domingo, 11 de maio de 2025

E este vento que te navega na pele pede-me a paz

Quando sonho contigo - quando sonho connosco - nem sempre és tu, nem sempre sou eu. Refiro-me a sermos fisicamente nós; não somos. Mas é a mesma energia, é o mesmo fio condutor. São outros corpos, são outras pessoas, são outras realidades, mas somos nós. Não me recordo já onde terei lido isto, ou se calhar foi algo que vi num filme ou na TV, mas recordo-me de em puto ter lido que os sonhos eram uma espécie de janela para realidades paralelas. Aquilo que víamos ou experienciávamos nos sonhos eram acontecimentos reais que ocorriam numa qualquer realidade que não esta. Não sei se será verdade ou não, mas quem sou eu para julgar? 
Há umas noites atrás estava a ter um sonho que envolvia duas pessoas que se tinham conhecido há relativamente pouco tempo, estavam na fase inicial da sua relação, naquela lua de mel em que tudo parece perfeito e ideal. Embora se tivessem conhecido recentemente, havia entre ambos a sensação que já se conheciam há muito tempo. Não saberiam dizer de onde, ou quando, mas certamente não nesta vida. 
É aquela fase da relação onde tudo é novo, tudo é um mistério, tudo fascina. Onde as pessoas se vão testando, para entenderem até podem ir uma com a outra. E estas duas pessoas estão as duas deitadas dentro de uma banheira cheia de água morna, embora o dia esteja quente. Ele, com as costas viradas para o rebordo da banheira, e ela, entre as pernas dele, e o silêncio que reina entre ambos apenas é pontuado pelo tímido cair das gotas que, lânguidas, caem da torneira. E no meio deste silêncio, ela diz-lhe 'A rapariga do supermercado, ela era bem gira, não achas?', e ele responde, 'Qual rapariga?'. 'Tu sabes', diz ela, 'aquela da franjinha, que tu engraçaste com ela.', e ele ri-se, e coloca os braços á volta dela, agarrando os seus seios. 'Ah engracei, é? Muito me contas.' 
Ela vira o seu rosto para o dele, e nos seus olhos vê-se alguma fragilidade, alguma dúvida. 'Podes dizer que é á vontade, não te preocupes.', ela diz. Mas ele abana a cabeça, e diz que não. 'A tua ex era bonita, não era?', continua ela. Ele sorri, e ela vê o sorriso dele. Mas não é um sorriso, necessariamente, de felicidade. Ele permanece em silêncio durante uns segundos, e depois responde 'Sim, era. Muito bonita mesmo. Mas não era belíssima. Apenas acho belíssimas as mulheres que amo.' Isto deixa-a, de certo modo, insegura, e ela pergunta, baixinho 'Tu achas que eu sou bonita?' e ele responde que não. 'Não?', pergunta ela, e ele responde de novo 'Não'. Paira no ar durante uns segundos um silêncio que a magoa. Sentindo isso, ele puxa-a para ainda mais perto, e diz-lhe, 'Não. Não acho que sejas bonita. És belíssima.', e ao ouvir isto, ela gira o corpo na banheira e fica como que deitada, meio de lado, em cima dele, com a sua cabeça no peito dele. 'Tu amas-me?', pergunta ela, mas a pergunta é feita como se por alguém que não acreditava ser merecedor de ser amado. E ele responde de uma maneira condizente com quem já tinha sido magoado pelo amor. 'Receio bem que sim', diz ele. 

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