Mas a Ana, caramba, como a queria foder. E ela dizia-me que fazia tudo e mais alguma coisa, e ela contou-me das cenas que já tinha feito, cenas muito mais além do que eu, e não vou negar que me senti intimidado, mas claro - não são cenas para mim, por isso não me preocupo com quem as faz. A Ana fazia-me andar num constante estado de tesão, e eu contava os dias até ir ter com ela e passar dias a descobrir aquele corpo. E o que aconteceu? Aconteceu o que normalmente acontece, as pessoas apercebem-se da ilusão, do equívoco, e seguem em frente. Como te disse, não foste a primeira pessoa, nem foste a última, mas foste a que custou. A única que custou.
Entretanto, tu. Sabes, nestes anos todos pensei muito em ti, mas não em nós. Não porque fosse doloroso ou porque estivesse em negação. Não, fi-lo como forma de me proteger. Não significa que não tenha pensado em nós, claro, apenas nem de longe nem de perto tanto quanto pensei em ti. Mas estes exercícios que tenho feito neste último ano, em que tenho revisitado o passado levam-me naturalmente a pensar mais na altura em que nos conhecemos. E há dias e momentos que ficam sempre gravados na memória de uma pessoa; um desses momentos foi quando nos conhecemos em pessoa pela primeira vez, naquele bar onde o Pedro estava a passar música. Eu nem sei de onde vinha, mas creio que já teria feito algumas paragens antes. Quando lá cheguei, e me dirigi até onde vocês estavam - ouve, eu gosto de pensar que foste a primeira pessoa que vi, mas não sei se foste. Mas sei que te vi, e estavas sentada numa cadeira, de perna cruzada, e caramba, fiquei seriamente impressionado. Sabes que eu achava que havia ali qualquer coisa entre tu e o Pedro, e até pensei cá com os meus botões 'epá, que pena, esta miúda é gira como os raios', mas cedo intuí que eu não seria pessoa que te atraísse. E não sei exactamente porque o intuí. Mas tu mal me viste levantaste-te, e vieste até mim e cumprimentaste-me, dois beijinhos na cara, e cheiravas tão, tão bem. Parecias genuínamente interessada em conhecer-me, e isso levou a que depois nos fôssemos dando melhor online. A dada altura já falávamos todos os dias, e eu fui-me abrindo contigo. Creio que chegámos a falar sobre a minha situação com a Ana, e não imaginas quanto do meu imaginário naquela altura rodava á volta daquela cona. Era difícil não rodar, olhava para ela quase todos os dias. Aquilo tinha direito a close-ups e tudo, e eu ouvia nitidamente os dedos dela a penetrarem aquela cona sumarenta, e eu ficava possuído. E depois tudo muda.
O que terá levado a que nos encontrássemos? Eu sei que queria estar contigo antes de ir, e na realidade já nem queria ir, queria ficar contigo, mas não sabia sequer se pensavas o mesmo. Não podia presumir isso. Mas eu já pensava em ti, já ansiava por ti. Cada mensagem tua que recebia no facebook ou no BBM era um raio de luz para mim. E mesmo antes de ir para a Suiça - já sem ter qualquer fantasia relativamente á Ana, nisto sou muito práctico... quando desaparece, desaparece de vez - eis que nos encontramos. E talvez não tenha falado ainda desse primeiro momento em que estamos juntos com a devida justiça.
