Bem, correndo o risco de me repetir, vou resumir esse tal post : em puto queria ou ser astronauta, por causa da música do Jean Michel Jarre, e do seu respectivo vídeo, ou em alternativa queria ser advogado por causa da série de TV 'As teias da lei', mas na realidade cedo me apercebi que não era inteligente o suficiente para ser qualquer uma dessas coisas. Aquilo que ficou em falta dizer é que na realidade em puto eu tinha dois empregos de sonho, e olha que eu não sei não se não o são ainda. Isto vai soar tão absolutamente estúpido, mas... sempre quis ser carteiro. E não sei explicar muito bem porquê, não me recordo de alguma vez ter tido uma interacção que fosse relevante e/ou marcante para mim com um carteiro; inclusivamente, nunca gostei de ir aos correios sequer. Talvez possa admitir que o que me atraía nesse tipo de profissão era o poder-se fazê-la sozinho, sem ter pessoas á nossa volta, e andar a passear por aí a entregar cartas. Sempre me pareceu algo que eu conseguiria fazer perfeitamente, e que nunca me fartaria de o fazer. Não sei mesmo porquê. Ainda hoje quando vejo o meu carteiro habitual, o Sr. Fernando, fico com uma certa inveja dele, e certo, talvez a minha imagem criada em puto sobre ser carteiro não possa corresponder á realidade, porque certamente teria de lidar com muitas pessoas estúpidas e chatas, mas ainda assim... eh, a verdade é que nunca na minha vida pesquisei sequer como concorrer a isso. Algures no final dos anos 90, houve uma altura em que eu e um amigo meu andámos a enviar CVs á maluca, a fazer candidaturas espontâneas para tudo e mais alguma coisas, mas não creio que tenha enviado para os correios. E, pelo menos para mim, todas essas candidaturas não resultaram em nada, nem sequer numa entrevista. Paralelamente a isto, a outra coisa que sempre quis ser - em duas variantes até, se bem que uma seria preferencial - era ser o tipo que andava por aí a mudar as publicidades dos cartazes exteriores ou os do metro. Na minha cabeça, andava por aí a guiar uma carrinha Bedford com montes de cartazes nas traseiras, e ia de lado para lado mudar os cartazes. Mas preferia não fazer daqueles que requerem trepar escadotes, e andar a colar os cartazes... se já não tinha grande jeitinho para colar os cromos nas cadernetas de modo a que ficassem sempre certinhos no seu respectivo rectângulo, fazê-lo num desses outdoors seria um pesadelo. Mas no metro, caramba, isso sim, que categoria de emprego. De vez em quando via um ou dois tipos á noite no metro, que levavam um rolo enorme de cartazes, e andavam de estação em estação a mudá-los, e sempre fiquei altamente impressionado com a rapidez com que conseguiam mudar os cartazes. E andavam com chavinhas que abriam as portinholas onde os cartazes estavam por detrás de um vidro, e tantas vezes em puto eu via cartazes dos filmes em exibição e os queria ter, e pensava para mim que quando fosse grande ia trabalhar numa coisa destas e ficava com todos os cartazes só para mim. Nessa altura eu imaginava que quando fosse grande não iria viver numa casa normal, mas sim numa espécie de estúdio amplo, certamente influenciado pelo estúdio onde o personagem Seth Brundle morava no filme 'A Mosca', um dos filmes que mais marcou o Gonçalo ainda muito novinho.
A única coisa que sinto que liga estas profissões é uma espécie de solidão natural que elas trazem consigo, e digo isto num sentido libertador, na medida em poderia passar uma boa parte do meu dia de trabalho sozinho, algo que sempre ambicionei e raramente consegui. Quando fazia serviço na Força Aérea passava muitas horas sozinho, especialmente durante a madrugada, mas não era exactamente a mesma coisa. Talvez só nestes últimos anos que tenho estado em teletrabalho eu sinta essa liberdade que ambicionava ter, e até é, mais ou menos, mas não tenho a mobilidade das outras. É claro que em puto nem sequer me passava pela cabeça as dificuldades que estas profissões têm, e especialmente nos carteiros, que a têm de fazer quer faça chuva, quer faça sol. Mas acaba por ser emblemático de algo que sempre senti desde pequeno, que estou bem sozinho - e estive durante bastante tempo.
