Eu recordo-me de me teres contado que tinhas tido também momentos na tua vida onde a tua saúde mental sofreu, e eu prometi-te que estaria sempre do teu lado; neste meu momento tu também o prometeste. Eu só precisava de um bocadinho, sabes? E é claro que desde então que sinto que foi um erro da minha parte, deveria ter sido mais forte, e aguentado. Não sei. Poderia ter procurado outro tipo de ajuda, ou - melhor ainda - poderia ter procurado outro emprego, algo que estava nos meus planos, mas antes... olha, I had to fix myself first.
Sabes, eu quando era muito novo, fiz daqueles testes que determinam o Q.I. de uma pessoa, e na altura - tanto por parte da minha família quer por quem me acompanhava - fartava-me de me ouvir que era sobredotado. Era tudo balelas, claro, e nem nunca me senti tal coisa, apenas era um puto que tinha uma capacidade estúpida de me lembrar de coisas inúteis e se calhar por isso pensavam que eu era muito inteligente. Spoiler alert : não era. No entanto, uns anos mais tarde, quando estava eu a entrar na adolescência, e me tornei - como uma vez me descreveram - um 'senhor fazedor de merda', nasceu em mim uma arrogância que não era digna de mim. Nessa altura, tinha consultas de psicologia na Alameda, e numa dessas sessões, a minha então psicóloga disse-me que eu sofria de injustificados e infundados delírios de grandeza. Eu tinha-me convencido a mim mesmo que era tão mais que os putos com que tinha de partilhar a minha existência, e mesmo os adultos que com quem ia convivendo - meu deus, eu lembro-me de tanta aberração que saiu da minha boca nessa altura, em que as pessoas ficavam de boca aberta a olhar para mim a pensar se eu estava a falar a sério ou se era apenas parvo, mas eu julgava-me tão certo da minha sapiência. Foi nesta altura a primeira vez que me disseram que tinha uma depressão, algo que vim a ouvir mais tarde quando estava na Força Aérea, em que uma ida ao dentista me levou a ser aconselhado a ter uma consulta de psicologia. Tornou-se num evento recorrente na minha vida, aí em 2001 tive uma fase muito má que durou uns meses, em que mal conseguia sair da cama. Sentia a vida a esvair-se de mim, não comia sequer. Manter os meus olhos abertos era um esforço hercúleo. Um dia, estava eu deitado, e ouvia uma voz distante a chamar por mim, a pedir-me para fechar os olhos, que tudo ficaria melhor quando fosse finalmente dormir. Não sei onde fui buscar as energias, mas levantei-me, e fui comer iogurtes e uma maçã. Nesse dia jurei a mim mesmo que não voltaria a passar por tal coisa de novo. Oh, my sweet summer child...
Eu não consigo descrever com justiça o que foi aquele ano inteiro depois de teres ido. Eu lembro-me que quando comecei a trabalhar no meu emprego em 2014, quando estava em formação, acabei por descobrir que era razão para gozo das outras pessoas porque ficava sentado agarrado á minha mochila, e eu sei que o fazia porque não me sentia seguro - ter N pessoas á minha volta deixava-me altamente desconfortável, e essas primeiras semanas eu dei por mim a ficar trancado na casa de banho á espera que a pausa acabasse, ás vezes a chorar, a tremer. Não estava bem, estava longe de estar bem, mas tinha de me agarrar a isto com unhas e dentes. De alguma maneira, tinha de seguir em frente. Sabes, sempre que escrevo esta frase - 'seguir em frente', ou uma variação dela - eu lembro-me de um momento no verão de 2013, em que coloquei uma música na minha página do facebook, ainda éramos nós amigos. Foi uma música chamada 'In this Shirt', dos The Irrepressibles, e juntamente com a música coloquei uma frase que dizia 'Moving on now, moving fast', e em nada tinha a ver com a nossa história, ou contigo, ou connosco, mas lembro-me de nessa altura ter falado com o Pedro, e ele disse-me que tinhas visto o post, e que tinhas partido do princípio que eu estava a seguir em frente, e vê-se, não é? Fi-lo com extraordinário sucesso. Se não me falha a memória, isto aconteceu mais ou menos na aquela altura meio bizarra onde ias á discoteca em frente á discoteca onde eu ia, mas não nos encontrámos nunca. E ainda bem que assim foi, naquela altura se te tivesse visto com outra pessoa, esse teria sido o meu último dia na terra.
