sábado, 24 de maio de 2025

Da geada às pérolas, as fontes secaram

As memórias são uma coisa fodida. No início desta semana que passou, o meu amigo Sérgio enviou-me um email, e depois uma série de mensagens, e não tive nem forças nem coragem para lhe responder até ontem. Sentado no sofá da minha sala, enquanto olhava para pessoas perfeitas com vidas perfeitas a comer gelados á frente de minha casa, eu quase disse uma coisa ao Sérgio, e mentalmente censurei-me. Lembrei-me da última vez que a disse a alguém, e como todo esse cenário decorreu. Certo dia fui ao cinema com a Sónia, e a moça tinha-lhe vindo o período nesse dia. Durante a viagem para o Fórum Almada, foi um chorrilho interminável de ofensas dirigidas a mim, incluindo a nunca antes ouvida alusão ao tamanho da minha pila, o quão inadequado fisicamente eu era, isto quando não se virava para mim e me dava palmadas no braço. Durante toda a sessão de cinema não trocámos uma palavra, e a caminho de casa, dei por mim a chorar. Ela perguntou-me, completamente sem paciência para mim, e para as minhas merdas, o que é que se passava. Eu abanei a cabeça, disse que não se passava nada, limpei as lágrimas, e fomos em silêncio até casa dela. Quando lá chegámos, ela perguntou-me novamente o que se passava, e eis que o Gonçalo comete o grande erro de lhe dizer o que se passava : disse-lhe que nunca tinha gostado muito desta coisa de estar vivo. E a pobre Sónia, abesbílica com as minhas palavras, olha para mim com um ar tão franca e absurdamente desapontado, um olhar de nojo a cruzar o seu semblante brevemente, e depois responde-me, 'Oh amor, deixa-te lá dessas coisas.'
E eu deixei - nunca mais me voltei a abrir a alguém, aprendi aqui a minha lição. Esta memória é-me particularmente relevante neste momento, neste momento em que me sinto cansado de estar vivo. Mas eu agora sou irrelevante, face a tudo o resto. A minha avó está manifestamente a perder faculdades, quer físicas, quer mentais. Esta semana que passou acordei várias vezes durante a noite, com a impressão que me estavam a chamar, e quando me levanto dou com ela estatelada no chão da casa de banho. Quando a ajudo a voltar para a cama, cada vez mais vejo uma pessoa que não tem vontade alguma de cá continuar. E é doloroso ver uma pessoa que foi tão forte durante tantos, tantos anos, a não ter sequer forças para levantar uma perna. Antes desta semana, se me perguntassem qual a cor dos olhos da minha avó, eu teria respondido, com toda a certeza, que eram castanhos. Agora, quando olho nos olhos dela, vejo-os de um azul tão, tão claro, que mais parece branco. E questiono-me agora se é uma metamorfose recente ou se sempre foram claros e eu nunca reparei. Em milhentos livros que li, lembro-me sempre de ler que as pessoas quando estavam no seu leito da morte ficavam com os olhos assim, claros, com uma membrana transparente a cobri-los, tal como a minha avó tem. Esta casa cheira-me a morte. Há um odor inumano no ar, e mesmo os gatos o sentem. E pressentem-no, rondam o quarto da minha avó, ficam sentados á porta a olhar lá para dentro. Por vezes, não consigo ouvir a voz dela a chamar-me, e quando olho para fora da porta do meu quarto, reparo que está lá um dos gatos a olhar fixamente para mim, como que a dizer-me que ela está chamar por mim.
Conto os raios de luz que ainda me sobram, e são cada vez mais escassos. Sinto-me cada vez mais cansado. Tudo me pesa. O coração pesa-me. A alma pesa-me. Precisava... precisava de coisas impossíveis. Resta-me apenas o que é possível. Resta-me toda uma vida para chorar. 

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