This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.
É dia 31 de Dezembro de 2012, e eu estou contigo numa casa que o Hugo e a namorada tinham alugado para virem passar a passagem de ano, e quando o ano acaba, e o novo entra, houve uma parte de mim que voltou a 2002, e se lembrou desse poema. Olhei para ti, o meu coração cheio de amor, e sorri. Para mim mesmo, pensei : 'This is not the way the world ends.'
Pelo contrário, cada vez mais estava certo que finalmente a minha vida tinha começado. O que iniciou com o teu beijo estender-se-ia para a vida toda.
Ontem, 28 de Abril de 2025, dei por mim a pensar se seria assim que o fim do mundo ia começar : um apagão gradual, seguido de um eventual clarão final que nos levaria a todos. E a única coisa que me passava pela cabeça era que nunca mais te iria ver. Que nunca mais iria ouvir a tua voz. Que nunca mais te iria dizer que te amo. O fim estava ao virar da esquina, pensei eu. 'This is the way the world ends', repeti vezes sem conta á medida que fui deixando sequer de comunicar com pessoas. Já me estava a flagelar por não te ter enviado uma última mensagem. 'Se é assim que o mundo acaba, quero dizer-te uma última vez que te amo mais que a minha própria vida', mas fui tarde demais. Não havia rede já. Estava sentado na sala á espera que a noite caísse, e com ela uma escuridão que seria desconhecida a grande parte de nós. Imaginava as ruas completamente vazias, escuras e silenciosas. O fim aproximava-se, e caí num sono febril. Foi desconfortável, o sono, quer fisicamente, quer psicologicamente. Dormi todo torto no sofá, os pés já bem para além do braço do sofá, o que me provocava alguma dor nos gémeos. Mas estava tão cansado, sabes? Quis mesmo deitar-me e acordar no além, completamente sem saber como o fim do mundo tinha acontecido. Sonhei que estava em Londres de novo - um sonho bizarro que teve como protagonistas pessoas que eu sei que nunca lá estiveram comigo, mas que neste sonho tínhamos toda uma história lá. Tipo o Paulo, que é o dono de um restaurante ao lado de minha casa, neste sonho ele morava lá, e eu estava-lhe a dizer que tinha de voltar para Portugal, mas seria durante uns meses apenas, e ele disse-me que quando eu voltasse ele conseguia-me arranjar onde ficar e talvez trabalho também. Mas estava de saída, e tinha de ir para o aeroporto, só que antes tive de me ir despedir de alguém - não me lembro quem - que tinha um monte de gatos, todos eles idênticos aos meus. Depois disso sei que me meti a caminho de um autocarro para o aeroporto, mas quando chego á estação onde deveria sair, não vejo aeroporto algum. Olho para o relógio e tenho pouco mais de uma hora para me meter no aeroporto e nem sequer sei onde fica. Nem sequer sei onde estou. Mas decido que tenho de me sentar um pouco, para entender melhor o que tenho de fazer a seguir. Vou em direcção á zona de restauração, e sento-me numa mesa. Estou perdido em pensamentos, nem sequer dou pelo facto de estares sentada ao meu lado. Eu digo 'ao meu lado' mas na realidade, embora estivéssemos quase lado a lado, foi como quando fomos ao cinema, lembras-te?, em que parecia que havia uma distância inultrapassável entre nós, um oceano de silêncio entre nós. Não sei quanto tempo demorei a perceber que eras tu, e nem sei bem se chegámos a falar. Estávamos sentado lado a lado, mas a olhar para a frente. Eu não consigo imaginar que espécie de pessoa eu teria de ser para ser merecedor do teu olhar, mesmo nos meus sonhos. Por alguma razão, pegaste no teu telemóvel, e começaste a ver vídeos pornográficos - clips curtos apenas - e tinhas o ecrã num ângulo em que eu conseguia ver o que se estava a passar, mais ao menos. Eram duas moças com um tipo, e não sei se eras tu ou não, embora no sonho pensasse que sim. Eu não conseguia - não queria - ver com mais detalhe porque sabia que me quebraria, e continuei a olhar em frente. Peguei num caderno que tinha e comecei a escrever-te uma carta, mas também o fiz num ângulo que sabia que ias ver o que estava a escrever, e deus sabe o que teria escrito. Os videos passam em loop, eu escrevo, tu olhas em frente, eu olho em frente. Acordo com um ruído ensurdecedor - não era a bomba atómica, mas sim o som que as colunas fazem sempre que a luz em casa vai abaixo, e depois volta. Levanto-me com o corpo dorido, torpe, luz por todo o lado, e vou até ao quarto desligar o amplificador para que as colunas deixem de fazer barulho.
Não foi assim que o mundo começou a acabar, pensei eu. Nada mudou. Quer o mundo tivesse acabado quer não, nada mudou. Always stays the same. Nothing ever changes.
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