E eu deixei - nunca mais me voltei a abrir a alguém, aprendi aqui a minha lição. Esta memória é-me particularmente relevante neste momento, neste momento em que me sinto cansado de estar vivo. Mas eu agora sou irrelevante, face a tudo o resto. A minha avó está manifestamente a perder faculdades, quer físicas, quer mentais. Esta semana que passou acordei várias vezes durante a noite, com a impressão que me estavam a chamar, e quando me levanto dou com ela estatelada no chão da casa de banho. Quando a ajudo a voltar para a cama, cada vez mais vejo uma pessoa que não tem vontade alguma de cá continuar. E é doloroso ver uma pessoa que foi tão forte durante tantos, tantos anos, a não ter sequer forças para levantar uma perna. Antes desta semana, se me perguntassem qual a cor dos olhos da minha avó, eu teria respondido, com toda a certeza, que eram castanhos. Agora, quando olho nos olhos dela, vejo-os de um azul tão, tão claro, que mais parece branco. E questiono-me agora se é uma metamorfose recente ou se sempre foram claros e eu nunca reparei. Em milhentos livros que li, lembro-me sempre de ler que as pessoas quando estavam no seu leito da morte ficavam com os olhos assim, claros, com uma membrana transparente a cobri-los, tal como a minha avó tem. Esta casa cheira-me a morte. Há um odor inumano no ar, e mesmo os gatos o sentem. E pressentem-no, rondam o quarto da minha avó, ficam sentados á porta a olhar lá para dentro. Por vezes, não consigo ouvir a voz dela a chamar-me, e quando olho para fora da porta do meu quarto, reparo que está lá um dos gatos a olhar fixamente para mim, como que a dizer-me que ela está chamar por mim.
Conto os raios de luz que ainda me sobram, e são cada vez mais escassos. Sinto-me cada vez mais cansado. Tudo me pesa. O coração pesa-me. A alma pesa-me. Precisava... precisava de coisas impossíveis. Resta-me apenas o que é possível. Resta-me toda uma vida para chorar.
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