Eu fui ter contigo em frente da biblioteca onde costumavas ir estudar, e ainda estava eu a uns metros de ti e já sentia borboletas no estômago, já sentia um suor frio a escorrer pelas minhas costas abaixo. Eu pensei, quando te vi, ainda antes de tu teres olhado para mim, 'estou lixado.', porque eu já sabia que eras tu que eu queria. Mas nesse dia, caramba, senti-te sempre tão distante, tão pouco... sei lá., tão pouco interessada em mim. Mais, senti que não tinhas mesmo gostado nem de mim nem da minha companhia, e quando eu fiz o tal teste - quando olhei para ti e disse para mim mesmo 'amo-te' e soube que sim, que te amava perdidamente - eu depois fiquei tão triste quando me tive de despedir de ti. Naquela plataforma do comboio, enquanto esperávamos que o teu comboio chegasse, eu pensava que estávamos a falar as nossas últimas palavras um para o outro, que não mais nos iríamos ver. E eu não me queria despedir de ti. Nunca. Eu quis tanto sentir o teu abraço. Eu quis tanto que nos beijássemos. E beijámo-nos sim, dois beijinhos no rosto de despedida. Tu entraste no comboio, eu vi-te a ires para longe de mim, e o meu coração foi contigo. O meu coração já era teu.
Fui para casa na maior das fossas, com saudades tuas, com o coração a bater, e com cada batimento o teu nome. 'Sofia', 'Sofia', 'Sofia', e eu dei por mim a enviar-te uma mensagem a pedir-te desculpa por deus sabe o quê e que tinha gostado de estar contigo, devo ter dito que achava que tu tinhas ficado a pensar que eu era um idiota de primeira, e para minha grande surpresa, respondeste de imediato, e acho que aí começámos logo a falar sobre estarmos juntos de novo quando voltasse da Suiça. Não me lembro se fui de viagem nesse mesmo dia - acho que sim, mas poderá ter sido no dia seguinte. Não há muito tempo estava a falar com o Hugo sobre essa visita, e ele disse-me que eu tinha passado basicamente o tempo que lá passei agarrado ao telemóvel. Porque será? Com quem estaria a falar? É curioso que demorei tantos anos a aperceber-me que a nossa relação tinha esta qualidade viciante, eu nunca tinha experienciado tal coisa. Desde o dia da Gulbenkian que me comecei a viciar em ti, e digo isto da melhor maneira. Mas talvez possa ser visto como a pior maneira, não sei. Só sei que queria estar sempre contigo. Queria sempre beijar-te. Queria sempre o teu toque. Queria sempre foder contigo. Esses dias passados na Suiça, esses longos dias até voltar para Lisboa para estar contigo de novo, esses dias foram marcados por uma coisa que me disseste, que eu não sabia o que significava, e que foi ver á internet :'ily', e eu - pensando que significava 'I love you' - respondi 'I love you too'. E amava, caramba, como amava. Como amo, ainda e sempre. Só queria voltar para casa - e tu eras a minha casa já. Quando aterrei em Lisboa, só pensava em estar contigo. Momento a momento, metro a metro, fui-me aproximando, até que finalmente... finalmente te vi. E nesse momento sabia que seríamos um do outro. Eu seria teu, e tu serias minha. Mas ainda demorou até esse mítico primeiro beijo. Lembras-te como foi? Algures na eternidade esse beijo perdura ainda.
Eu não me esqueço desse momento. Desse beijo. Desse amor. Mas sabes de outra coisa que não me esqueço? O momento exacto que o precede : tu disseste 'eu não estou preparada para isto.', e sabes, tantas vezes no passado - e no presente - eu me questionei o que teria acontecido se tivéssemos parado por aí. Se tivéssemos ficado apenas amigos. Ter-me-ia partido o coração, claro, e talvez isso signifique que a nossa história acabaria assim de qualquer maneira. Eu sei que tive alturas na minha vida em que fui completamente egoísta. Talvez amar-te tenha sido o expoente máximo do meu egoísmo, e terias tido meio ano da tua vida para viveres de outra maneira, não fosse esse meu egoísmo. Mas tu beijaste-me de volta, Sofia. E no teu beijo havia tanto amor. Havia tanta paixão. Havia tanta... possibilidade. Eu estava adormecido sob camadas e camadas de gelo, mas nesse momento despertei. Com o teu beijo a minha vida começou.
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