terça-feira, 1 de julho de 2025

Quando a noite o envolveu, ele adormeceu, e sonhou com ela

O meu sono, que há muitos anos é errático e raramente algo que me proporciona real descanso, ficou ainda mais quebrado nestes últimos meses, e como consequência disso, os meus sonhos têm sido frequentemente bizarros, pós-apocalípticos por vezes, inquietos, vívidos. O apagão - bem como a morte da minha avó - têm tornado as minhas noite mais complicadas. Ainda - e talvez para sempre - me recordo vividamente do que foram as duas semanas antes da minha avó ter partido, essas noites em que quase não dormia, e um cansaço extremo se apoderava mim, noites em que tive de aprender a isolar qualquer outro som para ver se ouvia qualquer tentativa da minha avó chamar-me, e mesmo assim sinto que não o consegui demasiadas vezes. Não me consigo lembrar de sonho algum desses dias, nem sequer sinto que tenha dormido o suficiente para entrar em sono profundo. Mas essas noites assombram-me, e ainda dou por mim a acordar com um sentimento de sofreguidão, a perguntar-me se a minha avó me estava a chamar. O meu sono ficou decididamente mais quebrado desde então. Acordo N vezes durante a noite. Não é só o acordar para ir á casa de banho, é o acordar porque... sei lá porquê. Porque por vezes os sonhos inquietam-me, porque por vezes um ruído qualquer externo me desperta. Normalmente, viro-me para o lado e depois consigo adormecer logo de seguida. Mas nem sempre. Por vezes acordo, e não consigo pegar no sono nem por nada. Nessas alturas, levanto-me da cama, e sento-me na minha cadeira, por vezes durante uma hora ou duas, por vezes mais. Deixo-me ficar no escuro, no silêncio, na paz da madrugada. Há sonhos mais... mais viscerais, mas vívidos. E esses requerem que eu os consiga digerir.

Ainda antes da minha avó, já notava que desde o apagão que sonho contigo mais frequentemente. Muitas vezes és uma pessoa que eu vejo algures no sonho, ás vezes reconhecemo-nos, ás vezes não. Outras vezes os sonhos são continuações, por assim dizer, de coisas que aconteceram na realidade. Há uma semana ou duas atrás sonhei que por alguma razão tínhamos ido a uma praia, e nem creio que fosse durante o verão : o dia estava coberto, e cinzento, mas todavia a praia estava bem composta, via-se montes de pessoas em fato de banho, embora nós estivéssemos vestidos normalmente. Todo o sonho se passou em silêncio; andámos e andámos durante horas e não dissemos uma palavra. Embora estivéssemos lado a lado, era como se entre nós houvesse uma distância que era demasiado grande para ser para ser cruzada. Lembras-te da última vez que estivemos juntos? No cinema? Foi exactamente assim, no sonho. Bem, ao fim de muito andarmos, chegamos a uma parte da praia cheia de raparigas novinhas, e foi nesse momento que me apercebi que ias ter com alguém, porque continuaste a andar, e eu fiquei parado. Vi-te a avançar pela praia fora, até subires uma inclinação onde uma de série de moças estavam deitadas, e depois perdi-te de vista.

Estes sonhos... que sendo meio abstractos, têm fundamento em coisas reais, nem me incomodam muito. Quando os tenho não me deixam a sentir qualquer coisa de negativo. Lembro-me deles, penso neles, mas não são os que me afectam. Não, esses são como os da noite passada. Então, esta noite que passou sonhei com o apagão, mas desta vez tinha sido algo exponencialmente mais catastrófico : por alguma razão, o evento fez com que, globalmente, tivéssemos perdido a capacidade de produzir electricidade, e não havia qualquer alternativa a isso. Mais do que isso, foi como se o mero conceito de electricidade alguma vez ter existido tivesse sido apagado das nossas cabeças. Nada funcionava que dependesse de electricidade, não havia televisão, não havia rádio, não haviam comunicações, nada. Havia apenas luz natural durante o dia, enquanto houvesse sol, mas depois á noite caía a escuridão absoluta, e as pessoas tinham de se governar pela luz de velas. E por alguma razão esquisita, as pessoas tinham-se perdido umas das outras. O que quero com isto dizer é que as ruas estavam cheias de pessoas á procura de outras pessoas, mas apenas se encontravam se ambas as pessoas estivessem á procura uma da outra no mesmo momento, e não significava sequer que as pessoas pudessem estar perto uma das outras. Nas ruas via-se magotes de pessoas a chamar exasperadamente por alguém que ninguém sabia quem era, e, perto da alameda, estava eu a descer a caminho de deus sabe onde, perdido no ruído dos nomes que eram gritados em desespero de causa, eu parei e olhei para o outro lado da rua, onde estava uma pessoa que não estava a chamar nome algum. Tal como eu, éramos as únicas duas almas vivas - pelo menos naquele momento do tempo e do espaço - que não clamavam por alguém. Quando me viste, fixaste os teus olhos nos meus, e eu nos teus, e fui até ti. Atravessei a rua, sem carros, sem transportes públicos, mas cheia, cheia de pessoas. Começaste a andar, paralela a mim, do outro lado, enquanto ia navegando a multidão. Ao fim de uns minutos lá cheguei a ti, onde me esperavas, já perto de um daqueles segmentos relvados. Não foi preciso dizer nada, porque mal me aproximei de ti, já a nossa roupa estava a sair, e deixaste-te cair para cima da relva. Eu caio em cima de ti, e sinto-me a entrar em ti, e os teus braços á minha volta, e o cheiro do teu corpo misturado com o da relva, e as minhas mãos a agarrarem-te firmemente as tuas nádegas, a apertá-las enquanto entro e saio de ti, e te beijo, e me beijas, e o meu corpo escorre suor para cima do teu, corre pelo teu peito abaixo, e no meio daquela turba de almas perdidas, éramos os únicos que nos tínhamos encontrado, ali, deitados na relva, numa sinfonia de fodas e gemidos.

