segunda-feira, 5 de maio de 2025

Mordo os dedos para me sentir vivo

Domingo acordo, e acordo com uma sensação esquisita. Sentia que tinha feito merda, mas não conseguia dizer o quê. Á medida que fui despertando, lento, pesado, continuava com essa sensação no fundo da cabeça. Peguei no telemóvel e fui ver se não tinha cedido á tentação de te enviar uma mensagem - não o tinha feito, felizmente. Já me odeias o suficiente assim, não valia a pena estar a contribuir mais para isso. Depois pensei, caramba, e se tentei ligar-te? Também não. Raios, não sei que terei feito de mal. Depois ligo o computador, e dou a minha vista rotineira sobre as (muito) poucas coisas que ainda vejo na internet. Não muito tempo depois vim parar aqui, e apercebi-me o que tinha feito. Em boa verdade, não tenho grandes recordações de ter escrito aquilo. Sabes quando estás num estado febril e apenas te consegues lembrar de passagens fugazes do que está acontecer? Sábado á noite foi assim para mim.
E sábado até nem começou mal de todo - acordei a sentir-me com uma energia agradável dentro de mim, e estranhamente, até senti um certo desejo a tomar conta de mim, algo que tem estado largamente adormecido há já algum tempo. E á medida que o dia se foi passando, mais esse desejo crescia. O que eu queria mesmo era foder - não com alguém especificamente, mas com alguém com quem eu sei que o sexo tinha sido excepcional. Precisava de dar aquela fodazorra que nos deixava aos dois completamente gastos. Poderia ter sido contigo, mas também poderia ter sido com a Susana, ou com a Eunice, ou com a Isabel, ou com a Carina. Estava num ponto em que o desejo era tal que não conseguia sequer concentrar-me numa pessoa. E foi aqui que as coisas começaram a descambar para o catastrófico.

Uma das coisas que felizmente fiz há uns meses atrás foi apagar 90 e muito % dos contactos que tinha no telemóvel, e nesses contactos estavam um punhado de pessoas que - pelo menos em tempos - tinha um entendimento tácito que para nós haveria sempre abertura para darmos uma foda. Mas esses tempos foram-se, e as pessoas seguiram em frente; algumas casaram-se, juntaram-se, tiveram filhos, essas coisas todas que as pessoas normais fazem. Ainda que eu soubesse que ao dia de hoje essa tal abertura existisse ainda, não a aceitaria, porque... porque não posso. A minha única alternativa é então a masturbação. Mas há momentos - embora não tenha sido este o caso - em que me sinto tão cheio de desejo que não há punheta que me salve. E como detestei escrever a palavra 'punheta'... É estranho, mas não gosto de escrever asneiras. Digo-as em abundância, sim, e no contexto certo escrevo-as sem pudor, mas neste... eh. Bem, seja como for, estou deitado no escuro, na minha cama, e estou a tentar pensar numa boa foda que tenha dado, preciso que seja algo que faça com que seja tudo rápido, mas este desejo que sinto traduz-se em absoluta flacidez. Nada acontece lá em baixo. Fico fodido comigo, e penso em como era foder-te, penso na Eunice, e na Isabel, e nas outras, e nada. Foda-se. Então dou por mim a pensar na última foda que dei com a Carina, que por seu turno, foi a última foda que dei, ponto final. Curioso : as duas últimas vezes que fodemos foi naquela pensão a que fomos uma data de vezes. Era a única alternativa, depois daquela excitação toda inicial em que ela me mandava uma mensagem á meia-noite para eu ir ter a casa dela na margem sul, e eu ia a correr ter com ela, e passadas umas semanas já não era conveniente eu ir ter com ela, ou então ia mas não podia lá ficar, enfim - eu sou mesmo muito ingénuo. Mas seja como for, já eu estando mais que certo e mais que convencido que desta história não sairia nada, ainda acabámos por dar estas duas últimas fodas. E do sexo em si não me lembro de grande coisa, embora tenha certeza que bom pelo menos foi. Mas lembro-me de uma conversa pós-sexo, em que estávamos os dois deitados naquela cama que é super desconfortável, parece a cama da minha avó paterna, só lhe faltava uma colcha bordada. Estivemos uns minutos em silêncio, a dar uns beijinhos, e eu - e porque realmente não sabia se já o tinha feito ou não, perguntei-lhe se já a tinha chamado de 'puta' enquanto fodíamos. E ela disse-me que não, pelo menos tanto quanto se conseguia lembrar. E a verdade é que eu já estive com mulheres que adoravam, que me pediam para as chamar de puta, que me pediam para fodê-las como uma puta - e eu ficava sempre a pensar comigo mesmo 'Sei lá eu como é que isso se faz. Nunca fui ás putas! Nem tenciono ir, por isso sei lá como se fode uma. Fodo como sei foder.' - mas de igual modo já estive com mulheres que não apreciavam, e por mim tudo bem, fazemos aquilo que gostamos e nos deixa confortáveis. Mas até fiz a pergunta de uma maneira... fofinha. Sem qualquer tipo de pretensão a cena dramática ou algo assim. Depois diz ela 'Mas se quiseres posso ser a tua puta', e eu na realidade até queria que ela fosse minha namorada. Abanei a cabeça, e ela disse 'Posso dizer-te que sou a tua puta, se é isso que queres ouvir.', e eu disse-lhe que não, que o que queria ouvir era que ela me amava. Porque se me amasse, então talvez, talvez, talvez, também eu, e finalmente, tinha conseguido aprender a jogar o jogo. Só nos vimos uma vez mais depois desse momento, em que lhe perguntei pela última vez o que éramos, e cada um seguiu o seu caminho.

Escusado será dizer que todo o desejo que sentia no sábado desapareceu. O que ficou foram... ecos. Ecos dessa conversa. Ecos de conversas nossas, reais e imaginadas. Eu faço disso, sabes? Dou por mim a ter conversas que nunca aconteceram. Por vezes até as escrevo. As vozes, amor, as vozes que na minha cabeça flutuavam diziam-me coisas terríveis. A pior delas todas era a minha, que ao mesmo tempo me dizia que merecia tudo o que tinha passado e que não merecia nada de bom. 'Quem és tu', dizia ela, 'para julgares que mereces ser amado?' Nada. Eu não sou nada. Sem ti, eu não sou nada. A dada altura cansei-me das vozes, e tive de as silenciar - e embora me tenha afogado em litros de veneno, e embora uma doce dormência se apoderasse de mim... aparentemente não consegui silenciar todas as vozes. Escrevi... algo. Não sei o quê ainda. Nem tenho em mim coragem para ler, mas não pode ter sido outra coisa senão uma litania de parvoíces. Talvez um dia mais tarde eu leia. Talvez até apague o post, não sei. Agora não. Não tenho coragem. Não tenho coragem para nada, senão existir. E o que define este momento particular da minha existência é uma profunda sensação de vergonha. Tenho vergonha de mim. Tenho vergonha de que olhem para mim. Não quero os olhos de ninguém sobre mim, por isso evito sair de casa. Lembro-me do filme 'The Hours', e há uma cena em que a Virginia Woolf diz 'You cannot find peace by avoiding life.' Eu tento, eu bem tento. Se calhar não vai ser é nesta vida.

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