qualquer capacidade. Eu não tenho tesão, as miúdas deixam de ter interesse seja no que for, apenas deus sabe o que a irmã da outra ficou a pensar de mim... e todavia a noite acabou comigo a jantar com as irmãs num restaurante chinês como se nada tivesse acontecido.
Durante bastante tempo depois desse momento pensei, 'Não era esta a minha fantasia, caralho? Não queria eu foder duas gajas ao mesmo tempo?', e depois apercebi-me que não, não era essa a minha fantasia. Talvez a de puto, admito. Mas desde que te conheci que a minha fantasia era passar o resto dos meus dias contigo. Adormecer ao teu lado todas as noites. Envelhecer ao teu lado. Fazer tudo contigo, crescer contigo, ser contigo, ter contigo. Era essa a única fantasia. Perdoa-me se isto não é terrivelmente moderno da minha parte, mas não acredito nessas cenas de se amar várias pessoas. Pelo menos para mim isso é uma anátema para o meu coração. E seria incapaz de te partilhar fosse com quem fosse - creio até que to disse várias vezes. A minha fantasia eras tu. Só tu. Tu e eu, juntos, indivisíveis, a fazer com que as coisas funcionassem, de uma vez por todas, sempre e para sempre, mundo sem fim.

segunda-feira, 3 de março de 2025

Não vai haver um novo amor tão capaz e tão maior

Há uma mentira que aqui disse e repeti. Vá, não é exactamente uma mentira mas uma meia-verdade. Disse que nunca imaginei que me fosses deixar. Mas na realidade, a partir de um momento muito específico, comecei a pensar nessa possibilidade. A partir daí, qualquer pequena 'crise' entre nós - das quais não houveram muitas, e do topo da minha cabeça apenas me lembro uma, aquela vez aqui na minha rua - se tornou um fulcro na minha profunda insegurança. Eu nunca fui ciumento, mas inseguro, ah isso, eu sou. Queres saber um momento em que a minha insegurança quase me engoliu, estávamos nós ainda relativamente no início da nossa relação? Foi quando nos fomos encontrar com o Pedro para lhe contar que estávamos a namorar - algo que absolutamente ninguém poderia ter adivinhado através das nossas interacções online, não é? - e estávamos a subir aquela ruazita em direcção á leitaria académica, e eu ainda me lembro dos meus braços á volta da tua cintura, e os teus á volta da minha, lembro-me do frio que estava nessa noite, então essa proximidade sabia melhor ainda, e quando lá chegámos acho que ainda esperámos um pouquito por ele, e momentos depois dele ter chegado já tínhamos contado que éramos namorados. Até aqui tudo bem, certo? Não há motivo algum para insegurança, certo? O que poderá então ter acontecido, fiel leitor, para que tal sentimento tivesse vindo ao de cima? Bem, estavam vocês a falar sobre deus sabe o quê, e de repente dão um high five sonoro, sincronizado e cinemático, pareciam a Robin e o Barney a dar high fives, e naquele momento... naquele momento eu senti, bem cá dentro, que eu era a pessoa errada para ti. Senti-me tão derrotado, por algo que não podia controlar nem competir contra; afinal vocês conheciam-se há anos e anos e eu não era muito mais que um desconhecido para ti. Não sei se se notou em mim, mas sei que me senti nitidamente em baixo. E é estúpido, eu sei, mas eu sempre sofri do síndrome de impostor. Tantas vezes senti que eu era a pessoa errada no momento errado, quer na minha pessoal quer na minha vida profissional. Sempre que me deram cargos de mais responsabilidade no trabalho, eu ficava sempre a pensar para mim 'oh não, porquê eu? existem tantas pessoas melhores e mais qualificadas que eu, eu sinto-me tão bem apenas a ser uma rodinha na engrenagem que passa despercebida das outras'.
Mas aquele momento em que senti que perder-te era algo bem possível de acontecer, provável até, e caramba, como eu desejaria que tu não te lembrasses disso, mas estou certo que sim - é um momento demasiado desagradável para desparecer facilmente da memória de uma pessoa. Não me lembro já de tudo, mas sei que uma tarde estávamos no meu quarto a tomar conta da Elmyra, e algo aconteceu que levou a minha mãe a fazer um escarcéu (juro que é a primeira vez em toda a minha vida que escrevo esta palavra) á porta do meu quarto. Foi uma berraria atroz que se seguiu, e se já tinha medo de te perder antes, então esse medo cresceu exponencialmente depois dessa cena triste. Algo foi plantado na minha mente nessa tarde, algo que levou a que basicamente tenha fechado a minha casa a outras pessoas depois de ti, salvo raras excepções. O que ficou na minha cabeça desde então foi como é que eu trago uma pessoa para esta loucura? Quem quereria ficar comigo, sabendo aquilo a que estaria sujeito? A resposta é ninguém. E depois desse dia senti uma certa distância entre nós, senti que algo tinha fundamentalmente mudado. Não de mim, eu nunca... eu nunca conseguiria deixar de te querer, Sofia, eu nunca conseguiria deixar de te amar. Não consigo. E sempre fiquei a pensar que essa tarde abriu uma brecha em ti, que te deu uma ideia que não era aqui que querias estar, e que não era comigo que querias ficar. Uma parte de mim, a partir desse momento, começou a entrar em pânico, porque receava o dia em que me dissesses que não querias estar comigo. Se calhar isso explica aquela minha tentativa de 'comprar' a tua presença, ao estar sempre a oferecer-te coisas. Sabes uma coisa? Acabei de me lembrar um paralelo estranho que tens com a Sílvia. Foste a minha única namorada, além dela, que me acompanhou ao hospital. Por razões diferentes, é verdade, da primeira vez foi por causa de uma pedra no rim, e contigo foi quando tive de meter baixa, mas sempre foram gestos que me marcaram tremendamente. É estranho, a quantidade de coisas que penso que te foram dando a desculpa que precisavas para ir. E não precisavas de desculpa alguma, claro, ninguém pode escolher o que permanece e o que desaparece. Mas também sempre pensei que esse momento da minha vida te desiludiu, e eu peço-te desculpa por não ter sido forte o suficiente. Eu não sou... nunca fui... uma pessoa forte, meu amor. Talvez se tivesse sido tivesses ficado.
Talvez.
Talvez.