Acordo... e lembro-me. Mas lembro-me do quê? De imagens, e do fantasma de sensações. De coisas que já me parecem ter acontecido a outra pessoa, noutra vida, noutro lugar. Mas permanecem, durante uns momentos apenas, quando desperto, e a cabeça ainda está meio torpe de sono. Sinto os teus dedos na minha pele ainda, sinto ainda os teus lábios, e a tua fragrância. Por uns momentos, sinto como se ainda aqui estivesses. E depois... depois é como se fosse um qualquer filme, em que a tua essência espectral se torna em filamentos que perdem a tua forma, e se tornam numa sombra que se alonga, e parte lentamente da minha direcção. O fantasma dos teus dedos percorrem suavemente os meus, e partes, mais uma vez partes.

Sento-me na cama, sinto-me pesado, e cansado. Ninguém neste mundo acreditará do quanto preciso de uma boa noite de sono, em paz. E não as tenho há tanto, tanto tempo. Também elas foram contigo.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Amar e querer ficar

Há uma vida atrás... uma vida inteira antes de te conhecer, antes do Gonçalo sequer sonhar que existia a Sofia, eu criei o meu primeiro blog. Fechei-o por uma pirraça infantilóide, e de seguida criei outro. Nesse outro blog, seguia uma data de outros blogs - vários deles por razões que hoje nem consigo imaginar. Um deles, que eu até acho que era de alguém que eu conhecia pessoalmente, tinha o simpático nome 'Da janela do meu quarto vejo passar os eléctricos'. Da janela do meu quarto não vejo passar os eléctricos, até porque há décadas que os eléctricos não passam pelo Areeiro, e mesmo quando passavam, era mais acima da minha rua, na praça do Areeiro. Não, da janela do meu quarto eu vejo a minha rua. E, sem dúvida, é a mesma rua para o qual olhei incontáveis vezes, é a mesmíssima janela onde estive deus sabe quantas vezes em toda a minha vida. Mas pela primeira vez na minha vida... é a janela do meu quarto.

Mas o meu quarto actual, era parte da nossa sala de estar. No entanto, ela já tinha tido um configuração semelhante, há mais de trinta anos atrás. Quando viemos de Alenquer para cá, primeiramente ficámos onde era o meu quarto, eu, a minha mãe e a minha irmã. O meu irmão ficava no quarto pequeno que foi durante tantos anos a sala de costura da minha avó. Eventualmente, eu e o meu irmão ficámos os dois no meu antigo quarto, e a minha mãe e a minha irmã vieram para aqui onde estou, onde dormiam as duas num sofá cama. Agora é o meu quarto, e desta janela onde em míudo ficava a ver os relâmpagos com a minha avó, vejo as pessoas a passar, vejo o mundo a seguir em frente, indiferente á enorme ausência que a minha vida tem. 'Eppur si muove', dizia o Galileu. Mas eu nunca fui bom a seguir em frente. 