Mas esse ano todo cavou um abismo em mim. Na minha alma. Na minha mente. No meu coração. Eu senti-me imergido numa escuridão interminável, e não sei como sobrevivi a esse ano. Escrevi o ano passado que na realidade não pensava, nem queria, sobreviver o suficiente para entrar no ano seguinte, e não tivesse sido o milagre de ter tido o meu filho comigo numa altura em que não era suposto, e tinha entrado mar adentro, e tinha deixado que as ondas me levassem. Qualquer profunda escuridão da alma que tivesse sentido até aí não se compara ao que foram os primeiros 3/4 meses de 2014. Entrei num desespero galopante, não tinha emprego, não tinha dinheiro, nem sequer tinha net em casa porque deixei de ter como a pagar, e vi-me a ter de pedir á Dora para pagar as viagens do Ian quando ele cá viesse passar os fins de semana, e para lhe comprar coisas para ele comer quando cá estivesse. Eu queria tanto morrer nessa altura. Tantas vezes nesses meses passei os meus dias inteiros a chorar, mesmo quando o Ian cá estava, e ele disse-me tantas vezes 'Pai, tens de esquecer essa mulher', e eu não consegui, não conseguia, não consigo. O Gonçalo que sai desse ano não é uma pessoa normal, é uma versão televisiva de uma pessoa de coração quebrado. O Gonçalo que sai desse ano abre a porta a desastres que nunca teria acolhido antes. O ror de pessoas que passaram pela minha vida, e não trouxeram nada, apenas tiraram, tiraram, tiraram, é demasiado grande. Eu tentei mascarar o abismo que era a tua ausência - um abismo com formato de Sofia - com demasiadas coisas que me vim a arrepender amargamente. Sabes, eu nessa altura em que andava de corpo em corpo á procura de algo 'normal', tinha uma fantasia que um dia fosses á minha página de facebook e visses lá que eu estava numa relação com alguém - e a Sónia foi a única pessoa com quem isso aconteceu - e quando visses, ficavas a pensar que tinhas cometido um erro enorme, e voltávamos a estar juntos, mas isso foi apenas uma estupidez. Meu bom deus, eu sou tão profundamente estúpido.
Tu sabes, e porque raios escrevo eu isto pensando que alguma vez lerás isto, mas eu tenho tantas saudades tuas. Nunca deixei de ter. Mas também tenho saudades de nós. O que éramos foi tão forte para mim. Tudo pareceu artificial depois de ti. Não voltei a gostar de beijar, nem consegui beijar alguém com a fome com que te beijava. Nenhuma pele era a tua, nenhum corpo se aproximou do meu como o teu, nenhuma mão segurou a minha como a tua. E isso faz-me ter saudades de mim, também. Eu tenho, genuinamente tenho, saudades do Gonçalo que existiu quando estivemos juntos. Eu era tão, tão feliz. Feliz por estar vivo. Feliz por cada dia que estava contigo, e para mim cada novo dia era uma vitória. Fazias-me sentir invencível, capaz de tudo. E esse Gonçalo queria tudo, estava disposto a fazer tudo, por esse amanhã que nunca veio. E esse efémero eu... ele não existe mais. Foi como uma flor que desabrocha nas circunstâncias mais improváveis, e demasiado cedo o seu perfume foi extinguido. Eu era porque nós éramos. O que resta de mim é a resignação, é o desistir, o desistir finalmente de tudo, é o saber que apenas por ti conseguirei sentir. Mas eu sou uma pessoa melhor, Sofia, sou uma pessoa melhor por te ter conhecido, e por ter partilhado - ainda que brevemente - a tua luz. Sou uma pessoa melhor por viver com um amor que é maior que eu, que é mais do que a minha própria vida, desde o primeiro momento na Gulbenkian, até ao último bater do meu coração.
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