Ontem foi o velório dela, e destapar-lhe o rosto foi a coisa mais difícil que alguma vez fiz. Quando a vi ali, inerte, foi tão difícil conciliar que ela, que sempre foi um dínamo de energia e força, tinha ficado reduzida a uma versão mirrada dela mesmo. Apenas lhe consegui dizer obrigado. Pelo meio das lágrimas, e a última vez que chorei assim tão profundamente desde o fundo da minha alma foi quando te foste, agradeci-lhe vezes e vezes sem conta. Por tudo. Por tudo. Ela deu-me tudo. Ela deu-me vida. Dei-lhe um último beijo, na sua testa gelada, e desejei-lhe um bom descanso.
Hoje partiu o corpo dela, ela doou-o á Faculdade de Medicina para estudos científicos. Fui para a Igreja de São João de Deus - a mesma onde sonhava que nos iríamos casar - e quando lá chego já lá está a minha irmã, com uma colega do trabalho. Não muito tempo depois, chega outra colega dela, e senta-se ao lado da minha irmã. Eu estava sentado do outro lado da capela mortuária, e de uma maneira um pouco distante, ia observando o que elas faziam. A dada altura, a colega da minha irmã faz-lhe festas no cabelo, e eu senti um aperto enorme no coração. Lembrei-me de uma vez que estávamos deitados na minha cama, e passaste a tua mão pelo meu cabelo. Uma meia hora depois, talvez um pouco mais, chega o meu irmão, e ele fica ao lado da minha irmã, passando a colega para outra cadeira. Quando começou a cerimónia religiosa que estava agendada, vi a minha irmã a apertar com força a mão do meu irmão. Nesse momento, nesse momento todo, senti-me realmente a mais inadequada pessoa á face da terra, repugnante, desprezível, indigna do mais pequeno afecto. Precisei de coisas que nunca terei de novo.
Sinto-me tão sozinho. Tão, tão sozinho. E só ficarei mais sozinho ainda.
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