Era aqui a sala onde a minha avó via televisão, a mesma sala onde eu um dia, algures antes do verão de 2003, lhe disse que eu e a Dora nos tínhamos separado, e lhe perguntei se me podia mudar para cá. Ela disse que sim, claro, mas ficou tão triste - ela não compreendia, dizia que no tempo dela as pessoas ficavam juntas a vida toda. Eu não discuti, não disputei essa ideia que ela tinha. Nessa mesma sala, e na minha imaginação, num cenário muito semelhante ao outro, eu contei-lhe que me ia casar contigo, e pedi-lhe se podias vir para cá. Mas já não é essa sala, ela já não existe, e provavelmente não mais existirá. Tal como o meu antigo quarto, também ele já não existe. Aquele sítio onde fodemos tantas vezes, e passamos horas que me pareceram infinitas abraçados um ao outro, e onde nos beijámos com uma fome maior que o universo... já não existe. O sítio onde durante mais de um ano verti todas as minhas lágrimas, e caí num abismo do qual nunca voltei, ele já não existe. É tudo efémero, nada dura para sempre, as pessoas não ficam juntas uma vida toda, nada dura. Dura apenas um amor que não morre.

Foi uma coisa estranha, esta mudança. Se já voltei para cá não sei quantas vezes, nunca me tinha mudado dentro de casa. Teve de ser. O meu quarto era do outro lado do da minha avó. Sentado á secretária, dava por mim a desviar o olhar constantemente para o corredor, para ver se a via a passar. Eu vou vê-la sempre, aqui, lá fora, na minha cabeça. A minha esperança, ínfima embora seja, é que aqui me sinta um pouco menos sozinho. Num quarto bem mais compacto, sem memórias, sem bagagem. Isto é, fora todas as memórias e bagagem que ele já traz consigo. Mas eu não consigo deixar de ser incrivelmente estúpido. Hoje ao princípio da noite estava á janela, e estava a olhar para as pessoas, e de repente vejo uma moça que me pareceu seres tu. O meu coração palpitou, dei por mim a imaginar que me vinhas tocar á porta (sei lá eu se ainda sabes onde moro) e vinhas-me dar um abraço e ias-me dizer que não ia doer mais. Mas depois caio na realidade, e apercebo-me que eu sou eu, e claro que estas coisas não acontecem na minha vida. 

Estranhei a minha cama durante os primeiros três ou quatro dias que cá dormi. É a mesma cama onde fodemos, onde dormimos, onde nos amámos, onde nos pedimos em casamento, mas para mim foi como se estivesse a voltar aos meus tempos de morar em Londres, em que me mudei de casa uma série de vezes, e nunca conseguia dormir bem nas primeiras noites. Era tudo demasiado estranho, os ruídos dentro e fora da casa incomodavam-me, as camas pareciam feitas de cimento, embora eu soubesse que era apenas psicológico. Dava por mim a virar-me e a revirar-me na cama durante horas a fio sem conseguir adormecer, até que finalmente caia no sono umas duas horas antes de ter de acordar. Agora foi assim, de certo modo. Foi uma habituação diferente, e as mudanças adicionais que fui fazendo nestes dias acabaram por amenizar essa sensação de desconforto. Mas falta algo. Há muito que me falta algo. Falta-me a melhor parte de mim. Falta-me algo que nunca mais terei. E quem me dera ter tido a tua presença nesta escuridão toda. Precisei tanto de... de tudo. E não o queria de mais ninguém. Não o quero de mais ninguém. Mas tanta gente sente isto, não é? Querer sem ser querido de volta, amar sem ser amado. Na cidade, no campo, em todo o lado, todos sentem isto. Não sou especial, neste sentido. Sou apenas mais um, tal como, no fim, também o fui para ti.