Quando era puto - e não só, mas especialmente nessa altura - julgava que nunca iria ter uma namorada. Julgava que era algo que acontecia ás outras pessoas, e mesmo quando dei as minhas primeiras beijocas não fiquei com a ideia - ou mesmo grande vontade - de ter um namoro. Quando andava no 5º ano tive um colega chamado Pedro, e dava-me mais ou menos com ele, talvez ele fosse o bonitão da turma. A dada altura ele não apareceu uns dias, e eu perguntei por ele a outro puto da turma que era amigo dele desde a primária, e ele disse-me que a namorada dele tinha morrido de pneumonia, e isto fez a minha cabeça entrar em parafuso. Primeiro, quem é que tem uma namorada no quinto ano? Depois, acho que não fazia ideia que se podia morrer de pneumonia, que para mim era uma espécie de gripe ou constipação, mas mais severa. Tantas vezes ouvi para não andar desagasalhado nas correntes de ar porque podia apanhar uma pneumonia, mas safei-me sempre. Não consigo precisar exactamente se foi nessa altura, ou talvez um ou dois anos mais tarde, mas também a minha irmã mais nova teve uma amiga na primária que morreu num acidente de viação, e ainda hoje quando passo por onde ela morava - embora hoje em dia raramente passe por lá - fico sempre com um peso no coração, e nem sequer a conhecia assim tão bem. Talvez porque se calhar não concebia realmente a possibilidade de crianças morrerem, embora certamente já teria sido exposto a uma qualquer situação em que fui confrontado com a mortalidade infantil, mas sempre foi tudo tão á distância que quando ocorreu numa proximidade relativa eu tivesse (naturalmente) ficado afectado. Se calhar isso explica também, em parte, aquele receio que tive sempre quando o Ian era pequenino, que me levava a procurar pela respiração dele, e sentir o coracãozinho dele a bater, e o seu peitinho a subir e a descer.
O engraçado é que além dessas coisas que eu queria ser, tinha também duas alternativas, talvez ainda mais inverosímeis. Por um lado, e devido a um fascínio que eu tinha com o Rocky nessa altura - sem ter visto um único filme da série, todavia tivesse uma vasta coleccção de calendários, e cuja presença era ubíqua no meu videoclube - eu queria ser pugilista. Na altura, o meu pai tinha uma empresa da construção civil, e um dos funcionários era pugilista amador. Um dia, o meu pai contou-lhe que eu queria ser pugilista, e ele disse-me que quando quisesse, ele levava-me a fazer um treino para principiantes, mas a primeira coisa que tinham de fazer era partirem-me a cana do nariz, e como é possível imaginar, o meu sonho de boxeur morreu muito cedo. A outra coisa que queria ser é relativamente semelhante, mas tem uma história engraçada á sua volta. Eu queria ser lutador de Wrestling, e essa paixão surgiu quando em 1986 fui ver o filme 'Highlander' com a minha mãe ao cinema Condes. Para mim foi uma noite mágica : um filme que amei de paixão, com banda sonora da minha banda favorita de puto - Queen, foi também a primeira vez que comi Maltesers na minha vida, e a minha mãe comprou-me o nº 1 da série 'Guerras Secretas'. Que mais poderia ter acontecido que me teria deixado deliciado? Que tal uma data de marmanjos musculados á batatada uns aos outros num ringue? Fiquei apaixonado por Wrestling nessa altura, mas durante mais uns anos foi tudo o que conheci sobre a coisa. Nessa altura, eu julgava que a maior demonstração de status que um puto podia ter era se tivesse uma casa com piscina, ou - e quase, se não mesmo, melhor - uma antena parabólica. Havia sempre um puto aqui e ali que tinha uma antena parabólica e se fartava de falar dos programas estrangeiros que via, e uma pessoa julgava que era tudo treta, mas volta e meia um desses putos partilhava uma cassete de video com gravações desses programas, e ficávamos maravilhados. Eu nunca tive uma dessas antenas, e em puto julgava-me um injustiçado por causa disso. Mas o que eu tinha aqui ao lado de casa era a antena da RARET, e circulava um rumor na redondeza que haviam certas televisões que conseguiam sintonizar canais estrangeiros se apanhassem a frequência certa, devido á proximidade da antena. Nós na altura tínhamos uma televisão da Philips que era um mamarracho que pesava toneladas, e para sintonizar aquilo tinha-se de abrir uma portinhola com um palito, e depois estar a rodar os botões a ver se se apanhava alguma coisa. Passei incontáveis horas a ver se apanhava alguma coisa - alguma coisa que fosse - mas nunca consegui apanhar nada. Certa vez acabei por dessintonizar os dois canais que tínhamos, e primeiro que os conseguisse sintonizar de novo foi o cabo dos trabalhos.
