Apenas estive dentro de outros dois prédios na rua em que vivo : um, o prédio imediatamente ao lado do meu, entrei lá não mais do que um par de vezes há décadas atrás, porque tive um colega que lá morava. O outro, mais acima na rua, entre duas pastelarias conhecidas na zona, era onde na fase inicial da minha adolescência a minha avó me levava á manicure. Porque eu sempre roí as unhas, e ela sempre tentou fazer com que eu parasse. Tantas vezes ela me disse que se eu parasse de roer as unhas ela me dava cinco mil escudos para eu comprar revistas de banda desenhada… mas a dada altura ela decidiu que eu precisava era de um incentivo, e começaram as minhas idas á manicure, logo de manhã cedo. Nunca foi algo que tivesse apreciado de grande maneira, todo aquele ritual deixava-me impaciente, e eu sabia que ia acabar por roer as unhas de seguida. Mas nessa casa moravam, além da senhora da manicure, também as filhas dela, que já eram jovens mulheres, e amiúde as vi em roupa interior. Bem sei que para elas eu pareceria não mais que um puto parvo, mas sempre ajudava a ganhar algum ânimo para as minhas sessões de manicure, a ideia de ver um rabiosque ou umas mamocas - que nunca vi, na realidade.
Neste momento não sei ainda se poderemos ficar nesta casa, o senhorio exigiu a entrega da casa, mas já temos apoio legal nesse sentido. Lá para setembro, talvez, teremos uma ideia mais concreta do que vai acontecer. Talvez por isso tenha sonhado, nesta noite que passou, que já não morava aqui. O sonho passava-se algures num futuro próximo. Teriam passado alguns anos, talvez três ou quatro, não mais que isso. Eu estava a regressar de um sítio qualquer, talvez de fora do pais, onde tinha estado a viver. Quando regresso, descubro que já não moramos nesta casa. Talvez por um encontro fortuito na rua com alguém que me conhecia, descubro que a minha mãe está a morar precisamente na tal casa onde eu ia fazer a manicure. Dirijo-me para lá, toco á porta, e passados uns momentos a minha mãe abre-me a porta. Falamos um pouco, e eu pergunto-lhe se ela tem um sítio onde eu possa dormir umas horas; tinha vindo de viagem, e estava cansado. Ela diz-me que tem um quarto para mim, se eu quiser ficar lá em casa. Eu digo que não sei, que não conseguia pensar nisso. Não conseguia pensar em nada. Ela pede-me para entrar, e a casa é surpreendentemente grande por dentro, muito maior do que aparentaria ser. Ela leva-me para um quarto e diz-me que posso dormir lá. É o mesmo quarto onde a minha avó dormia aqui em casa, se bem que com uma disposição diferente. Há uma cama enorme encostada á parede que tem a porta do quarto, e eu caio na cama e adormeço de imediato.
Acordo a dada altura, sentia-me preso, apertado, como se não tivesse espaço para me mexer. Levanto a cabeça, e na penumbra vejo que o meu pai está sentado na cama, de costas de contra a parede, e com as pernas dobradas sobre o meu corpo. Mas ele parece diferente, certamente maior do que me lembro dele ser. Seja como for, a minha exaustão é mais forte que eu e adormeço de novo, mas não sem antes me aperceber que está mais alguém deitado comigo na cama : é uma rapariga, ainda nova, talvez com os seus vinte e poucos anos, muito, muito bonita. O sono leva-me, até que finalmente desperto, e não está ninguém na cama comigo. Nem o meu pai, nem a rapariga. Á medida que os sentidos começam a apurar, sinto um cheiro agradável no ar, e á distância, ouço uma melodia bonita. Levanto-me, nem sequer sei que horas são, e reparo que me tinha deitado com a roupa com que tinha chegado. Começo a andar pela casa, á procura da voz que preenchia o ar com canções, e aqui e ali vejo a minha mãe, mas ela não me diz nada, e tem um ar um pouco estranho. Como se tivesse algo para me contar e não soubesse como. Chego á cozinha, e a moça está a preparar o seu pequeno almoço. O cheiro de café acabado de fazer, e de pão fresco, fazem o meu estômago fazer barulhos esquisitos, e aí ela repara que eu estou na cozinha com ela.