sexta-feira, 6 de junho de 2025

E se ao menos tudo fosse igual a ti

Sabes, a minha avó gostava de ti. Foi, talvez, a primeira pessoa a notar o efeito que tiveste em mim, como me mudaste para melhor. Eu já estava cansado da vida antes de ti, já estava destruído antes de ti, já não me restava na alma muita esperança que as coisas pudessem mudar. Mas tu vieste, e mudaste-me, e eu tornei-me uma pessoa melhor. Ela comentou isso com a minha irmã, que se via na paciência que tinha agora para os meus sobrinhos, especialmente para a Alice. Houve uma vez que fui ter com ela á sala, e me sentei ao lado dela, e lhe contei que nos íamos casar. Eu já não consigo precisar a razão, mas nessa altura a tua relação com a tua mãe não estava boa, e querias sair de tua casa, e eu disse-te que podias ficar aqui, mesmo sem ter pedido antes á minha avó. Nessa altura que estava a falar com ela, perguntei-lhe se se podiam mudar para aqui, e ela disse que sim. E a minha avó abrir a privacidade da sua casa a pessoas que mal conhecia, não era uma coisa fácil. 
Ontem foi o velório dela, e destapar-lhe o rosto foi a coisa mais difícil que alguma vez fiz. Quando a vi ali, inerte, foi tão difícil conciliar que ela, que sempre foi um dínamo de energia e força, tinha ficado reduzida a uma versão mirrada dela mesmo. Apenas lhe consegui dizer obrigado. Pelo meio das lágrimas, e a última vez que chorei assim tão profundamente desde o fundo da minha alma foi quando te foste, agradeci-lhe vezes e vezes sem conta. Por tudo. Por tudo. Ela deu-me tudo. Ela deu-me vida. Dei-lhe um último beijo, na sua testa gelada, e desejei-lhe um bom descanso.
Hoje partiu o corpo dela, ela doou-o á Faculdade de Medicina para estudos científicos. Fui para a Igreja de São João de Deus - a mesma onde sonhava que nos iríamos casar - e quando lá chego já lá está a minha irmã, com uma colega do trabalho. Não muito tempo depois, chega outra colega dela, e senta-se ao lado da minha irmã. Eu estava sentado do outro lado da capela mortuária, e de uma maneira um pouco distante, ia observando o que elas faziam. A dada altura, a colega da minha irmã faz-lhe festas no cabelo, e eu senti um aperto enorme no coração. Lembrei-me de uma vez que estávamos deitados na minha cama, e passaste a tua mão pelo meu cabelo. Uma meia hora depois, talvez um pouco mais, chega o meu irmão, e ele fica ao lado da minha irmã, passando a colega para outra cadeira. Quando começou a cerimónia religiosa que estava agendada, vi a minha irmã a apertar com força a mão do meu irmão. Nesse momento, nesse momento todo, senti-me realmente a mais inadequada pessoa á face da terra, repugnante, desprezível, indigna do mais pequeno afecto. Precisei de coisas que nunca terei de novo.
Sinto-me tão sozinho. Tão, tão sozinho. E só ficarei mais sozinho ainda.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Longa é a noite

