domingo, 27 de julho de 2025

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja, olha-se para dentro e já pouco sobeja

Não é que seja um ritual que desenvolvi, mas especialmente nestas últimas duas semanas, tenho dado por mim a ir para a varanda de minha casa ao cair da noite. Por vezes puxo uma cadeira de baloiço para lá e fico lá sentado a apanhar a brisa fresca que começa a correr a essa hora, ás vezes fico apenas em pé, e fico a ver a noite cair. Vejo o céu mudar de cor lá em cima, á medida que o sol se põe, vejo o laranja do céu tornar-se num leve rosa, e depois num roxo que se aprofunda, até que por fim o negro da noite nos cobre. É a minha altura favorita do dia, mas é também o momento em que dou por mim no meu estado mais frágil. Estar na varanda não significa ver apenas a noite cair, significa ver as pessoas que vão passando, e - triste como os raios embora seja - eu dou por mim a observá-las. É claro que nestes momentos dou por mim a sentir os piores sentimentos que posso sentir, os de inveja. Vejo tantas pessoas, algumas lado a lado, outras de mãos dadas, algumas vão a sorrir á medida que vão lendo uma qualquer mensagem cheia de tontices, mas na verdade todas elas escolheram viver, em vez de ter uma mera existência. 
Farto-me, eventualmente, de ali estar e de ter este pensamentos. Outros vêm a tona. Penso que não gosto de viver aqui já. Talvez fruto da idade, talvez fruto do infindável cansaço que sinto na alma, mas cada vez tenho menos paciência para a cidade. Estes últimos anos tornaram-me quezilento com os meus vizinhos; em boa verdade, o novo-riquismo que assola esta vizinhança tem trazido para cá muitas pessoas que não têm maneiras algumas, que não têm noção na cara, e fiquei intolerante a todo o tipo de ruído que fazem. Queria tanto, tanto não morar aqui, mas morar algures onde á noite pudesse ficar sentado á porta de casa e á minha volta não haver nada senão o som da natureza, e a paz do silêncio da noite. Queria tanto poder deitar-me e olhar para um céu cheio de estrelas, e queria tanto que estivesses ao meu lado. Algures, não sei onde, mas não aqui, noutro lado, noutro lugar.
Também, com o tempo, acabo por afastar esses pensamentos. A dada altura tenho de começar a apagar o que tenho na cabeça, a preparar o reset mental, para o dia seguinte. Chego á cama exausto, todas as noites. É... e será sempre difícil não me lembrar do que era dormir agarrado a ti. Há noites em que estes pensamentos me deixam irrequieto, e nessas noites o sono nunca me deixa descansado. São as noites em que os fantasmas, e as dúvidas me consomem novamente. Penso se alguma vez realmente gostaste de mim, ou se alguma coisa que tenhamos feito te tenha sido relevante, e eu não consigo ficar certo de nada. Nunca se fica, quando se procura algo que não temos, nem mais teremos. Tanta incerteza, isto dilacera-me o coração, não conseguir saber nada. Estamos tão distantes um do outro, tão longe de tudo, e nada mudará isso. Fica a dúvida, a perda de confiança. O que terá sido um toque meu, ou o meu beijo para ti? Provavelmente nada, tudo foi melhor e te soube melhor. Dúvidas, questões, sono perdido, exaustão. Digo mais uma vez ao fantasma com quem durmo que te amo, e disso estou certo, sempre estarei.

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