sábado, 1 de março de 2025

Há em mim um profano desejo a crescer

Não bebo já há umas três semanas, e não é que de vez em quando não sinta vontade de o fazer, na realidade sinto mais vontade de não beber. Naturalmente que não o fazer deixa-me mais leve mentalmente, torna os meus dias mais ágeis. E admito que não tenho tido um dia mau ultimamente. Tenho tido dias relativamente neutros, e isso já é bom o suficiente. Eu creio que uma vez escrevi aqui que o álcool poderia servir como algo que me desinibiria a escrita, e talvez isso justificasse o vernáculo que aqui uso. Não, faço-o sabendo perfeitamente as palavras que escolho, e faço-o porque acima de tudo não sinto vergonha alguma de o fazer. Não sou escravo de puritanismos, modernos ou antiquados. Se o que eu fiz fui foder, porquê usar outra analogia? Fodi conas, fodi cús, vim-me em caras, vim-me em bocas, e raios, odeio a palavra 'esporra', por isso não a uso. Sempre me fez pensar em tudo e mais alguma coisa menos na substância em si. Então, se fiz isso tudo, qual o propósito de o mascarar com terminologia técnica? Não, foi o que foi feito, fi-lo contigo, adorei fazê-lo, e espero que também o tenhas gostado de fazer. Eu começo por aqui por uma razão específica.
A verdade é que fui para a cama com demasiadas pessoas, e quem me dera que maior parte delas eu não tivesse conhecido sequer. Honestamente, há tantas cujos nomes eu já não me consigo lembrar, há tantas que não são mais do que um borrão nas minhas memórias. Talvez saiba o nome, mas não me lembro bem do rosto, ou já nem me lembro de como foi a noite que passámos. Nada disto me sabe bem, não sabe há muito tempo. Sabes, eu há uma data de tempo para cá que deixei de ver pornografia. Não só porque deixou de me excitar minimamente, mas porque, raios, ver pessoas a foder é tão absolutamente enfadonho. Foder, sim, é bom, mas raios, tenho de ser eu e não uma cena por proxy. O que significa que quando me quero masturbar estou lixado porque tenho de puxar pela memória, e as pessoas que me consigo lembrar em suficiente detalhe, maior parte delas foi sexo mau, e nem sequer quero estar a pensar nelas. Quem ainda me vou lembrando é a Carina, mas porque ela foi a mais recente, e isso foi já em 2017 ou 2018 ou lá o que foi. Mas nem sempre resulta, sabes? Maior parte das vezes eu até dou por mim a perder o interesse em fazer esse esforço. A mesma coisa acontece quando penso na Isabel, ás vezes vai, ás vezes não.
Mas se pensar em ti, maior parte das vezes fico excitado. Na realidade, apenas não fico quando me sinto exausto, e não tenho energia suficiente para nada. É claro que eu penso nisto, e questiono porquê, e analiso. Ás vezes sinto que vejo tudo isto através das lentes da nostalgia. Terá sido mesmo tudo isso, o que tive contigo? Terá sido mesmo assim tão forte? Terei eu mesmo ainda vontade de ti, do teu toque, do teu beijo, do teu corpo, da tua presença? E quando penso a sério nisto... nada o desmente. Nada nunca o desmentiu. 
Olha, o que vou aqui confessar agora, nenhuma alma o sabe. Das minhas ex-namoradas, a única pessoa com quem não gostava mesmo de foder era com a Sónia. Dava demasiado trabalho, não era bom, e havia uma data de coisas na nossa vida sexual que não me excitavam de todo, e como não me excitavam... muito facilmente perdia a tesão e ficava mole, e depois a moça gritava comigo, e chamava-me uma data de nomes super divertidos de ouvir, e eu suspirava, e ficava a pensar comigo mesmo como iria meter a pila dura de novo por tempo o suficiente até que aquele suplício acabasse. Relativamente cedo nessas histórias apercebi-me que se fechasse os olhos e imaginasse que estava a foder contigo, que era a tua cona onde estava a entrar, então era o suficiente para ficar duro de novo. Não podia era abrir os olhos de novo, senão estava tudo fodido. Ou melhor, deixava de estar tudo fodido... houve vezes em que nada me conseguia meter em pé, e nem imaginas o quão engraçadas era as conversas - mais monólogos bastante audíveis, na realidade - que se seguiam.