Durante décadas julguei que o dia mais triste da minha vida tinha sido o dia em que fiz oito anos. Eu acho que já contei esta história antes, mas nesse oito de agosto de 1985, o pequeno Gonçalo viveu a sua primeira crise existencial. Foi nesse dia que me apercebi - seja porque razão for - que estava a ficar mais velho. E por isto quero dizer que talvez me tenha apercebido pela primeira vez que o tempo estava a passar, e que o nosso tempo aqui seria finito, e se o tempo passava para mim, então passava também para aqueles que eu mais amava. Morava ainda no Forte da Casa, e o meu pranto levou-me a deitar-me na minha cama, e a chorar inconsolavelmente. A única coisa que me passava pela cabeça - e que me triturava o coração - era que não queria que a minha avó morresse. Não queria. O mero pensamento deixava-me doente na alma. Não conseguia parar de chorar, até que a minha avó foi ter comigo, e tudo ficou melhor. Durante décadas julguei que o dia mais triste da minha vida tinha sido o dia em que fiz oito anos. Mas o dia em que te foste embora foi mais triste que esse. 
Testemunhar o ocaso da vida da minha avó tem sido devastador. Estas duas últimas semanas foram das mais difíceis da minha vida. Por muito que me estivesse a preparar mentalmente para isto há uma série de anos, não conseguia imaginar o que realmente iria ser. E agora... agora vou ter de viver o resto dos meus dias a tentar viver com o facto de nos primeiros dias me vir o vómito á garganta sempre que me aproximava dela para a levar para a casa de banho. Vou ter de viver para sempre com o peso de não ter tido paciência para lhe explicar pela milésima primeira vez algo que já lhe tinha explicado mil vezes antes, coisas que para mim eram básicas, mas que a minha impaciência não me deixou ver que ela achava que era algo complexo. Vou ter de viver sempre com o remorso de todas as vezes que lhe levantei a voz. Vou ter de viver sempre com o ter visto a minha avó a ter uma regressão repentina, rápida e brutal, e a torre de força que sempre foi e sempre conheci, eu vi ser substituída por algo que cada vez se parecia menos com ela. Por vezes olhava para ela, e ela já nem era uma pessoa - era um bébé gigante preso num esqueleto. E eu não quero que essa imagem substitua alguma vez a que tenho desde sempre - lembro-me dela me estar a ensinar a ler e a escrever ainda antes de entrar para a escola, lembro-me da primeira vez que comi frango no churrasco, morávamos no Forte da Casa e uma tarde passámos por uma churrasqueira e o cheiro do frango deixou-me louco, e ela comprou para o nosso jantar essa noite. Lembro-me de quando comprámos o meu primeiro livro de BD no Algarve. Lembro-me quando nos deu tudo, tudo e mais alguma coisa, mesmo que para ela sobrasse pouco, ou em alguns casos, nada. Quando a minha mãe terminou o curso de direito, com muito esforço comprou-lhe um carro em segunda mão. Numa altura em que não havia possibilidades de haver grandes luxos, consegui convencer a minha avó a comprar-nos uma consola da Nintendo, que custou um balúrdio. Lembro-me da dor e do sacrifício que era para ela ir todas as semanas visitar o meu irmão á prisão. Lembro-me de como ela sempre nos abriu a casa, por muito tensas que as nossas relações interpessoais pudessem ter sido no momento. Lembro-me da queda que dei na estufa fria, quando era pequeno, e caí dentro de água, ficando todo molhado, e como era verão, ela tirou-me a roupa toda, e que lá fiquei em pelota á espera que a roupa secasse. Lembro-me de todas as vezes que falámos sobre o Benfica. Lembro-me de quando a levei ao cinema - juntei dinheiro para ser eu a pagar os bilhetes - para vermos o filme 'Sempre', do Steven Spielberg. Eu tenho tantas, tantas memórias dela. Todas as sandes de paio que ela me fez. Todas as vezes que nos levou ás piscinas do Campo Grande. Todas as histórias que me contou N mil vezes, e que eu já não queria ouvir de novo, e agora irei viver sempre sem as ouvir mais uma vez. 
A minha avó deu-me tudo, e eu não consegui nunca dizer-lhe o que ela significava para mim. Nos últimos dias, estava no quarto dela a limpá-la, e disse-lhe que se não fosse por causa dela eu não estaria vivo. Se tive um teto nos piores momentos da minha vida, foi por causa dela. Se tive de comer nos meus piores dias, foi porque ela mo vinha trazer á cama, numa altura em que eu não conseguia sequer sair dela. A minha avó sempre me fez a cama - por muito que lhe dissesse que não queria e que não era preciso. E ela dizia que estava bem, que não fazia, mas quando saía de casa ela tratava de a ir logo fazer. Tantas vezes fiquei possesso e gritei com ela, apenas por ela me fazer uma gentileza. Agora olho para a minha cama e esta será sempre a última cama que ela me terá feito. Como posso eu desfazê-la?
A última vez que vi a minha avó estava ela deitada no sofá da sala, junto á varanda, provavelmente o sítio onde mais se sentiu confortável nestes últimos dias. Tive de ir á rua tratar de uma coisa, e quando cheguei a casa já estava uma ambulância á porta. Não muito tempo depois disso, estava a ser levada para o hospital, e eu não a voltei a ver. Ainda tivemos esperança que a conseguíssemos visitar, ainda nutrimos a esperança que ela pudesse estabilizar e passar o resto do seu tempo connosco. A minha avó não merecia ir assim, sozinha, e com uma doença que ninguém sabia que ela tinha a causar-lhe um sofrimento enorme. Não merecia, é demasiado cruel.
Tantas pessoas a conheceram como a Dona Celeste, ela foi tão boa para tanta gente. Para mim foi a minha Avó Celeste, e eu espero que a alma dela tenha encontrado a paz que merece. 

