Em... quê, 2015 ou 2016?, conheci uma miúda tão gira, e sinto uma trepidação grande em escrever o nome dela sequer, porque sei como estas merdas têm uma maneira estranha de se manifestar. Ainda por cima a moça tem um nome tão sui generis que fico até na dúvida se se conhecem ou não, mas seja como for, eu e a Eliana saímos um par de vezes nessa altura. A primeira vez, e por alguma razão que não consigo imaginar, ou lembrar-me sequer, passámos uma boa parte da noite abraçados um ao outro - apenas isso - e no final da noite, oh oh oh, ela veio levar-me a casa na sua mota, a única vez que andei de mota com uma miúda, mas e daí a única outra pessoa (creio) com quem andei de mota foi o meu irmão. Já á frente de minha casa, há ali um momento em que julgo que nos vamos beijar, e ela diz-me que não me vai beijar. Eu entendi, é justo. Porque haveria ela de me querer beijar? Raios, porque é que alguma vez alguém me iria querer beijar? But more on that later. Ela disse-me algo nessa noite que entendi bem, embora numa perspectiva diferente da dela : ela disse que não se queria envolver com alguém, porque quando o faz sabe sempre que consegue arranjar melhor. Ok, eu entendo, na boa. Porque eu sempre soube que quando me envolvia com uma pessoa, que ela conseguia arranjar melhor que eu - não que fosse terrivelmente difícil, na realidade. Não sei se consigo garantir a 100% que tenha sido o que aconteceu entre todas as vezes, mas em grande parte das minhas relações anteriores - nas quais incluo apenas as que foram mais relevantes, não incluo aqui nada que não tenha sido superior a um mês, e mesmo assim, num caso ou outro chamar a coisa de 'relação' é ser generoso - houve sempre uma escolha que teve de ser feita entre mim e outra pessoa. Por vezes foi mesmo antes da relação começar, outras logo ao início, e algumas vezes durante a própria relação em si, mas o que eu sei foi que nunca compreendi exactamente porque é que a escolha recaiu sobre mim. Algumas vezes eu sabia quem a alternativa teria sido, noutras vim a descobrir mais tarde. Qualquer uma das opções que não fosse eu teria sempre sido a mais sensata. Eram pessoas com quem eu não podia competir sequer, não tinha os mesmos atributos físicos, não tinha empregos como eles, nem sequer tinha qualquer espécie de perspectiva de ficar melhor. Em alguns casos - especificamente nas pessoas que soube que não foram escolhidas, e que de algum modo conhecia, ou conseguia descobrir coisas sobre elas - esta minha incompreensão multiplicava N vezes mais. Havia tipos que escreviam mesmo bem, ou que eram artistas, ou que sabiam cantar ou tocar música. Certamente mais interessantes e inteligentes que eu, e céus - também não é preciso muito. Então porquê eu? Não sei, mas o padrão, eu depois comecei a detectar. Muita tesão, e muito fascínio, e muita paixão no início, que ia desaparecendo - umas vezes mais rapidamente que outras - e eventualmente as pessoas escolhiam estar com outra pessoa que não eu. E eu sempre entendi isso - não seria difícil arranjar melhor que eu. Entender tudo isto não significa que não custava, que não doía. E não doeu sempre - houve vezes que quando aconteceu foi um alívio finalmente a história acabar. Nunca ressenti alguém por não me querer ou não gostar de mim. Porque o faria? Há tanta escolha por aí, e sempre soube que tudo o resto seria melhor que eu.
