'Estava a pensar quando é que me vais deixar de novo.', disse-te, suavemente, e tu parecias meio perdida com esta minha afirmação. 'Como assim?', perguntaste. E eu disse, 'Mais cedo ou mais tarde vais achar que cometeste um erro, e que não é aqui que tens de estar. Vais sentir que não é comigo com quem queres estar. E depois vou ter de te dizer adeus mais uma vez.' Chegaste-te mais perto de mim e disseste-me que desta vez seria para sempre. Que não me ias deixar mais. Colocas os teus braços á volta do meu pescoço, e dizes que estás a falar a sério. Sinto os teus seios de encontra o meu peito, as tuas mãos nas minhas costas. O meu coração e o teu batem como um. 'Desta vez é para sempre.', dizes, e beijas-me, e quando me beijas, eu fecho os olhos, e sonho.
Abro os olhos, acordo, e olho para a escuridão que permeia o meu quarto. Nem a um metro de mim, e provavelmente a meia altura do quarto, tive uma visita. Creio que em tempos escrevi sobre uma presença que se manifestava no meu quarto, no formato de uma esfera luminosa, meio translúcida, que por vezes emitia um som numa frequência tão baixa que apenas se conseguia ouvir no limiar da audição. Há muitos anos que não tinha esta visita, e durante uns momentos desejei que fosse a minha avó. Fiquei no escuro durante uns bons minutos, a olhar para a esfera. Levanto-me, e fico sentado na cama. Coloco os cotovelos nas pernas, afundo o rosto nas minhas mãos, ainda com o sabor do teu beijo nos lábios. Tento chorar, e o meu corpo faz uma espécie de choro seco, o corpo soluçava e entrava em espasmos como se estivesse a chorar, mas não sai lágrima alguma. As minhas lágrimas tornaram-se um mar, mas já não tenho mais lágrimas em mim. Estou nu, levanto-me e visto uns calções. Pego no telemóvel e vejo as horas : não estava a dormir há muito mais que duas horas. Vou até á varanda, e o frio da noite provoca em mim um choque térmico. Fico por ali uns minutos, olho para o céu, e penso que vivemos sob o mesmo o céu. Alguém desce a rua e faz demasiado barulho. Vejo-o a descer a rua, provavelmente com os copos, e quando o perco de vista volto a fixar os olhos no céu.
Vêm-se poucas estrelas, ao longe ouvem-se carros a passar, ouve-se o ruído da electricidade a passar pelos carris da estação de comboio. O frio fere-me a pele, sinto os mamilos rijos e doridos, e venho para dentro. Sento-me no sofá, e embora ainda sinta o frio, sinto que é um castigo que por alguma razão mereço. Sinto vontade de me destruir. De pegar numa lâmina e fazer incisões profundas na minha carne, de modo a sentir algo que doa mais que isto. Ou então de beber até apagar, mas prometi á minha avó quando me despedi dela que não o voltaria a fazer em casa dela.
Olho para o telemóvel, e leio as últimas mensagens que te enviei no início do ano. Escrevo uma mensagem. Uma simples mensagem. Nem que fosse para saberes que estou vivo. Um simples 'amo-te'. Escrevo-a e fico a olhar para o ecrã. Quase cedo. Apago as palavras. Digo a mim mesmo que não mereces que te incomode. Volto para a varanda, olho para o céu. É o mesmo céu sob o qual vivemos, mas para o qual nunca mais iremos olhar ao mesmo tempo. Algures lá em cima estão as Pleiades. Algures num infinito oceano de possibilidades tu escolheste ficar, algures fomos felizes. Quase imperceptível, sopro ao éter um 'amo-te' que nunca irás ouvir. Eu não quero mais sonhar contigo, Sofia. Mas só te posso ver nos meus sonhos.
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