O meu sono, que há muitos anos é errático e raramente algo que me proporciona real descanso, ficou ainda mais quebrado nestes últimos meses, e como consequência disso, os meus sonhos têm sido frequentemente bizarros, pós-apocalípticos por vezes, inquietos, vívidos. O apagão - bem como a morte da minha avó - têm tornado as minhas noite mais complicadas. Ainda - e talvez para sempre - me recordo vividamente do que foram as duas semanas antes da minha avó ter partido, essas noites em que quase não dormia, e um cansaço extremo se apoderava mim, noites em que tive de aprender a isolar qualquer outro som para ver se ouvia qualquer tentativa da minha avó chamar-me, e mesmo assim sinto que não o consegui demasiadas vezes. Não me consigo lembrar de sonho algum desses dias, nem sequer sinto que tenha dormido o suficiente para entrar em sono profundo. Mas essas noites assombram-me, e ainda dou por mim a acordar com um sentimento de sofreguidão, a perguntar-me se a minha avó me estava a chamar. O meu sono ficou decididamente mais quebrado desde então. Acordo N vezes durante a noite. Não é só o acordar para ir á casa de banho, é o acordar porque... sei lá porquê. Porque por vezes os sonhos inquietam-me, porque por vezes um ruído qualquer externo me desperta. Normalmente, viro-me para o lado e depois consigo adormecer logo de seguida. Mas nem sempre. Por vezes acordo, e não consigo pegar no sono nem por nada. Nessas alturas, levanto-me da cama, e sento-me na minha cadeira, por vezes durante uma hora ou duas, por vezes mais. Deixo-me ficar no escuro, no silêncio, na paz da madrugada. Há sonhos mais... mais viscerais, mas vívidos. E esses requerem que eu os consiga digerir.
Ainda antes da minha avó, já notava que desde o apagão que sonho contigo mais frequentemente. Muitas vezes és uma pessoa que eu vejo algures no sonho, ás vezes reconhecemo-nos, ás vezes não. Outras vezes os sonhos são continuações, por assim dizer, de coisas que aconteceram na realidade. Há uma semana ou duas atrás sonhei que por alguma razão tínhamos ido a uma praia, e nem creio que fosse durante o verão : o dia estava coberto, e cinzento, mas todavia a praia estava bem composta, via-se montes de pessoas em fato de banho, embora nós estivéssemos vestidos normalmente. Todo o sonho se passou em silêncio; andámos e andámos durante horas e não dissemos uma palavra. Embora estivéssemos lado a lado, era como se entre nós houvesse uma distância que era demasiado grande para ser para ser cruzada. Lembras-te da última vez que estivemos juntos? No cinema? Foi exactamente assim, no sonho. Bem, ao fim de muito andarmos, chegamos a uma parte da praia cheia de raparigas novinhas, e foi nesse momento que me apercebi que ias ter com alguém, porque continuaste a andar, e eu fiquei parado. Vi-te a avançar pela praia fora, até subires uma inclinação onde uma de série de moças estavam deitadas, e depois perdi-te de vista.
Estes sonhos... que sendo meio abstractos, têm fundamento em coisas reais, nem me incomodam muito. Quando os tenho não me deixam a sentir qualquer coisa de negativo. Lembro-me deles, penso neles, mas não são os que me afectam. Não, esses são como os da noite passada. Então, esta noite que passou sonhei com o apagão, mas desta vez tinha sido algo exponencialmente mais catastrófico : por alguma razão, o evento fez com que, globalmente, tivéssemos perdido a capacidade de produzir electricidade, e não havia qualquer alternativa a isso. Mais do que isso, foi como se o mero conceito de electricidade alguma vez ter existido tivesse sido apagado das nossas cabeças. Nada funcionava que dependesse de electricidade, não havia televisão, não havia rádio, não haviam comunicações, nada. Havia apenas luz natural durante o dia, enquanto houvesse sol, mas depois á noite caía a escuridão absoluta, e as pessoas tinham de se governar pela luz de velas. E por alguma razão esquisita, as pessoas tinham-se perdido umas das outras. O que quero com isto dizer é que as ruas estavam cheias de pessoas á procura de outras pessoas, mas apenas se encontravam se ambas as pessoas estivessem á procura uma da outra no mesmo momento, e não significava sequer que as pessoas pudessem estar perto uma das outras. Nas ruas via-se magotes de pessoas a chamar exasperadamente por alguém que ninguém sabia quem era, e, perto da alameda, estava eu a descer a caminho de deus sabe onde, perdido no ruído dos nomes que eram gritados em desespero de causa, eu parei e olhei para o outro lado da rua, onde estava uma pessoa que não estava a chamar nome algum. Tal como eu, éramos as únicas duas almas vivas - pelo menos naquele momento do tempo e do espaço - que não clamavam por alguém. Quando me viste, fixaste os teus olhos nos meus, e eu nos teus, e fui até ti. Atravessei a rua, sem carros, sem transportes públicos, mas cheia, cheia de pessoas. Começaste a andar, paralela a mim, do outro lado, enquanto ia navegando a multidão. Ao fim de uns minutos lá cheguei a ti, onde me esperavas, já perto de um daqueles segmentos relvados. Não foi preciso dizer nada, porque mal me aproximei de ti, já a nossa roupa estava a sair, e deixaste-te cair para cima da relva. Eu caio em cima de ti, e sinto-me a entrar em ti, e os teus braços á minha volta, e o cheiro do teu corpo misturado com o da relva, e as minhas mãos a agarrarem-te firmemente as tuas nádegas, a apertá-las enquanto entro e saio de ti, e te beijo, e me beijas, e o meu corpo escorre suor para cima do teu, corre pelo teu peito abaixo, e no meio daquela turba de almas perdidas, éramos os únicos que nos tínhamos encontrado, ali, deitados na relva, numa sinfonia de fodas e gemidos.
Acordo... e lembro-me. Mas lembro-me do quê? De imagens, e do fantasma de sensações. De coisas que já me parecem ter acontecido a outra pessoa, noutra vida, noutro lugar. Mas permanecem, durante uns momentos apenas, quando desperto, e a cabeça ainda está meio torpe de sono. Sinto os teus dedos na minha pele ainda, sinto ainda os teus lábios, e a tua fragrância. Por uns momentos, sinto como se ainda aqui estivesses. E depois... depois é como se fosse um qualquer filme, em que a tua essência espectral se torna em filamentos que perdem a tua forma, e se tornam numa sombra que se alonga, e parte lentamente da minha direcção. O fantasma dos teus dedos percorrem suavemente os meus, e partes, mais uma vez partes.
Sento-me na cama, sinto-me pesado, e cansado. Ninguém neste mundo acreditará do quanto preciso de uma boa noite de sono, em paz. E não as tenho há tanto, tanto tempo. Também elas foram contigo.
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