Bem antes de te conhecer, e durante uma série de anos, tive um sonho recorrente. Há uma parte de mim que quer dizer que tinha o mesmo sonho - ou uma variação dele - todas as noites, mas poderá não ter sido esse o caso necessariamente. Era um sonho simples, a única coisa que fazia era voar. Mas voava, curiosamente também nu, de olhos fechados, quase como se estivesse a dormir enquanto voava. Não voava rapidamente, era mais um lento deslizar acima das nuvens, bem lá no alto, acima de tudo, onde se se olhasse para baixo não se reconheceria nada de humano. O que me lembro da minha vida nessa altura era que me sentia profundamente cansado a todos os níveis, e talvez isto fosse uma manifestação do meu subconsciente a dizer-me para viver com mais leveza, algo que não consegui fazer. Mas quando era puto - mesmo, mesmo puto - quando morava no Forte da Casa, eu tive alguns sonhos que ainda hoje me consigo lembrar, alguns estranhamente proféticos. Talvez o pesadelo mais antigo que me consigo lembrar de ter tido foi nessa altura, sonhei que estava numa floresta, escura e densa, e estava a fugir de lobisomens. A dada altura eles apanham-me, e lembro-me que a última coisa que vi nesse sonho, foi os rostos deles a atacarem-me, olhos vermelhos de raiva, o pêlo dos focinhos encharcados com saliva e sangue das mordidas que me davam e arrancavam pedaços grandes de carne com cada uma delas. Noutro sonho que tive nessa altura, sonhei com o meu filho, era ele criança ainda. Na realidade, sonhei com alguém que me parecia estranhamente familiar com uma criança ao colo, e anos mais tarde, o momento exacto desse sonho ocorre na minha vida real, e lembrei-me de imediato dele. Já um bocadito mais crescido, aí com os meus seis-sete anos, lembro-me de um sonho que de vez em quando tinha : eu estava a brincar na rua onde morava, mas a rua estava vazia, algo relativamente incomum. Não é que fosse uma rua terrivelmente movimentada, mas era uma rua que fazia um 'L' e se juntava a outra que era traseira de montes de prédios, e onde havia sempre putos a brincar, ou pessoas a trabalhar nas garagens. Mas eu estava lá sozinho, e não sei se me tinha fartado de brincar entretanto, mas estava sentado no chão, com as costas encostadas a uma parede. Por vezes estou a catar pedrinhas da calçada e mandá-las para a estrada alcatroada onde jogávamos uma espécie de baseball sem regras algumas, outras vezes tenho um galho ao qual removi as folhas e com ele estava entretido a desenhar padrões no chão. A certa altura do sonho, vejo um tipo a aproximar-se de mim, e fica á minha frente a olhar para mim. Era um tipo alto, moreno, e vestia-se de uma maneira que era um pouco incomum, embora não conseguisse precisar porquê. Há algo de estranho nisto : ele sabe o meu nome. Nisto, ele senta-se ao meu lado, e encosta as costas de contra a mesma parede. Ele suspira audivelmente, quando exala, e há ali uma sensação de tristeza, de nostalgia, que eu não conseguia entender. Passados uns momentos, ele começa-me a fazer algumas perguntas, nada de esquisito, mas coisas tipo que desenhos animados eu estava a ver, qual era o meu jogo favorito no Spectrum, quais eram as minhas bandas desenhadas preferidas. Eu respondo, e ele sorri, mas é um sorriso também triste. Ele depois diz-me para eu lavar os dentes todos os dias, para prestar mais atenção aos estudos, para fazer os trabalhos de casa, todas as coisas que já ouvia dos meus pais. Ele diz-me depois que, embora eu não conseguisse ainda imaginar, num futuro não tão distante quanto isso e que iria chegar mais rápido do que eu poderia desejar, o dia iria chegar em que - e nisto ele vai ao bolso do casaco e tira uma coisa rectangular escura - eu poderia ter todos os jogos que gostava de jogar na palma da mão, toda a TV, toda a música, toda a BD, mas eu não acredito. Parece-me algo que nem na ficção científica seria possível. Algum tempo depois, aparece a minha mãe, naturalmente preocupada, e começa a gritar comigo, a perguntar-me o que é que ela já me tinha dito sobre falar com estranhos. O tipo levanta-se, e olha para minha mãe - ele é bem mais alto que ela - e depois olha para mim e diz 'A tua mãe tem razão, Gonçalo. Não deves falar com estranhos.', mas ele depois vira-se para minha mãe e diz que não é exactamente um estranho. Ele aproxima-se dela, e diz-lhe qualquer coisa que eu não consigo ouvir, e a minha mãe reconhece-o de imediato. Passados uns momentos, ele desaparece, e segundos depois também a memória dele desaparece de nós.
O conceito de viajar no tempo sempre me fascinou. Não a ciência teórica á sua volta, isso é demasiado para a minha cabeça, mas apenas como aquela fantasia de podermos voltar atrás e corrigir as merdas que fizemos. Durante tantos, tantos anos pensei o que eu faria de diferente ou alteraria se pudesse voltar atrás. Muitas das vezes que tive esses pensamentos, a minha vontade era voltar no tempo e dar um par de estalos a mim mesmo e dizer 'abre os olhos, pá!', mas acho que nem assim. Eu passei uma boa parte do ano passado a pensar no quanto queria poder viajar no tempo, para... sei lá... para poder mudar as coisas de modo a que tivesses ficado. Não surpreendentemente, muito daquilo que depois escrevi acabava por estar relacionado com isso. Hoje ainda penso nisso, mas agora de uma forma diferente.
Eu sei que isto não passa de (mais) um exercício em futilidade, porque não é algo que alguma vez possa acontecer. Mas em vez de pensar no que poderia mudar para que tivesses ficado, penso em qual o momento da minha vida que eu sei - que eu absolutamente sei - que se tivesse tomado outra decisão, então tudo teria sido diferente. E esse momento foi quando decidi escolher ficar colocado no Montijo, e não nos Açores, como tinha planeado. E se tivesse ido para os Açores, então não teria havido a minha relação com a Dora, o que significava que eu provavelmente teria seguido o meu plano de ficar nos Acores até conseguir maneira de ir para os states. Não teria feito vida por cá, não tinha conhecido ninguém, não teria trazido a dor e a miséria que trouxe á Sílvia, não teria sido sequer nem a esperança de um murmúrio para ti. Ter-vos-ia dado anos e anos de felicidade que não tiveram comigo, o Ian teria tido um pai bem melhor que eu, todos vocês teriam saído a ganhar. O que mais me atormenta nesse momento é que eu pude escolher onde queria ser colocado, e mesmo após ter feito a escolha, podia perfeitamente ter-me oferecido para trocar com alguém que quisesse ficar no continente. Imagina o que teria sido a tua vida sem me teres conhecido. O quão melhor teria sido. Bastava ter feito uma escolha ligeiramente diferente, e causalidade alguma nos teria cruzado.
Mas eu sou tão, tão egoísta, meu amor. Eu nunca conseguiria não te escolher, ainda que eu sempre soubesse que só teríamos aquele momento no tempo. Ainda que eu soubesse que teria de magoar e ser magoado, apenas para chegar ao momento em que nós fomos... nós. Ainda que eu soubesse isso tudo. Ainda que eu soubesse que o meu castigo por tudo o que fiz seria viver sem ti, sem te ter, e com a presença eterna de um amor que vem apenas uma vez na vida. Ainda assim. Ainda assim.
Eu escolher-te-ia, sempre. Sempre.
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