Depois, em 2013, na noite escura da minha alma, nas noites longas que eu passei enfiado na cama a chorar, a caminhar a passos largos para eu planear a minha própria morte, voltei a sentir presenças de novo. Múltiplas, desta vez. Uma dessas presenças era uma criança, e também o meu sobrinho a tinha visto. Mas não só. Num dos cantos do meu quarto havia uma sombra, contornado por alguma ténue luz, e por vezes conseguia vê-la mais nitidamente. Era uma senhora, que escondia o seu rosto por detrás de um véu. Das primeiras vezes que a vi, senti um medo imenso, e enfiava a cabeça debaixo do edredon, para me sentir mais seguro. Não me atrevia a abrir os olhos, tal era o pavor que sentia. Não sei quanto tempo depois, mas não muito tempo, houve uma noite em que tinha adormecido em lágrimas, e a dor imensa que sentia no coração levou-me a ter uma noite sobressaltada. Nessa noite, acordei a sentir uma paz estranha, e ainda antes de começar a abrir os olhos, senti que alguém me estava a passar suavemente a mão pela minha cabeça. Eu sorri, e pensei que tinha sido tudo um sonho mau apenas, que nunca tinhas ido, e estavas comigo deitada, e estavas-me a fazer festinhas na cabeça. Quando abri os olhos, vi uma figura luminosa dobrada sobre mim, a sua mão na minha cabeça. Nenhum véu cobria o seu rosto, e um leve sorriso formava-se nos seus lábios. Desta vez não senti medo, nem em nenhuma vez subsequente que a vi.
É claro que sei que eu narrar estas histórias a alguém é expôr-me ao ridículo, porque quem no seu correcto juízo vai acreditar nelas? Quem não irá dizer que se trata de uma espécie de alucinação, ou não irá conotar mesmo a um distúrbio mental? Por isso sempre preferi largamente manter estas coisas para mim. Naturalmente, toda esta minha vivência com estas coisas influenciou a minha relação com o divino. Já disse no passado que não sou nem religioso nem espiritual, e se tiver de acreditar num poder maior, num 'deus', certamente que não é num livro ou códice sagrado; não será sequer num edifício ou templo. Quando sinto 'deus', quando preciso falar com 'deus', é na natureza, a sua voz é o ciciar das arvores, o seu corpo as montanhas e a terra e o mar. Isto não faz de mim nem ateu nem agnóstico; na realidade há uma parte de mim que mais do que acreditar, eu sei que estas coisas têm um fundamento na realidade. Se são energias opostas, que se encontram em conflito, ou se são dimensões paralelas, isso eu não sei, nem consigo explicar. Mas para mim - para e a mim mesmo - não o tenho de fazer. Talvez por isso eu tenha optado por ter sido baptizado, tinha eu uns 12 anos. Admitindo que todas estas coisas tinham a possibilidade de serem reais, porque não proteger-me de alguma maneira? Em míudo, quando as piores coisas deste género estavam a acontecer, eu tinha um medo imenso de quando morresse ir parar ao inferno. Á medida que fui crescendo, esse medo foi-se dissipando, mas de certa forma ele ainda está lá.
No entanto, admito que ainda penso na cena do inferno. Da primeira vez que fui morar para Londres, trabalhei com um puto americano chamado Stephen, que era altamente religioso. Ele acreditava - piamente - no conceito de 'inferno na terra', ou seja, para ele, ele estava já a experienciar a pós-vida dele, e como isto estava longe de ser o paraíso em que ele acreditava - o bíblico - então apenas podia ser o oposto, e a missão dele seria ter de aguentar as tormentas e tribulações e tentações que lhe fossem apresentadas, de modo a poder ganhar a sua salvação. É uma maneira de se ver as coisas, e quem sou eu para julgar? Cada um acredita no que quiser, cada um tem a sua própria exegese daquilo que experiencia. Não estou aqui para convencer alguém do que foi ou deixou de ser, felizmente com isso já fiz a minha paz há muito.
Ás vezes penso nessa definição que Stephen me contou do 'inferno na terra'. Ás vezes penso que em Dezembro de 2013 não houve milagre algum, e que tal como eu tinha planeado, entrei mar adentro e as ondas me levaram. Talvez seja este o meu inferno. Saber que não te voltarei a ver, que não mais voltarei a ouvir a tua voz. Talvez o meu inferno seja lembrar-me perfeitamente do que era o teu beijo, do que era o teu toque. Fechar os olhos e imaginar-te deitada ao meu lado, nua, as tuas pernas nas minhas, a tua pele com a minha, tão próximos que eu consigo ainda sentir o cheiro do teu corpo, o calor da tua respiração quando te abraço. Deitar-me, e ver-te em cima de mim, as minhas mãos nas tuas nádegas, os teus olhos nos meus, como tantas vezes o fizemos. Que inferno teria uma tortura pior que esta? Em que possível mundo existe mais cruel tormento do que saber que existimos no mesmo mundo, ao mesmo tempo, e que te perdi para sempre?
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