sexta-feira, 6 de junho de 2025

E se ao menos tudo fosse igual a ti

Sabes, a minha avó gostava de ti. Foi, talvez, a primeira pessoa a notar o efeito que tiveste em mim, como me mudaste para melhor. Eu já estava cansado da vida antes de ti, já estava destruído antes de ti, já não me restava na alma muita esperança que as coisas pudessem mudar. Mas tu vieste, e mudaste-me, e eu tornei-me uma pessoa melhor. Ela comentou isso com a minha irmã, que se via na paciência que tinha agora para os meus sobrinhos, especialmente para a Alice. Houve uma vez que fui ter com ela á sala, e me sentei ao lado dela, e lhe contei que nos íamos casar. Eu já não consigo precisar a razão, mas nessa altura a tua relação com a tua mãe não estava boa, e querias sair de tua casa, e eu disse-te que podias ficar aqui, mesmo sem ter pedido antes á minha avó. Nessa altura que estava a falar com ela, perguntei-lhe se se podiam mudar para aqui, e ela disse que sim. E a minha avó abrir a privacidade da sua casa a pessoas que mal conhecia, não era uma coisa fácil. 
Ontem foi o velório dela, e destapar-lhe o rosto foi a coisa mais difícil que alguma vez fiz. Quando a vi ali, inerte, foi tão difícil conciliar que ela, que sempre foi um dínamo de energia e força, tinha ficado reduzida a uma versão mirrada dela mesmo. Apenas lhe consegui dizer obrigado. Pelo meio das lágrimas, e a última vez que chorei assim tão profundamente desde o fundo da minha alma foi quando te foste, agradeci-lhe vezes e vezes sem conta. Por tudo. Por tudo. Ela deu-me tudo. Ela deu-me vida. Dei-lhe um último beijo, na sua testa gelada, e desejei-lhe um bom descanso.
Hoje partiu o corpo dela, ela doou-o á Faculdade de Medicina para estudos científicos. Fui para a Igreja de São João de Deus - a mesma onde sonhava que nos iríamos casar - e quando lá chego já lá está a minha irmã, com uma colega do trabalho. Não muito tempo depois, chega outra colega dela, e senta-se ao lado da minha irmã. Eu estava sentado do outro lado da capela mortuária, e de uma maneira um pouco distante, ia observando o que elas faziam. A dada altura, a colega da minha irmã faz-lhe festas no cabelo, e eu senti um aperto enorme no coração. Lembrei-me de uma vez que estávamos deitados na minha cama, e passaste a tua mão pelo meu cabelo. Uma meia hora depois, talvez um pouco mais, chega o meu irmão, e ele fica ao lado da minha irmã, passando a colega para outra cadeira. Quando começou a cerimónia religiosa que estava agendada, vi a minha irmã a apertar com força a mão do meu irmão. Nesse momento, nesse momento todo, senti-me realmente a mais inadequada pessoa á face da terra, repugnante, desprezível, indigna do mais pequeno afecto. Precisei de coisas que nunca terei de novo.
Sinto-me tão sozinho. Tão, tão sozinho. E só ficarei mais sozinho ainda.

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