É curioso, eu voltei a ver wrestling uns anos depois, tinha eu 11 ou 12, e foi através de um puto que tinha antena parabólica e gravava cassetes. Certa vez, fui a casa dele para ver videos, e fiquei abesbílico com o tamanho da televisão dele. A que tinha - e tanto a dos meus avós como a dos meus pais era o mesmo modelo - parecia-me ser grande o suficiente, mas na minha cabeça este puto tinha um cinema em casa, e é apenas um exagero que nasce do facto de não conseguirmos processar muito bem as dimensões quando somos mais novos. Quando há uns anos atrás comprei a televisão que uso como monitor do PC de trabalho, pensei que era a maior televisão que tinha visto, na glória das suas 32 polegadas. Hoje essa parece minúscula comparado com a de 65 que tenho. Mas voltando a esse momento na casa do puto - tenho uma história tão estúpida com esse puto, que se chamava Manuel, mas a família chamava-o de 'Nelo', e eu achava isso tão cool, que tipo uns dois anos mais tarde quando estava noutra escola, tentei que toda a gente me chamasse de 'Nelo' em vez de Gonçalo, meu deus, que idiota era - mas quando voltei a ver Wrestling fiquei boquiaberto com aquilo, com o atleticismo, com a rapidez dos movimentos, com o quão teatral aquilo tudo era, e quando me disseram que era tudo combinado e ninguém andava realmente ao estalo e ao pontapé a ninguém, fiquei incrédulo. Como não era real? Eu via com os meus olhos, claro como o dia, as trepas que aquelas bestas davam um no outro! Combinado? Como assim combinado?
Mas o que eu me lembro mesmo bem desse momento foi a inveja que eu tive desse puto. Fiquei a remoer por dentro durante meses porque o puto tinha o raio da antena parabólica, e eu não, e não importava o quanto implorasse - mesmo com a ajuda dos meus irmãos - os meus pais nunca deram esse passo. E eu sempre detestei sentir inveja. É uma coisa que me diminui, e foi apenas depois de ti, uns anos depois, que consegui livrar o meu coração desse sentimento. Em 2015 recebi um email da Sílvia a desejar-me um feliz aniversário, e ela anexou uma fotografia da filha bébé dela, e eu senti o meu coração a encher-se de uma sensação tão.... sei lá, tão abissalmente escura. É claro que me senti feliz por ela, naturalmente que sim, mas por mim não senti nada senão asco e bílis. Senti que o padrão que define a minha existência era o de apenas servir como um trampolim para as pessoas que passam pela minha vida alcançarem uma felicidade que eu não poderia nunca oferecer. Eu detestei sentir o que senti, e embora possa dizer que ainda estava em sofrimento com a tua ausência, e a ter de lidar com as merdas que a Tracy andava a fazer, não justifica o que senti. Nessa altura, tudo o que eu tocava parecia definhar, e como não poderia? Quando se carrega essa escuridão na alma, não se traz luz a ninguém. Olhava para as pessoas e sentia genuína inveja do que tinham, ou aparentavam ter. Sentia de tal modo, que fechei os meus olhos e o meu coração a possibilidades de ter essas mesmas coisas. Tu eras alguém em que eu não podia pensar, embora o fizesse constantemente, algures entre o concreto e o abstracto. Talvez tenha sido a Isabel que me disse uma vez que existia um fantasma entre nós, e eu sempre soube o seu nome, o teu nome, mas não o podia admitir. Admiti-lo seria finalmente desprender-me de qualquer ilusão de normalidade que julgava ainda ter.
Custou como o caraças, doeu como os raios, mas consegui ultrapassar esse sentimento. A inveja não existe já em mim; não invejo o que tens, nem o que qualquer outra pessoa tem. Acaba por ser um sentimento parecido ao absurdo Camusiano, aquele que tenho, na medida em que sinto uma grande indiferença relativamente ao que acontece ou deixa de acontecer na minha vida. Aceitei, resignei-me. Não era suposto ser, não era suposto acontecer, pelo menos não nesta vida. Tive a minha oportunidade, e fodi-a. Vou viver com isso. Tenho de viver com isso. Sem ti. Com este amor por ti. Imenso, maior que a vida. Eu vou encontrar-te na próxima vida, Sofia. Prometo.
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