sábado, 24 de maio de 2025

Da geada às pérolas, as fontes secaram

As memórias são uma coisa fodida. No início desta semana que passou, o meu amigo Sérgio enviou-me um email, e depois uma série de mensagens, e não tive nem forças nem coragem para lhe responder até ontem. Sentado no sofá da minha sala, enquanto olhava para pessoas perfeitas com vidas perfeitas a comer gelados á frente de minha casa, eu quase disse uma coisa ao Sérgio, e mentalmente censurei-me. Lembrei-me da última vez que a disse a alguém, e como todo esse cenário decorreu. Certo dia fui ao cinema com a Sónia, e a moça tinha-lhe vindo o período nesse dia. Durante a viagem para o Fórum Almada, foi um chorrilho interminável de ofensas dirigidas a mim, incluindo a nunca antes ouvida alusão ao tamanho da minha pila, o quão inadequado fisicamente eu era, isto quando não se virava para mim e me dava palmadas no braço. Durante toda a sessão de cinema não trocámos uma palavra, e a caminho de casa, dei por mim a chorar. Ela perguntou-me, completamente sem paciência para mim, e para as minhas merdas, o que é que se passava. Eu abanei a cabeça, disse que não se passava nada, limpei as lágrimas, e fomos em silêncio até casa dela. Quando lá chegámos, ela perguntou-me novamente o que se passava, e eis que o Gonçalo comete o grande erro de lhe dizer o que se passava : disse-lhe que nunca tinha gostado muito desta coisa de estar vivo. E a pobre Sónia, abesbílica com as minhas palavras, olha para mim com um ar tão franca e absurdamente desapontado, um olhar de nojo a cruzar o seu semblante brevemente, e depois responde-me, 'Oh amor, deixa-te lá dessas coisas.'
E eu deixei - nunca mais me voltei a abrir a alguém, aprendi aqui a minha lição. Esta memória é-me particularmente relevante neste momento, neste momento em que me sinto cansado de estar vivo. Mas eu agora sou irrelevante, face a tudo o resto. A minha avó está manifestamente a perder faculdades, quer físicas, quer mentais. Esta semana que passou acordei várias vezes durante a noite, com a impressão que me estavam a chamar, e quando me levanto dou com ela estatelada no chão da casa de banho. Quando a ajudo a voltar para a cama, cada vez mais vejo uma pessoa que não tem vontade alguma de cá continuar. E é doloroso ver uma pessoa que foi tão forte durante tantos, tantos anos, a não ter sequer forças para levantar uma perna. Antes desta semana, se me perguntassem qual a cor dos olhos da minha avó, eu teria respondido, com toda a certeza, que eram castanhos. Agora, quando olho nos olhos dela, vejo-os de um azul tão, tão claro, que mais parece branco. E questiono-me agora se é uma metamorfose recente ou se sempre foram claros e eu nunca reparei. Em milhentos livros que li, lembro-me sempre de ler que as pessoas quando estavam no seu leito da morte ficavam com os olhos assim, claros, com uma membrana transparente a cobri-los, tal como a minha avó tem. Esta casa cheira-me a morte. Há um odor inumano no ar, e mesmo os gatos o sentem. E pressentem-no, rondam o quarto da minha avó, ficam sentados á porta a olhar lá para dentro. Por vezes, não consigo ouvir a voz dela a chamar-me, e quando olho para fora da porta do meu quarto, reparo que está lá um dos gatos a olhar fixamente para mim, como que a dizer-me que ela está chamar por mim.
Conto os raios de luz que ainda me sobram, e são cada vez mais escassos. Sinto-me cada vez mais cansado. Tudo me pesa. O coração pesa-me. A alma pesa-me. Precisava... precisava de coisas impossíveis. Resta-me apenas o que é possível. Resta-me toda uma vida para chorar. 

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Dorme, que ainda a noite é uma menina

