quarta-feira, 4 de junho de 2025

Longa é a noite

Durante décadas julguei que o dia mais triste da minha vida tinha sido o dia em que fiz oito anos. Eu acho que já contei esta história antes, mas nesse oito de agosto de 1985, o pequeno Gonçalo viveu a sua primeira crise existencial. Foi nesse dia que me apercebi - seja porque razão for - que estava a ficar mais velho. E por isto quero dizer que talvez me tenha apercebido pela primeira vez que o tempo estava a passar, e que o nosso tempo aqui seria finito, e se o tempo passava para mim, então passava também para aqueles que eu mais amava. Morava ainda no Forte da Casa, e o meu pranto levou-me a deitar-me na minha cama, e a chorar inconsolavelmente. A única coisa que me passava pela cabeça - e que me triturava o coração - era que não queria que a minha avó morresse. Não queria. O mero pensamento deixava-me doente na alma. Não conseguia parar de chorar, até que a minha avó foi ter comigo, e tudo ficou melhor. Durante décadas julguei que o dia mais triste da minha vida tinha sido o dia em que fiz oito anos. Mas o dia em que te foste embora foi mais triste que esse. 
Testemunhar o ocaso da vida da minha avó tem sido devastador. Estas duas últimas semanas foram das mais difíceis da minha vida. Por muito que me estivesse a preparar mentalmente para isto há uma série de anos, não conseguia imaginar o que realmente iria ser. E agora... agora vou ter de viver o resto dos meus dias a tentar viver com o facto de nos primeiros dias me vir o vómito á garganta sempre que me aproximava dela para a levar para a casa de banho. Vou ter de viver para sempre com o peso de não ter tido paciência para lhe explicar pela milésima primeira vez algo que já lhe tinha explicado mil vezes antes, coisas que para mim eram básicas, mas que a minha impaciência não me deixou ver que ela achava que era algo complexo. Vou ter de viver sempre com o remorso de todas as vezes que lhe levantei a voz. Vou ter de viver sempre com o ter visto a minha avó a ter uma regressão repentina, rápida e brutal, e a torre de força que sempre foi e sempre conheci, eu vi ser substituída por algo que cada vez se parecia menos com ela. Por vezes olhava para ela, e ela já nem era uma pessoa - era um bébé gigante preso num esqueleto. E eu não quero que essa imagem substitua alguma vez a que tenho desde sempre - lembro-me dela me estar a ensinar a ler e a escrever ainda antes de entrar para a escola, lembro-me da primeira vez que comi frango no churrasco, morávamos no Forte da Casa e uma tarde passámos por uma churrasqueira e o cheiro do frango deixou-me louco, e ela comprou para o nosso jantar essa noite. Lembro-me de quando comprámos o meu primeiro livro de BD no Algarve. Lembro-me quando nos deu tudo, tudo e mais alguma coisa, mesmo que para ela sobrasse pouco, ou em alguns casos, nada. Quando a minha mãe terminou o curso de direito, com muito esforço comprou-lhe um carro em segunda mão. Numa altura em que não havia possibilidades de haver grandes luxos, consegui convencer a minha avó a comprar-nos uma consola da Nintendo, que custou um balúrdio. Lembro-me da dor e do sacrifício que era para ela ir todas as semanas visitar o meu irmão á prisão. Lembro-me de como ela sempre nos abriu a casa, por muito tensas que as nossas relações interpessoais pudessem ter sido no momento. Lembro-me da queda que dei na estufa fria, quando era pequeno, e caí dentro de água, ficando todo molhado, e como era verão, ela tirou-me a roupa toda, e que lá fiquei em pelota á espera que a roupa secasse. Lembro-me de todas as vezes que falámos sobre o Benfica. Lembro-me de quando a levei ao cinema - juntei dinheiro para ser eu a pagar os bilhetes - para vermos o filme 'Sempre', do Steven Spielberg. Eu tenho tantas, tantas memórias dela. Todas as sandes de paio que ela me fez. Todas as vezes que nos levou ás piscinas do Campo Grande. Todas as histórias que me contou N mil vezes, e que eu já não queria ouvir de novo, e agora irei viver sempre sem as ouvir mais uma vez. 
A minha avó deu-me tudo, e eu não consegui nunca dizer-lhe o que ela significava para mim. Nos últimos dias, estava no quarto dela a limpá-la, e disse-lhe que se não fosse por causa dela eu não estaria vivo. Se tive um teto nos piores momentos da minha vida, foi por causa dela. Se tive de comer nos meus piores dias, foi porque ela mo vinha trazer á cama, numa altura em que eu não conseguia sequer sair dela. A minha avó sempre me fez a cama - por muito que lhe dissesse que não queria e que não era preciso. E ela dizia que estava bem, que não fazia, mas quando saía de casa ela tratava de a ir logo fazer. Tantas vezes fiquei possesso e gritei com ela, apenas por ela me fazer uma gentileza. Agora olho para a minha cama e esta será sempre a última cama que ela me terá feito. Como posso eu desfazê-la?
A última vez que vi a minha avó estava ela deitada no sofá da sala, junto á varanda, provavelmente o sítio onde mais se sentiu confortável nestes últimos dias. Tive de ir á rua tratar de uma coisa, e quando cheguei a casa já estava uma ambulância á porta. Não muito tempo depois disso, estava a ser levada para o hospital, e eu não a voltei a ver. Ainda tivemos esperança que a conseguíssemos visitar, ainda nutrimos a esperança que ela pudesse estabilizar e passar o resto do seu tempo connosco. A minha avó não merecia ir assim, sozinha, e com uma doença que ninguém sabia que ela tinha a causar-lhe um sofrimento enorme. Não merecia, é demasiado cruel.
Tantas pessoas a conheceram como a Dona Celeste, ela foi tão boa para tanta gente. Para mim foi a minha Avó Celeste, e eu espero que a alma dela tenha encontrado a paz que merece. 

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