Ouve - eu nunca tive amor próprio. Nunca. E sempre o soube desde pequeno. Há aquelas pessoas que se conseguiam olhar ao espelho e dizer para elas mesmas que se tornariam melhores, as melhores versões possíveis delas. Eu não nasci assim, eu nasci com a noção concreta do quão falho de certas coisas era. Mais do que saber aquilo que queria para mim, soube aquilo que não queria para mim, o que me levou a tomar decisões que iriam impactar o meu futuro. E se se pode debater se as tomei conscientemente ou não, a verdade é que quem as tomou fui eu e sempre me responsabilizei por elas. Decisões levam a acções, acções levam a rumos, e no fim, apenas uma pessoa é responsável por aquilo que quer ou deixa de querer para a sua vida. Eu sei o que quis, eu sei o que fiz, eu sei o que pensei, eu sei como pensei, e tudo o que fiz e decidi, fi-lo sabendo plenamente quais as suas consequências. E se há uma constante na minha vida, é o quanto eu (maioritariamente) nunca gostei de mim. Se calhar isto que estou a dizer não faz muito sentido, eu sei. Em puto eu tinha milhentos sonhos de me casar e ter família, e essas coisas todas, mas já nessa altura não me sentia merecedor de ser amado. Todas as outras pessoas sim, eu não. E isso estendeu-se durante toda a minha vida : eu não gostei de mim quando era puto, não gostei de mim quando era adolescente, não gostei de mim os anos todos em que estive com a Dora, não gostei de mim quando estive com a Sílvia, não gostei de mim quando andava por aí a foder sei lá quantas mulheres, e não gosto de mim agora. Mas quando estive contigo... tu não imaginas o quanto gostei de mim. Não era só o gostar de mim, nem o sentir-me feliz, pela primeira vez na minha vida eu senti-me feliz por estar vivo. Feliz por ter-te. Feliz por conseguir querer que o dia seguinte viesse o mais rápido possível para estar contigo de novo. Eu.. eu queria. Eu tinha esperança. E queria tornar-me alguém que realmente fosse merecedor de ser amado, não por qualquer outra pessoa, mas por ti. Como quis ser merecedor de ser amado por ti, sabes?
Não gosto de mim desde... desde há muito tempo. E não gostar de mim cansa. Cansa ao ponto de eu há muito não querer estar aqui. E eu... já não tenho a coragem necessária para fazer algo. Leste 'O Perfume', estou certo. Há uma parte, lá mais para o fim do livro, em que o personagem principal - Jean-Baptiste Grenouille - é finalmente apanhado e condenado pelos seus crimes hediondos, mas antes de ser executado, ele unta-se com o perfume que criou a partir das suas vítimas, e a sua fragrância é de tal modo potente que toda a gente que o via via-o como o seu supremo ideal : as freiras viam nele o Messias encarnado, os adoradores de satã viam nele o príncipe das trevas; as jovens mulheres viam nele um príncipe encantado, e os homens viam nele um reflexo ideal deles mesmos. Ainda antes da Carina - que foi algo completamente inesperado, e condenado ao insucesso desde muito cedo - já eu tinha um plano em marcha para ser o oposto polar do Jean-Baptiste Grenouille : quis que ninguém olhasse para mim e sentisse a mínima atracção possível. Pelo contrário, quis que olhassem para mim e sentissem até uma certa repulsa. Quis que pensassem que esta pobre criatura que lhes conspurcou a vista não seria merecedora do amor de ninguém. E, salvo essa breve excepção da Carina, tenho conseguido fazê-lo com sucesso. Se eu não quero que ninguém olhe para mim, porque quis eu que olhasses para mim? Porque me doeu tanto não conseguires sequer olhar para mim? Não imaginas o quanto eu não gostei de mim nesse momento. Senti mesmo que não merecia sequer o teu olhar, quanto mais o teu amor. Eu já não gostava de mim antes de ti, Sofia. Mas aqueles poucos meses que tivemos... ah, porque não duraram para sempre? Eu sei, eu sei. Escrevi um post, quando narrei a nossa história, que teve como título 'The Bitter End', e na realidade não foi um final amargo. Foi apenas um final fácil de entender.
[Hoje fazem anos duas pessoas que em tempos conheci : o meu pai faz 80 anos, e por esta altura são muitos mais os anos que não o conheço dos que tive quando o conheci. Também a Sónia faz anos, 51, mas continua a parecer décadas mais nova. Hoje pensei em ambos, por razões diferentes. Daqui por uns meses fará um ano desde que me deste os parabéns pela primeira vez. Houve tanta coisa que ficou por fazer. Por dizer. Tanta coisa que deveria ter acontecido. Tanta possibilidade, pontuada por um eterno 'se'. Se apenas fosse tão simples, não é? Mas não é.]
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