Em... quê, 2015 ou 2016?, conheci uma miúda tão gira, e sinto uma trepidação grande em escrever o nome dela sequer, porque sei como estas merdas têm uma maneira estranha de se manifestar. Ainda por cima a moça tem um nome tão sui generis que fico até na dúvida se se conhecem ou não, mas seja como for, eu e a Eliana saímos um par de vezes nessa altura. A primeira vez, e por alguma razão que não consigo imaginar, ou lembrar-me sequer, passámos uma boa parte da noite abraçados um ao outro - apenas isso - e no final da noite, oh oh oh, ela veio levar-me a casa na sua mota, a única vez que andei de mota com uma miúda, mas e daí a única outra pessoa (creio) com quem andei de mota foi o meu irmão. Já á frente de minha casa, há ali um momento em que julgo que nos vamos beijar, e ela diz-me que não me vai beijar. Eu entendi, é justo. Porque haveria ela de me querer beijar? Raios, porque é que alguma vez alguém me iria querer beijar? But more on that later. Ela disse-me algo nessa noite que entendi bem, embora numa perspectiva diferente da dela : ela disse que não se queria envolver com alguém, porque quando o faz sabe sempre que consegue arranjar melhor. Ok, eu entendo, na boa. Porque eu sempre soube que quando me envolvia com uma pessoa, que ela conseguia arranjar melhor que eu - não que fosse terrivelmente difícil, na realidade. Não sei se consigo garantir a 100% que tenha sido o que aconteceu entre todas as vezes, mas em grande parte das minhas relações anteriores - nas quais incluo apenas as que foram mais relevantes, não incluo aqui nada que não tenha sido superior a um mês, e mesmo assim, num caso ou outro chamar a coisa de 'relação' é ser generoso - houve sempre uma escolha que teve de ser feita entre mim e outra pessoa. Por vezes foi mesmo antes da relação começar, outras logo ao início, e algumas vezes durante a própria relação em si, mas o que eu sei foi que nunca compreendi exactamente porque é que a escolha recaiu sobre mim. Algumas vezes eu sabia quem a alternativa teria sido, noutras vim a descobrir mais tarde. Qualquer uma das opções que não fosse eu teria sempre sido a mais sensata. Eram pessoas com quem eu não podia competir sequer, não tinha os mesmos atributos físicos, não tinha empregos como eles, nem sequer tinha qualquer espécie de perspectiva de ficar melhor. Em alguns casos - especificamente nas pessoas que soube que não foram escolhidas, e que de algum modo conhecia, ou conseguia descobrir coisas sobre elas - esta minha incompreensão multiplicava N vezes mais. Havia tipos que escreviam mesmo bem, ou que eram artistas, ou que sabiam cantar ou tocar música. Certamente mais interessantes e inteligentes que eu, e céus - também não é preciso muito. Então porquê eu? Não sei, mas o padrão, eu depois comecei a detectar. Muita tesão, e muito fascínio, e muita paixão no início, que ia desaparecendo - umas vezes mais rapidamente que outras - e eventualmente as pessoas escolhiam estar com outra pessoa que não eu. E eu sempre entendi isso - não seria difícil arranjar melhor que eu. Entender tudo isto não significa que não custava, que não doía. E não doeu sempre - houve vezes que quando aconteceu foi um alívio finalmente a história acabar. Nunca ressenti alguém por não me querer ou não gostar de mim. Porque o faria? Há tanta escolha por aí, e sempre soube que tudo o resto seria melhor que eu.
Ouve - eu nunca tive amor próprio. Nunca. E sempre o soube desde pequeno. Há aquelas pessoas que se conseguiam olhar ao espelho e dizer para elas mesmas que se tornariam melhores, as melhores versões possíveis delas. Eu não nasci assim, eu nasci com a noção concreta do quão falho de certas coisas era. Mais do que saber aquilo que queria para mim, soube aquilo que não queria para mim, o que me levou a tomar decisões que iriam impactar o meu futuro. E se se pode debater se as tomei conscientemente ou não, a verdade é que quem as tomou fui eu e sempre me responsabilizei por elas. Decisões levam a acções, acções levam a rumos, e no fim, apenas uma pessoa é responsável por aquilo que quer ou deixa de querer para a sua vida. Eu sei o que quis, eu sei o que fiz, eu sei o que pensei, eu sei como pensei, e tudo o que fiz e decidi, fi-lo sabendo plenamente quais as suas consequências. E se há uma constante na minha vida, é o quanto eu (maioritariamente) nunca gostei de mim. Se calhar isto que estou a dizer não faz muito sentido, eu sei. Em puto eu tinha milhentos sonhos de me casar e ter família, e essas coisas todas, mas já nessa altura não me sentia merecedor de ser amado. Todas as outras pessoas sim, eu não. E isso estendeu-se durante toda a minha vida : eu não gostei de mim quando era puto, não gostei de mim quando era adolescente, não gostei de mim os anos todos em que estive com a Dora, não gostei de mim quando estive com a Sílvia, não gostei de mim quando andava por aí a foder sei lá quantas mulheres, e não gosto de mim agora. Mas quando estive contigo... tu não imaginas o quanto gostei de mim. Não era só o gostar de mim, nem o sentir-me feliz, pela primeira vez na minha vida eu senti-me feliz por estar vivo. Feliz por ter-te. Feliz por conseguir querer que o dia seguinte viesse o mais rápido possível para estar contigo de novo. Eu.. eu queria. Eu tinha esperança. E queria tornar-me alguém que realmente fosse merecedor de ser amado, não por qualquer outra pessoa, mas por ti. Como quis ser merecedor de ser amado por ti, sabes?
Não gosto de mim desde... desde há muito tempo. E não gostar de mim cansa. Cansa ao ponto de eu há muito não querer estar aqui. E eu... já não tenho a coragem necessária para fazer algo. Leste 'O Perfume', estou certo. Há uma parte, lá mais para o fim do livro, em que o personagem principal - Jean-Baptiste Grenouille - é finalmente apanhado e condenado pelos seus crimes hediondos, mas antes de ser executado, ele unta-se com o perfume que criou a partir das suas vítimas, e a sua fragrância é de tal modo potente que toda a gente que o via via-o como o seu supremo ideal : as freiras viam nele o Messias encarnado, os adoradores de satã viam nele o príncipe das trevas; as jovens mulheres viam nele um príncipe encantado, e os homens viam nele um reflexo ideal deles mesmos. Ainda antes da Carina - que foi algo completamente inesperado, e condenado ao insucesso desde muito cedo - já eu tinha um plano em marcha para ser o oposto polar do Jean-Baptiste Grenouille : quis que ninguém olhasse para mim e sentisse a mínima atracção possível. Pelo contrário, quis que olhassem para mim e sentissem até uma certa repulsa. Quis que pensassem que esta pobre criatura que lhes conspurcou a vista não seria merecedora do amor de ninguém. E, salvo essa breve excepção da Carina, tenho conseguido fazê-lo com sucesso. Se eu não quero que ninguém olhe para mim, porque quis eu que olhasses para mim? Porque me doeu tanto não conseguires sequer olhar para mim? Não imaginas o quanto eu não gostei de mim nesse momento. Senti mesmo que não merecia sequer o teu olhar, quanto mais o teu amor. Eu já não gostava de mim antes de ti, Sofia. Mas aqueles poucos meses que tivemos... ah, porque não duraram para sempre? Eu sei, eu sei. Escrevi um post, quando narrei a nossa história, que teve como título 'The Bitter End', e na realidade não foi um final amargo. Foi apenas um final fácil de entender.
[Hoje fazem anos duas pessoas que em tempos conheci : o meu pai faz 80 anos, e por esta altura são muitos mais os anos que não o conheço dos que tive quando o conheci. Também a Sónia faz anos, 51, mas continua a parecer décadas mais nova. Hoje pensei em ambos, por razões diferentes. Daqui por uns meses fará um ano desde que me deste os parabéns pela primeira vez. Houve tanta coisa que ficou por fazer. Por dizer. Tanta coisa que deveria ter acontecido. Tanta possibilidade, pontuada por um eterno 'se'. Se apenas fosse tão simples, não é? Mas não é.]

