segunda-feira, 3 de março de 2025

Não vai haver um novo amor tão capaz e tão maior

Há uma mentira que aqui disse e repeti. Vá, não é exactamente uma mentira mas uma meia-verdade. Disse que nunca imaginei que me fosses deixar. Mas na realidade, a partir de um momento muito específico, comecei a pensar nessa possibilidade. A partir daí, qualquer pequena 'crise' entre nós - das quais não houveram muitas, e do topo da minha cabeça apenas me lembro uma, aquela vez aqui na minha rua - se tornou um fulcro na minha profunda insegurança. Eu nunca fui ciumento, mas inseguro, ah isso, eu sou. Queres saber um momento em que a minha insegurança quase me engoliu, estávamos nós ainda relativamente no início da nossa relação? Foi quando nos fomos encontrar com o Pedro para lhe contar que estávamos a namorar - algo que absolutamente ninguém poderia ter adivinhado através das nossas interacções online, não é? - e estávamos a subir aquela ruazita em direcção á leitaria académica, e eu ainda me lembro dos meus braços á volta da tua cintura, e os teus á volta da minha, lembro-me do frio que estava nessa noite, então essa proximidade sabia melhor ainda, e quando lá chegámos acho que ainda esperámos um pouquito por ele, e momentos depois dele ter chegado já tínhamos contado que éramos namorados. Até aqui tudo bem, certo? Não há motivo algum para insegurança, certo? O que poderá então ter acontecido, fiel leitor, para que tal sentimento tivesse vindo ao de cima? Bem, estavam vocês a falar sobre deus sabe o quê, e de repente dão um high five sonoro, sincronizado e cinemático, pareciam a Robin e o Barney a dar high fives, e naquele momento... naquele momento eu senti, bem cá dentro, que eu era a pessoa errada para ti. Senti-me tão derrotado, por algo que não podia controlar nem competir contra; afinal vocês conheciam-se há anos e anos e eu não era muito mais que um desconhecido para ti. Não sei se se notou em mim, mas sei que me senti nitidamente em baixo. E é estúpido, eu sei, mas eu sempre sofri do síndrome de impostor. Tantas vezes senti que eu era a pessoa errada no momento errado, quer na minha pessoal quer na minha vida profissional. Sempre que me deram cargos de mais responsabilidade no trabalho, eu ficava sempre a pensar para mim 'oh não, porquê eu? existem tantas pessoas melhores e mais qualificadas que eu, eu sinto-me tão bem apenas a ser uma rodinha na engrenagem que passa despercebida das outras'.
Mas aquele momento em que senti que perder-te era algo bem possível de acontecer, provável até, e caramba, como eu desejaria que tu não te lembrasses disso, mas estou certo que sim - é um momento demasiado desagradável para desparecer facilmente da memória de uma pessoa. Não me lembro já de tudo, mas sei que uma tarde estávamos no meu quarto a tomar conta da Elmyra, e algo aconteceu que levou a minha mãe a fazer um escarcéu (juro que é a primeira vez em toda a minha vida que escrevo esta palavra) á porta do meu quarto. Foi uma berraria atroz que se seguiu, e se já tinha medo de te perder antes, então esse medo cresceu exponencialmente depois dessa cena triste. Algo foi plantado na minha mente nessa tarde, algo que levou a que basicamente tenha fechado a minha casa a outras pessoas depois de ti, salvo raras excepções. O que ficou na minha cabeça desde então foi como é que eu trago uma pessoa para esta loucura? Quem quereria ficar comigo, sabendo aquilo a que estaria sujeito? A resposta é ninguém. E depois desse dia senti uma certa distância entre nós, senti que algo tinha fundamentalmente mudado. Não de mim, eu nunca... eu nunca conseguiria deixar de te querer, Sofia, eu nunca conseguiria deixar de te amar. Não consigo. E sempre fiquei a pensar que essa tarde abriu uma brecha em ti, que te deu uma ideia que não era aqui que querias estar, e que não era comigo que querias ficar. Uma parte de mim, a partir desse momento, começou a entrar em pânico, porque receava o dia em que me dissesses que não querias estar comigo. Se calhar isso explica aquela minha tentativa de 'comprar' a tua presença, ao estar sempre a oferecer-te coisas. Sabes uma coisa? Acabei de me lembrar um paralelo estranho que tens com a Sílvia. Foste a minha única namorada, além dela, que me acompanhou ao hospital. Por razões diferentes, é verdade, da primeira vez foi por causa de uma pedra no rim, e contigo foi quando tive de meter baixa, mas sempre foram gestos que me marcaram tremendamente. É estranho, a quantidade de coisas que penso que te foram dando a desculpa que precisavas para ir. E não precisavas de desculpa alguma, claro, ninguém pode escolher o que permanece e o que desaparece. Mas também sempre pensei que esse momento da minha vida te desiludiu, e eu peço-te desculpa por não ter sido forte o suficiente. Eu não sou... nunca fui... uma pessoa forte, meu amor. Talvez se tivesse sido tivesses ficado.
Talvez.
Talvez.

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