Mas aquele momento em que senti que perder-te era algo bem possível de acontecer, provável até, e caramba, como eu desejaria que tu não te lembrasses disso, mas estou certo que sim - é um momento demasiado desagradável para desparecer facilmente da memória de uma pessoa. Não me lembro já de tudo, mas sei que uma tarde estávamos no meu quarto a tomar conta da Elmyra, e algo aconteceu que levou a minha mãe a fazer um escarcéu (juro que é a primeira vez em toda a minha vida que escrevo esta palavra) á porta do meu quarto. Foi uma berraria atroz que se seguiu, e se já tinha medo de te perder antes, então esse medo cresceu exponencialmente depois dessa cena triste. Algo foi plantado na minha mente nessa tarde, algo que levou a que basicamente tenha fechado a minha casa a outras pessoas depois de ti, salvo raras excepções. O que ficou na minha cabeça desde então foi como é que eu trago uma pessoa para esta loucura? Quem quereria ficar comigo, sabendo aquilo a que estaria sujeito? A resposta é ninguém. E depois desse dia senti uma certa distância entre nós, senti que algo tinha fundamentalmente mudado. Não de mim, eu nunca... eu nunca conseguiria deixar de te querer, Sofia, eu nunca conseguiria deixar de te amar. Não consigo. E sempre fiquei a pensar que essa tarde abriu uma brecha em ti, que te deu uma ideia que não era aqui que querias estar, e que não era comigo que querias ficar. Uma parte de mim, a partir desse momento, começou a entrar em pânico, porque receava o dia em que me dissesses que não querias estar comigo. Se calhar isso explica aquela minha tentativa de 'comprar' a tua presença, ao estar sempre a oferecer-te coisas. Sabes uma coisa? Acabei de me lembrar um paralelo estranho que tens com a Sílvia. Foste a minha única namorada, além dela, que me acompanhou ao hospital. Por razões diferentes, é verdade, da primeira vez foi por causa de uma pedra no rim, e contigo foi quando tive de meter baixa, mas sempre foram gestos que me marcaram tremendamente. É estranho, a quantidade de coisas que penso que te foram dando a desculpa que precisavas para ir. E não precisavas de desculpa alguma, claro, ninguém pode escolher o que permanece e o que desaparece. Mas também sempre pensei que esse momento da minha vida te desiludiu, e eu peço-te desculpa por não ter sido forte o suficiente. Eu não sou... nunca fui... uma pessoa forte, meu amor. Talvez se tivesse sido tivesses ficado.
Talvez.
Talvez.
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