domingo, 11 de maio de 2025

E este vento que te navega na pele pede-me a paz

Quando sonho contigo - quando sonho connosco - nem sempre és tu, nem sempre sou eu. Refiro-me a sermos fisicamente nós; não somos. Mas é a mesma energia, é o mesmo fio condutor. São outros corpos, são outras pessoas, são outras realidades, mas somos nós. Não me recordo já onde terei lido isto, ou se calhar foi algo que vi num filme ou na TV, mas recordo-me de em puto ter lido que os sonhos eram uma espécie de janela para realidades paralelas. Aquilo que víamos ou experienciávamos nos sonhos eram acontecimentos reais que ocorriam numa qualquer realidade que não esta. Não sei se será verdade ou não, mas quem sou eu para julgar? 
Há umas noites atrás estava a ter um sonho que envolvia duas pessoas que se tinham conhecido há relativamente pouco tempo, estavam na fase inicial da sua relação, naquela lua de mel em que tudo parece perfeito e ideal. Embora se tivessem conhecido recentemente, havia entre ambos a sensação que já se conheciam há muito tempo. Não saberiam dizer de onde, ou quando, mas certamente não nesta vida. 
É aquela fase da relação onde tudo é novo, tudo é um mistério, tudo fascina. Onde as pessoas se vão testando, para entenderem até podem ir uma com a outra. E estas duas pessoas estão as duas deitadas dentro de uma banheira cheia de água morna, embora o dia esteja quente. Ele, com as costas viradas para o rebordo da banheira, e ela, entre as pernas dele, e o silêncio que reina entre ambos apenas é pontuado pelo tímido cair das gotas que, lânguidas, caem da torneira. E no meio deste silêncio, ela diz-lhe 'A rapariga do supermercado, ela era bem gira, não achas?', e ele responde, 'Qual rapariga?'. 'Tu sabes', diz ela, 'aquela da franjinha, que tu engraçaste com ela.', e ele ri-se, e coloca os braços á volta dela, agarrando os seus seios. 'Ah engracei, é? Muito me contas.' 
Ela vira o seu rosto para o dele, e nos seus olhos vê-se alguma fragilidade, alguma dúvida. 'Podes dizer que é á vontade, não te preocupes.', ela diz. Mas ele abana a cabeça, e diz que não. 'A tua ex era bonita, não era?', continua ela. Ele sorri, e ela vê o sorriso dele. Mas não é um sorriso, necessariamente, de felicidade. Ele permanece em silêncio durante uns segundos, e depois responde 'Sim, era. Muito bonita mesmo. Mas não era belíssima. Apenas acho belíssimas as mulheres que amo.' Isto deixa-a, de certo modo, insegura, e ela pergunta, baixinho 'Tu achas que eu sou bonita?' e ele responde que não. 'Não?', pergunta ela, e ele responde de novo 'Não'. Paira no ar durante uns segundos um silêncio que a magoa. Sentindo isso, ele puxa-a para ainda mais perto, e diz-lhe, 'Não. Não acho que sejas bonita. És belíssima.', e ao ouvir isto, ela gira o corpo na banheira e fica como que deitada, meio de lado, em cima dele, com a sua cabeça no peito dele. 'Tu amas-me?', pergunta ela, mas a pergunta é feita como se por alguém que não acreditava ser merecedor de ser amado. E ele responde de uma maneira condizente com quem já tinha sido magoado pelo amor. 'Receio bem que sim', diz ele.