Eu sei que existe uma percentagem relativamente alta de absurdo quando me masturbo a pensar numa pessoa que passou pela minha vida - seja ela quem for. Mais absurdo ainda é estar a escrever sobre isto, porque se é altamente inverosímil que algures no mundo alguma mulher se masturbe a pensar em mim, garantidamente mulher alguma escreveria sobre mim. É absurdo, eu sei, não há nada em mim que tenha sido memorável o suficiente alguém para pensar em mim sequer, seja em que circunstância for. E no entanto, Sofia, a devoção que senti pelo teu ser quando estivemos juntos foi imensa. Foi infinita. Ainda o é. Eu amava tudo o que eras - do teu corpo á tua alma, da tua voz á tua mente, tudo, tudo. E se dou por mim a divagar sobre o lado sexual da nossa história - ouve, para mim foi mesmo o melhor da minha vida. Mas também foi tudo o resto. Os beijos que dávamos, quando dávamos a mão um ao outro, quando estávamos perto, tão perto um do outro, que eu começava onde tu acabavas. Só contigo isto me fez sentido. E ouve, eu tentei, eu juro que tentei. Procurei algo semelhante á mínima coisa que tive contigo, que senti contigo. Não existe tal coisa. Existiu contigo, nesse infinitamente ínfimo momento a que tivemos direito. 
Repara o seguinte : quando penso em ti, existem dois lados do Gonçalo. Existe o lado sagrado, e existe o lado profano. O lado sagrado, é esse que sentia essa devoção por ti - garantidamente o mais perto do conceito de 'Latria' que conheci. Tu sempre foste luz para mim, e sempre foste o sorriso que sempre vi quando nos encontrávamos de manhã, e sempre foste a esperança que só contigo senti. Eu adorava-te - não te amava só - e a paz que me trazias ao coração. É pensar em momentos que tivemos juntos, que se calhar para ti foram apenas mais um momento, mas que para mim viverão para sempre na minha memória. Olha esta, e embora esteja incerto se não estou a juntar duas memórias numa só - porque pode perfeitamente ter sido algo que aconteceu em múltiplas ocasiões - quando eu fui fazer o meu exame de condução, eu depois fui ter contigo á biblioteca. Quando lá cheguei, enviei-te uma mensagem a dizer que tinha chegado, e passado uns minutos lá estavas tu a sair para vir ter comigo. E tinhas um sorriso tão grande no teu rosto quando me viste, e quando chegaste perto de mim colocaste os teus braços á volta do meu pescoço - eu estava um ou dois degraus abaixo de ti, por causa da diferença que temos em altura - e ainda antes de me beijares, disseste 'dói-me tanto a barriga', e pudesse eu suportar toda essa dor, eu teria feito de bom grado. Eu teria feito tudo por ti. Tudo, tudo.
E o lado profano é este verboso e carnal, em que me lembro de como era estar dentro de ti, de te ter nua á minha frente, e a minha boca a devorar a tua cona. É que nem imaginas o quanto o adorava fazer, sabias tão, tão bem - e eu sei que te dava prazer. Aqui não há lugar a dúvidas, eu sei o que te fiz, e aquilo que me deixavas fazer, e eu sei que te deu muito prazer. E nem poderia ser de outra maneira, tal era a minha devoção por ti. Na minha cabeça isto aconteceu já para o fim da nossa relação, mas também posso estar equivocado; houve uma manhã que fomos á pensão, e quando vínhamos do Conde Redondo para lá, já a subir a rua que lá nos levava, tu disseste-me 'Amor, hoje fodes-me o cúzinho', e eu achei isso tão giro, porque já era o que fazíamos todos os dias. Mas não o tomei como garantido, nunca, porque me lembrei sempre que me disseste no início que era algo que não fazias. Bem, bastou apenas uma vez para se tornar recorrente. É a mais pura das verdades : foste a única pessoa que sempre me deu vontade de foder. Ainda a tenho, caramba. 
Se a tenho. Foda-se, se a tenho. Num mundo ideal, neste momento estávamos a foder como se não houvesse amanhã. Num mundo ideal, a nossa história nunca teria acabado. Num mundo ideal, o lugar ideal é do teu lado. Mas não vivemos num mundo ideal, e tu dormes longe de mim, enquanto eu passo os meus dias a pensar em ti.