terça-feira, 18 de março de 2025

Mente-me e diz-me que me amas

Sabes onde estive ontem? Á noite, depois de acabar o trabalho, sentia-me irrequieto. Não conseguia estar em casa, não me apetecia fazer fosse o que fosse aqui, estava impaciente, mas sem saber muito bem porquê. Então vesti-me e saí de casa, precisava de deambular por aí, meio sem direcção, de headphones nos ouvidos, perdido na música. Comecei por ir até ás Olaias - e não, não tem nada de relevante para quase ninguém, mas lá perto existe uma estradita que não passava por lá há muitos anos, e sim, esse sítio para mim é importante, mas é sempre doloroso voltar lá. Mas não permaneci durante muito tempo, e segui o meu caminho. É uma zona que conheço muito bem, desde míudo, porque estudei lá quatro anos, e a verdade é que na altura era uma zona altamente insegura, e fui assaltado uma data de vezes naquelas redondezas. Mas os tempos mudam, e as coisas nem de longe nem de perto são o que são, então dei por mim a ir até ao alto de São João de Deus, depois desci lentamente a Morais Soares, subi até ao Arco do Cego, fui andando, com intenções de parar pelo Parque Eduardo VII e lá ficar um pouco. Então, quando passo nas traseiras da Gulbenkian, depois dou por mim a parar perto da entrada do metro onde nos vimos pela última vez. Lembras-te de antes nos termos encontrado nesse dia, que uns tempos antes eu te tinha dito que da próxima vez que nos víssemos te iria beijar? Talvez tenha sido o último assomo de coragem que tive, ter-te dito isso. E sabes que mais? Eu tinha tanta vontade de te beijar, tanta. Mesmo com a distância que colocaste entre nós quando te sentaste ao meu lado - e ao mesmo tempo a anos-luz de mim. Mesmo contigo a não olhar para mim sequer - como te quis beijar. E no entanto, mesmo nesse último momento, mesmo quando estivemos tão próximos quanto voltaremos a estar, mesmo quando no mais profundo âmago do meu coração eu sabia que me estava a despedir de ti, e o disse a mim mesmo, á medida que olhava para ti, e sabia que não conseguias dar-me o teu olhar a não ser se eu o pedisse... como o quis fazer.
Ontem, parado á porta da entra do metro, ainda estávamos lá. Mas é esse o nosso fado, ainda existem impressões de nós presas no tempo, e eu vejo-as onde quer que vá. São memórias de outro tempo, de outra vida. E eu penso nas memórias que ainda tenho, e aquelas que por vezes sinto que estão a desaparecer. Nestes anos todos que precederam termo-nos visto de novo, quem eras tu para mim? O que me lembrava eu de ti, ainda? Tanta coisa, mas por vezes sentia que tinha já uma vaga impressão do teu rosto. É como se me conseguisse lembrar mas ao mesmo tempo não. As redes sociais sempre ajudavam um bocadinho, porque de vez em quando eras-me sugerida, ou procurava-te eu, e sempre ajudava a trazer alguns detalhes á tona. Mas confesso que tive um momento - talvez mais que um, até - em que receei que te tornasses a sombra de uma recordação, apenas. Eu volto ao dia em que nos reencontrámos. Aliás, volto á conversa que tivemos antes de nos encontrarmos. Quando, do nada, recebo uma mensagem tua, não a dizer-me, não a pedir-me, não a sugerir-me, mas a ordenar-me para nos encontrarmos. Local, dia, hora. Poderia eu alguma vez ter-te pedido semelhante coisa? Não. E ter ido foi uma prova de superação para mim. Certamente não queria que tu me visses no estado deplorável em que me coloquei. Mas depois... depois vi-te, ainda antes de me sentar ao teu lado, e eu sabia que não conseguiria... sei lá o que não conseguiria. Aqueles passos que me levaram até ti, eu senti que estava a ter uma daquelas experiências fora do corpo, em que sentia que estava a ver tudo á distância, sem ter controlo algum sobre o que estava a acontecer. E depois, depois sentado ao teu lado, não exactamente onde estivemos na tarde do primeiro beijo, mas suficiente perto, e uma parte de mim sentia que havia uma procissão interminável de Gonçalos e Sofias que viveram felizes para sempre, e que aquele beijo ecoa ainda através de toda a eternidade. Doeu como os raios ver-te de novo. Doeu olhar para ti. Porque saber que alguém que amo com todo o meu ser é amada por outra pessoa sempre me custou, e no momento em que me sentei ao teu lado, foi como não tivesse havido mais de uma década de distância entre nós, e que o tempo para nós não passou. Mas nesse dia se olhaste duas ou três vezes para mim já foi muito. Nesse dia, tal como no dia do cinema, eu pensei que me odiavas. Não, pior que isso, ser odiado não me incomoda. Senti que não gostavas de mim sequer, e isso sim, deixou-me um caco. Despedi-me de ti nesse dia, sem ter tido sequer a coragem de te dar um beijo no rosto, mas não o demos sequer quando nos cumprimentámos. Pensei eu que era aqui que a nossa história tinha finalmente acabado. 'Esta não pode ter sido a última vez', disseste-me pouco depois. Mais memórias que vão ficar. E por vezes questiono-me se acabarão por substituir a memória de outra coisa qualquer.
Há tanta, tanta coisa que já não me lembro - ainda que possa afirmar que me lembro de uma forma abstracta, certamente que não me recordo já de uma forma sensorial. Um beijo, um toque sequer - tu não imaginas, mas nesse dia do reencontro houve um momento em que me pegaste ao de leve na mão para me pedires desculpa, e foi esse o máximo de contacto que tive com uma pessoa em anos. Nem sequer deveria mencionar sexo ou, ainda mais gravoso, intimidade, coisas cuja ausência pesam. Mas eu não me lembro como é sentir qualquer uma destas coisas, e na realidade, não estou terrivelmente preocupado com isso. Não o procuro activamente, quando o fiz arrependi-me amargamente, então para quê sujeitar-me a isso? Mas eu não te quero esquecer. Não é conseguir esquecer, isso é diferente, o que não quero é que a memória de ti, da tua pessoa, do teu lado físico, do teu sorriso, da tua voz, de todas as tuas idiossincrasias - e aqui só posso falar pelas que conheci - escapem de mim. Não quero. E tenho esse receio. Tenho receio que daqui a uns anos, se ainda cá estiver, lembrar-me de ti seja como tentar apanhar um punhado de areia e vê-la a desesperadamente fugir por entre as minhas mãos, enquanto tento guardar para mim toda e qualquer parte que consiga. E eu sei que não te vou voltar a ver, eu sei. Não há nada que possa fazer quanto a isso. Não é uma escolha minha. O que eu precisava era ter tido dez mil noites mais contigo em que pudesse ter ficado a estudar cada detalhe de ti, e cada recanto do teu corpo. Precisava que tivéssemos tido uma ilíada de fodas, e um infinito volume de sonetos onde a tua voz tivesse ficado gravada para sempre, e eu não me esquecesse dela nunca. 
Precisava, precisava, precisava. Que egoísta eu sou. Gasto o que resta de mim a comportar-me como um adolescente que escreve no seu diário, que se consome em sofrimentos em ânsias por alguém que nem sequer pensa nele. Já viste, Sofia? (Não viste, porque não sabes, não imaginas, mas se soubessses achar-me-ias tão profundamente patético.) Não existe uma grande recompensa no fim do dia, eu sei. Apenas finjo que falo contigo e que de alguma maneira me ouves. 

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