sexta-feira, 9 de maio de 2025

Sabes que sonhei contigo durante vinte e nove anos antes de te conhecer?

Estás a ver aqueles dias em que acordas com uma melodia na cabeça , e nem por nada te consegues lembrar que musica é? Hoje acordei com um pedacito de uma música - uns acordes apenas - e fiquei logo a pensar que música seria. Dei por mim a trautear esse excerto que se tinha fixado na minha mente vezes sem conta, a tentar lembrar-me que música era. Fui ver as minhas playlists para ver se algo que lá estava me faria lembrar o que seria, mas nada. As horas passam e continuo com a música na cabeça, e começo a ficar irritado. É tudo tão familiar, tenho-a quase na ponta da língua. Dou por mim a perguntar-me se será de um genérico de uma série de TV qualquer, ou algo que tenha ouvido num filme. A música toca na minha cabeça, aqueles dois ou três segundos apenas, e não me vem nada a cabeça. 'Mas como raios se chama a porcaria desta música?', pergunto eu ao éter, já irado. Do nada, vem-me á cabeça mais uma parte da música, desta vez algo já com voz, mas as palavras não me surgem. 'Caramba, pá, tu sabes o que isto é. Como é que não te consegues lembrar do raio da música?', questiono-me a mim mesmo. Desisto de tentar descobrir o que é. Vou dormir um bocado, pode ser que me venha num sonho. A música, claro. Mas não veio, e continuo com aquela sensação incómoda tipo na parte de trás da cabeça. É como quando tens um dente partido e por muito que saibas que não o deves fazer, a tua língua está sempre a cutucá-lo. Depois de acordar, sento-me na cadeira, e vejo coisas no computador. Vou ao meu histórico do youtube, mas estão lá toneladas de vídeos e nada que lá esteja contribui para que a memória avive. É já no final da tarde, quase com a noite a cair, que finalmente me vem á cabeça as palavras da tal parte cantada - é a frase inicial. Diz o cantor 'Until Sophie I was never happy', mas há aqui algo que não me está a soar certo, por muito que cante a frase, e por muito que sinta que as palavras enquadrem umas com as outras. Vou ao google, e nada. Não há música alguma que contenha essas palavras nessa ordem. E eu canto, e canto, e canto, e c'um catano, a dada altura lembro-me exactamente do que a frase diz na realidade, e lembro-me logo qual a é música e quem a canta. Dou uma daquelas palmadas de frustração na testa, e canto 'Until Sally I was never happy', é assim que começa 'Sally Cinnamon', dos The Stone Roses.
Mas o que eu depois fiquei a pensar - e penso nisso, de uma forma ou de outra, há uma série de anos - é, precisamente, se a frase imaginada ''Until Sophie I was never happy' seria factual. Eu já escrevi - aqui ou noutro blog - que pensar em ti era um luxo a que não me podia dar. Mas pensava, claro. Era difícil não pensar, mesmo quando me perdi num abismo de corpos, mesmo quando fodia outra pessoa e dava por mim a desejar que fosses tu. Mas pensava de uma maneira mais superficial. Não regressava muitas vezes ao tempo que tivemos juntos, nem ao que veio a seguir. Aí, tive de aprender a proteger-me, a defender-me. É claro que não o consegui fazer sempre - por vezes tive alturas em que a mente vagueava para esses pensamentos. Houve uma fase, mais a partir de 2017 em diante, em que esses pensamentos se tornavam mais frequentes. Talvez isso explique, em parte, porque decidi começar a silenciar as vozes na minha cabeça mergulhando em oceanos de veneno. O ano passado - e deve estar a fazer um ano desde que decidi contar a nossa história - foi a primeira vez que mergulhei tão profundamente nela. E confesso que debati comigo mesmo se era uma história que eu iria contar ou não - não por achar que não merecesse e devesse ser contada - mas porque eu sabia que me iria doer. E quase, quase, não a contei. Pelo menos não como a escrevi.
É verdade que escrever sobre nós convidou dor de volta á minha alma. E essa dor estava presente nas palavras que escrevi. Hoje teria escrito de uma maneira diferente, se o tivesse de fazer de novo. Mas considerei uma alternativa : em vez de contar a nossa história tal como ela foi, pensei em ficcionalizá-la, contar uma versão alternativa da história. E cheguei a escrever uma parte dela, mas cada vez me sabia pior estar a distorcer a verdade. Não estava a prestar um bom serviço, nem a mim, nem a ti, nem a nós. Sei que esta versão alternativa iria acabar com o mesmo destino final, com a mesma escolha, mas de uma maneira diferente. Nasceu de um pesadelo que tinha tido anos antes em que a nossa história tinha continuado mais um pouco, até ao dia em que nos iríamos casar, mas nunca apareceste. Então pensei em aproveitar esse pedaço para terminar a história que tinha em mente. Ainda bem que não o fiz, não teria sido justo, tal como não foi justa a maneira como depois escrevi. Em boa verdade, não imaginava o quanto me iria doer pensar em ti, e nos tempos que tivemos juntos. Ter de revisitar esses dias custou-me imensamente, causou-me um profundo lamento na alma. Um lamento por não ter o teu amor. Por não te ter. Por te ter perdido. Por nos termos perdido. 
E pensei se realmente fui feliz contigo, ou se me teria enganado a mim mesmo, tal como me tinhas dito que tinhas feito. Considerei essa hipótese, naturalmente. Pensei se teria sido feliz contigo, nesses seis meses, e se sim se fui mais ao menos feliz do que noutras relações. E a verdade é que embora eu saiba que inevitavelmente houveram momentos de felicidade nas minhas outras relações, e aqui cinjo-me apenas àquelas que foram realmente relevantes, tenho de me perguntar se realmente fui feliz. Porque se pensar nelas... numa só me vem á cabeça resignação, e noutra só me vem á cabeça dor e sofrimento. E se pensar em nós, só me vem á cabeça felicidade. 
'Until Sophie I was never happy', cantei eu hoje incontáveis vezes. And after Sophie I was never happy either. 

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