Ela é tão, tão bonita, mas ela parece-me familiar. Não faço ideia de onde, mas sei que já a vi antes. Alta, talvez até mais alta que eu, e esguia. Cabelo preto, muito, muito preto, e comprido. Veste-se toda de preto, e eu consigo ver que ela não usa soutien. O top dela é muito justo, e o seu pequeno peito pede-me o olhar. Escolho olhar para o dia de ontem, no entanto. Sento-me numa bancada central da cozinha, enquanto não penso em nada. Abstraio-me de tudo. Ela pergunta-me qualquer coisa, mas eu não percebo o quê. Ela volta a perguntar, ‘Queres café?’, e a proximidade dela destrói-me por completo. Eu não sei a que é o céu cheira, mas não devia cheirar tão bem quanto ela. Eu digo que sim, e ela traz-me uma caneca cheia de café, tipo aqueles que se bebem em diners americanos. Ela continua a falar comigo, mas fá-lo com um á vontade que me desconcerta. Parece que ela me conhece há anos e anos. Vou bebendo do café, e a cabeça começa a engrenar. Penso na noite anterior, no meu pai sentado em cima da cama, dela a dormir ao meu lado.
‘Olha’, digo eu, e por esta altura estava a mordiscar numa fatia de pão, ‘mas o que é que o meu pai estava a fazer a dormir na minha cama?’, e ela responde, ‘Não era o teu pai. Era o meu tio.’ ‘O teu tio?’, pergunto eu como se não tivesse ouvido á primeira. ‘Sim, o meu tio. O irmão do marido da tua mãe.’, diz ela. Eu tento não cuspir a boca cheia de café que tinha quando ela me diz isso, e digo-lhe, ‘Desculpa lá?’, e ela diz-me que sim, que a minha mãe se tinha casado com o pai dela. ‘E onde está o teu pai?, eu pergunto-lhe. Ela encolhe os ombros, diz ‘A trabalhar, mas volta mais tarde. Vais conhecê-lo mais tarde.’, mas eu nem sequer sei ainda se ia lá ficar mais tempo naquela casa. Talvez estivesse de partida para outro sítio, para outro lugar. Nisto reparo numa fotografia da moça, abraçada a um rapaz, e eu pergunto-lhe ‘És tu e o teu namorado?’, e ela diz que sim. Eles parecem felizes. Ela pergunta-me se já acabei de comer, e eu aceno que sim com a cabeça. ‘Então vá, anda comigo para me ajudares a fazer uma coisa.’ Sem ter grande escolha, ela pega na minha mão e leva-me para as traseiras da casa dela, e essas traseiras eram as traseiras do prédio onde estava o colégio onde eu estudei na terceira classe e no sexto ano. Deus sabe o que foi que lá fomos fazer, mas ela esteve sempre fisicamente muito perto de mim. A dada altura ela estava não próxima de mim que eu sentia os mamilos dela de contra mim. Parámos um a frente do outro, virados um para o outro, e ela tão próxima de mim que conseguia sentir a respiração dela na minha pele. Os nossos rostos aproximam-se, os nossos lábios também, mas nunca nos beijamos, afastamo-nos sempre. Eu pergunto-lhe o que é que ela está fazer. E ela pergunta-me o que é que eu acho que ela está a fazer. Eu peço-lhe para ela parar. Porquê, pergunta ela. Porque senão acabamos a foder a um canto. É mau, pergunta ela. Tens namorado, eu não me meto nessas cenas, digo eu. Vá lá, diz ela. E eu quero, meu deus como eu quero, eu quero… mas não posso.
Volto para dentro da casa, talvez tivesse lá uma mochila, ou um saco de viagem. Pego nas minhas coisas, e digo que me vou embora. ‘Então, não ficas?’, pergunta a minha mãe. Eu olho para a bela moça, e penso que é melhor não. Respondo com um sorriso. Apenas precisava de dormir algumas horas, digo para a reconfortar. Estou já á porta do prédio, bem no início da minha rua, quando decido olhar em direcção ao prédio onde morei toda a minha vida, practicamente. Tanto as janelas do meu andar como o do andar ao lado estão escancaradas. Já ninguém mora lá que fosse do meu tempo. Vejo pessoas á janela, e ouço sons festivos. Um fino nevoeiro cobre o dia, mas naquele lugar tão específico onde passei tanto tempo da minha vida, parecia brilhar um sol.
Ajeito o casaco, e ponho a mochila ás costas. Despeço-me da minha mãe, e olho uma última vez para a moça, cujo nome nunca cheguei a saber. Começo a descer a rua, sinto-me como se fosse uma espécie de Orfeu. Não posso olhar para trás. Não posso olhar para trás. Porque se olhar para trás, então tudo está perdido.
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