quarta-feira, 23 de julho de 2025

Tanto foi perdido

Hoje de manhã, quando acordei, levantei o estore do quarto para deixar entrar a luz do dia, e reparei que lá fora, o dia estava cinzento. Peguei em mim e fui até á varanda para ir recolher alguma roupa que lá tinha deixado pendurada, e á medida que olho para o céu e vejo o dia grisalho, tristonho, lembrei-me de como em miúdo estes dias me deixavam a sentir-me profundamente traído. Nessa altura, em que o verão ainda era importante para mim, quando tinha destes dias de verão em que o céu ficava encoberto, e o dia ficava ventoso e mesmo com chuva, eu sentia-me como se me tivessem apunhalado nas costas. Lembrei-me então de um momento específico da minha pré-adolescência, quando de vez em quando íamos fazer uma quinzena de férias a Santa Cruz. Era demasiado puto para entender o conceito de micro-climas e coisas desse género, mas quando lá íamos não era de todo incomum apanharmos sempre uns dias assim, uma semana até, na pior das hipóteses. Talvez tenha sido na última vez que lá fomos, provavelmente no final dos anos 80, e nessa vez lembro-me que eu e o meu irmão costumávamos ir muitas vezes a um parque junto á casa onde ficávamos, e lá havia também um daqueles recintos desportivos onde se podia jogar á bola ou basket. Nisto travámos 'amizade' com um grupo de putos que moravam na zona, e havia nesse grupo uma miudinha que me irritava solenemente. Creio que talvez fosse irmã de um dos outros putos, creio que talvez fosse um ano ou dois mais velha que eu, mas deus sabe porquê - eu achava-a tão, mas tão chatinha.

Então uns dias antes da quinzena acabar, precisamente num desses períodos cinzentões, estava eu a deambular pelo centro de Santa Cruz, sem ter onde ir, ás voltas entre o café central, a praia da física, e ruelas pelas quais andava sem rumo, e encontrei-me com a tal miúda. E eis que vamos até ao parque os dois, e sentamo-nos a falar, e desta vez não a achei nada irritante. Não sei sobre o que teremos falado já, claro, mas lembro-me perfeitamente de algo que ela me disse então. Eu ter-lhe-ia dito que daqui a uns dias me ia embora, e ela perguntou-me se antes de eu ir, se queria curtir com ela. Ora, o pré-pubescente Gonçalo não conseguiria imaginar sequer que um dia ia estar com uma mulher, quanto mais que alguém quisesse curtir com ele. Mas eu disse que sim. E ela diz-me que não podia ser naquele momento, mas que nos encontraríamos naquele parque no fim da semana, antes de eu ir. E eu esperei pacientemente, e os dias continuaram frios e encobertos, e fui ao parque não sei quantas vezes, mas nunca a vi. Nunca mais a vi.

Era cedo ainda, não eram nove da manhã ainda, o que para mim é cedo. Considerando os meus horários, é raro levantar-me mais cedo que isso. Fiquei sentado no sofá da sala, a pensar nestes dias cinzentos que hoje em dia tanto aprecio. Por uns momentos, a minha cabeça viajou no tempo e no espaço - na realidade para um momento que não seria muito distante no tempo do de Santa Cruz, terá sido no início dos anos 90 - e eu estava sentado na mesma sala onde me sentei hoje de manhã, e estava a ler um jornal. Eu queria dizer que era um semanário que antes existia que era o 'Sete', que era talvez o único jornal que de vez em quando tinha rubricas sobre banda desenhada, além de cinema, televisão, música, e tanto mais. Mas se calhar não era, talvez tenha sido no 'Público', que a minha mãe comprava na altura, mas seja onde for, li um poema - traduzido para Português - que já conhecia sobejamente o seu original. Algures por casa havia uma cópia de um livro chamado 'The Golden Treasury', uma antologia compilada pelo crítico, poeta e antologista Francis Palgrave, e eu devorei esse livro vezes sem conta. E o meu poema favorito de sempre é nem mais que um dos que aparece nessa antologia : 'When you are old', the W.B. Yeats, mas algo nessa tradução moveu-me tremendamente. E não me consigo lembrar de quem é o raio da tradução. A minha cabeça diz-me Jorge de Sena, mas depois questiono-me se não terá sido o Miguel Esteves Cardoso, mas a verdade é que não encontro evidência alguma de que algum deles tenha traduzido o poema, nem eu me consigo lembrar de algo específico da tradução que me facilitasse a vida ao pesquisá-lo. Hoje, sentado ao computador, li deus sabe quantas traduções. Umas boas, outras meramente capazes. De todas as que li, talvez esta, talvez esta seja a melhor :

Quando Fores Velha

'Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.'

Tanto foi perdido. Podia ter havido um ou mais poemas, mas não houve. Poderia ter havido tanta coisa, mas nem a um verão tivemos direito. Ás vezes dói-me saber isto. Apetece-me falar contigo, queria poder ligar-te e  perguntar-te se estás bem, se és feliz. Mas nem amigos podemos ser. O que é um mero verão comparado com isso?

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