Então uns dias antes da quinzena acabar, precisamente num desses períodos cinzentões, estava eu a deambular pelo centro de Santa Cruz, sem ter onde ir, ás voltas entre o café central, a praia da física, e ruelas pelas quais andava sem rumo, e encontrei-me com a tal miúda. E eis que vamos até ao parque os dois, e sentamo-nos a falar, e desta vez não a achei nada irritante. Não sei sobre o que teremos falado já, claro, mas lembro-me perfeitamente de algo que ela me disse então. Eu ter-lhe-ia dito que daqui a uns dias me ia embora, e ela perguntou-me se antes de eu ir, se queria curtir com ela. Ora, o pré-pubescente Gonçalo não conseguiria imaginar sequer que um dia ia estar com uma mulher, quanto mais que alguém quisesse curtir com ele. Mas eu disse que sim. E ela diz-me que não podia ser naquele momento, mas que nos encontraríamos naquele parque no fim da semana, antes de eu ir. E eu esperei pacientemente, e os dias continuaram frios e encobertos, e fui ao parque não sei quantas vezes, mas nunca a vi. Nunca mais a vi.
Era cedo ainda, não eram nove da manhã ainda, o que para mim é cedo. Considerando os meus horários, é raro levantar-me mais cedo que isso. Fiquei sentado no sofá da sala, a pensar nestes dias cinzentos que hoje em dia tanto aprecio. Por uns momentos, a minha cabeça viajou no tempo e no espaço - na realidade para um momento que não seria muito distante no tempo do de Santa Cruz, terá sido no início dos anos 90 - e eu estava sentado na mesma sala onde me sentei hoje de manhã, e estava a ler um jornal. Eu queria dizer que era um semanário que antes existia que era o 'Sete', que era talvez o único jornal que de vez em quando tinha rubricas sobre banda desenhada, além de cinema, televisão, música, e tanto mais. Mas se calhar não era, talvez tenha sido no 'Público', que a minha mãe comprava na altura, mas seja onde for, li um poema - traduzido para Português - que já conhecia sobejamente o seu original. Algures por casa havia uma cópia de um livro chamado 'The Golden Treasury', uma antologia compilada pelo crítico, poeta e antologista Francis Palgrave, e eu devorei esse livro vezes sem conta. E o meu poema favorito de sempre é nem mais que um dos que aparece nessa antologia : 'When you are old', the W.B. Yeats, mas algo nessa tradução moveu-me tremendamente. E não me consigo lembrar de quem é o raio da tradução. A minha cabeça diz-me Jorge de Sena, mas depois questiono-me se não terá sido o Miguel Esteves Cardoso, mas a verdade é que não encontro evidência alguma de que algum deles tenha traduzido o poema, nem eu me consigo lembrar de algo específico da tradução que me facilitasse a vida ao pesquisá-lo. Hoje, sentado ao computador, li deus sabe quantas traduções. Umas boas, outras meramente capazes. De todas as que li, talvez esta, talvez esta seja a melhor :
Quando Fores Velha
'Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;
Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;
Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.'
Tanto foi perdido. Podia ter havido um ou mais poemas, mas não houve. Poderia ter havido tanta coisa, mas nem a um verão tivemos direito. Ás vezes dói-me saber isto. Apetece-me falar contigo, queria poder ligar-te e perguntar-te se estás bem, se és feliz. Mas nem amigos podemos ser. O que é um mero verão comparado com isso?
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